1 de nov de 2010

breique do breique - urgente

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interrompo o breique por uma questão urgente.

uma senhora de nome nilma lino gomes, docente da universidade federal de minas gerais e e conselheira da secretaria de alfabetização e diversidade do mec, decidiu que monteiro lobato deve ser excluído das listas de literatura infantil por seu conteúdo racista. redigiu um parecer que foi aprovado pelo conselho e agora corre-se o risco de se implantar a ditadura da pseudocorreção política em nossas escolas.

circula um abaixo-assinado contra esse putsch ideológico encabeçado pela ilustre educadora, com o aval do mec e seu esclarecido conselho: EM DEFESA DE MONTEIRO LOBATO. leia, assine, repasse, divulgue.

circula também uma mensagem de marisa lajolo, nossa principal pesquisadora, estudiosa e historiadora de lobato no brasil. transcrevo:
Estamos (no Brasil) em pleno epicentro de uma polêmica nacional:  o Conselho Nacional de Educação acabou de proibir a presença do livro "Caçadas de Pedrinho" (de Monteiro Lobato) nos acervos com os quais o Governo Federal provê livros para escolas públicas  por considerá-lo racista e por julgar os professores incompetentes para lidar com a questão. Faço parte do grupo de educadores que considera a medida absurda.  E vos pergunto:  como os Estados Unidos (melhor dizendo, autoridades educacionais norte-americanas)  lidam com obras como Tom SayerAventuras de HuckCabana de Pai Tomás?  Circulam nas escolas?  Não circulam?  Circulam com informações de que têm conteúdo racista?  Tenho o maior interesse em saber, e de antemão fico muito grata.  Abraço. Marisa Lajolo
aqui se encontra a íntegra do relatório do CNE/MEC intitulado Orientações para que a Secretaria de Educação do Distrito Federal se abstenha de utilizar material que não se coadune com as políticas públicas para uma educação antirracista.
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38 comentários:

  1. Oi, Denise. Acho que há muita falsa polêmica no assunto. Sugiro, como contraponto, a leitura da integra do parecer do MEC. é bem menos 'perseguidor do que essa gritaria que a folha criou quer parecer.

    O Sérgio Leo escreveu dois bons posts sobre o assunto. Uma leitura bem ponderada:

    http://verbeat.org/blogs/sergioleo/2010/10/o-equivocado-ataque-ao-mec-por-causa-do-monteiro-lobato.html#more

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  2. O que dizer, então, de trechos de Capitães da Areia, onde "... eles deitavam as negrinhas na areia para lhes fazer amor?" Vão colocar Jorge Amado na "lista negra", também? Tudo absurdo!
    Um abração, Denise!

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  3. Cômico se não fossee trágico.

    Fez-me lembrar uns 15 anos atrás, quando um deputado alemão apresentou projeto de lei para proibir a Bíblia para menores de uma certa idade em razão do conteúdo violento.

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  4. permita-me discordar, prezado thiago: um parecer que determina que "A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da
    educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil" me faz lembrar muito as recomendações da época da ditadura: a obra de Marx só deve ser utilizada no contexto da
    educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o capitalismo no Brasil.

    coloque-se logo uma tarja preta, com alerta que é obra danosa ao espírito, não só em lobato, mas também em machado de assis, lima barreto, jorge amado, joão ubaldo ribeiro...

    quanto à linguagem empolada e cheia de considerandos do parecer, admira-me que ainda seja capaz de iludir alguém.

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  5. Devidamente assinado e divulgado...

    Sabe, acabei de ler "Grande sertão:Veredas" e "A hora da estrela". No primeiro, Riobaldo tem amor por Diadorim; no segundo, madame Carlota diz à Macabéa que "entre mulheres o carinho é mais fino". Só me falta esses livros serem censurados a adolescentes por "conterem apologia ao homossexualismo".

