Mostrando postagens com marcador pietro nassetti. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pietro nassetti. Mostrar todas as postagens

11 de mai. de 2017

flores roubadas do jardim alheio


Ivo Barroso



Flores roubadas do jardim alheio


“As Flores do Mal” – Charles Baudelaire – texto integral – Tr. Pietro Nassetti - Editora Martin Claret (São Paulo, 2001) – 192 págs. R$19,00
Já tivemos aqui a oportunidade de mostrar como algumas obras literárias estão sendo criminosamente “apropriadas” por editores inescrupulosos e reeditadas sob o nome de falsos tradutores. No caso anterior, vimos como a tradução genial do “Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand, devida ao falecido professor pernambucano Carlos Porto Carreiro, foi simplesmente “clonada” e atribuída a um desconhecido Sr. Fábio M. Alberti, que já devia ficar contente se seu nome aparecesse como autor das notas de pé de página que figuram na edição. Nelas há esclarecimentos sobre personagens e fatos um tanto ou quanto incomuns, pelo menos para a classe de leitores desses livros ditos “populares”, vendidos em bancas de jornal. Apressamo-nos em esclarecer que nada temos conta esse tipo de venda e achamos mesmo que se trata de um serviço prestado ao leitor médio, que pode assim adquirir livros de grandes autores a preços inegavelmente convidativos. O que não nos parece ético é o escamoteio e a usurpação do nome dos tradutores originais desses livros, seja pela prática da sua atribuição a outrem, seja pelo artifício vergonhoso do plágio disfarçado.
Nessa última categoria podemos incluir, consistentemente, a edição de “As Flores do Mal”, o clássico livro de poemas de Charles Baudelaire, lançada “no verão de 2001” pela Martin Claret, de S. Paulo, em tradução ali atribuída a Pietro Nassetti, que, não se tratando de um pseudônimo de Jamil Almansur Haddad, responde certamente pelo nome de seu plagiário indecoroso, tal a maneira inequívoca com que se apropria da obra alheia.
É sabido que temos no Brasil pelo menos duas edições integrais de “As Flores do Mal”. A mais conhecida e, a nosso ver, a mais bem realizada, a de Ivan Junqueira, foi editada pela Nova Fronteira, sendo de 1985 a última reimpressão, com o texto original de face à tradução. Foi essa a escolhida para figurar no volume “Charles Baudelaire – Poesia e Prosa”, que organizamos para a Editora Nova Aguilar e que foi editado em 1995, em papel bíblia, reunindo em português praticamente toda a obra do Poeta. A outra, mais antiga, de 1958, editada pela Difusão Européia do Livro na coleção Clássicos Garnier, é de Jamil Almansur Haddad, poeta paulista, autor de “A lua do remorso” (1951), que além de Baudelaire traduziu também “As Líricas”, de Safo, “O Cântico dos cânticos”, de Salomão, o “Rubaiyat”, de Omar Khayyam, o “Cancioneiro” de Petrarca, o “Decamerão” de Boccaccio e as “Odes” de Anacreonte. O leitor, ainda que não versado no assunto, pode bem imaginar o que representa de tempo e esforço a tarefa de traduzir poesia, principalmente no caso de um autor como Haddad que respeita a métrica e a rima existentes no original. Mas hoje parece estar se generalizando a prática certamente recriminável de se tomar um texto preexistente e maquiá-lo, mudando aqui uma palavra mais difícil, ali uma construção mais arrevesada, e, passando por cima dos ditames métricos e rímicos, apresentá-lo ao leitor numa “nova” edição popular, supostamente feita por outro tradutor.
No presente caso a contrafação é tão explícita que chega a ser vergonhosa. Tomemos por exemplo o poema “Hino à Beleza”, dos mais característicos do estilo baudelairiano, com seus termos específicos e construções originais. As três primeiras quadras são iguais, ipsis litteris, coincidência que seria impossível de obter-se mesmo no caso de uma prova de tradução à qual se habilitassem centenas de candidatos. “Infernal et divin” é traduzido por ambos como “celestial e daninho”; “le couchant et l´aurore” por “matutina e noturna” e o verso “Qui font le héros lâche et l´enfant courageux” é impressionantemente resolvido da mesma forma: “Se à criança dão valor, tornam o herói covarde”. E naquele que encerra o terceiro quarteto: “Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien” – o copiador chegou a incidir no mesmo erro de interpretação do seu modelo, traduzindo “réponds” por “respondes”, quando a construção francesa “réponds de rien” equivale a “submeter-se a nada”. “Bénissons ce flambeau!” é “Bendito lampadário” em ambos e “tombeau” (túmulo) é transformado também por ambos em “sudário”. Há momentos, no entanto, em que o copiador servil resolve “melhorar” (como talvez pense) o texto saqueado. Em geral isso ocorre diante de palavras que ele julga “difíceis” ou pouco atuais. Assim, onde Jamil escreveu “O amoroso anelante a pender sobre a bela”, o tradutor-xerox reescreve: “O namorado ofegante a pender sobre a bela”, não se importando com isso de sacrificar a métrica do verso. Neste mesmo poema há inúmeros exemplos dessa espécie: “Pisando mortos vais, com ar de desacato” (Jamil) e “Caminhas sobre os mortos, com ar de desacato” ( pseudo tradutor). O “papel carbono” parece ter achado que o “vão” (adjetivo) de “Sobre teu ventre vão dança amorosamente” poderia ser entendido pelos seus leitores como verbo e “conserta” para “Sobre teu ventre orgulhoso dança amorosamente”, conseguindo o fenômeno de um alexandrino de 14 versos. Outro: “Beleza! monstro ingênuo e de feição adunca!” lhe soa muito precioso e ele emenda para: “Beleza! monstro ingênuo, assustador e horrendo!” Mas pasmem que temos no início da quinta quadra o que se poderia chamar de dupla coincidência: No verso “Uma efêmera vai ao teu encontro, ó vela”, tanto na tradução de Jamil quanto na de seu “vampiro” Pietro Nassetti há uma nota de pé de página dizendo exatamente o mesmo: “Efêmera: substantivo comum, espécie de inseto”, que, se não fosse cópia servil seria um caso de duplicidade até na indigência definidora. Estender a amostragem seria recair ad infinitum na certeza que desde já se patenteia de que os poemas apresentados nesta edição de “As Flores do mal” foram subtraídos do berço alheio e criados por pais adotivos em proveito próprio.
Essa prática inescrupulosa da apropriação de traduções alheias – pela cópia deslavada ou enganosa maquiagem – parece estar se ampliando junto a editores de livros em série ou coleções ditas populares. Há muitos títulos de obras clássicas que circulam por aí que, se examinados com cuidado, revelariam – como um triste palimpsesto – o nome apagado e explorado do tradutor original. 

in http://www.jornaldepoesia.jor.br/ibarroso3.html 

23 de jun. de 2011

que pena!

