3 de nov de 2010

monteiro lobato e o parecer do cne

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transcrevo oportuno texto de marisa lajolo.

Quem paga a música escolhe a dança?


Marisa Lajolo (1)

Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso.

Narra as aventuras da turma do sítio de Dona Benta primeiro às voltas com a bicharada da floresta próxima e, depois, com uma comissão do governo encarregada de caçar um rinoceronte fugido de um circo. Nos dois episódios prevalecem o respeito ao leitor, a visão crítica da realidade, o humor fino e inteligente.

Na primeira narrativa, a da caçada da onça, as armas das crianças são improvisadas e na hora agá não funcionam. É apenas graças à esperteza e inventividade dos meninos que eles conseguem matar a onça e arrastá-la até a casa do sítio. A morte da onça provoca revolta nos bichos da floresta e eles planejam vingança numa assembléia muito divertida : felinos ferozes invadem o sítio e – de novo – é apenas graças à inventividade e esperteza das crianças (particularmente de Emília) que as pessoas escapam de virar comida de onça.

Na segunda narrativa, a fuga de um rinoceronte de um circo e seu refúgio no sítio de dona Benta leva para lá a Comissão que o governo encarregou de lidar com a questão. Os moradores do sítio desmascaram a corrupção e o corpo mole da comissão, aliam-se ao animal cioso da liberdade conquistada e espantam seus proprietários. E, batizado Quindim, o rinoceronte fica para sempre incorporado às aventuras dos picapauzinhos.

Estas histórias constituem o enredo do livro que parecer recente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir de denúncia recebida, quer proibir de integrar acervos com os quais programas governamentais compram livros para bibliotecas escolares.* O CNE acredita que o livro veicula conteúdo racista e preconceituoso e que os professores não têm competência para lidar com tais questões. Os argumentos que fundamentam as acusações de racismo e preconceito são expressões pelas quais Tia Nastácia é referida no livro, bem como a menção à África como lugar de origem de animais ferozes.

Sabe-se hoje que diferentes leitores interpretam um mesmo texto de maneiras diferentes. Uns podem morrer de medo de uma cena que outros acham engraçada. Alguns podem sentir-se profundamente tocados por passagens que deixam outros impassíveis. Para ficar num exemplo brasileiro já clássico, uns acham que Capitu (Dom Casmurro, Machado de Assis, 1900) traiu mesmo o marido, e outros acham que não traiu, que o adultério foi fruto da mente de Bentinho. Outros ainda acham que Bentinho é que namorou Escobar .. !

É um grande avanço nos estudos literários esta noção mais aberta do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão num livro. Ela se fundamenta no pressuposto segundo o qual, dependendo da vida que teve e que tem, daquilo em que acredita ou desacredita, da situação na qual lê o que lê, cada um entende uma história de um jeito. Mas essa liberdade do leitor vive sofrendo atropelamentos. De vez em quando, educadores de todas as instâncias – da sala de aula ao Ministério de Educação – manifestam desconfiança da capacidade de os leitores se posicionarem de forma correta face ao que leem .

Infelizmente, estamos vivendo um desses momentos.

Como os antigos diziam que quem paga a música escolhe a dança, talvez se acredite hoje ser correto que quem paga o livro escolha a leitura que dele se vai fazer. A situação atual tem sua (triste) caricatura no lobo de Chapeuzinho Vermelho que não é mais abatido pelos caçadores, e pela dona Chica-ca que não mais atira um pau no gato-to. Muda-se o final da história e re-escreve-se a letra da música porque se acredita que leitores e ouvintes sairão dos livros e das canções abatendo lobos e caindo de pau em bichanos . Trata-se de uma idéia pobre, precária e incorreta que, além de considerar as crianças como tontas, desconsidera a função simbólica da cultura. Para ficar em um exemplo clássico, a psicanálise e os estudos literários ensinam que a madrasta malvada de contos de fada não desenvolve hostilidade conta a nova mulher do papai, mas – ao contrário – pode ajudar a criança a não se sentir muito culpada nos momentos em que odeia a mamãe, verdadeira ou adotiva...