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  6. Monteiro Lobato mesmo se defende.
    Basta ouvir esta entrevista para saber o que ele faria com os imbecis que lhe coçam o bicho do pé: http://youtu.be/KD9LdEbvp1I

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  7. Anônimo1.11.10

    Denise

    Procurei incorporar meu nome à lista dos que protestam e não soube como. Escrevi um comentário, assinei meu nome, porém abaixo aparecia uma sigla (U e duas letras mais) que não decifro. Custo a entender que a alegada censura a Monteiro Lobato como racista seja verdadeira. Mas, se for isso mesmo, peço-lhe o favor de acrescentar meu nome.
    Atenciosamente
    Luiz Costa Lima

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  8. Constância Lima Duarte1.11.10

    Prezada Denise,
    Tenho acompanhado a questão de Monteiro Lobato pelos jornais e não foi isso que compreendi. A professora Nilma sugere que a editora acrescente notas informando aos jovens leitores o preconceito que existe em certas passagens, o que ajudaria, inclusive, a contextualizar a obra em questão.
    O que tem isso de mal? Aliás, não seria esta a atitude correta? Por que Monteiro Lobato é assim intocável?
    Constância Lima Duarte

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  9. corrijo-me e agradeço à profa. sandra guardini t. vasconcelos

    "Cabe uma correção à sua chamada. A censura está sendo proposta pelo Conselho Nacional de Educação e não pelo MEC, que ainda não examinou o caso.
    De qualquer forma, penso que devemos nos manifestar com força e veemência contra esse absurdo.
    Abraço
    Sandra Vasconcelos (USP)"

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  10. Michel Dutra1.11.10

    Imagine-se como uma criança negra de nove anos que lê os seguintes trechos do livro considerado:

    "— E você, Cléu, que me dá? — Um beijo, Emília. A boneca fez um muxoxo de pouco-caso. Depois, voltando-se para Tia Nastácia: — E você, pretura?"

    "— É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém — nem Tia Nastácia, que tem carne preta".

    " Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros".


    "Tenha paciência — dizia a boa criatura. — Agora chegou minha vez. Negro também é gente, sinhá..."

    A comparação com Marx é estapafúrdia, porque Marx não se destina a crianças. Que visão dogmática é essa que impede que simples notas sejam incluídas num livro? Por que isso iria conspurcá-lo? Com tantas causas a serem defendidas no mundo, por que defender o "direito" de Emília de xingar Nastácia de "pretura"?  A autora deste blog já ouviu falar de bullying?

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  11. Jander1.11.10

    Parece que uma das passagens que incomodou foi a seguinte: "(...) e tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida senão trepar em mastros (a cozinheira corria para fugir de onças que invadiam o sítio)". (O GLOBO, 30/10/2010)
    Meu deus, gente, estão tratando literatura como documento de burocrata. Alguns de nós estão perdendo a capacidade de ler literatura. Só mesmo uma sociedade que realmente não tem mais a literatura como via de crescimento intelectual e social pode levantar tal proposta de 'censura'.
    Em relação aos EUA, "Huckleberry Finn" já foi até banido em algumas escolas e bibliotecas. E o caso de "Tintin"? O que mostra que a coisa é internacional.
    E outro ponto: que professores são esses que são incapazes de contextualizar os livros, de dialogar com seus alunos sobre o significado histórico e literário das obras que são escolhidas? É "Caçadas de Pedrinho" que precisa ser banido ou são esses pobres professores mal pagos e mal preparados que precisam ser retirados de sala de aula urgentemente para uma boa atualização - ou umas boas férias para lerem mais livros de ficção e obras de referências (como a de Lajolo)...
    Como sabemos, a coisa é mais grave, muito mais grave.
    abs,
    Jander.

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  12. sem problema, michel: pode substituir marx por qualquer outro nome. a questão é a censura.

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  13. Michel, e você, já ouviu falar em molestação? Que tal censurar o uso de palavras não vernáculas? Gostaria? O Aldo Rebelo a-do-ra-ria! Toda censura ou rasura (tipo estas notas de rodapé propostas) em uma obra merece reprimenda das boas... e se o CNE é parte do MEC... Denise, é MEC mesmo (lerdinho em desfazer o malfeito, como nos casos do ENEM)

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  14. Discordo, Denise. Não há censura. O que há nisso, pra sermos francos, é medo da editora detentora dos direitos autorais perder esse grande negócio. Não há proposição do CNE (há um parecer a ser analisado) propondo a inclusão de notas que ajude o docente a contextualizar a obra como fruto de seu tempo. é inegável que há passagens racistas na obra de M. Lobato. Apontar isto não é censura.

    Nenhum texto literário merece ser tratado como um objeto sagrado. Todos eles -ainda mais os usados com propósitos educacionais - devem sim ter suas questões problematizadas.

    Ignorar que ainda hoje - acompanhou as manifestações preconceituosas contra o nordeste na internet, por conta do resultado da eleição? - o discurso racista proferido através da Emília é voz corrente nas escolas do país é cegueira.

    Nunca devemos censurar autor que seja. Mas também não devemos santifica-los. Nada de fogueira, mas também nada de altar.

