22 de abr de 2019

entrevista

agradeço a fabiano seixas fernandes pela grande gentileza. entrevista disponível aqui.


Tradutora, investigadora, blogueira: entrevista com Denise Bottmann

 . 9 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes

Tradutora, investigadora, blogueira: entrevista com Denise Bottmann
A tradutora, escritora e pesquisadora Denise Bottmann é um dos mais importantes nomes da tradução no Brasil. Sua atividade como pesquisadora independente auxilia a resgatar a memória de tradução (como podemos ver em seu blogue arquivo de traduções) e também a repensarmos a honestidade intelectual do mercado editorial brasileiro (como fica evidente por meu favorito, o não gosto de plágio).
Bottmann muito gentilmente respondeu a algumas perguntas sobre sua atividade profissional como tradutora e investigadora.
Em sua entrevista ao Digestivo cultural, você comentou que vem desenvolvendo uma pesquisa independente no campo de História da Tradução. Gostaria que falasse um pouco da pesquisa em si, e de como é pesquisar sem vínculos institucionais.
Ah, é ótimo, faço o que quero do jeito e no ritmo que quero, sem maiores preocupações e sem ter de prestar contas senão a mim mesma. Por outro lado, como tento manter um mínimo de rigor e solidez nas pesquisas, encontro generoso espaço de publicação dos artigos resultantes dessas pesquisas em diversos periódicos universitários ligados à área. Então sinto-me agraciada com o melhor dos dois mundos: a liberdade do pesquisador independente e a receptividade na academia.
Sua última postagem no não gosto de plágio é uma entrevista de José Nunes que detalha o seu processo individual de tradução. Mas você também já traduziu a várias mãos. Quais as diferenças entre traduzir uma obra integralmente e traduzi-la dividindo-a com outras pessoas?
Veja, essas traduções a várias mãos se dão basicamente por problemas de prazo. A editora pretende lançar rapidamente aquela obra, por qualquer razão que seja, e avalia que um tradutor só não teria condições de fazer a tradução inteira no curto prazo exigido. Assim, opta por dividir a obra em duas ou mais partes, que entrega a dois ou mais tradutores. Normalmente não há um contato assíduo entre os diversos incumbidos da tarefa, e cada qual faz sua parte. A padronização do texto e a uniformização dos termos costumam ficar, na maioria das vezes, a cargo do preparador – que certamente é quem mais sofre nesse processo. Assim, pelo menos para mim, não faz muita diferença. Traduzo aquela parte como se fosse um todo – e é mesmo um todo, pelo menos como tarefa que me foi atribuída. Não gosto muito do sistema; aliás, imagino que nenhum dos envolvidos goste muito, mas são decisões editoriais que têm lá sua razão de ser e não cabe a mim achar ou deixar de achar nada.

Além de tradutora e autora, você também mantém uma intensa atividade nas redes sociais: uma conta bastante ativa no Twitter e alguns blogs—alguns pontuais, como o blogue a biografia do Van Gogh, e outros mais duradouros, como o não gosto de plágio. Inúmeras tradutoras e tradutores vêm, nos últimos tempos, participando dessa onda de digitalização, e buscando se tornar influencers em seus campos. Como você encara esse movimento, desde o ponto de vista da quase proverbial “invisibilidade do tradutor”?

Na verdade, não uso quase o Twitter. Minha conta no Facebook é vinculada à do Twitter; então o que posto no FB é automaticamente publicado no Twitter, só isso. Quanto aos blogs, tenho especial carinho por eles. Vários são de duração limitada, pois são blogs de acompanhamento da tradução que estou fazendo naquele momento: além da biografia do Van Gogh, há os blogs sobre WaldenMrs. DallowayAo farolComo ler literaturaAs mulherzinhasUtopiaEmily Dickinson… Além desses blogs de acompanhamento de tradução, mantenho alguns blogs, também de duração limitada, sobre essas pesquisas bibliográficas que faço: A Coleção Amarela da GloboA Série NegraA Coleção SaraivaBLM - Biblioteca do Leitor Moderno e outros mais. Não vejo, ou não via, essas iniciativas como parte de uma “onda de digitalização” – são espaços muito práticos, muito fáceis de operar, em que posso ir desenvolvendo questões que me interessam naquele momento, e acabam se tornando repositórios de coisas que posso vir a recuperar mais tarde.

O ramo da tradução ainda é um visto como atividade remunerada secundária; ainda há poucas pessoas que se dedicam, como você, à tradução como forma principal ou única de renda. Você acha importante que exista essa dedicação exclusiva para a classe das tradutoras e tradutores de um modo geral?

Não, não creio que seja muito importante. Sou grande defensora do que chamo de “diletantismo” e defensora ainda maior da fundamental importância de traduções acadêmicas feitas por docentes conhecedores daquela determinada área. E falar em “classe” de tradutores/as me parece um tanto abstrato. Não vejo o conjunto das pessoas que exercem o ofício de tradução, mesmo como atividade principal ou exclusiva, como uma “classe” ou sequer como uma “categoria”. Ainda mais se se incluírem intérpretes, dubladores, legendadores, o pessoal de língua de sinais, torna-se um campo quase infinito. Mas talvez quem sabe algum dia venha a se criar uma categoria profissional legalmente reconhecida como tal. A ideia não me entusiasma especialmente, de maneira alguma – mas, como dentro desse amplo universo da tradução em sentido geral trabalho num segmento minoritário, qual seja, a tradução de obras lítero-humanísticas para o setor editorial, nem tenho muito o que opinar.

Em relação ainda à digitalização da tradução, para além de vermos tradutores e intérpretes tomando as redes com podcasts, canais e blogs, também vemos que estão às voltas com um processo de uberização de seus serviços, recebendo encomendas por meio de plataformas semelhantes ao Uber, e vendo seus vencimentos serem achatados em decorrência. A inteligência artificial também é uma aliada ambígua, que, a longo prazo, poderá contribuir com a obsolescência desta e de muitas outras profissões. Como você enxerga a classe dos tradutores frente a esses desafios?