.
encafifada com a impressão de que a editora martin claret estaria tentando dar uma no cravo e outra na ferradura ao cadastrar uma tradução de mário laranjeira (flores do mal) e depois uma suposta tradução de um suposto "rodolfo schaefer" (crítica da razão prática) - veja aqui -, fiz um levantamento de seus dez últimos registros oficiais na agência do isbn, na fundação biblioteca nacional. são eles (clique nos títulos para ver as fichas):

978-85-7232-817-3 As flores do mal - trad. Mário Laranjeira
978-85-7232-818-0 Memórias de Sherlock Holmes - trad. Joaquim Machado
978-85-7232-819-7 As aventuras de Huckleberry finn - trad. Alex Marins
978-85-7232-820-3 Dos delitos e das penas - trad. Torrieri Guimarães
978-85-7232-821-0 A arte da guerra - trad. Pietro Nassetti
978-85-7232-822-7 Os melhores contos de Lovecraft - trad. Lenita Esteves
978-85-7232-823-4 Os melhores contos de Edgar Alan Poe - trad. Katia Orberg e Eliane Fittipaldi
978-85-7232-824-1 A arte da prudência - trad. Pietro Nassetti
978-85-7232-825-8 Crítica da razão prática - trad. Rodolfo Schaefer
978-85-7232-826-5 Os arquivos de Sherlock Holmes - trad. Casemiro Linarth

entre os tradutores da lista acima, mário laranjeira e lenita esteves são ambos docentes da usp e autores de traduções sérias e respeitadas. casemiro linarth, jornalista paranaense, tem se dedicado nos últimos anos a traduzir conan doyle para a editora, e não conheço nada que possa desabonar suas traduções. o mesmo em relação a kátia orberg e eliane fittipaldi, esta última também tradutora experiente, docente e conhecedora de poe.
torrieri guimarães, advogado já falecido, traduzia pelo espanhol e, apesar de ter feito e assinado várias traduções ao longo da vida, não chegou propriamente a criar respeitabilidade entre leitores e profissionais.

pietro nassetti, dentista também falecido poucos anos atrás, virou motivo de indignação, espanto e piada em inúmeros veículos de comunicação por dar seu nome a mais de uma centena de cópias e plágios de tradução na editora martin claret. alex marins, que comparece como autor de dezenas de traduções espúrias, não passa de uma figura de fantasia, e tampouco "rodolfo schaefer" parece ser mais do que um simples nome de cobertura.

joaquim machado, tradutor português, era publicado no brasil pela editora melhoramentos, a qual declarou que jamais cedeu os direitos dessa tradução para a martin claret. sua tradução tinha sido adulterada e copiada com o nome de "john green", o mesmo que assina a estupefaciente edição d' a origem das espécies pela editora claret. mas talvez, quem sabe, pode ser que esta tenha vindo a adquirir a licença em data mais recente. a ver.

das dez obras citadas acima, cinco delas, eivadas de irregularidades e/ou inexplicáveis peculiaridades, já foram comentadas no nãogostodeplágio.
  • memórias de sherlock holmes: veja aqui e aqui
  • as aventuras de huckleberry finn: aqui e aqui
  • a arte da guerra: denúncia do jornalista adam sun, na revista piauí, aqui; ver também aqui
  • a arte da prudência: aqui e aqui
  • crítica da razão prática: aqui e aqui
mas esses registros recentes na agência do isbn na fundação biblioteca nacional parecem sugerir que a editora martin claret não renunciou a suas bizarras práticas que se estendem por mais de uma década. lamentavelmente, não vejo como a pequena minoria de traduções sérias e honestas conseguiria escapar aos respingos dessa política editorial.

.

22 de jun. de 2011

muito prático

.
para traduzir kant, os claretistas devem ter achado que um nome de ressonância teutônica iria melhor do que um macarrônico pietro nassetti. deve ter sido assim que nasceu "rodolfo schaefer". essa criatura - um golem, talvez? - então parece ter pegado a conhecida tradução de artur morão (edições 70, 1984), e botado uns temperos da tradução mais antiga de afonso bertagnoli (brasil editora, 1959; depois na ediouro).
















[POST ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 06/04/2009 - desnecessário dizer que qualquer tradutor de kant, seja diretamente do alemão ou por interposição de outra língua, há de ter alguma bagagem, seja acadêmica, seja tradutória. "rodolfo schaefer", porém, parece não apresentar outras credenciais além de ser o nome de uma rua na cidade de guabiruba em santa catarina.]

a quem se interessar pela crítica da razão prática na tradução de afonso bertagnoli, ela se encontra disponível para download no site do ebooksbrasil, aqui.

apresento abaixo morão, bertagnoli, "schaefer" e kant. é fácil ver que a base da cópia é o texto de morão, e os vários enxertos de bertagnoli são evidentes. além da cópia literal, que nem é preciso apontar, destaquei alguns exemplos mais curiosos em que "schaefer" repete soluções meio esdrúxulas de bertagnoli ou mistura as duas fontes em português, estropiando o sentido das frases.

9 de dez. de 2010

baltasar gracián, a arte da prudência

.

o jesuíta baltasar gracián, grande nome do siglo d'oro, eminência do barroco espanhol, conheceu bizarra fortuna nas décadas finais do século XX, quando se transformou num dos líderes da autoajuda e da gestão de negócios. os trezentos aforismos que compõem seu oráculo manual y arte de prudencia (1647) acabaram conhecendo imenso sucesso no brasil, em várias traduções e inúmeras edições.

o texto original se encontra disponível na rede em vários sites, p.ex. aqui: http://fgae.net/portal/images/stories/pdf/GBOmp.pdf

em 1982, a ediouro lança um volume com o título oráculo manual e arte de prudência, em tradução de morus. aparentemente, "morus" seria um pseudônimo de "um guru para executivos em busca de 'qualidade total' ou de técnicas de 'R.H.'", segundo alcir pécora, e sua tradução não seria propriamente satisfatória.

não encontrei a imagem correspondente

em 1992, a editora best-seller (então pertencente ao grupo CLC, de richard civita, que abriga também a editora nova cultural) publica a obra com o título de a arte da sabedoria mundana: um oráculo de bolso, em tradução de ieda moriya.*



em 1996, a editora martins fontes lança a obra com o título a arte da prudência, em tradução de ivone c. benedetti, tida pelo mesmo crítico como a única tradução adequada do texto de gracián.



em 1998, a editora martin claret publica sua primeira edição d'a arte da prudência com tradução em nome do profícuo pietro nassetti, a grande glória do ofício tradutório nacional, sempre disposto a surpreender seus leitores. essa sua pretensa tradução teve inúmeras reedições pela martin claret: 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009.


apresentarei num próximo post a análise dessa tradução em nome de pietro nassetti.

por ora, fica aqui meu agradecimento a @ericacsi.

* em 2003, a editora best-seller é adquirida pelo grupo editorial record. a partir de 2004, já no grupo record, a tradução de ieda moriya volta a ser editada, com título mais enxuto: a arte da sabedoria.

em data mais recente, foi publicada também a tradução de davina m. de araújo pela editora sextante, com o título a arte da prudência (2003; 2006).

imagens: wikimedia [original de 1647] e google images [capas das edições brasileiras]
.

