29 de nov de 2010

coleção folha, descartes II

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em coleção folha, descartes I, comentei minha surpresa quanto à [falta de] qualidade da tradução do discurso sobre o método, de norberto de paula lima, licenciada pela editora hemus para a coleção folha "livros que mudaram o mundo".


além do discurso sobre o método, o volume de descartes nesta coleção traz princípios de filosofia, em tradução de torrieri guimarães, também licenciada pela hemus para a coleção folha.




a tradução de princípios de filosofia não é tão trôpega, mal revista e truncada como a do discurso sobre o método de norberto de paula lima. é verdade que não se destaca pela clareza nem é propriamente bonita ou contextualizada - traz um "estapafúrdias" para um simples "extravagantes", p.ex. [II, art. 7] -, mas à primeira vista não seria letal.


no entanto, não me pareceu muito justificável encontrar, no primeiro artigo do texto (I, 1), plusieurs jugements ... nous préviennent de telle sorte como "diversos juízos ... de tal modo nos fazem confiantes", numa solução não muito evidente, e não sei até que ponto correta. aliás, este deslize eu também conhecia na tradução de alberto ferreira, pela portuguesa guimarães editores, dos anos 60: "vários juízos ... de tal maneira nos tornam confiantes".


outra passagem de tradução que me pareceu injustificável foi I, 3. aqui transcrevo o trecho original para mostrar melhor a questão (destacada em negrito):

en ce qui regarde la conduite de notre vie nous sommes obligés de suivre bien souvent des opinions qui ne sont que vraisemblables, à cause que les occasions d’agir en nos affaires se passeraient presque toujours avant que nous pussions nous délivrer de tous nos doutes; et lorsqu’il s’en rencontre plusieurs de telles sur un même sujet, ... la raison veut que nous en choisissions une, et qu’après l’avoir choisie nous la suivions constamment, de même que si nous l’avions jugée très certaine.
... em tudo quanto diz respeito à orientação de nossa existência, encontramo-nos, muitas vezes, obrigados a seguir opiniões somente verossímeis, visto que as oportunidades de agir nos negócios passariam em geral antes que pudéssemos nos livrar de todas as dúvidas. E quando se acham diversas dessas oportunidades de agir a propósito de um mesmo tema, ... a razão requer que façamos a escolha de uma delas e que, depois de feita a escolha, a sigamos com firmeza como se a tivéssemos considerado muito certa. 
sem dúvida isso indica uma certa insuficiência de torrieri guimarães no entendimento da língua e do próprio argumento de descartes.* por outro lado, o próprio alberto ferreira caíra no mesmo engano cerca de cinquenta anos atrás:

... em tudo aquilo que respeita à orientação da nossa vida, nos achamos, muitas vezes, forçados a seguir opiniões apenas verosímeis, dado que as ocasiões de agir nos negócios se escoariam quase sempre antes de nos libertarmos de todas as dúvidas. E quando se encontram várias dessas ocasiões de agir acerca de um mesmo assunto ... a razão exige que escolhamos uma delas e que, após tê-la escolhido, a sigamos firmemente como se a tivéssemos julgado certíssima.
[secundariamente, note-se uma inflexão interessante, em que se passa de constamment para "firmemente" e "com firmeza".]


descartes continua (I, 4): Mais, d’autant que nous n’avons point maintenant d’autre dessein que de vaquer à la recherche de la vérité, nous douterons en premier lieu... ele tinha dito logo antes: na condução de nossos afazeres, a gente não tem tempo de ficar avaliando todas as opiniões, a gente escolhe uma delas e manda bala. mas aqui (quer dizer, filosofando) nosso único objetivo é buscar a verdade, sem precisar sair correndo para atender à pressão do momento e se baseando numa opinião meio duvidosa; então não faz mal levar o maior tempo para ficar pensando, avaliando, duvidando etc. - ou seja: "mas, dado que [visto que] agora não temos nenhum outro desígnio a não ser nos dedicar à busca da verdade etc." - simples, claro, evidente, não?


torrieri guimarães nos dá: "contudo, a fim de que outro propósito agora não nos ocupe, senão aquele de nos entregarmos à pesquisa da verdade, etc." - tsc, tsc... aliás, alberto ferreira também já tinha nos dado: "mas, para que outro desígnio agora nos não ocupe a não ser o de nos aplicarmos à investigação da verdade, etc."