Repito, não consigo ver a soma dos mais variados tradutores, intérpretes, legendadores das mais variadas áreas para os mais variados fins como uma “classe”. De todo modo, essa uberização, como você diz, decorre da maciça terceirização de serviços que se iniciou nos anos 1970-1980. Um grande número de tradutores exerce hoje em dia funções que eram realizadas pelas antigas secretárias bilíngues e trilíngues (uso o feminino, pois era uma profissão ocupada majoritariamente por mulheres). A profissão da secretária executiva, da secretária de diretoria, altamente qualificada, hoje em dia está quase à beira da extinção, em decorrência, justamente, desse processo de terceirização. Então, até é possível que hoje o número de homens realizando tarefas antes realizadas pelas secretárias mulheres seja maior, em termos relativos, do que era trinta ou quarenta anos atrás. Quanto à tecnologia, sim, talvez. Não conheço a área de tradução técnica, comercial e financeira, que, até onde sei, é a que mais utiliza os novos recursos tecnológicos, como programas de tradução, memórias de tradução e assim por diante – se bem que o uso dessas ferramentas de auxílio à tradução parece estar abrindo caminho também na tradução editorial. Mas eis aí mais um assunto sobre o qual não posso falar, pois não estou bem a par.

não gosto de plágio oferece uma importante contribuição à produção intelectual, denunciando casos de apropriação indevida no meio editorial. Curiosamente, isso é feito de forma extra-institucional: em um país onde a universidade controla o grosso da produção intelectual, uma das defesas mais contundentes dessa produção vem, por assim dizer, de fora, de alguém que se afastou da carreira docente, e que emprega um meio a que as instituições de ensino e pesquisa não costumam recorrer. Como você encara a contribuição do não gosto de plágio não só à tradução, mas à pesquisa e às instituições onde é mais comumente realizada no Brasil?

Por uma série de circunstâncias, o gravíssimo problema das apropriações indébitas de traduções alheias encontrou ouvidos muito receptivos nas instituições acadêmicas. Para essa receptividade, sem dúvida contribuiu muito o fato de que centenas e centenas de traduções espúrias eram, precisamente, de obras utilizadas nas bibliografias de cursos universitários, sobretudo nas áreas de ciências humanas, filosofia, letras e direito: desde Aristóteles, Platão, Santo Agostinho, Descartes, Hume a Shakespeare, Emerson, Marx, Weber, Von Ihering e dezenas de outros autores de presença obrigatória na academia. Assim, houve um maciço apoio de muitas universidades e de muitas centenas de docentes, chocados com a extensão da fraude. Creio que Alfredo Bosi, na época, sintetizou bem o problema: tratava-se de um atentado “à integridade mesma da vida intelectual no Brasil”. Então creio que a contribuição do não gosto de plágio foi reconhecida nas e pelas esferas mais fortemente atingidas por tais contrafações. Não foram poucos os professores – e não só universitários – que, a partir de então, redobraram sua atenção e muitos passaram a adotar a prática sistemática de incluir os créditos de tradução em suas bibliografias de curso, bem como de exigir dos alunos que os incluíssem em seus trabalhos.

Gostaria que comentasse uma impressão pessoal que vou compartilhar. A tradução é uma tarefa de mediação cultural: entrega-se a um público o texto de outrem; nosso ato de fala basilar parece ser: “eis aqui o que Fulana disse em obra tal”. Isso contribuiu para nossa invisibilidade: quem lê Kakfa deseja ler Kafka, não Carone; quem lê Virginia Woolf deseja ler Woolf, não Cecília Meireles ou Denise Bottmann. Assim, embora seja intelectualmente impreciso e desonesto que não se mencione quem traduziu, dar ênfase demasiada ao tradutor também pode gerar uma espécie de quebra de confiança: se Haroldo é mais importante que Homero no Homero de Haroldo, a quem estou lendo? Não vejo solução fácil a essa contradição, e pediria que discorresse a respeito.

Bem, não vejo nenhuma contradição. Pois haverá alguém que julgue Haroldo mais importante do que Homero no Homero de Haroldo? Pode ser, e é, interessante como questão referente ao ofício e à prática da tradução, mas ninguém (a não ser algum estudante com algum projeto de mestrado ou doutorado muito específico ou algum estudioso da prática tradutória ou da produção específica de um determinado intelectual brasileiro), repetindo, ninguém vai ler Kafka por causa do Modesto – vai ler Modesto por causa de Kafka; nem vai ler Woolf por causa da Denise – vai ler Denise por causa da Woolf (no caso da Cecília Meirelles, é possível e até provável que leiam sua tradução de Orlando por causa dela mesma, mas aí é outra história: quem faz isso é porque está interessado na obra da Cecília, na qual se incluem suas traduções). Não vamos inverter as prioridades, os verdadeiros interesses, nem confundir literatura e obras de pensamento com suas várias e múltiplas versões em diferentes línguas: isso fala mais da riqueza da obra original do que de qualquer eventual mérito de suas diversas traduções, fala mais da historicidade e variabilidade das línguas do que das escolhas feitas numa tradução ou y.
Quanto ao primeiro aspecto que você havia levantado, concordo: tradução também é, ou pretende ser, esse “eis aqui o que Fulana disse em obra tal”. Em certa medida e em alguns aspectos, tradução também é isso, sem dúvida. Agora, mesmo limitando-nos a essa acepção mais restrita da tradução, esse “o que ela disse” vai variar muito: um vai dizer que, naquela passagem, Fulana disse “o tempo estava encoberto”, outro vai dizer que Fulana disse “o dia estava nublado” ou que “as nuvens toldavam o céu”. Ninguém vai dizer que, naquela passagem, Fulana disse “o navio chegou atrasado ao porto”. Mas as escolhas, as soluções, os fraseados já constituem outro assunto, bastante complexo. E daí, entre outras coisas, a dificuldade em decidir o que “de fato” Fulana teria dito.
Agora, se você não se importar, vou comentar um detalhe. Quando você fala em “invisibilidade”, a famosíssima invisibilidade do tradutor, está-se referindo, pelo que entendi, ao papel quase ignorado da atividade tradutória para o acesso à leitura em determinada língua de textos originalmente escritos em outra língua. De minha parte, entendo que a expressão significa um hipotético desideratum, isto é, que a mão, a pena do tradutor não se faça demasiado visível na tradução, e se aplica em oposição àquelas traduções geralmente muito decalcadas ou com muitos cacoetes desnecessários. Até onde sei e até onde consigo lembrar, foi apenas a partir de Lawrence Venuti que se desenvolveu ou se passou a divulgar aquela outra acepção quase, digamos, vitimista do pobre tradutor que tanto trabalha, tanto se esfalfa e ninguém vê – e Venuti até recomenda que o tradutor calque fortemente a mão para se fazer bem visível e deixar bem evidente que aquilo é uma tradução. Bom, não é de Venuti que estamos falando e deixemos isso de lado. Gostaria apenas de comentar que entendo a “invisibilidade do tradutor” naquele outro sentido, a meu ver mais preciso e mais objetivo, de um trabalho que não reproduza mecanicamente estruturas sintáticas próprias da língua original ou outros “vícios” do ofício, nem se exiba demais com um cartaz dizendo – ou nem precisando de cartaz nenhum, mas simplesmente alardeando: vejam, vejam, isso é uma tradução! Agora, que da invisibilidade do tradutor, nessa acepção que considero mais objetiva, se possa inferir que, então, o tradutor não deixa, não pode, não deve deixar sua marca pessoal... bom, são outros quinhentos. Seria uma tolice imaginar isso, e felizmente, ao que parece, as correntes tradutórias mais normativistas vêm deixando de lado algumas noções um tanto fantásticas como, por exemplo, a de “equivalência”. Eu proporia, só para não parecer muito implicante e para fazer um pouco de graça, algo como “a marca invisível” ou “a marcada invisibilidade” ou, ainda, “a marcante invisibilidade do tradutor”, naturalmente denotando um valor positivo.