3 de fev. de 2010

histórias extraordinárias, poe XXVIII

sei de catorze antologias de contos de edgar allan poe publicadas no brasil com o título de histórias extraordinárias. as editoras devem ter lá suas razões para repisar tanto no mesmo nome para coisas diferentes, mas isso confunde muito a gente. então, segue a lista das coletâneas com seus respectivos conteúdos, a quem interessar.

1. histórias extraordinárias (cultrix, 1958; companhia das letras, 2008), seleção e tradução de josé paulo paes, com dezoito contos: coração revelador; o retrato ovalado; o sistema do dr. alcatrão e do professor pena; o gato preto; o diabo no campanário; berenice; sombra - uma parábola; william wilson; o caixão quadrangular; a máscara da morte rubra; a queda da casa de usher; a carta roubada; ligéia; pequena palestra com uma múmia; o barril de amontillado; o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; o homem da multidão.

2. histórias extraordinárias (civilização brasileira, 1970), seleção e tradução de brenno silveira, com treze contos:
a queda da casa de usher; o barril de amontilhado; o gato preto; berenice; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; os crimes da rua morgue; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o poço e o pêndulo; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall.

3. histórias extraordinárias (ordibra/inl, 1972), suposta tradução de joão teixeira de paula, com dezesseis contos:
o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; o homem na multidão; berenice; hop frog; william wilson; silêncio; sombra; a carta roubada; o gato preto; o poder da palavra; pequena discussão com uma múmia; o demônio da perversidade; o sistema do doutor breu e do professor pena; rei peste; duplo assassínio na rua morgue. traz também o corvo, a gênese de um poema, método de composição, e a tradução d'o corvo por machado de assis.

4. histórias extraordinárias (cedibra, 1972), tradução de pedro ramires, com oito contos:
o encontro marcado; ligeia; o poço e o pêndulo; manuscrito encontrado numa garrafa; descida ao interior do amelström; o mistério de marie rogêt; a carta furtada; sombra - uma parábola.

5. histórias extraordinárias (círculo do livro, 1973), tradução de brenno silveira e outros, com dezessete contos:
a queda da casa de usher; berenice; os crimes da rua morgue; o escaravelho de ouro; o gato negro; o barril de amontillado; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; o poço e o pêndulo; nunca aposte sua cabeça com o diabo; uma descida no maelström; o duque de l'omelette; o jogador de xadrez de maelzel; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall.

6. histórias extraordinárias de allan poe (ediouro, seleta c. 1975, com este título desde c. 1985); 6a. histórias extraordinárias (ediouro, c. 2000), seleção e tradução de clarice lispector, com dezoito contos:
o gato preto; a máscara da morte rubra; o caso do valdemar; manuscrito encontrado numa garrafa; enterro prematuro; os crimes da rua morgue; a queda da casa de usher; os dentes de berenice; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o duque de l'omelette; william wilson; o retrato oval; o coração denunciador; o diabo no campanário; o barril de amontillado; metzengerstein; ligeia; deus (revelação magnética).

7. histórias extraordinárias (edibolso, s/d; 3a. ed. 1975), tradução de brenno silveira e outros, com onze contos:
a máscara da peste vermelha; o enterro prematuro; a caixa quadrangular; o homem na multidão; william wilson; o poço e o pêndulo; a queda da casa de usher; o barril de amontillado; o gato preto; o coração revelador; berenice.

8. histórias extraordinárias (abril cultural, 1978, círculo do livro, 1982, nova cultural, 2002), tradução de brenno silveira e outros, com dezesseis contos:
a queda da casa de usher; o barril de amontilhado; o gato preto; berenice; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; os crimes da rua morgue; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o poço e o pêndulo; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall; o escaravelho de ouro; uma descida no maelstrom; o jogador de xadrez de maelzel.

9. histórias extraordinárias (otto pierre, 1979), tradução anônima, com oito contos:
os crimes da rua morgue, o mistério de marie roget, o escaravelho de ouro, o sistema do dr. alcatrão e do prof. pena, a verdade sobre o caso do sr. valdemar, descida ao maelstrom, a carta roubada e metzengerstein.

10. histórias extraordinárias (globo, 1987), seleção de carmen vera cirne lima, tradução de oscar mendes e milton amado [não disponho dos títulos dos contos desta seleta].
 
11. histórias extraordinárias, clube do livro (1988), pretensa tradução de josé maria machado, com dez contos:
o escaravelho de ouro; o homem na multidão; hop frog; william wilson; silêncio (uma fábula); sombra (uma parábola); berenice; pequena discussão com uma múmia; a carta roubada; o sistema do dr. breu e do professor pena.

12. histórias extraordinárias (américa do sul, 1988), edição brasileira da tradução portuguesa de luísa feijó e teixeira de aguilar, com seis contos:
os crimes da rua morgue; o escaravelho de ouro; o gato negro; o barril de amontillado; manuscrito encontrado numa garrafa; eleonora.

13. histórias extraordinárias (martin claret, 1999), pretensa tradução de pietro nassetti, com sete contos:
o gato preto; manuscrito encontrado em uma garrafa; os crimes da rua morgue; a carta roubada; o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; a queda da casa de usher.

14. histórias extraordinárias (larousse, 2005), tradução de cláudia ortiz, com sete contos:
a carta roubada; a queda da casa de usher; o gato preto; o barril de amontillado; a máscara da morte vermelha; hop-frog; o escaravelho de ouro.

obs.: a data entre parênteses é a da primeira edição de cada coletânea; em vários casos, há inúmeras reimpressões e reedições pela mesma editora nos anos seguintes.

atualização em 22/3: ver mais uma edição com o mesmo título de histórias extraordinárias, pela cedic, aqui.

imagem: quantos!

29 de jan. de 2010

o gato nassettiano na academia, poe XXV

algumas coisas me espantam.

a mais recente foi a leitura de uma análise descritiva das traduções brasileiras do conto the black cat de edgar allan poe,

estudo publicado em julho de 2009 por um docente de uma importante universidade federal, integrante de um também importante núcleo de pós-graduação em estudos de tradução. o artigo é em sua maior parte ocupado por dados biográficos de poe, pinceladas a respeito da fortuna histórica de sua obra, elementos paraliterários das edições sob análise e a exposição dos marcos teóricos adotados pelo articulista. num breve item final antes da conclusão, o docente apresenta uma sucinta comparação de quatro frases do conto o gato preto em duas traduções diferentes.

e aqui surge minha perplexidade: uma das traduções é legítima, da autoria de william lagos (pela lpm), e a outra é espúria, em nome de pietro nassetti (pela martin claret). faz anos que a farsa claretiana tem sido repetidamente desmascarada em inúmeros jornais, revistas e veículos de comunicação digitais, e não consigo entender como suas pseudotraduções podem ser tratadas em pé de igualdade com traduções legítimas, ainda mais em ambiente acadêmico.

os trechos apresentados no referido estudo são curtos, e reproduzo-os aqui:

I. william lagos:
- Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever [...] Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar a minha alma.
- Todos aqueles que estabeleceram uma relação de afeto com um cão inteligente e fiel dificilmente precisarão que eu me dê ao trabalho de explicar a natureza da intensidade da gratificação que deriva de tal relacionamento [...] Encho-me de rubor e meu corpo todo estremece enquanto registro esta abominável atrocidade.