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  15. Só corrigindo um parágrafo que ficou confuso:

    "Há proposição do CNE (há um parecer a ser analisado) propondo a inclusão de notas que ajude o docente a contextualizar a obra como fruto de seu tempo. é inegável que há passagens racistas na obra de M. Lobato. Apontar isto não é censura."

    E obrigado pelo espaço, onde se pode discordar sem medo de ofensas.

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  16. Anônimo1.11.10

    Na minha opinião humilde sobre Monteiro Lobato: Com todos os defeitos (e eram **muitos** e problemáticos!), Lobato era um brasileiro melhor que muitos dos melhores políticos que temos hoje. E então, mais proveitoso seria dar acesso irrestrito à obra dele para os jovens atualmente — o que significaria maior nível de leitura entre nossos alunos (muitos, nestas épocas, semialfabetizados, mesmo no equivalente da oitava série).

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  17. Denise, como seu admirador e do Lobato, entendo sua indignação, mas acho uma pena que propague assim essa visão preconceituosa da discussão levantada no MEC a respeito de como levar Lobato às crianças hoje em dia.

    Francamente, ninguém falou em banir o livro, rasgar o livro, salgar a terra onde nasceu Lobato, proibir sua edição e venda. Pelo cotnrário, tarta-se de como levar LObato ás crianças.

    O MEC tem de escolher livros para leitura em aula. Lobato, como reflexo de seu tempo, era racista, eugenista, ainda que fosse um humanista genial.E, entre ideias maravilhosas, dissemina também essa visão preconceituosa, ainda que não seja a esência de seus livros, por isso hoje exige ser contextualizado em sala de aula.

    Esse racismo está espalhado em seus livros, (foi podado na versão para a TV, na linha do que indicam as diretrizes nacionais para educação e ninguém reclamou). Não é justo que crianças, negras em grande parte, sejam educadas ouvindo de sua personagem mais querida, a Emília, que preto é algo negativo, inculto, feio. Não sem explicar que isso é uma cosia de época, reflete um rpeconceito generalizado na sociedade onde pontificava Lobato.

    As pessoas estão reagindo emocionalmente, sem ler o parecer (que não uma peça obscurantista como sugerem matérias superficiais de jornal). E, pior, sem sequer parar para pensar que autoimagem a obra de 1933 vende a crianças do séc. XXI.

    O CNE sugere que essa edição não é didática, como devem ser didáticos os livros comrpados com dinheiro público e diz que, ao usar o livro EM SALA DE AULA, haja cuidado em contextualizar o racismo de LObato.

    O Livro tem esse cudiado com as questões ambientais, caramba. E deixa passar a comparação entre negro e macaco, negro e coisa ruim, negro e ignorância. Não é para censuirar, é para explicar isso às crianças.

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  18. Dirce Waltrick do Amarante1.11.10

    Acabei de assinar o manisfesto contra a censura à mencionada obra de Lobato.

    Não consegui acrescentar comentário algum. Queria dizer, todavia, que, ainda hoje, a obra de Lobato é muito mal lida e tenho refletido muito sobre isso, em debates e por escrito.

    Lobato escreveu uma obra que possui aspectos paradoxais no tocante à raça, cultura, etc. Essa "paradoxalidade" não é explorada pelos estudiosos e agora, pelo que vejo, há uma briga do "bem contra o mal" por causa disso, quando, na verdade, as duas "forças", se se pode dizer desse jeito, estão em Lobato: se por um lado tia Nastácia é "a negra beiçuda e ignorante", como escreve o autor, por outro lado são suas histórias que Lobato destaca num livro que recebe o nome da dela: "Histórias de Tia Nastácia". O fato é que é preciso estudar o contexto histórico de sua obra e estudar as expressões da época, sem ignorar, é claro, as tomadas de posição do autor, que nem sempre são as que queríamos que ele assumisse em seus livros. Lobato fazia parte de uma sociedade eugenista, por exemplo, da qual participaram outros grandes nomes, alguns dos quais são celebrados ainda hoje. Aliás, em "O cosmopolitismo do pobre", de Silviano Santiago, tem um ensaio muito bom sobre alguns desses paradoxos de Lobato.

    Fico muito mais chocada com o fato de a professora censurar o livro, e, sobretudo, mencionando as crianças das escolas públicas. Isso gera um outro preconceito e, infelizmente, essa dicotomia entre crianças da escola pública e crianças da rede privada é uma prática corrente nos nossos cursos de pedagogia.