11 de abr de 2019

Um guia do melhor da web literária

hoje por acaso encontrei uma linda menção ao blog:

Falando em tradução, o Não gosto de plágio vai direto ao assunto, e sem papas na língua. É um dos espaços mais corajosos da web, denunciando as picaretagens de várias editoras, como fraudes de tradução, apropriação indevida de direitos autorais e cópias. O blog é abastecido por Denise Bottmann, que atua como tradutora de inglês, francês e italiano desde 1985. aqui

17 de mar de 2019

entrevista

agradeço a josé nunes pelo gentilíssimo convite. disponível aqui.



Como escreve Denise Bottmann


Denise Bottmann é historiadora e tradutora.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Tenho uma espécie de rotina, sim, um pouco flexível. Levanto, preparo o café da manhã [meu querido amor, que é um madrugador, já deixa a mesa preparada, tudo no jeito], tomamos café, conversamos do mais e do menos, fazemos festa nos cachorros e nos gatos e vamos ver as orquídeas. Aí cada qual vai para seu escritório e seu computador, e começo a traduzir.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
De dia mesmo. Entre as 9 ou 10 da manhã e as 3 ou 4 da tarde, com os devidos intervalos – conversar, comer, espairecer, andar pelo jardim, ver alguma coisa aqui ou ali.
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Tradução é basicamente uma questão de método e rotina, creio eu. Então traduzo de segunda a sexta, com uma meta de dez a quinze laudas por dia. Às vezes vai que é um raio, e até dá para fazer mais. Outros dias a coisa fica mais devagar e sai um pouco menos. Mas, entre uma variação e outra, ao final acaba tendo uma média relativamente constante.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
Tem gente que faz uma série de preparações prévias antes de começar a traduzir. Lê o original inteiro ou boa parte dele, assinala e consulta as dúvidas, faz pesquisas de antemão e assim por diante. Já eu não. Tenho uma concepção da coisa que é meio assim: entendo melhor a estrutura compositiva do texto se eu for traduzindo à medida que o leio, pois então, ao traduzir, preciso ir pegando os vários aspectos presentes, desde as escolhas vocabulares do autor, os recursos linguísticos de que lança mão, as figuras de estilo que adota, até a construção gradual e cumulativa de um ou mais sentidos que constroem o conjunto da coisa. Numa leitura corrida prévia, creio que eu perderia boa parte da construção do texto, que, a meu ver, capta-se melhor num acompanhamento mais denso, mais próximo, que é o que procuro fazer nesse processo concomitante de leitura/tradução.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Felizmente, não tenho esses problemas mais peculiares a um escritor de obra própria.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Ah, ler, reler, treler tradução é indispensável! Sempre mudando uma coisinha aqui, outra ali. Até a hora em que a gente precisa dar um basta, senão nunca para.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
No mundo da tradução, sou o que chamam de “dinossauro”. Enquanto boa parte dos tradutores e tradutoras de áreas técnicas, comerciais e até mesmo acadêmicas e literárias emprega programas e ferramentas de auxílio à tradução, utiliza glossários montados a partir de memórias de tradução e assim por diante, fico só com meu computadorzinho. E claro que o buscador do Google é uma imensa mão na roda para consultas das mais variadas questões, pois cobre quase a totalidade dos dicionários e enciclopédias mais importantes e oferece uma grande variedade de outras fontes de consulta, bem como traz uma profusão de links para textos e pesquisas sobre o tema em que estou trabalhando naquele momento.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativa?
“Ideias” nesse sentido, em tradução, imagino que significa basicamente pensar, avaliar e definir o partido tradutório (o tom, o tratamento, o tipo de costura, os níveis de registro da linguagem, o tipo e grau de aderência ao texto de origem, os recursos a adotar em ocorrências de difícil solução, e assim por diante) que emprego no trabalho que estou fazendo naquele momento. Mas, como disse, visto que meu processo de tradução é praticamente simultâneo à leitura do texto, essa reflexão, essa avaliação e essa definição do partido tradutório vão se fazendo e se configurando ao longo desse mesmo processo, sobretudo em suas fases iniciais. Conforme a gente caminha, as ideias quanto aos procedimentos mais cabíveis vão se fazendo mais claras e se consolidando melhor.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesma se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?
Ah, a gente adquire mais segurança, sente a palavra, a formulação das palavras de maneira mais correta e mais escorreita, a gente fica mais à vontade no e com o texto. Acho que não diria nada; ou, talvez, agradeceria àquela pessoinha das primeiras traduções, sempre tão bem-disposta, a despeito dos erros e das inseguranças que nem percebia serem erros e inseguranças.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Projetos profissionais e próprios não faltam. Que os deuses permitam que eu os vá executando dia a dia, vez a vez.

