11 de ago de 2009

ecce homo, rideel

a editora rideel, comandada pelo sr. italo amadio, alguns anos atrás sucumbiu à tentação e se entregou entusiasticamente à prática de cópia de traduções alheias. ultimamente andou caindo em si e parece estar retirando de catálogo e de circulação essa tranqueiragem que envergonha qualquer um. menos mau.

se daqui para a frente a rideel se compromete a parar com essa brincadeira de mau gosto, mas daqui para trás continua tudo igual, é importante documentar as fraudes - até para que os principais interessados, nós leitores, possamos saber o que temos em nossas estantes.

abaixo segue mais uma contrafação. trata-se de nietzsche, ecce homo, com tradução atribuída ao nome de "heloísa da graça burati", publicado pela editora rideel em 2005.



nas cópias de tradução da rideel anteriormente apresentadas, tratava-se de simples transcrição literal (com abrasileiramento dos termos nos casos em que as traduções surripiadas eram portuguesas). aqui em ecce homo, além de extensos trechos copiados fielmente, a pretensa tradução sofisticou um pouco a brincadeira substituindo palavras por sinônimos, alterando tempos verbais e de vez em quando invertendo um pouco as frases.

1. artur morão

Prefácio
Na previsão de que em breve terei de surgir perante a humanidade com a mais difícil exigência que se lhe fez, parece-me indispensável dizer quem eu sou. No fundo, todos o deviam saber: não deixei, com efeito, de dar testemunho de mim. Mas a incongruência entre a grandeza da minha tarefa e a pequenez dos meus contemporâneos expressou-se no facto de que não me ouviram, nem também me viram. Vivo do meu próprio crédito, ou será talvez apenas um preconceito supor que vivo?... Basta-me dirigir a palavra a qualquer pessoa «culta» que venha no Verão à Alta Engadine para me convencer de que não vivo... Nestas circunstâncias, há um dever contra o qual, no fundo, se revoltam os meus hábitos, e mais ainda o orgulho dos meus instintos, isto é, o dever de clamar: Escutai-me! Pois, sou esteassim. Sobretudo, não me confundam com outro!

2. "heloísa da graça burati"

Prefácio
Na previsão de que em breve terei de surgir perante a humanidade com a mais difícil exigência que se lhe fez, parece-me indispensável dizer quem eu sou. No fundo, todos o deviam saber: com efeito, não deixei de dar testemunho de mim. Mas a incongruência entre a grandeza da minha tarefa e a pequenez dos meus contemporâneos expressou-se no fato de que não me ouviram, nem também me viram. Vivo do meu próprio crédito, ou será talvez apenas um preconceito supor que vivo?... Basta-me falar com qualquer pessoa «culta» que venha no Verão ao Alta Engadina para me convencer de que não vivo... Nestas circunstâncias, há um dever contra o qual, no fundo, se revoltam os meus hábitos, e mais ainda o orgulho dos meus instintos, isto é, o dever de clamar: Escutai-me! Pois, sou assim e assado. Sobretudo, não me confundam com outro!

1
. artur morão

[epígrafe]
Neste dia perfeito, em que tudo amadurece e não apenas as uvas se tornam douradas, um raio de sol cai justamente sobre a minha vida: olhei para trás, olhei para a frente, e nunca vi ao mesmo tempo tantas e tão boas coisas. Não foi em vão que, hoje, sepultei o meu quadragésimo quarto ano, era-me permitido sepultá-lo – o que nele era vida está salvo, é imortal. A Transmutação de todos os valores, os Ditirambos de Dioniso e, para recriação, o Crepúsculo dos Ídolos – tudo prendas deste ano, e até do seu último trimestre! Como não deveria estar reconhecido por toda a minha vida? Eis porque a mim próprio narro a minha vida.

2. "heloísa da graça burati"

[epígrafe]
Neste dia perfeito, em que tudo amadurece e não apenas as uvas se tornam douradas, um raio de sol cai justamente sobre a minha vida: olhei para trás, olhei para frente, e nunca vi ao mesmo tempo tantas e tão boas coisas. Não foi em vão que hoje sepultei o meu quadragésimo quarto ano, era-me permitido sepultá-lo – o que nele era vida está salvo, é imortal. A Transmutação de todos os valores, os Ditirambos de Dioniso e, para recriação, o Crepúsculo dos Ídolos – tudo prendas deste ano, e até do seu último trimestre! Como não deveria estar reconhecido por toda a minha vida? Eis porque a mim próprio narro a minha vida.