    Acho mesmo que a professora não gostou foi das passagens nas quais Lobato faz uma crítica feroz à paralisia do povo brasileiro e o apego do governo (de todas as épocas) a privilegiar assuntos irrelevantes ou que não lhe dizem respeito. Eis um pequeno fragmento de um texto que escrevi, no qual comento o livro "Caçadas de Pedrinho":

    Em Caçadas de Pedrinho (publicada em 1924 e, em segunda edição, em 1933, com
    acréscimos ao texto), Lobato ironiza a paralisia do povo brasileiro em razão
    de qualquer acontecimento secundário, como por exemplo, "a fuga de um
    rinoceronte do circo":
    "´UM RINOCERONTE INTERNA-SE NAS MATAS BRASILEIRAS', era o título da notícia
    que vinha em letras graúdas em todos os jornais. Durante um mês ninguém
    cuidou de mais nada."
    Além disso, o escritor denuncia a "incompetência do aparato governamental"
    para resolver até mesmo um problema que não lhe concerne:
    "Fazia dois meses que o governo se preocupava seriamente com o caso do
    rinoceronte fugido, havendo organizado o belo Departamento Nacional de Caça
    ao Rinoceronte, com um importante chefe geral de serviço, que ganhava três
    contos por mês e mais doze auxiliares com um conto e seiscentos cada um,
    afora grande número de datilógrafos e 'encostados'".
    Lobato também não esquece de delatar as obras onerosas e inúteis construídas
    pelo governo:
    "A linha telefônica foi construída com todo o luxo, como é de costume nas
    obras do governo (...). Era a linha mais curta do mundo: com cem metros de
    comprimento e dois postes apenas, um no terreiro da casa e outro no
    acampamento dos caçadores."


    Escrevi alguns artigos sobre Lobato que podem ser lidos no site www.centopeia.net e na revista sibila ( www.sibila.com.br ). Neles, falo sobre Lobato eugenista e Lobato "monumento", intocado ainda hoje pela crítica e invisível para os leitores. Isso de modo algum implica em censurá-lo, mas sim em resgatá-lo em toda a sua complexidade. O último texto nessa linha foi "Revendo a dimensão literária de Monteriro Lobato" (Sibila).

    Um abraço,
    Dirce waltrick do Amarante

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  19. prezado thiago: o que entendo é que o parecer propõe algo bem mais amplo.
    em suas considerações finais:
    "A escola, a rede pública e
    privada de educação do Distrito Federal e a Secretaria de Educação devem considerar que as
    críticas aos estereótipos raciais presentes no livro Caçadas de Pedrinho e apontadas pelo
    requerente não se referem a trechos isolados. Antes, fazem parte da análise do todo, do
    contexto histórico e social da obra e vivido pelo autor, da ideologia racial, das representações
    negativas sobre a cultura popular, o negro e o universo afro-brasileiro presentes não só no
    livro Caçadas de Pedrinho, mas, também, em outras publicações de Monteiro Lobato."

    "cabe à Coordenação-Geral de Material Didático do MEC cumprir com os critérios
    por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados para o PNBE, de que os
    mesmos primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, não selecionando obras
    clássicas ou contemporâneas com tal teor"

    "caso algumas das obras selecionadas pelos especialistas, e que componham o acervo
    do PNBE, ainda apresentem preconceitos e estereótipos, tais como aqueles que foram
    denunciados pelo Sr. Antônio Gomes Costa Neto e pela Ouvidoria da SEPPIR, a
    Coordenação-Geral de Material Didático e a Secretaria de Educação Básica do MEC deverão
    exigir da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota
    explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura. Esta providência deverá ser solicitada em relação ao livro Caçadas de Pedrinho e deverá ser extensiva a todas as obras literárias que se encontrem em situação semelhante."

    o grande problema é que o brasil foi um país escravocrata, e que pretender "expurgar" do ensino geral (a proposta abrange inclusive o ensino universitário) toda a produção literária de um país de passado escravocrata, e que ainda carrega uma pesada herança racista, não me parece ser a maneira mais inteligente ou adequada de combater o racismo.

    note ainda que a proposta sugere que tais livros só possam vir a ser adotados nas escolas depois que houver a implantação de políticas públicas de formação de docentes capacitados para lidar com tais situações. isso fala por si só, não?
    "Sendo assim, é necessária a indução dessa política pública, pelo Governo
    do Distrito Federal, junto às instituições de ensino superior, com vistas a
    formarem professores que sejam capazes de lidar com esse tipo de situação
    no cotidiano escolar.
    A obra CAÇADAS DE PEDRINHO só deve ser utilizada no contexto da
    educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos
    históricos que geram o racismo no Brasil."