II. pietro nassetti:
- Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, contudo, bastante doméstica que vou contar [...] Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar meu espírito.
- Aos que já experimentaram afeto por um cão fiel e esperto, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso [...] Coro, estremeço, abraso-me de vergonha, ao falar aqui dessa atrocidade.

além de estranhar a escolha da edição martin claret para fins de análise especializada, admira-me também que um estudioso das traduções brasileiras de the black cat não reconheça de plano, no segundo lote de amostras, a tradução de brenno silveira:

- Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar [...] Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar meu espírito.
- Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso [...] Coro, estremeço, abraso-me de vergonha, ao falar aqui dessa atrocidade.

esse triste episódio no campo dos estudos tradutórios no país, a meu ver, apenas confirma um fato para o qual o mestre alfredo bosi alertou desde o primeiro momento: os plágios de tradução põem em risco "a integridade mesma da vida intelectual no Brasil".

imagem: astound

26 de jan. de 2010

galeão coutinho plagiado

como vimos, galeão coutinho, a crer nos dados fornecidos pela editora itatiaia, teria tido sua tradução de zadig, de voltaire, despudoradamente copiada de fio a pavio por mario quintana. veja "mario quintana, plagiador?".

comentei que isso me parece uma sandice, e que a editora itatiaia, em minha opinião, está mostrando certa irresponsabilidade perante a situação em que tem colocado mario quintana desde 2004.

por outro lado, galeão coutinho foi plagiado, sim. sua tradução de werther de goethe, publicada pela livraria martins nos anos 40, foi copiada recentemente por duas editoras:

- pela editora martin claret, que atribuiu a pretensa tradução publicada em 2001 em sua coleção A Obra-Prima de Cada Autor ao assíduo pietro nassetti. veja "carlota tropical".

- pela editora nova cultural com patrocínio da suzano celulose, em 2002, que atribuiu a pretensa tradução publicada em sua coleção Obras-Primas a um fantasmagórico "alberto maximiliano". veja "goethe, werther".

torço vivamente para que a guardiã dos direitos e da memória de galeão coutinho tome as necessárias providências para proteger seu nome e sua obra. e que, diante do caso da itatiaia, ajude a deslindar a bizarria: se eventualmente dispuser de algum manuscrito ou qualquer indício sobre algum zadig traduzido por galeão coutinho, por favor traga a público.

imagem: traça

18 de dez. de 2009

balanço de 2009

nessa luta contra os plágios de tradução, o ano de 2009 trouxe mais alguns resultados:
- ressarcimento moral e editorial a hernâni donato, com o lançamento de nova edição da divina comédia pela editora nova cultural.
- determinação do ministério público federal à agência brasileira do isbn/fbn, para remoção de fichas cadastrais da editora martin claret, com créditos de tradução a "pietro nassetti" e outros em obras portuguesas e brasileiras.
- instaurado inquérito civil, pela promotoria de defesa do consumidor, contra fraudes da editora martin claret, a partir de iniciativa de joana canêdo junto ao ministério público.
- instaurado inquérito criminal, pela procuradoria do estado, contra fraudes da editora martin claret, a partir de iniciativa de joana canêdo junto ao ministério público.
- determinada pelo ministério público estadual instauração de inquérito criminal contra fraudes da editora martin claret.
- instaurado inquérito criminal pelo ministério público estadual contra fraudes do selo jardim dos livros, pertencente ao grupo geração.
- instaurado inquérito criminal pelo ministério público estadual contra fraudes da editora landmark.
- instaurada diligência do ministério público estadual junto à universidade de são paulo pela facilitação de venda de produtos falsificados durante feiras do livro sob a égide e no recinto da referida instituição de ensino.
- solicitada interpelação do ministério público estadual junto à associação nacional de livrarias e a grandes livrarias brasileiras para cessação de venda das obras plagiadas sob inquérito.
- instaurada diligência interna do ministério público federal para avaliação de danos ao patrimônio imaterial causados pela editora martin claret em plágios de traduções feitas por monteiro lobato.
- encaminhado pedido de representação ao ministério público estadual do rio de janeiro contra publicação e venda de obra espúria pela ediouro.
- encaminhada ao ministério da cultura proposta de licenciamento social de obras de tradução órfãs, abandonadas e esgotadas.
- multiplicação de apoio e divulgação do combate a plágios de tradução em canais da mídia impressa e digital.
- informe privado de carolina caires coelho sobre uso indevido de seu nome e sua solicitação à editora responsável para adoção de medidas corretivas.
- comunicado privado da editora rideel, por meio de seu diretor comercial, sobre retirada de catálogo e circulação de obras comprovadamente espúrias e outras que a empresa considerou passíveis de suspeita.
- informe público de caroline ramos furukawa, por meio de sua advogada, sobre uso indevido de seu nome e medidas legais em relação à editora responsável.
- comunicado público da editora madras, por meio de seu diretor jurídico, sobre retirada de catálogo e de circulação de obras comprovadamente espúrias e tomada de providências para apuração de responsabilidades.
- maior frequência e regularidade de atribuição dos devidos créditos de tradução de obras anunciadas e recenseadas na imprensa.
- maior atenção concedida ao problema dos plágios em palestras e mesas redondas referentes a temas de tradução.
- declaração de membros da comissão de seleção de livros para o programa mais cultura de estar cientes e atentos ao problema dos plágios de tradução e das editoras que lançam mão de tal procedimento.
- autorização dos titulares dos direitos de reprodução do discurso do método na tradução de jacó guinsburg e bento prado jr. para digitalização e disponibilização online da obra.
- retirada do plágio da referida obra, em nome de "enrico corvisieri", publicado pela ed. nova cultural, do site do domínio público do mec e do portal ideia da ufrgs.
- retirada da biblioteca virtual da ufrgs (portal ideia) de todas as referências e arquivos relativos a plágios comprovados de tradução.



imagens: basta, luto

8 de dez. de 2009

da matos peixoto à cedic



muitas editoras acabam desaparecendo da memória cultural do país. é triste, mas é verdade. às vezes, são anos e anos de dedicação e trabalho constante, a editora não dá certo, ou por qualquer razão encerra as atividades, e não raro, passado algum tempo, mal restam rastros ou lembranças dela.

matos peixoto parece ser um desses casos. foi uma pequena editora dos anos 60, de propriedade do sr. paulo matos peixoto. tenho sua edição de a volta ao mundo em oitenta dias, integrante da "coleção júlio verne", e no ano passado descobri que a suposta tradução publicada pela editora martin claret em nome de "pietro nassetti" em verdade era simples cópia da tradução de vieira neto, publicada em 1965 precisamente pela matos peixoto, em edição ilustrada de capa dura. apresentei esse cotejo em rodando o mundo (e as editoras).