Não deixa de ser curioso notar que esta pasteurização pretendida para os livros infantis e juvenis coincide com o lamento geral – de novo, da sala de aula ao Ministério da Educação – pela precariedade da leitura praticada na sociedade brasileira. Mas, como quem tem caneta de assinar cheques e de encaminhar leis tem o poder de veto, ao invés de refletir e discutir, a autoridade veta . E veta porque, no melhor dos casos e muitas vezes com a melhor das intenções, estende suas reações a certos livros a um numeroso e anônimo universo de leitores...

No caso deste veto a Caçadas de Pedrinho, a Conselheira Relatora Nilma Lino Gomes acolhe denúncia de Antonio Gomes da Costa Neto que entende como manifestação de preconceito e intolerância de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas; (...) aponta menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano, que se repete em vários trechos do livro analisado e exige da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura.

Independentemente do imenso equívoco em que, de meu ponto de vista, incorrem o denunciante e o CNE que aprova por unanimidade o parecer da relatora, o episódio torna-se assustador pelo que endossa, anuncia e recomenda de patrulhamento da leitura na escola brasileira. A nota exigida transforma livros em produtos de botica, que devem circular acompanhados de bula com instruções de uso.

O que a nota exigida deve explicar? O que significa esclarecer ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura? A quem deve a editora encomendar a nota explicativa? Qual seria o conteúdo da nota solicitada? A nota deve fazer uma autocrítica (autoral, editorial?) , assumindo que o livro contém estereótipos? A nota deve informar ao leitor que Caçadas de Pedrinho é um livro racista? Quem decidirá se a nota explicativa cumpre efetivamente o esclarecimento exigido pelo MEC?

As questões poderiam se multiplicar. Mas não vale a pena. O panorama que a multiplicação das questões delineia é por demais sinistro. Como fecho destas melancólicas maltraçadas, aponte-se que qualquer nota no sentido solicitado – independente da denominação que venha a receber, do estilo em que seja redigida, e da autoria que assumir – será um desastre. Dará sinal verde para uma literatura autoritariamente autoamordaçada. E este modelito da mordaça de agora talvez seja mais pernicioso do que a ostensiva queima de livros em praça pública, número medonho mas que de vez em quando entra em cartaz na história desta nossa Pátria amada idolatrada salve salve. E salve-se quem puder ... pois desta vez a censura não quer determinar apenas o que se pode ou não se pode ler, mas é mais sutil, determinando como se deve ler o que se lê!


(1) Prof. Titular (aposentada) da UNICAMP; Prof. da Universidade Presbiteriana Mackenzie;  Pesquisadora Senior do CNPq.; Ex Secretária de Educação de Atibaia (SP);  Organizadora (com João Luís Ceccantini)  do livro Monteiro Lobato livro a livro (obra infantil), obra que recebeu o Prêmio Jabuti 2009 como melhor livro de Não Ficção.  

* a recomendação da relatora, aprovada por unanimidade pelo cne diz: "cabe à Coordenação-Geral de Material Didático do MEC cumprir com os critérios por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados para o PNBE, de que os mesmos primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras clássicas ou contemporâneas com tal teor" [db]

o parecer do cne ainda depende de homologação do ministro da educação - o qual já declarou: "Recebi muitas manifestações para afastar qualquer hipótese, ainda que por razões justificadas, de censura ou veto a uma obra, sobretudo no caso de Monteiro Lobato", disse o ministro. "Eu relativizaria o juízo que foi feito", continuou Haddad, sobre o parecer do CNE. "Pessoalmente, não vejo racismo". ver aqui.
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11 comentários:

  1. Paz e bem!

    Sobre o tema,
    recomendo a leitura do próprio José Bento:

    LOBATO, Monteiro. América.
    São Paulo : Brasiliense, 1959.
    Cap. 16, p. 129ss.
    Cap. 17, p. 133ss.

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  2. Paz e bem!

    Esta saiu no site do Luis Nassif:
    http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-falsa-polemica-do-cne-e-monteiro-lobato

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  3. Anônimo5.11.10

    Será que toda ruiva é bruxa? Ou toda bruxa é ruiva? Parece que a Bíblia dá sinais claros de restrição aos fariseus e valoriza subliminarmente os samaritanos.
    Quando mesmo chegam os marcianos para destruir a Terra? Quem sabe começando de novo...
    ANUBIS REZENDE

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  4. Anônimo5.11.10

    "A nota deve informar ao leitor que Caçadas de Pedrinho é um livro racista? Quem decidirá se a nota explicativa cumpre efetivamente o esclarecimento exigido pelo MEC?"