    se bem conheço nosso estado, qualquer futura proposta de obras literárias brasileiras para nosso ensino nem incluirá nada de monteiro (porque "lembra? ih, já deu aquele problema, vamos deixar de lado"), e suponho que, a valer o princípio geral de evitar qualquer menção racial que possa sugerir uma "subalternização" [sic], nem de machado de assis, manuel bandeira, mário de andrade (o que dizer de macunaíma, meu deus do céu?!), jorge amado e qualquer obra, mesmo de economia, talvez, que apresente a realidade brasileira.

    leia com calma o parecer. achei estarrecedor.

    e acredito, sim, que toda e qualquer obra, literária ou não, é sagrada e intocável. pode e deve ser analisada, criticada, relativizada, denunciada, tudo o que se queira. mas não pode ser adulterada. a meu ver, é, ou deveria ser, inviolável.

    da mesma forma, nossa história não é bonita. vamos então tirar ou encobrir os pedaços feios dela? vamos reescrever a história e alterar nossos arquivos?

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  20. Anônimo1.11.10

    Eu me pergunto se quem assinou o abaixo-assinado leu o parecer do CNE. Leram mesmo? A confusão corre solta... Confunde-se o MEC com o CNE, fala-se em censura como se o livro estivesse proibido... Uma lástima.

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  21. prezado sergio: agradeço sua mensagem. li e reli várias vezes a nota técnica e o parecer. acho que é de uma abrangência assustadora...

    também li algumas vezes seu post, que acho interessante para dar um enfoque mais ameno à coisa e recomendo a todos os que se interessam por essa discussão.
    http://verbeat.org/blogs/sergioleo/2010/10/o-equivocado-ataque-ao-mec-por-causa-do-monteiro-lobato.html#more
    (agradeço a indicação do thiago)

    mas, desculpe, não consigo deixar de nutrir receios, talvez paranoicos, em relação a esse tipo de ideologização póstera ilustrada pelo parecer da dra. nilma. seja como for, acho que o mal está feito - ao invés de uma discussão crítica franca e aberta, adequada ao nível escolar dos alunos, teremos apenas um encobrimento de nossa formação histórica. é o silêncio, a "censura branca", a meu ver, o principal responsável pela manutenção e perpetuação do racismo no brasil.

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  22. prezado anônimo: desculpe se meu post não foi claro e o induziu a confusão:
    "...redigiu um parecer que foi aprovado pelo conselho" - o que foi aprovado pela câmara de educação básica do conselho nacional da educação, órgão do mec, foi o parecer da relatora nilma lino gomes.
    a íntegra do parecer se encontra em link no post.

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  23. Obrigado, Denise, comaprtilho com você o temor de caças às bruxas, acho que há mesmo exageros em muitas campanahs anti-racistas. E te agradeço o link.

    O Lobato é uma fixação minha desde que, decidido a compartilhar com meus filhos as delícias da leitura dos livros dele, há uns 15 anos, fiquei chocado ao ver que não podia simplesmente ler o texto da maneira como ele tinha escrito _ só copiando as frases para se ter uma ideia da carga que têm.

    E muito obrigado ao Thiago, por trazer para este blog que tanto aprecio a discussão que propus lá no meu sítio. Gratíssimo.

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  24. Há um livro extremamente racista, que defende a superioridade natural de um povo sobre os demais e o seu direito de exterminar seus inimigos, sem poupar mulheres e crianças.
    Há um outro que pergunta seriamente se os hotentotes, antigos habitantes da África do Sul, seriam mesmo humanos, dada a sua semelhança com os macacos.
    Circulou recentemente, em edições populares, um livro defendendo a pedofilia. O tema central é uma relação não consentida entre um homem maduro e uma ninfeta, que é abusada sexualmente depois de ser drogada.
    Estou falando da Bíblia, do Livro dos Espíritos e de Lolita. Preconceito se combate com cultura e uma das melhores formas de se adquirir cultura é lendo os clássicos. Seria preciso um espírito muito tacanho para resumir os três livros que eu citei, da forma como o fiz.
    Acho que o professor não tem que tutelar nada. Deve colocar Caçadas de Pedrinho nas mãos de seus alunos e agradecer a Monteiro Lobato por ter feito uma obra-prima. Se alguém levantar a questão do racismo, deve discuti-la em profundidade.
    O nosso mal maior se chama analfabetismo funcional. Já vi crianças e adolescentes com dificuldade de leitura acordarem para os livros através de Hary Potter ou da saga dos vampiros. Livro não é droga que precise de prescrição ou que deva vir com tarja preta e bula. Mesmo a exposição à má literatura não causa sequelas ou efeitos colaterais.
    Em tempo, acho Harry Potter ótima literatura infanto-juvenil. Assim como Mark Twain. Não defendo Monteiro Lobato por ser brasileiro e sim por ser um grande escritor.