pois, retomando a cadeia argumentativa, descartes tinha dito que não ia se pôr a duvidar sem mais de tudo e de todos, e sim apenas quando começasse a contemplar a verdade pra valer: "je n’entends point que nous nous servions d’une façon de douter si générale, sinon lorsque nous commençons à nous appliquer à la contemplation de la vérité" (ainda em I, 3). entendre - e mesmo "entender" em português - também significa "intentar", "tencionar", "ter a intenção de".


alberto ferreira: "de modo nenhum entendo eu que nos sirvamos de forma tão geral de duvidar, etc."; torrieri: "de nenhum modo compreendo que nos sirvamos desse modo tão generalizado de duvidar, etc."


ou: recevoir en notre croyance (I, 6); "receber, em nossa convicção" (a. ferreira); "receber, em nossa convicção" (torrieri)


ou: nous ne saurions nous empêcher de croire que cette conclusion: Je pense, donc je suis, ne soit vraie (I, 7); "não poderíamos impedir-nos de acreditar que esta inferência EU PENSO, LOGO EXISTO, não seja verdadeira" (a. ferreira); "não poderíamos obstar-nos de crer que esta inferência EU PENSO, LOGO EXISTO, não seja exata" (torrieri).


um exemplo final (III, 12): Ceux qui n’ont pas philosophé par ordre ont eu d’autres opinions sur ce sujet, parce qu’ils n’ont jamais distingué assez soigneusement leur âme... foi inexplicavelmente [in]vertido como "Os que filosofaram por ordem, colocaram outras opiniões a respeito deste assunto, razão pela qual jamais distinguiram, com suficiente cuidado, a sua alma", ademais invertendo também a relação causal expressa em parce que. diga-se de passagem que alberto ferreira também incide nesse surpreendente equívoco: "Aqueles que filosofaram por ordem, formularam outras opiniões sobre este assunto pelo que nunca distinguiram, com bastante cuidado, a sua alma".


resumindo: o vocabulário usado nas duas traduções é em grande medida diferente; alberto ferreira tenta manter um registro próximo ao do original; torrieri parece se afastar com maior frequência, mesmo em termos simples (nous empêcher = obstar-nos, p.ex.), preferindo se mover num registro mais, digamos, empolado. o que chama a atenção são os erros ou desvios do original que aparecem nas duas traduções. não digo que torrieri guimarães tenha copiado literalmente alberto ferreira, de maneira alguma: mas não me parece muito provável que o mesmo tipo de estruturação sintática, os mesmos erros e inflexões similares se repitam em duas traduções diferentes. ao mostrar alguns dentre vários exemplos de equívocos presentes na tradução de torrieri, meu intuito é sustentar que, mesmo que alguém possa invocar em seu amparo a autoridade de traduções anteriores (no caso, a de alberto ferreira), nem por isso deixam de ser erros que, a meu ver, comprometem gravemente a leitura e o bom entendimento do texto de descartes.


fica, de novo, uma chamada para o grupo folha: os leitores merecem mais.


* atualização: um leitor comenta que faltou elegância à minha crítica nesta passagem. tem toda razão. como minha intenção não é ofender ninguém, e sim apenas apontar problemas objetivos, reformulo a frase como "talvez isso possa indicar uma certa insuficiência de torrieri guimarães no entendimento da língua e do próprio argumento de descartes", com meu pedido de desculpas a qualquer suscetibilidade que eventualmente eu possa ter ferido.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



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3 comentários:

  1. Anônimo29.11.10

    "sem dúvida isso indica uma certa insuficiência de torrieri guimarães no entendimento da língua"

    Acredito que críticas possam ser feitas com mais elegância.

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  2. prezado anônimo, tem razão.
    reformulo como "talvez isso possa indicar uma certa insuficiência de torrieri guimarães no entendimento da língua", e peço desculpas pela formulação talvez demasiado direta.
    agradeço
    denise

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  3. Anônimo24.9.15

    Quero comprar este livro de Descartes. Onde consigo uma boa tradução ?

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