não há nenhuma publicação da matos peixoto no acervo da fundação biblioteca nacional. já nos sebos que integram a estante virtual, encontram-se várias dezenas de títulos que a editora publicou nos anos 60, sobretudo entre 1964 e 1966. diga-se de passagem que qualquer historiador da cultura e do desenvolvimento editorial no país terá sempre uma dívida incalculável para com os sebos, muitas vezes os últimos depositários de uma memória do passado. mas, voltando à matos peixoto, assim como surgiu, desapareceu.

no finalzinho dos anos 80 surge uma outra pequena editora, de nome paumape, sigla do nome de seu proprietário, o já referido sr. paulo matos peixoto. teve vida ainda mais breve, e sua atividade praticamente se concentrou em publicar obras jurídicas de ulderico pires dos santos e reeditar vários títulos do antigo catálogo da matos peixoto. a fundação biblioteca nacional possui em seu acervo alguns exemplares da paumape (16), e nos sebos se encontram várias publicações suas.

em 2002/2003 surge mais uma outra pequena editora, de nome germape, sigla, até onde sei, de "gertrud matos peixoto", esposa do sr. paulo. aparentemente mantém-se em atividade - entrei em contato com seu escritório, mas não foi possível falar com a responsável editorial, de nome vera. a germape também tem relançado títulos da matos peixoto. a fundação biblioteca nacional possui em seu acervo um maior número de publicações (66), e nos sebos há várias edições suas.

de modo geral, os títulos que compõem o "projeto ler literatura universal" da cedic já faziam parte do antigo catálogo da matos peixoto dos anos 60, e/ou constavam no catálogo da paumape e depois no catálogo da germape. isso pareceria sugerir uma parceria normal entre elas, porém com algumas diferenças editoriais: por exemplo, a edição da germape da divina comédia consta na fbn com a tradução devidamente creditada a hernâni donato, ao passo que a edição da cedic, ao omitir qualquer indicação de autoria ou de dado catalográfico, desliza para a ilegalidade.*

essa relação entre matos peixoto, paumape, germape e cedic ajudaria a explicar os bizarros critérios de seleção que esta última utilizou para compor sua coleção de literatura universal - mais do que aspectos propriamente literários, o que parece ter prevalecido é um simples aproveitamento de catálogo.

adiante retornarei ao tema, sob o ponto de vista mais específico das traduções.

* refiro-me tão-só à correta atribuição da autoria, como direito moral do tradutor e direito do leitor à informação correta, ambos protegidos por lei. já se a germape e a cedic têm ou não licença de uso da tradução de hernâni donato, são outros quinhentos.

imagem: françois bonvin, natureza morta com livro, papéis e tinteiro

6 de dez. de 2009

ivo barroso - itinerários VI


DE ESPADA EM PUNHO

Como em Dumas, meus três tradutores-mosqueteiros eram quatro: Mílton Amado, Agenor Soares de Moura, Onestaldo de Pennafort e Carlos Porto Carreiro. Os dois primeiros eu havia conseguido homenagear com livros; os dois últimos o seriam com longos artigos. Mas, para chegar a tanto, tive que enfrentar desagradáveis frustrações.
A admiração que sempre tive pelas traduções de Onestaldo de Pennafort, principalmente pelas suas “encarnadas” versões dos poemas de Verlaine, sempre me fizera prometer a mim mesmo escrever algo a seu respeito, já que seu nome parecia desconhecido entre as novas gerações. Ele foi o mais perfeito intérprete do poeta francês em língua portuguesa, a ponto de suas Festas galantes se tornarem um livro de poesias de nossa literatura. Stefan Zweig, que se refugiara no Brasil em 1940, assim se dirige ao tradutor: “Ainda não falo o português, mas leio-o, e ainda mais facilmente numa tradução de poesias que sei de cor. O senhor gostará de saber que possuo o manuscrito original das Fêtes galantes [...] Que alegria ao ler Verlaine na língua de seu tradutor e captar-lhe ainda assim a música!” Além de Verlaine, Onestaldo havia conseguido dar ao Romeu e Julieta, de Shakespeare, a jovialidade, a leveza, a graça da obra original. E, no extremo oposto, toda a coloração sombria da tragédia cruel vivida por um Otelo transtornado de ciúmes. Além disso, havia suas obras originais, de grande versatilidade e de sutil leveza.

Compus um longo ensaio que ficou guardado por uns tempos à espera do veículo adequado para divulgá-lo. Houve época em que fui um dos redatores da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, e julguei que estaria ali o espaço ideal para estampar o artigo. Mas por várias circunstâncias a matéria não saiu. Só em março de 2007, já de todo afastado da Poesia Sempre, encontrei guarida na Revista do Livro, órgão de divulgação cultural da mesma entidade, dirigida pelo prof. Elmer Barbosa. Estampada no nº 48, Ano 15, de março de 2007, esperei em vão por um exemplar da revista para ter a certeza de que a homenagem se efetivara. Depois de quase um ano, vim a saber que o tal número, dedicado quase inteiramente à literatura italiana, teve toda a sua tiragem distribuída num salão do livro que homenageava o Brasil na... Itália. Aqui, não restou disponível nenhum exemplar da revista. Foi graças à gentileza da Dra. Célia Portella que consegui ter em mãos a revista e constatar que de fato o artigo saíra (e estava sendo lido (?)... na Itália). Para compensar o extravio, estou cogitando de imprimir uma plaquete que, desde já, ofereço a todos os que se interessarem pelo assunto.
Embora, cronologicamente, Porto Carreiro tenha sido a minha predileção mais antiga, meu inesquecível D´Artagnan, até hoje não consegui lhe fazer a devida vênia, tirando-lhe o chapéu no gesto largo de arrastar pelo chão a pluma da Gasconha.