2 de mar de 2019

podcast

"lugar da mulher é onde ela quiser", edição especial de a voz do tradutor, ano II, n. 33, com organização e coordenação de damiana rosa de oliveira, disponível aqui.


A VOZ DO TRADUTOR - ano II - nº33 - O podcast da Escola de Tradutores! - Edição Especial "O podcast é delas" de 02 de março de 2019

Nesta edição, você vai ouvir: mensagem da presidente do Sintra,  Luisa Lamas; Hora do café com a tradutora literária Denise Bottmann; relatos emocionantes das colegas tradutoras Rane Souza, Carol Pimentel, Andressa Gatto e Ligia Ribeiro.


plágios

matéria de alessandro giannini, disponível aqui.

Denúncias de plágio agitam o meio literário: como fica a autoria no século XXI?
Hoje é muito mais fácil praticar — mas também descobrir — as cópias
Alessandro Giannini
02/03/2019 - O Globo
Acusações de plágio já respingaram em nomes tão diversos como Valesca Popozuda, Led Zeppelin, o ministro do STF Alexandre de Moraes e até o designer da logo do Galeão.
Num mundo globalizado, empresas têm gastado muito para proteger suas marcas.
Na produção literária, porém, a cópia tornou-se tão frequente quanto o uso dos comandos Control-C e Control-V (copiar e colar). Só neste ano, foram revelados casos envolvendo o britânico Ian McEwan, o americano Dan Mallory e a brasileira Cristiane Serruya, best-seller da autopublicação responsabilizada por surrupiar textos de (no mínimo) 34 autores.
Com tanto conteúdo disponível na internet, há quem sustente que usar escritos de outros é homenagem. Para muita gente, porém, é roubo descarado e ponto final. Opiniões à parte, o plágio está tipificado no artigo 184 do Código Penal Brasileiro como crime passível de três meses a 4 anos de detenção. E multa.
Perfil devastador
O plágio (diz-se também plagiarismo ou plagiato) é o ato de assinar ou apresentar uma obra intelectual de qualquer natureza (texto, música, obra pictórica, fotografia, obra audiovisual etc.) contendo partes de uma obra que pertença a outra pessoa sem a permissão do autor.
Mas a arte só começa onde a imitação acaba.
Em 2009, o argentino Pablo Katchadjian incluiu 5.600 palavras no conto “O Aleph”, de Jorge Luis Borges. Criou, assim, “O Aleph engordado”. A viúva de Borges não curtiu a “homenagem” e processou Katchadjian por plágio. Ele só foi inocentado seis anos depois.
— Hoje, o plágio é fácil de praticar, mas muitíssimo mais fácil de localizar — decreta a historiadora e tradutora Denise Bottmann. — E dura pouco essa coisa do “eu sou o autor”, “eu escrevi”. Até porque todo mundo sabe que não se vive de escrever livro, pelo menos não aqui no Brasil.
Denise é conhecida pela excelência de suas versões e pela inclemência com editores que plagiam traduções — modalidade infelizmente comum no mercado. Em 2010, a Landmark entrou com uma ação contra ela e a blogueira Raquel Salaberry, que acusaram a editora de copiar versões de clássicos para o português. No mês passado, as duas venceram a batalha.
Outro caso recente de grande repercussão foi o do americano Dan Mallory, autor do bem-sucedido suspense “A mulher na janela” e uma das mais festejadas atrações da última Bienal do Livro de São Paulo. Ele foi alvo de um perfil devastador publicado pela revista “New Yorker”, que o pinta como um farsante inventor de histórias sobre sua vida. Logo depois, deu no “New York Times”: Mallory acusado de plagiar o romance “Saving April”, da britânica Sarah A. Denzil.
O advogado do escritor, porém, apresentou provas de que ele havia enviado um rascunho com personagens bem desenhados e tramas bem definidas antes de Sarah começar a escrever seu romance.
— A melhor ficção se baseia em trabalhos anteriores em termos de linguagem e senso de lugar — diz Stuart Karle, professor adjunto da Columbia Journalism School, especialista em lei de mídia. — Na ficção, é mais aceito e espera-se estar sujeito a isso.
A internet facilita o plágio e a descoberta dele, como disse Denise Bottmann, mas a prática vem de muito antes, como mostram episódios emblemáticos da produção literária brasileira.
Caso curioso o dos herdeiros do escritor Humberto de Campos, que moveram ação contra a Federação Espírita Brasileira, reivindicando direitos sobre a publicação de obra psicografada por Chico Xavier, de autoria do espírito do “autor”. A ação foi julgada improcedente. Apesar da perícia ter afirmado semelhança de estilos na obra, não se poderia pleitear direito do espírito.
Outro caso famoso é o do romance “A sucessora”, da escritora e tradutora Carolina Nabuco (1890-1981), que teria virado o romance “Rebecca” (1934), adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock .
— Um escândalo — diz o advogado José Thomaz Nabuco, de 82 anos, sobrinho da escritora. — Roubaram a obra dela.
Saindo do armário
Mas a própria definição do plágio tem mudado ao longo da História. William Shakespeare foi acusado de ter plagiado “Romeu e Julieta” de outro autor. Na verdade, havia cinco versões diferentes do drama. Hoje, o caso provavelmente acabaria nos tribunais.
Para a tradutora Ana Resende, falar de empréstimos, influências e supostos plágios literários requer cuidado:
— Era prática comum autores desenvolverem temas de seus pares e reconhecer isso. O tema do guarda-roupa como um portal mágico, central na série de romances sobre Nárnia, de C.S. Lewis, foi retirado de um conto, “The Aunt and Amabel", de Edith Nesbit. E Lewis reconheceu sua dívida com Nesbit, que hoje é pouquíssimo lembrada.
Todo homem nasce original e morre plágio.
Colaborou (com os plágios, inclusive) Emiliano Urbim.