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  25. DENISE ,

    BEM , PODEMOS FAZER UM MANIFESTO E SABER MELHOR O QUE DESEJA O MEC OU O CNE !

    QUEM SABE O MEC DESEJA COLOCAR LIVROS INFANTIS COMO " LULINHA E O MALVADO SERRINHA " , "SITIO DO PICAPAU VERMELHO " , " O TUCANO MALVADO SERRA E A BEIJA-FLOR DILMA "......

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  26. Anônimo1.11.10

    Comecei a ler as obras de Monteiro Lobato há mais de 70 anos (sou de 1930). Não absorvi coisa alguma que pudesse sugerir racismo.
    Sugiro ao MEC a leitura de "Uma gota de sangue", de autoria de Demetrio Magnoli e "Guia politicamente incorreto da História do Brasil" de Leandro Narloch. Nessas duas obras será possível perceber que essa iniciativa do MEC de condenar o livrros de Monteiro Lobato, é totalmente absurda, pois são textos que estimulam a imaginação e são altamente educativos e apropriados para crianças. Os textos devem ser comentados e debatidos entre alunos e professores nos oito ou nove anos do ensino fundamental.
    01 novembro 2010
    Sylvio de Q. Mattoso
    Telef.: 71 3247-4503

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  27. Anônimo1.11.10

    Absurdo total impedir os jovens no ensino fundamental de ter acesso a um dos grandes escritores de obras para crianças.
    Um contra senso: Monteiro Lobato escreveu excelentes obras para o público infantil e com isso deu uma forte contribuição para a formação de cidadãos inteligentes e para estimular a imaginação e desenvolver a criatividade e a tolerâncianos entre os jovens.
    01 novembro 2010
    Maria Regina Fialho de Q. Mattoso

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  28. Dirce Waltrick do Amarante1.11.10

    Lobato escreveu uma obra que possui aspectos paradoxais no tocante à raça, cultura, etc. Essa "paradoxalidade" não é explorada pelos estudiosos e agora, pelo que vejo, há uma briga do "bem contra o mal" por causa disso, quando, na verdade, as duas "forças", se se pode dizer desse jeito, estão em Lobato: se por um lado tia Nastácia é "a negra beiçuda e ignorante", como escreve o autor, por outro lado são suas histórias que Lobato destaca num livro que recebe o nome da dela: "Histórias de Tia Nastácia". O fato é que é preciso estudar o contexto histórico de sua obra e estudar as expressões da época, sem ignorar, é claro, as tomadas de posição do autor, que nem sempre são as que queríamos que ele assumisse em seus livros. Lobato fazia parte de uma sociedade eugenista, por exemplo, da qual participaram outros grandes nomes, alguns dos quais são celebrados ainda hoje. Aliás, em "O cosmopolitismo do pobre", de Silviano Santiago, tem um ensaio muito bom sobre alguns desses paradoxos de Lobato.

    Fico muito mais chocada com o fato de a professora censurar o livro, e, sobretudo, mencionando as crianças das escolas públicas. Isso gera um outro preconceito e, infelizmente, essa dicotomia entre crianças da escola pública e crianças da rede privada é uma prática corrente nos nossos cursos de pedagogia.