Sua tradução do Cyrano de Bergerac, que eu sabia quase toda de cor, de tanto lê-la, que abriu para mim as portas da conquista amorosa, sempre mereceu meu preito e minha gratidão. Que poderia fazer para divulgar seu nome, proclamar a excelência de sua façanha tradutória? Em 1997, centenário da primeira representação da peça, graças ao meu editor José Mário Pereira, íamos lançar uma cuidada edição bilíngue da peça, escoimada de alguns erros constantes das edições anteriores. Escrevi uma extensa apresentação em que falava não só do autor Edmond Rostand, mas igualmente de seu imortal intérprete Coquelin, de Sarah Bernard e do verdadeiro Cyrano, terminando por comentar os poucos dados biográficos que havia sobre o tradutor, mas ressaltando-lhe a genialidade da transposição. Professor de direito no Recife, Porto Carreiro apaixonou-se pela peça e traduziu-a tão logo foi representada. Dizem que ia de bonde para a Faculdade e não raro saltava a meio caminho para anotar algum verso que lhe ocorrera no trajeto. Desse extraordinário feito tradutório (considero-o a maior tradução de teatro em versos que conheço em língua portuguesa), disse, à época, o ferrenho crítico José Veríssimo, que considerava “em alguns pontos a tradução melhor que o original”. Esse tipo de frase tem sido modernamente criticado: Pode uma tradução ser melhor que o original? Claro que não, mas acredito que, num verso ou noutro, isto possa ocorrer em poesia: o tradutor encontrar uma expressão, um torneio de frase, uma palavra perfeita que faça o verso mais expressivo em sua língua do que o era no original. Para tanto é necessária uma integração, uma “encarnação” absoluta do tradutor na obra que traduz. França Pereira, contemporâneo de Porto Carreiro, assim o evoca: “Lembro-me bem do fulgor de seu olhar febricitante, do riso que lhe brincava nos lábios e do tremor que lhe agitava as mãos, ao falar-me do seu Cyrano, como se ele quisesse reviver ante meus olhos deslumbrados o velho galrão da Gasconha num outro poema dramatizado. O que o desanimava, dizia-me, era a suspeita de se frustrarem seus esforços neste 'meio' onde o galardoariam talvez com esta frase esmagadora: -- Ora! Uma tradução! – E mais nada.” E até hoje há quem, ligado às letras, tenha um conceito inferiorizante sobre tradução. Digo que uma tradução pode ser o “equivalente” da obra original em outra língua. Porto Carreiro criou um Cirano em português, assim como Onestaldo criaria suas Festas galantes. Duas obras geniais francesas vivendo seu momento literário no idioma português.

Mas, encurtando: como queríamos fazer uma edição de luxo, em papel de qualidade, possivelmente com ilustrações, o projeto gorou dentro do tempo previsto. Passou o centenário e a minha homenagem, por insignificante que fosse, não chegou a realizar-se. E – frustração das frustrações – em 2002 encontro na minha banca de jornais uma edição de bolso, capa preta com uma gravura dourada do narizão cirenaico, que ainda não constava de minha coleção e que podia ser adquirida a preço módico. Quem seria o destemido tradutor que, sabendo da existência da façanha de Carreiro, ousava enfrentar as dificuldades do Cirano? Abro a capa e leio o nome do “herói”: Fábio M. Alberti, mas – pasmo! – logo aos primeiros versos ao constatar que eram os mesmos de Porto Carreiro, amados versos que eu sabia de cor e nem precisava ir a casa cotejar. Um plágio desconcertante. O “herói”, no caso, não passava de um deslavado farsante. Precisava denunciá-lo. Escrevi imediatamente um artigo, Cyrano em “tradução clonada”, que saiu no Idéias do JB em 21.09.2002 e foi logo transcrito em outros jornais do Nordeste e no prestigioso blog de Soares Feitosa. A Editora Nova Cultural, para a qual mandei uma cópia do artigo, telefonou-me passado algum tempo dizendo que tinha havido um engano e que o nome de Porto Carreiro seria restaurado nas próximas edições (o que não ocorreu até hoje). Pouco tempo depois, dou com outro roubo descarado, das Flores do Mal, de Charles Baudelaire, cuja antiga tradução de Jamil Almansur Haddad aparecia na edição da Martin Claret com o nome de Pietro Nassetti (?). Meu artigo Flores roubadas do jardim alheio saiu no Rascunho de maio de 2003. Revoltado com tais descaramentos, eu mal sabia que estava simplesmente tocando a crista do iceberg.

Em 2007, voltei à carga junto ao meu editor: vamos lançar o livro no 110º aniversário da estréia da peça! é sempre uma efeméride, e os editores e leitores gostam dessas datas redondas. Acrescentei novos dados ao prefácio, citei as atuais edições francesas, a recente encenação da Comédie Française, os vídeos que surgiram, as traduções italianas e alemãs. Mas, de novo, o dinheiro foi curto e a obra não saiu. Mas como Cirano, no último ato da peça, junto à arvore frondosa, embora ferido por causa das minhas frustrações, empunho a espada das determinações e digo para mim: Eu me bato! Eu me bato! Eu me bato! #

IVO BARROSO

imagem: coquelin como cyrano, google images

11 de nov. de 2009

kafka no brasil III - inglês, francês, espanhol...

outra preciosidade no estudo de celso donizete cruz sobre as várias edições d'a metamorfose de kafka no brasil é a trajetória da tradução de torrieri guimarães.

a metamorfose torrieriana tem uma história movimentada, que começa em 1965 na livraria exposição do livro, a qual poucos anos depois se tornaria a hemus, onde prossegue a referida obra, em inúmeras edições. essa tradução de torrieri sai também pelo clube do livro, pela publifolha e em duas coleções da ediouro, a "clássicos de ouro" e a "biblioteca de babel", para finalmente desembocar na martin claret, aqui porém atribuída ora à sua "equipe de tradutores", ora a "pietro nassetti".

torrieri guimarães nunca pretendeu tê-la traduzido do alemão. tenho nítida lembrança, mas não a cópia, de um depoimento seu, muitos e muitos anos atrás, dizendo que havia feito a tradução a partir do inglês. vejo confirmada essa lembrança em rápidas alusões de josé pedro antunes e euler de frança belém.

mas, numa entrevista dada em 2003 ao pesquisador eduardo manoel de brito, torrieri afirma que utilizou uma versão francesa. toda a história é meio engraçada: eli behar, dono da livraria exposição do livro [futura hemus], teria conhecido pessoalmente max brod em israel, e teria negociado diretamente com ele os direitos de tradução da obra de kafka no brasil. brod os teria cedido a título de cortesia a behar, e assim teria se iniciado o intenso contato de torrieri guimarães com os textos de kafka,"visto ser ele [torrieri] quem estava à frente do projeto formal de traduzir toda a obra de Kafka para o português do Brasil pela editora Livraria Exposição do Livro" (pp. 125-6). eli behar então teria fornecido os exemplares em francês a torrieri - o qual, porém, não lembra pormenores a respeito deles -, para fazer sua tradução (p. 160).

bem, a impressão que eu tenho, à primeira vista, é que sua fonte não foi o inglês nem o francês... o que me parece é que torrieri guimarães teria usado para sua tradução uma versão publicada na argentina, a qual por sua vez é toda uma novela à parte, que deixarei para um próximo post. concentremo-nos por ora na misteriosa origem das traduções de kafka feitas por torrieri guimarães. vejamos, pois:

Quando, certa manhã, Gregório Samsa despertou, depois de um sono intranquilo, achou-se em sua cama convertido em um monstruoso inseto. Achava-se deitado sobre a dura carapaça de suas costas, e, ao erguer um pouco a cabeça, viu a figura convexa de seu ventre escuro, sulcado por pronunciadas ondulações, cuja proeminência a colcha mal podia aguentar, que estava visivelmente a ponto de escorrer até o solo. Inúmeras patas, lamentavelmente esquálidas em comparação com a grossura comum de suas pernas, ofereciam a seus olhos o espetáculo de uma agitação sem consistência. - torrieri guimarães

celso cruz tinha chamado a atenção para a oração "ofereciam a seus olhos o espetáculo de uma agitação sem consistência", totalmente ausente do original e de todas as traduções consultadas, e que "permanece inexplicável, derivada talvez de um arroubo de criatividade do tradutor" (p. 201). mas veio-lhe a cair em mãos uma versão peruana, sem data, sem créditos, que lhe pareceu muito similar à de torrieri guimarães, inclusive com a mesma bizarra passagem.*

* o pesquisador teve a cautela de alertar que "a notável semelhança, contudo, não quer dizer que a tradução peruana seja a verdadeira fonte da tradução de torrieri. Pode até ter se dado o contrário, a primeira ter sido feita com base na segunda" (id.).