    Sim, certamente, deverá dizer que o livro é racista, ou o livro não é?
    Quem decide se o que os professores falam em sala de aula é adequado ou não? Ora, parte-se do pressuposto que as pessoas têm formação e autoridade suficiente para isso. O mesmo se aplica ao parecer.

    Pelo que entendo, a única coisa que os defensores de Caçadas de Pedrinho acham que é intocável é Lobato (engraçado que alguns críticos do parecer criticaram também o uso da palavra "presidenta", que Lobato, o intocável, usou).
    Tenho lido muitas opiniões contrárias ao parecer, em boa parte delas há o seguinte argumento: "eu li Lobato quando criança e não me tornei racista". Ora vejam só, mesmo quando se discute o racismo de uma obra, o ponto de vista que prevalece é o do leitor branco!

    O que precisamos pensar é como uma criança negra recebe a heroína da história chamando uma pessoa da mesma cor que ela de "pretura". O mesmo ocorre no texto acima. Nenhuma consideração com as crianças negras, elas que se ponham em seu devido lugar. Não me venham dizer que "pretura" é apenas uma descrição. Será que a única qualificação que cabe a uma pessoa negra é uma que faça referência a sua cor? Nesse livro de Lobato, todas as vezes que ele se refere a Nastácia é negra ou preta ou a de "carne preta". Todas. 12 vezes, eu contei. Poderia usar senhora, mas, essa qualificação só cabe a Dona Benta. Ser negra resume para Lobato tudo o que Nastácia é. Curioso que ele não use branca para qualificar Dona Benta. E "macaca de carvão", tudo bem para vocês?


    Não é incomum que livros infantis tenham uma apresentação da editora, por que a birra infantil (é para combinar com a obra?) com notas explicativas?

    Por fim, fazer comparações com obras destinadas a adultos (e até adolescentes) é insensato. Com que idade se lê Lobato? Oito, nove anos? Estamos falando de livros para crianças, que não têm o senso crítico plenamente formado. Portanto, não são cabíveis as comparações com Shakespeare e o Mercador de Veneza. Aliás, esse pretenso argumento poderia ser usado para defender qualquer coisa, como a recomendação do uso de filmes pornográficos na videoteca das escolas, já que a Bíblia faz referências sexuais.

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  5. Esse pessoal não tem mais o que fazer? Porque não vão dar aula de literatura para as crianças e ver que elas são capazes de múltiplas leituras e interpretações?

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  6. não sei se vocês repararam, mas o tal do Nassif, diferentemente da Lajolo, não refletiu sobre o assunto. preferiu usar a polêmica como "escada" para criticar o sensacionalismo (verídico, em certo ponto) dos jornais. acho que o nassif pouco contribui para isso. e o texto da lajolo está perfeito.

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  7. opa,

    adendo inoportuno, mas necessário. o texto do qual falei é assinado por sonia aranha, e publicado por Nassif em seu blog. Mas se publicou, endossa.

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  8. olá, eduardo: concordo e vou além. creio que nassif tenta enterrar uma questão que é muito séria, adotando o "deixa disso".

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  9. prezado anônimo: se vc não tem acompanhado a discussão de perto, sugiro que em primeiro lugar leia o parecer do CNE: a proposta é vetar toda e qualquer obra com "estereótipos" para o ensino básico, isto é, o fundamental e o médio (faixa de 07 a 17 anos).
    independentemente da faixa etária, o que deve ser vivamente repudiado é a instrumentalização da leitura segundo recortes anacrônicos.

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    Jose Santos comentou uma publicação em que você foi marcado.

    o caso do Caçadas de Pedrinho, tinha de ser discutido pelo professor em sala de aula com os alunos, afinal o livro tem mais de 60 anos. mas censurar previamente, não dá...

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  11. Como se vê, não apenas os xenófobos do twitter e os marqueteiros das campanhas eleitorais desqualificam a inteligência do povo.

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