24 de fev de 2019

autoras estrangeiras traduzidas no brasil

um bom trabalho de pesquisa em história da tradução no brasil: "Publicar mulheres: três coleções de escritoras estrangeiras no Brasil (séc. XX e XXI)", de ana elisa ribeiro e sérgio karam, disponível aqui.





2 de fev de 2019

judeus sem dinheiro

um caso interessante, que me foi apontado por lucas verzola.

cid franco, militante de esquerda, socialista democrático, traduziu judeus sem dinheiro, de michael gold, publicado pela pax em 1932. em 1934, a cultura brasileira relançou a obra. anos depois, em 1944, a calvino publicou mais uma vez a tradução de cid franco, porém sem lhe dar os créditos. em 1961, quando a pluma relança o romance de michael gold, cid franco comenta esses fatos. (embora ele não cite qual teria sido a "certa empresa que tirou mais uma edição", foi de fato a calvino.)



Resultado de imagem para "judeus sem dinheiro"

Resultado de imagem para "judeus sem dinheiro"


vale notar que mesmo a capa, assinada por kaufmann, retoma a capa da edição da cultura brasileira.
resta saber quem teria traduzido "120 milhões" para a edição da calvino.
veja-se a dissertação de vinicius juberte, disponível aqui.


Imagem relacionada

JUDEUS SEM DINHEIRO

Resultado de imagem para "judeus sem dinheiro" pluma


19 de dez de 2018



http://www.aescotilha.com.br/literatura/contracapa/o-papel-do-tradutor-e-questao-de-autoria/

O papel do tradutor e a questão de autoria

Morte de tradutora de Harry Potter levanta debate sobre a falta de reconhecimento da profissão.

A morte de Lia Wyler, aos 84 anos, no dia 11/12, não causou muito alvoroço. Como a de nenhum tradutor parece causar. Responsável por verter ao português os sete livros de saga Harry Potter e autores como Tom Wolfe, Hnery Miller e Stephen King, a paulista de Ourinhos havia passado por dois AVCs – um deles logo após entregar Harry Potter e as relíquias da morte.
O quase silêncio sobre os tradutores incomoda, e muito. Lia, que entre 1991 e 1993 presidiu o Sindicato Nacional dos Tradutores, foi quem adaptou para o português termos do universo de Potter. Quidditch virou quadribol, e muggle trouxa. Certa feita, depois de encerrar a série do bruxinho, Wyler declarou sentir falta dos personagens e da mitologia que envolve os livros de J. K. Rowling.
A Rocco, editora para qual Lia mais traduziu, emitiu uma nota de falecimento. No comunicado, a casa reitera a sensibilidade da tradutora e a importância do seu labor. “O trabalho do tradutor é um dos fios principais de uma história. Ele empresta suas palavras para construir narrativas e fazer que uma história seja compreendida, tocando o coração das pessoas”, diz o texto.
Denise Bottmann: ‘É uma responsabilidade e tanto, pois, na hora em que você ‘decide’, digamos assim, qual o partido que vai adotar’.

O papel do tradutor

Denise Bottmann – tradutora de obras de Virginia Woolf, Harold Bloom, Thomas More e outros – mantém desde 2008 o blog não gosto de plágio, cujo objetivo é um pouco óbvio: encontrar incongruências e irregularidades nas traduções para o português do Brasil. Um dos grandes alvos de Bottmann foi a editora Martin Claret, inúmeras vezes apontada por Denise como fonte constante de plágios e apropriações de textos alheios. Para escamotear a ação, a editoria teria criado diversos pseudônimos e retalhado excertos de diversos tradutores.
Ainda assim, é difícil dimensionar o papel de um tradutor para a obra de um autor, mas é ele o responsável por dar acessibilidade a determinados escritores. Quando a primeira tradução de Ulisses, de Joyce, foi publicada no Brasil, o professor e filólogo Antônio Houaiss foi “acusado” de tornar o livro do irlandês ainda mais intransponível. No começo dos anos 2000, a professora Bernardina da Silveira Pinheiro sofreu a acusação inversa: a de simplificar demais. Caetano Galindo, uma década mais tarde, teve uma recepção mais amistosa, e sua versão foi classificada com a mais próxima do original.
“É uma responsabilidade e tanto, pois, na hora em que você ‘decide’, digamos assim, qual o partido que vai adotar, que tipo de tratamento vai dar à obra em sua tradução, o que você julga mais adequado ou mais compatível com o original, você vai ter de manter esse mesmo tipo de aderência/descolamento ao longo de todo o texto. Não é fácil. E é por isso que podem existir tantas traduções de uma mesma obra. As escolhas nunca são as mesmas”, disse Bottmann em entrevista de 2013.
Borges, em um dos seus mais célebres textos, tratou da questão do tradutor. No conto, Pierre Menard almeja uma tradução tão perfeita de Dom Quixote para que a autoria passe a lhe caber. O relato borgiano é o retrato do labirinto da tradução, das voltas e voltas que se dá para transpor com o máximo de fidelidade uma obra. E, no final, qual o reconhecimento dado ao tradutor? Pouco ainda.

18 de nov de 2018

SIP / Civilização Brasileira

mais uma sugestão de pesquisa em nível de mestrado sobre a história da tradução no brasil: a relação entre a Edições Sociedade Impressora Paulista (SIP) e a coleção "Edições SIP - Collecções econômicas" lançada pela civilização brasileira (após aquisição pela companhia editora nacional) durante alguns anos na década de 1930.

vale notar que nenhum dos volumes dessa coleção que chegaram a meu conhecimento traz créditos de tradução - o que não deixa de ser surpreendente em se tratando de uma coleção publicada (por acordo? por licenciamento? não sei dizer) pela civilização brasileira, então filial e subsidiária carioca da cia. editora nacional, esta sempre bastante ciosa nesse quesito.

