21 de nov de 2010

sarney tradutor

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escreve o lexicógrafo sergio pachá a propósito de alguns cometimentos de josé sarney, o célebre criador de insetos chegados a uma cachacinha.
Tenho três recados para o colunista José Sarney que, sobre ser mau literato e pior político, acaba de provar, em sua coluna de hoje, 15/10, na Folha de S.Paulo, que é péssimo latinista.
Meu ponto de partida é o seguinte trechinho do texto de Sua Excelência:
“Petrônio diz que Deus assim quis porque fez o medo antes de revelar-se. ‘Primus in orbe deos fecit timor’ (Primeiro no mundo Deus criou o medo).”

 Primeiro recado: o segmento de verso aqui citado abre, realmente, o quinto fragmento poético atribuído a Petrônio; é mais conhecido, contudo, através de Estácio, que o reproduziu literalmente no verso 661 do livro terceiro da Tebaida, um poema épico em doze cantos, composto aproximadamente entre 80 e 92 da era cristã.
Segundo recado: a tradução perpetrada pelo Senhor Sarney está errada. Na verdade, o que o poeta diz é exatamente o oposto do que se lê na estapafúrdia versão deste maranhense que mataria de vergonha o grande Odorico Mendes, tradutor de Virgílio e Homero. Em latim lê-se o seguinte: “Primeiro no mundo [Primus in orbe], o temor fez os deuses [timor fecit deos]”. O sujeito de fecit [= fez] é o nominativo singular Timor [= o temor]; o objeto direto de fecit é o acusativo plural deos [= os deuses]; Primus in orbe é um aposto circunstancial do sujeito. Trata-se de uma construção corrente no latim, que apresenta como atributo do sujeito [Primus, “Primeiro”] um termo da oração que, em nossa língua, mais depressa tomaria a forma de adjunto adverbial [“Pela primeira vez”]. Teríamos, portanto, a seguinte tradução em bom vernáculo: “O temor pela primeira vez no mundo fez os deuses.” Claro e hialino para qualquer primeiranista de latim (no tempo em que havia primeiranistas de latim). Mas não para o Senhor Sarney, que, do alto de sua acadêmica onisciência, sisudamente mete os pés pelas mãos e vende gato por lebre a seus leitores.
Terceiro recado: já que o latim do Senhor Sarney não dá para traduzir nem sequer o título da fábula Gragulus superbus et pavo, de Fedro, onde se conta a história do gralho que se adornou com penas de pavão e levou uma coça dos pavões de verdade, ouso sugerir a Sua Excelência que decore e repita muitas vezes em português certa máxima latina feita sob medida para sua insigne pessoa : “Não vá o remendão além da alparca”. (Para os que sabem latim, aqui está ela em sua forma original: Ne sutor ultra crepidam.)

Sergio Pachá.

aliás, pegando carona na história, diz uma versão da história que apeles, o famoso pintor da antiguidade, costumava colocar suas pinturas numa galeria em praça pública, e ficava escondido atrás delas para ouvir as críticas e comentários dos passantes. um dia, um sapateiro criticou a sandália de uma das figuras, dizendo que lhe faltavam laçadas.
no dia seguinte, ele ficou muito orgulhoso ao ver que apeles tinha corrigido a falha, e começou a criticar a perna. aborrecido, apeles saiu detrás do quadro e lhe disse que um sapateiro não devia subir acima da sandália. a frase pegou, passou da grécia para roma, e ficou, diz plínio, o velho: ne sutor ultra crepidam judicaret . 

Cobbler, stick to thy lastCiabattino, non andare oltre le scarpe; Cordonnier, pas plus haut que la chaussure; Skomakare, bliv vid din läst!; Bleibe jeder doch bei der Kunst, die er gelernt hat; Zapatero a tus zapatos; quem te ensinou, sapateiro, a tocar rabecão?; não deve o sapateiro julgar além do calçado, e por aí afora.

imagens:google e sapateiro grego
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3 comentários:

  1. Prezada Denise Bottmann, a referência clássica foi muito bem escolhida. De fato, com esse imortal-político-literato, a literatura e a república brasileira ficaram abaixo do nível dos calçados. Abraços, Pádua

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  2. Denise,

    histórias deliciosas!

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