    Acho mesmo que a professora não gostou foi das passagens nas quais Lobato faz uma crítica feroz à paralisia do povo brasileiro e o apego do governo (de todas as épocas) a privilegiar assuntos irrelevantes ou que não lhe dizem respeito. Eis um pequeno fragmento de um texto que escrevi, no qual comento o livro "Caçadas de Pedrinho":

    Em Caçadas de Pedrinho (publicada em 1924 e, em segunda edição, em 1933, com
    acréscimos ao texto), Lobato ironiza a paralisia do povo brasileiro em razão
    de qualquer acontecimento secundário, como por exemplo, "a fuga de um
    rinoceronte do circo":
    "´UM RINOCERONTE INTERNA-SE NAS MATAS BRASILEIRAS', era o título da notícia
    que vinha em letras graúdas em todos os jornais. Durante um mês ninguém
    cuidou de mais nada."
    Além disso, o escritor denuncia a "incompetência do aparato governamental"
    para resolver até mesmo um problema que não lhe concerne:
    "Fazia dois meses que o governo se preocupava seriamente com o caso do
    rinoceronte fugido, havendo organizado o belo Departamento Nacional de Caça
    ao Rinoceronte, com um importante chefe geral de serviço, que ganhava três
    contos por mês e mais doze auxiliares com um conto e seiscentos cada um,
    afora grande número de datilógrafos e 'encostados'".
    Lobato também não esquece de delatar as obras onerosas e inúteis construídas
    pelo governo:
    "A linha telefônica foi construída com todo o luxo, como é de costume nas
    obras do governo (...). Era a linha mais curta do mundo: com cem metros de
    comprimento e dois postes apenas, um no terreiro da casa e outro no
    acampamento dos caçadores."


    Escrevi alguns artigos sobre Lobato que podem ser lidos no site www.centopeia.net e na revista sibila ( www.sibila.com.br ). Neles, falo sobre Lobato eugenista e Lobato "monumento", intocado ainda hoje pela crítica e invisível para os leitores. Isso de modo algum implica em censurá-lo, mas sim em resgatá-lo em toda a sua complexidade. O último texto nessa linha foi "Revendo a dimensão literária de Monteriro Lobato" (Sibila).

    Um abraço,
    Dirce

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  29. sonia1.11.10

    ML era sim preconceituoso e fascista!seu unico romance p/ adultos"O PRESIDENTE NEGRO"demonstra isso claramentele .Ele outros higienistas do Brasil na epoca não tinham pudor alguem de deixar claro seu pensamento,so´que apos fazer sucesso ciom literatura infantil virou um icone e sua verdadeira face foi ocultada do publico.Sugiro a leitura do livro:RAÇA PURA da historiadora Pietra Diwan que demonstra com documentos a trajetoria de ML e seus companheiros de ideais nazifascistas

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  30. Que vergonha alheia, essa mulher foi minha professora.
    Sem comentarios.

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  31. Saulo von Randow Júnior2.11.10

    Também acho que estamos lidando com uma literatura "subversiva" e temos que aproveitar a ocasião para educar melhor as nossas crianças. Tomo o meu caso como exemplo : mamãe começou me incutindo idéias racistas na cabeça quando eu ainda era bebê, cantando "boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa criança que tem medo de careta". De lá para cá, nem remédio com tarja "afro-descendente" conseguiu me livrar desse medo. Logo em seguida, lá pelos meus 6, 7 anos, começou o meu problema com o Ibama, pois nenhum gato estava a salvo perto de mim depois que aprendi com meus coleginhas a canção de roda "atirei o pau no gato, mas o gato, não morreu" (naquela época eu ainda era ruim de pontaria). E como me esquecer da pouca vergonha da estória daquele lobo tarado que comia a vovozinha e sua netinha ( a cor daquele chapéu nunca me enganou ). Gostaria de poder escrever mais, mas dói forçar os músculos quando se está contido numa camisa-de-força, além disso, o enfermeiro já está vindo pra me aplicar a injeç

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  32. Texto explicativo do CNE para o Painel do Leitor Folha

    Ao contrário do que afirmou a “Folha de São Paulo” nas edições de 29 e 30 de Outubro, o Parecer nº. 15/2010 da Câmara de Educação Básica (CEB) do Conselho Nacional de Educação (CNE) com orientações quanto às políticas públicas para uma educação antirracista, o qual faz referência à obra “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, EM NENHUM MOMENTO PRETENDE IMPOR VETOS A ESTA RESPEITADA OBRA OU OUTRA. [...]

    Antonio Carlos Caruso Ronca- Presidente do Conselho Nacional de Educação
    Francisco Aparecido Cordão – Presidente da Câmara de Educação Básica
    Nilma Gomes – Relatora do Parecer na Câmara de Educação Básica do CNE.

    o item B do parecer, muito explícito: "b) cabe à Coordenação-Geral de Material Didático do MEC cumprir com os critérios por ela mesma estabelecidos na avaliação dos livros indicados para o PNBE, de que os mesmos primem pela ausência de preconceitos, estereótipos, NÃO SELECIONANDO OBRAS CLÁSSICAS OU CONTEMPORÂNEAS COM TAL TEOR"
    não se trata de acrescentar notas explicativas ou contextuais, mas pura e simplesmente de eliminar tais obras dos currículos e bibliotecas.
    concordo com os conselheiros acima citados que a determinação de "não selecionar" não é um VETO, é uma pura e simples PROIBIÇÃO.