Ao despertar Gregorio Samsa una mañana, tras un sueño intranquilo, encontróse en su cama convertido en un monstruoso insecto. Hallábase echado sobre el duro carapazón de su espalda y, al alzar un poco la cabeza, vio la figura convexa de su vientre oscuro, surcado por curvadas callosidades, cuya prominencia apenas si podía aguantar la colcha, que estaba visiblemente a punto de escurrirse hacia el suelo. Innumerables patas, lamentablemente escuálidas en comparación con el grosor ordinario de sus piernas, ofrecían a sus ojos el espectáculo de una agitación sin consistencia.

ora, esta é a tradução que a editorial losada vem publicando ininterruptamente desde 1938, em nome de jorge luis borges!

achei tão divertida a história que encomendei um exemplar da losada para um cotejo completo. em todo caso, eu não acharia inteiramente descabido aventar a hipótese provisória de que torrieri guimarães teria utilizado pura e simplesmente a edição portenha da losada, com a tradução atribuída a borges.*

* é com esta edição de 1938 que a losada inaugura sua famosa coleção "la pajarita de papel".

a novela que mencionei acima é que borges, por sua vez, nega ter feito essa tradução. será tema de um próximo post.



à esquerda, a edição de la metamorfosis de 1943. não encontrei imagem de capa da edição de 1938, mas achei o logo da pajarita de papel tão bonitinho que pus à direita um outro volume da coleção, também de 1938.








2 de nov. de 2009

kafka no brasil I


metamorfoses de kafka, dissertação de mestrado de celso donizete cruz publicada pela annablume/ fapesp (2007), é uma minuciosa análise comparada das diversas edições d'a metamorfose de kafka no brasil.

o autor se concentra nos paratextos, isto é, nos elementos acompanhantes da obra propriamente dita: capa, dizeres de capa e contracapa, formato do livro, dados de imprenta, orelhas, prefácios, introduções. há também um item sobre os tradutores e traduções das edições analisadas.

as traduções mencionadas no estudo são, em ordem cronológica de lançamento, as de brenno silveira, torrieri guimarães, marques rebelo, syomara cajado, modesto carone, erlon josé paschoal, dora del mercato, lourival holt, regina régis junqueira, marcelo backes, calvin carruthers, e a inefável "equipe de tradutores da martin claret", posteriormente substituída pelo não menos inefável pietro nassetti.

num post chamado trivia I, apresentei alguns fatos e algumas hipóteses sobre o processo de geração de nomes fictícios nas traduções espúrias da nova cultural. reproduzo aqui o trecho referente ao suposto tradutor d'a metamorfose na coleção "obras-primas":

"já no nível do puro escárnio foi a utilização do nome 'calvin carruthers'. [...] calvin carruthers aparece como tradutor de a metamorfose do kafka nessas obras covaculturais. aviso que não fui atrás dessa tradução, não sei se é plágio ou deixa de ser, mas o uso do nome de fantasia por si só já dá um certo pano para a manga.
bom, qualquer criança sabe que o protagonista do livro se chama gregor samsa. e de que rincão do mundo algum desinfeliz resolveu desenterrar o nome de 'calvin carruthers' como tradutor das vicissitudes de gregor samsa?
aí, por mero acaso, você sabe que um ator chamado vic tayback fez em 1971 um filme de horror chamado blood and lace, onde representava o papel de um detetive chamado 'calvin carruthers'. e sabe também que no último filme do tayback antes de morrer, em 1990, seu personagem se chamava george samsa. (quem gostar dessas curiosidades, pode ver aqui a filmografia dele.)"*

* embora sem mencionar o personagem de tayback em horseplayer, justamente george samsa, celso cruz também comenta essa conexão calvin carruthers/ vic tayback.

como disse, metamorfoses de kafka se debruça sobre os paratextos, e apenas marginalmente sobre as traduções. mesmo assim, traz coisas muito divertidas sobre elas, que podem interessar de perto aqui ao nãogostodeplágio. em breve voltarei a esse estudo.

imagem: annablume

19 de out. de 2009

isbn

ótimo!
espero que não esqueçam de solicitar encarecidamente aos digitadores da fbn/isbn que tenham um mínimo de desconfiômetro, que não cadastrem mais "pietro nassetti" como tradutor de machado de assis e outras zumbinices dessas - pois, além da vergonha, dá depois uma trabalheira danada montar representação, juntar documentos, dar entrada no ministério público federal e acompanhar as diligências para conseguir que corrijam tais acintes à sociedade.
sobre essa novela, veja a série zumbi trapalhares, I a VII.

e, se não for pedir demais, que orientem também os digitadores a digitar os dados com um pouco mais de carinho: ninguém merece o morro dos ventos viajantes nem o rei epido e quetais.



C O N V I T E

A Biblioteca Demonstrativa de Brasília - BDB (W/3-Sul, EQ 506/7) convida para uma palestra que será dividida em duas partes: a primeira será sobre “O ISBN: ORIENTAÇÕES SOBRE SUA UTILIZAÇÃO”, e a segunda parte será sobre “DEPÓSITO LEGAL”, no dia 22 de outubro (quinta-feira), às 19h.

As palestrantes serão as bibliotecárias ANDRÉA COELHO DE SOUZA, há 6 anos, Chefe da Agência Brasileira do ISBN e LUCIANA GRIMMS, Coordenadora de Serviços Bibliográficos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

Após as palestras, as professoras estarão à disposição dos interessados para tirar suas dúvidas.

O ISBN – International Standard Book Number é um sistema internacional padronizado que identifica numericamente os livros segundo o título, o autor, o país, a editora, individualizando-os inclusive por edição. Utilizado também para identificar software, seu sistema numérico é convertido em código de barras, o que elimina barreiras linguísticas e facilita a sua circulação e comercialização. Criado em 1967 por editores ingleses, passou a ser amplamente empregado, tanto pelos comerciantes de livros, quanto pelas bibliotecas, até ser oficializado em 1972, como norma internacional pela International Standard Organization - ISO 2108 - 1972. O sistema ISBN é controlado pela Agência Internacional do ISBN, que orienta, coordena e delega poderes às agências nacionais designadas em cada país. A Agência Brasileira, com a função de atribuir o número de identificação aos livros editados no país é, desde 1978, a Fundação Biblioteca Nacional. Adotado internacionalmente, o ISBN simplifica a busca e a atualização bibliográfica, concorrendo para a integração cultural entre os povos.