1. artur morão

PORQUE SOU TÃO SAGAZ
4. O mais alto conceito de lirismo foi-me dado por Heinrich Heine. Em vão procurei em todo o curso dos milénios uma música assim tão doce e apaixonada. Ele possuía aquela ironia divina, sem a qual não consigo imaginar a perfeição – aprecio o valor dos homens e das raças pelo modo como sabem compreender necessariamente Deus, sem o separar do sátiro. – E como maneja ele o alemão! Dir-se-á um dia que Heine e eu fomos, de longe, os primeiros artistas da língua alemã – a uma distância incalculável de tudo o que com ela fizeram os simples alemães. – Devo ter uma profunda afinidade com o Manfredo de Byron: encontro em mim todos esses abismos – com treze anos de idade, eu já estava maduro para esta obra. Não tenho palavras, tenho apenas um olhar para os que, na presença de Manfredo, se atrevem a proferir a palavra «Fausto».

2. "heloísa da graça burati"

PORQUE SOU TÃO SAGAZ
4. O mais alto conceito do lirismo foi-me dado por Heinrich Heine. Em vão procuro em todo o curso dos milênios uma música [] tão doce e apaixonada. Ele possuía aquela malícia divina, sem a qual não consigo imaginar a perfeição – aprecio o valor dos homens e das raças pelo modo como sabem compreender necessariamente o deus, sem o separar do sátiro. – E como ele maneja o alemão!
Ainda se dirá um dia que Heine e eu fomos de longe os primeiros artistas da língua alemã – a uma distância incalculável de tudo o que com ela fizeram os simples alemães. [] Devo ter uma profunda afinidade com o Manfredo de Byron: encontrei em mim todos esses a bismos [] aos treze anos de idade, eu já estava maduro para essa obra. Não tenho palavras, tenho apenas um olhar para os que, na presença de Manfredo, se atrevem a proferir a palavra «Fausto».

pena que, tentando disfarçar a cópia, resultem trechos quase incompreensíveis:

1
. artur morão
PORQUE SOU TÃO SÁBIO
1. A ventura da minha existência, porventura a sua singularidade, consiste na sua fatalidade: estou, para me exprimir em forma de enigma, já morto quanto a meu pai, mas, no tocante à minha mãe, vivo ainda e vou ficando velho. Esta dupla herança, por assim dizer a partir do mais alto e do mais baixo degrau na escada da vida, décadent e ao mesmo tempo começo – isto, sim, se é que alguma coisa, explica a neutralidade, a independência de partidismos em relação a todos os problemas da vida, que quiçá me caracteriza. Para os indícios de ascensão e decadência tenho um faro mais apurado do que alguma vez o teve outro homem, sou a este respeito o mestre par excellence – sei ambas as coisas, sou essas duas coisas.

2. "heloísa da graça burati"

PORQUE SOU TÃO SÁBIO
1. A fortuna da minha existência, a sua singularidade talvez, consiste na sua fatalidade: estou, para me exprimir em forma de enigma, já morto quanto a meu pai, mas, no tocante à minha mãe, ainda vivo e vou envelhecendo. Essa dupla herança, por assim dizer a partir do mais alto e do mais baixo degrau na escada da vida, décadent e ao mesmo tempo explica isto, se é que alguma coisa explica a neutralidade, a independência de partidismos em relação a todos os problemas da vida, que talvez me caracteriza. Para os indícios de ascensão e decadência tenho um faro mais apurado do que homem algum jamais teve, misto sou o mestre par excellenceconheço ambas as coisas, sou ambas as coisas.

ou:

1. artur morão

PORQUE SOU TÃO SAGAZ
8. Em tudo isto – na escolha do alimento, do lugar, do clima, da recreação – impera um instinto de autoconservação, que se expressa sem qualquer ambiguidade como instinto de autodefesa. Não ver e não ouvir muitas coisas, não deixar que de nós se aproximem – eis a primeira astúcia, a primeira prova de que não se é um acaso, mas uma necessidade. A palavra corrente para este instinto de autodefesa é gosto. O seu imperativo manda-nos não só dizer não, onde o sim seria um «desinteresse», mas também dizer não tão pouco quanto possível. Separar-se, afastar-se daquilo em que sempre e repetidamente o não se tornaria necessário.

2. "heloísa da graça burati"

PORQUE SOU TÃO SAGAZ
8. Em tudo isso, na escolha do alimento, do lugar, do clima, da recreação, impera um instinto de autoconservação, que se expressa sem qualquer ambiguidade como instinto de autodefesa. Não ver e não ouvir muitas coisas, não deixar que de nós se aproximem – eis a primeira astúcia, a primeira prova de que não [] é um acaso, mas uma necessidade. A palavra corrente para este instinto de autodefesa é gosto. O seu imperativo manda-nos não só dizer Não, onde o Sim seria um «altruíssimo», mas também dizer Não. [] Separar-se, afastar-se daquilo em que sempre e repetidamente o não se tornaria necessário.

será tão difícil assim publicar uma edição legítima? não tem como a rideel licenciar ou encomendar uma tradução de verdade? como vão ficar seus milhares de eccehomos falsificados vendidos por aí?


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



2 comentários:

  1. Anônimo26.12.12

    Bom saber ! Parabéns ao dono do Blog

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    1. obrigada! é sempre bom ficar atento.

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