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  33. Só poderia qualificar todo esse "auê" sobre racismo e politicamente correto como histeria coletiva.

    Será que alguém chegou a consultar o preto-velho (ops.. afro-descendente-na-melhor-idade)?

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  34. Anônimo2.11.10

    Tempos difíceis estes... O pedagogismo estéril que impera nas escolas e nos cursos de formação reflete-se neste tipo de estupidez contra a Literatura. Incapazes de decifrar e atualizar os clássicos (no sentido proposto por Jauss), a turma dos não-leitores pretende substituí-los por manuais de conduta politicamente correta, escritos em versinhos por animadores de auditórios e de feiras de livros. Eliminar Monteiro Lobato das escolas é apagar uma parte importantíssima da nossa memória histórica e literária, independentemente de ela ser ética ou não.

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  35. Denise, é lamentável todo esse debate em torno da questão. Eu já nem discuto mais essas pechas de racista, facista, comunista, capitalista, e outros istas que vinculam ao Lobato.
    Bem, como nos anos 40 os livros dele foram queimados (sim, QUEIMADOS!) em escolas e apreendidos pelo governo, isso não me espanta, só mostra o quanto estamos andando pra trás.
    Confesso que vim a saber disso por vc, e depois comecei a ler mais sobre essa polêmica. De minha parte, mantenho a minha opinião: Lobato tem que ser entendido no contexto em que vivia e escreveu. Não havia politicamente correto e basta ler autores contemporâneos pra ver que tratavam as coisas no mesmo padrão. O que sempre defendi é que leituras de clássicos sejam orientadas por adultos - coerentes, claro. Já que é pra banir, deixe-me ajudar: em Reinações de Narizinho, Emília diz que Pedrinho queria juntar dinheiro pra comprar um revólver. E aí, incitamento à violência?
    Lobato, o "racista", criou a personagem negra mais famosa de nossa literatura, quando até a escrava Isaura era branca! Lobato, o "racista", qdo foi à Bahia, disse que a melhor coisa de lá eram os negros, pela cultura que criaram.
    Se as pessoas soubessem a importância que Monteiro Lobato teve para a literatura nacional e na história do livro no Brasil, jamais concordariam com isso. O mais, como ele mesmo diria, é bobagem.
    Bjos do Ricardo

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  36. O abaixo-assinado está "inativo por solicitação do autor". Que pena.

    Também é uma pena que não se leve a filosofia a sério. Só ela pode dissolver o racismo de uma vez por todas. E só então negros e brancos poderíamos ler Lobato e - rir.

    Adolescentes deveriam ler Henry Miller nas escolas. Depois dessa, no entanto, perdi (de vez) minhas magras esperanças.

    Off: Denise, eu adoro o seu blogue, mas considero cansativa a leitura de um texto em que jamais se usa maiúsculas. Talvez seja apenas uma questão de hábito, mas um hábito adquirido há mais de 40 anos é difícil de extirpar. Seja lá o que a levou a essa decisão, peço que reconsidere. As maiúsculas não são (necessariamente) narcisistas.

    Um abraço.

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  37. prezado ff: ah, então provavelmente a autora já deve ter encaminhado o a-a ao ministério!

    quanto às minúsculas, desculpe... é, alguma hora vou ter de me disciplinar e voltar a usar maiúsculas (também é um hábito adquirido há mais de 40 anos, desde meus 14 anos de idade ;-)

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  38. Elise disse...
    Devidamente assinado e divulgado...

    Sabe, acabei de ler "Grande sertão:Veredas" e "A hora da estrela". No primeiro, Riobaldo tem amor por Diadorim; no segundo, madame Carlota diz à Macabéa que "entre mulheres o carinho é mais fino". Só me falta esses livros serem censurados a adolescentes por "conterem apologia ao homossexualismo".

    1.11.10

    O CNE não iria censurar pois, combater o racismo é algo politicamente correto, mas combater o homossexualismo não, mas deixa certos colégios conservadores e certos pais carolas, se darem conta do que está neste livros que logo haverá gente pedindo para que estes livros sejam censurados.

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