18 de out de 2018

um depoimento

na semana dos tradutores, blog da companhia das letras, disponível aqui


Um depoimento, por Denise Bottmann
Este ano faz 35 anos que comecei a traduzir. Digo, traduzir “para fora”. Antes já traduzia um pouco, poemas, ensaios, coisas de que gostava, que guardava na gaveta ou às vezes publicava aqui e ali, em alguma revista. Mas traduzir por encomenda, a pedido, por contratação, a primeira vez foi 35 anos atrás, com Luiz Schwarcz, ainda na Brasiliense. Ocorreu meio por acaso, e nem vem muito – para rimar – ao caso. Tirando um intervalo de dez anos em que parei de traduzir, continuo na C/companhia de Luiz, com alguns passeios paralelos.
Traduzir é algo maravilhoso, por todos os lados que se olhe. Começa, em primeiro lugar, por ser a única – não, única talvez não, mas a principal – coisa capaz de estabelecer contato entre povos e culturas de qualquer tempo e de qualquer espaço, transpondo milhares de anos e muitos milhares de quilômetros. Então é uma coisa significativa, importante. Imaginem todo mundo ilhado na sua língua. Bem ou mal, não haveria propriamente uma humanidade. Não estaríamos aqui conversando.
Outro lado de traduzir é que a gente se sente, de certa forma, contribuindo não só para conservar, mas também para criar uma memória das coisas – e, de mais a mais, uma memória compartilhada, trazida de outro canto do mundo. Digo isso porque considero memória algo muito importante. Sou historiadora, por formação, por carreira acadêmica e, na última década, por estudos historiográficos que venho fazendo sobre... ora, vejam só, a tradução no Brasil.
Além disso, o ofício é muito generoso, ensina sem cessar; a gente está sempre aprendendo, vendo coisas novas, sabendo coisas que não sabia antes, e de maneira muito agradável: lendo, escrevendo, com paz e tranquilidade, tendo nosso fiel amigo, o leão cuja pata ferida ajudamos a curar, sempre a nosso lado.

Assim, nesses 35 anos, é como se se formasse um círculo perfeito para quem adotou a tradução por gosto e convicção: é uma das mais importantes atividades que vieram a constituir um tempo-espaço humano coletivo; é o eixo de formação de um patrimônio imaterial comum; como se não bastasse, é um ofício prazeroso e enriquecedor no plano pessoal.
Quase tudo passa. Mas algumas coisas ficam. Ficam vozes de estadistas firmando a paz, súplicas de reis ansiando por herdeiros, cantos de amor e aventura de poetas, devoções ardentes, cosmogonias e épicos grandiosos, conselhos e receituários médicos multimilenares, de povos há muito desaparecidos.
Fica a escrita – e a escrita nunca cessa de se multiplicar: sobre ela, prosseguem os infindáveis pentimentos que a mão de todos os jerônimos e todas as jerônimas traça incansavelmente ao longo do tempo. E é assim que dialogamos.

13 de set de 2018

as ondas, 1946 (cont.)





  





agradeço a thiago dias da silva pelas imagens: página de rosto, verso da página de rosto, início da obra, nota da tradutora, primeiro interlúdio, dados de gráfica.

 sylvia valladão, nascida c.1900, filha do celebrado médico mathias valladão, pertencente à alta sociedade paulistana, casou-se em c.1921 com noé azevedo, advogado de grande fama futura. noé azevedo se tornou em 1923-24 o diretor responsável pela revista dos tribunais - esta, por sua vez, em 1933 passou a operar também como gráfica e a partir de 1955 como editora, atividade que mantém até hoje. a ligação matrimonial entre sylvia valladão e noé azevedo parece suficiente para explicar por que sua tradução de as ondas foi publicada pela revista dos tribunais.


12 de set de 2018

as ondas, 1946


incrível - sempre pensei que a primeira (e única) tradução de "as ondas" de virginia woolf no brasil era a de lya luft.
que nada: em 1946, a editora revista dos tribunais publica "as ondas" em tradução de uma desconhecida sylvia valladão azevedo. digo "desconhecida" nos meios editoriais, pois é até nome de rua no guarujá.
o interessante é que foi uma edição não comercial de 150 exemplares, lançada pela RT com autorização da globo de porto alegre, que era a detentora dos direitos de publicação da obra no brasil.
e mais interessante ainda é que foi a globo a primeira a publicar woolf no brasil, começando no mesmo ano de 1946 com "mrs. dalloway", na tradução de mário quintana [em circulação até a data de hoje], e prosseguindo em 1947 com o lançamento de "orlando", na tradução de cecília meirelles [idem idem].
estou agora procurando mais dados a esse respeito, e por enquanto não encontrei grande coisa. mas minha cabeça já começou a especular. p.ex., a globo teria contratado os direitos de tradução e publicação dessas três obras da woolf no brasil como um pacote; publicou "mrs. dalloway" e "orlando", e autorizou a RT a um uso não comercial de "as ondas" - mas jamais lançou "as ondas", seja na tradução da referida sylvia ou em qualquer outra. até aí sabemos [salvo a hipótese da contratação de um "pacote", que é especulação minha], e é tudo documentado. mas, pelo que vi até agora, foi relativamente ou até bastante pequena a repercussão de "mrs. dalloway" na imprensa da época, tanto é que levou décadas para ser reeditada; a de "orlando" não foi muito maior. terá a globo concluído que não valeria a pena lançar um terceiro livro da autora? a que se destinaria o uso não comercial dos 150 exemplares lançados pela RT? brinde para seus clientes, uma encomenda, um balão de ensaio para a própria globo?
devo esse dado interessantíssimo sobre a existência de "as ondas" em português desde 1946 a Thiago Dias da Silva. agora estou na maior curiosidade para conhecer essa edição, ver a capinha, a página de rosto, a declaração de autorização da globo que consta no livro (da qual fui informada também por Thiago).

11 de ago de 2018

coleção rubáiyát, a transição

para acompanhar a pesquisa sobre a coleção rubáiyát, clique aqui.



a série de poemas orientais, 1938-1942, sementeira da coleção rubáiyát, 
em seu volume final, a flauta de jade.



em 1943, a josé olympio inicia a coleção rubáiyat, inaugurando-a com o amor de bilitis.
interessante notar que ela incorpora retroativamente os sete volumes que compunham 
o catálogo de sua coleção anterior, a série de poemas orientais.


8 de ago de 2018

veríssimo e vallandro em contraponto


há coisa de uns dez dias, senti uma certa perplexidade quando descobri que "contraponto", de aldous huxley, traduzido por erico veríssimo em 1933 e publicado em 1934 pela livraria do globo, a partir de 1956 começara a aparecer com créditos de tradução a ele e a leonel vallandro. vide aqui.

especulando e vendo o número de páginas das diversas edições (690 nas iniciais; 460 nas posteriores), cogitei que se trataria de uma condensação que vallandro, a pedido da globo, teria feito naquela altura e que assim acabou ficando.

chegaram os exemplares que encomendei: a edição em 2 volumes só com veríssimo; a edição num volume só com veríssimo e vallandro. pelo que comparei até agora, são:

............................................idênticas ............................................

e a diferença no número de páginas?!
bom, o formato da edição dos anos 30 (a que comprei é de 1939), em 2 vols. não chega a ser de bolso, mas é de tamanho bastante reduzído, de 17,5 x 12,5. já o volume da coleção nobel (6a. edição, 1956) é significativamente maior: 22,5 x 15.

a fonte tipográfica de 1939 é maior e o entrelinhas razoavelmente espaçado, enquanto a fonte de 1956 é menor e o entrelinhas mais estreito.

a página do formato menor tem 32 linhas de texto, com 60 toques (isto é, caracteres + espaços), ou seja, se não houvesse parágrafos, as linhas fossem totalmente ocupadas até o final, os capítulos não terminassem no começo ou meio da página, não houvesse divisão de seções etc.etc., haveria 1920 toques por página. por outro lado, a página do formato maior tem 45 linhas de texto, com 70 toques, o que corresponderia a 3150 toques.




ou seja, se houvesse alguma diferença, o texto com créditos a veríssimo & leandro seria maior, não menor.

sinceramente, não é hoje nem nos próximos tempos que vou comparar 1.150 páginas de texto, mas as dúvidas, embora mudadas, continuam e a pergunta persiste: por que leonel vallandro passa, a partir de 1956, a constar dos créditos da tradução de "contraponto" ao lado de erico veríssimo?


30 de jul de 2018

leonel vallandro tradutor

Pelos dados localizados, a primeira tradução de Leonel Vallandro foi A mão de Fu-Manchu,
de Sax Rohmer, publicada como volume 17 da Coleção Amarela da Livraria do Globo, em 1932.


Reproduzo abaixo a lista de traduções feitas por Leonel Vallandro, extraída do Ditra [Dicionário de Tradutores] da PGET/UFSC, aqui. No link encontra-se também uma breve biografia dele. Na listagem, acrescentei em negrito o ano da primeira edição quando não constava na referência. Ao final, acrescentei outras traduções de Vallandro não incluídas na referida listagem.

Traduções Publicadas
Baum, Vicki. Hotel Berlim. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19. (Hotel Berlin). Romance. 1944 
Cain, James M. O destino bate à porta. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The postman always rings twice). Romance. 1947
Christie, Agatha. O assassinato de Roger Ackroyd. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1951. (The murder of Roger Ackroyd). Romance policial.*  
Christie, Agatha. O Caso dos dez negrinhos. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Tem little niggers). Romance policial. 1942 
Conrad, Joseph. Vitória.  [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Victory). Romance. 1942 
Crofts, Freeman Wills. O mistério de Groote Park.  [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The Groot Park murder). Romance policial. 1936 
Douglas, Norman. Vento sul. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (South wind). Romance. 1944 
Gardner, Erle Stanley. O caso das pernas de sorte. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The case of the lucky legs). Romance policial. 1943
Greene, Graham. O condenado. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Brighton Rock). Romance. 1952 
Greene, Graham. O terceiro homem. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The third man). Romance. 1951
Hilton, James. Aquele dia inesquecível. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (So well remembered). Romance. 1947
Hilton, James. E agora, adeus. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (And now goodbye). Romance. 1941 
Horler, Sydney. A Srta. Mistério. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Miss Mystery). Romance policial. 1937
Kennedy, Margaret. O idiota da família. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The fool of the family)Romance. 1941 
Lewis, Sinclaire. Babbitt. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Babbitt). Romance. 1942 
Maugham, William Somerset. A Casuarina. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1951. (The Casuarina tree). Contos.
Maugham, William Somerset. A indomável. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1952. (Creature of Circumstance). Contos.
Maugham, William Somerset. Ah king. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1944. (Ah king). Contos.
Maugham, William Somerset. As três mulheres de Antibes. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1956. (The mixture as before). Contos. [com Octavio Mendes Cajado - db]
Maugham, William Somerset. Catalina. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1950. (Catalina). Romance.
Maugham, William Somerset. Férias de Natal. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1941. (Christmas holiday)Romance.
Maugham, William Somerset. Histórias dos mares do sul. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1937. (The rembling of a leaf). Contos.
Maugham, William Somerset. O mágico. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1962. (The magician). Romance.
Maugham, William Somerset. O pecado de Liza. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1956. (Liza of Lambeth). Romance.
Maugham, William Somerset. Seis novelas. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1951. (First person singular)Contos.
Morgan, Charles. O quarto vazio. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The empty room). Romance. 1959
Packard, Frank. As aventuras de Jimmie Dale. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1939. (The adventures of Jimmie Dale). Romance. 
Porter, Katherine Anne. A nau dos insensatos. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Ship of fools). Romance. 1964 
Rohmer, Sax. Sombras amarelas. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Yellow shadows). Romance. 1938
Wallace, Edgar. A lei dos quatro homens justos. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The four just men). Romance policial. 1940
Wallace, Edgar. O caso da dama apavorada. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Case of the frightened lady). Romance policial. 1938

* Essa mesma novela de A. Christie saiu em 1933 pela Coleção Amarela, porém em tradução de Heitor Berutti, sendo posteriormente retraduzida por Vallandro e reeditada como vol. 146  da mesma coleção (ver aquiaqui) - db 

Complementos - todos pela editora do Globo, salvo indicação em contrário

Sax Rohmer, A mão de Fu-Manchu, Coleção Amarela, vol. 17, 1932
Edgar Wallace, Os três homens justos, Coleção Amarela, vol. 48, 1936
Ernest Trattner, Arquitetos de ideias, 1940
Dirk van der Heide, Minha irmã e eu: diário de um pequeno refugiado holandês, 1941
Pierre van Paassen, Estes dias tumultuosos: biografia duma geração desesperada, 1941
Somerset Maugham, Um casamento em Florença, 1942
Friedrich Hayek, O caminho da servidão, 1948
William Sedgwick, Harry Tyler e Robert Bigelow, História da ciência: desde a remota antiguidade até o alvorecer do século XX, 1952
Joseph Kessel, O leão, Seleções do Reader's Digest, ed. Ypiranga, 1958
Gonzague Truc, História da filosofia, 1958 (com Ruy Flores Lopes)
James Hadley Chase, Com o mundo no bolso, Série Amarela, 1958
Somerset Maugham, Assunto pessoal, 1959
James Hilton, Horizonte perdido, 1960 (com Francisco Machado Vila)
Platão, Diálogos vol. III, A república, 1964
Edward M. Burns, História da civilização ocidental, 2 vols., 1965 (com Lourival Gomes Machado e Lourdes Santos Machado)
C. Arndt et al.Educação comunitária: princípios e práticas colhidos na experiência através do mundo, USAID, 1965
Henry Clay Lindgren, Ansiedade: a doença do século, 1965
Donald M. Dozer, América Latina: uma perspectiva histórica, 1966
J.E. Johnson, Guerra no ar (história da aviação de caça), 1966
Ian Fleming, A morte no Japão, 1966
James Hadley Chase, O infrator cauteloso, Série Amarela, 1967
James Hadley Chase, Não enviem orquídeas para Miss Blandish, Série Amarela, 1967
Pitirim Sorokin, Sociedade, cultura e personalidade, 2 vols., 1968 (com João Baptista Coelho Aguiar)
James Kuethe, Processo ensino-aprendizagem, 1968
James Hadley Chase, Um trouxa como qualquer outro, Série Amarela, 1968
James Hadley Chase, Confidencial, Série Amarela, 1969
James Hadley Chase, Jornada para a morte, Série Amarela, 1969
James Hadley Chase, A morte vem de Hong-Kong, Série Amarela,1969
Alfred Hitchcock, Um pouco do seu sangue e outras histórias, 1969
Pitirim Sorokin, Novas teorias sociológicas, coedição EdUSP, 1969
Aristóteles, Metafísica, 1969
Henry Thomas, Os quatro livros do saber, em 4 volumes, 1970 (com Oscar Mendes)
John Udell Michaelis, Estudos sociais para crianças numa democracia, 1970
Goethe, Memórias: Poesia e verdade, 2 vols., 1971
Graham Greene, A inocência e o pecado, Verbo, 1971
William H. McNeill, História universal: um estudo comparado das civilizações, 1972
Richard Harold Lindeman, Medidas educacionais, 1972
Sherwin Kaufman, A mulher sempre jovem, 1972
Arthur Clarke, Vento solar: histórias da era espacial, 1973
Arthur Clarke, Encontro com Rama, Nova Fronteira, 1973
Blaise Pascal, Pensamentos, 1973
David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, Os Pensadores, Abril Cultural, 1973
Aristóteles, Tópicos: Dos Argumentos sofísticos, Os Pensadores, Abril Cultural, 1973 (com Gerd Bornheim)
Gilles Ferry, A prática do trabalho em grupo, 1974
Ralph W. Tyler, Princípios básicos de currículo e ensino, 1974
Tennessee Williams, Moise e o mundo da razão, Círculo do Livro, 1975
Armand Cuvillier, Sociologia da cultura, Globo/EdUSP, 1975
Louise M. Berman, Novas prioridades para o currículo, 1975
Mark Blaug, Introdução à economia da educação, 1975 (com Volnei Alves Corrêa)
William Cruickshank e G. Orville Johnson, Educação da criança e do jovem excepcional, 2 vols., 1975 (com Jurema Alcides Cunha)
W. James Popham e Eva Baker, Táticas de ensino em sala de aula, 1976*
W. James Popham e Eva Baker, Sistematização do ensino, 1976 (com Zaida Grinberg Lewin)*
Robert P. Davis, O piloto, Record, 1976*

* É de se supor que estas tenham sido suas últimas traduções.

Para os volumes lançados na Coleção Amarela, veja aqui.

Um episódio curioso envolvendo Leonel Vallandro se refere a Contraponto, de Aldous Huxley. A obra foi traduzida por Erico Veríssimo e saiu em dois volumes em 1934, com quase 700 páginas ao todo. Teve algumas reedições nos vinte anos seguintes. Em 1956, porém, a tradução passa a constar em nome de Erico Veríssimo e Leonel Vallandro. Após algumas pesquisas, foi possível cogitar se não se trataria de uma edição condensada, com cerca de 470 páginas. Nesse caso, seria de se supor, portanto, que o crédito a Vallandro tivesse sido acrescentado em vista de seu trabalho de condensação e adaptação (e por essa razão não foi incluído nesta sua bibliografia tradutória). A partir daquele ano, todas as inúmeras reedições passaram a trazer esses duplos créditos de tradução.
atualização em 08/08/18: vide novos dados e a reviravolta aqui.

Outra informação desencontrada é a que consta em A Globo da Rua da Praia, de José Otávio Bertaso, que a certa altura afirma que, se não lhe falhava a memória, Leonel Vallandro teria traduzido uma parte de A Rússia por dentro, do jornalista John Gunther. Sim, a memória lhe falhou: foi Lino, irmão de Leonel, quem se incumbiu de uma parte da tradução.