As inscrições são GRATUITAS, mas deverão ser feitas antecipadamente por e-mail: procult.bdb@bn.br e bdb@bn.br ou pelos telefones: 3244-3015 e 3443-568

Contamos com sua presença!

Maria da Conceição Moreira Salles
Coordenadora da BDB

imagem: crafty chica

26 de ago. de 2009

1 = 2

retomando o milagre da multiplicação dos verbetes que se operou no dicionário filosófico da martin claret: no original, há um que se chama "bornes de l'esprit humain".

"hmmm, 'fronteiras' e 'limites' são coisas muito diferentes", deve ter pensado pietro nassetti ou quem por ele, ao folhear as traduções em português que estavam dando sopa por ali. e mandou ver.

assim o verbete "fronteiras do espírito humano" na tradução de líbero rangel de tarso reaparece ipsis litteris no "capítulo" 61 nassetti-plagetiano do dicionário filosófico.

já o verbete "limites do espírito humano" da tradução de bruno da ponte e joão lopes alves ressurge toscamente arremedado no "capítulo" 89 da edição plagetiana.

- fronteiras do espírito humano

estão em toda parte, meu pobre doutor. queres saber por que teus pés obedecem a tua vontade e teu fígado não? desejas saber como se forma o pensamento em teu miserável entendimento e esta criança no útero desta mulher? (líbero rangel, atena, p. 182)
estão em toda parte, meu pobre doutor. queres saber por que teus pés obedecem a tua vontade e teu fígado não? desejas saber como se forma o pensamento em teu miserável entendimento e esta criança no útero desta mulher? (pietro nassetti, claret, p. 245)

- limites do espírito humano

surgem de todos os lados, pobre doutor. queres saber por que o teu braço e o pé obedecem à tua vontade e por que o fígado não te obedece? indagas como o pensamento se forma no teu tímido entendimento e como se gera aquela criança no útero da mãe? (bruno da ponte e joão lopes alves, abril, p. 241)
estes limites surgem de todos os lados, pobre doutor. queres saber por que o teu braço e o pé obedecem à uma vontade e por que o fígado é diferente? queres saber como o pensamento se forma no teu simples entendimento e como se gera aquela criança no útero da mãe? (pietro nassetti, claret, p. 357)

imagem: 10-feet-under.blogspot.com

25 de ago. de 2009

ao mestre com carinho



a obra de tommaso campanella, a cidade do sol, em tradução de paulo m. oliveira publicada pela editora atena (1935, em inúmeras reedições), ressurge pela editora rideel (2004, com reedições), com sua pretensa tradução atribuída ao nome de heloísa da graça burati. a cópia vai do começo ao fim, com algumas trocas de palavras por sinônimos.

1. paulo m. oliveira

Grão-mestre — Vamos, peço-lhe, conte finalmente o que lhe aconteceu durante essa viagem.
Almirante — Já lhe disse como fiz a volta da terra e, por fim, perto da Taprobana, como fui constrangido a desembarcar e, com receio dos habitantes, a embrenhar-me numa floresta, de onde só sai, depois de muito tempo, para alcançar uma extensa planície sob a linha do equador.
G. M. — E que lhe sucedeu, então?
ALM. — Subitamente, encontramos um numeroso grupo de homens e mulheres, todos armados, alguns conhecendo nossa língua, que logo nos fizeram companhia e nos levaram à Cidade do Sol.
G. M. — Pode dizer-me como é construída essa cidade e qual a sua forma de governo?
ALM. — A maior parte da cidade está situada sobre uma alta colina que se eleva no meio de vastíssima planície. Mas, as suas múltiplas circunferências se estendem num longo trecho, além das faldas do morro, de forma que o diâmetro da cidade ocupa mais de duas milhas, por sete do recinto total. Mas, achando-se sobre uma elevação, apresenta ela uma capacidade bem maior do que se estivesse situada numa planície ininterrompida. Divide-se em sete círculos e recintos particularmente designados com os nomes dos sete planetas. Cada círculo se comunica com o outro por quatro diferentes caminhos, que terminam por quatro portas, voltadas todas para os quatro pontos cardeais da terra. A cidade foi construída de tal forma que, se alguém, em combate, ganhasse o primeiro recinto, precisaria do dobro das forças para superar o segundo, do triplo para o terceiro, e, assim, num contínuo multiplicar de esforços e de trabalhos, para transpor os seguintes. Por essa razão, quem se propusesse expugná-la precisaria recomeçar sete vezes a empresa. Considero, porém, humanamente impossível conquistar apenas o primeiro recinto, de tal maneira é ele extenso, munido de terraplenos e guarnecido de defesas de toda sorte, torres, fossas e máquinas guerreiras. Assim é que, tendo eu entrado pela porta que dá para o setentrião (toda coberta de ferro e fabricada de modo que pode ser levantada e abaixada, fechando-se com toda a facilidade e com plena segurança, graças à arte maravilhosa com que as suas engrenagens se adaptam às aberturas dos possantes umbrais), o que primeiro me despertou a atenção foi o intervalo formado por uma planície de setenta passos de extensão e situada entre a primeira e a segunda muralhas. Distinguem-se, daí, os grandiosos palácios que, de tão unidos uns aos outros, ao longo da muralha do segundo círculo, parecem mais um só edifício. A meia altura desses palácios, vêem-se surgir, de fora para dentro do círculo, várias arcadas com galerias superiores, sustentadas por elegantes colunas e circundando quase toda a parte inferior do pórtico, à maneira dos peristilos ou dos claustros religiosos. Em baixo, além disso, só estão encravados na parte côncava das muralhas, e é caminhando no plano que se penetra nos compartimentos inferiores, ao passo que, para alcançar os superiores, devem subir-se umas escadas de mármore que conduzem às galerias internas, chegando-se então às partes mais altas e mais belas dos edifícios, as quais recebem luz pelas janelas existentes tanto na parte côncava como na convexa das muralhas, estupendas por sua sutileza. Cada muralha convexa, isto é, a sua parte externa, tem uma espessura de cerca de oito palmos, por três somente da parte côncava, ou seja a sua parte interna, enquanto os tabiques têm apenas um, ou pouco mais. Atravessada a primeira planície, chega-se à segunda, mais estreita uns três passos, e aí se descobre a primeira muralha do segundo círculo, igualmente guarnecido de palácios que, como os do primeiro círculo, possuem galerias em baixo e em cima, havendo na parte interior outra muralha interna que circunda os palácios e tem em baixo sacadas e peristilos sustentados por colunas, sendo que em cima, onde se acham as portas das casas superiores, apresenta preciosas pinturas. E assim, por esses círculos e duplas muralhas que cercam os palácios, ornados de galerias sustentadas por colunas, chega-se à última parte da cidade, sempre caminhando no plano. Só quando se entra pelas portas duplas dos vários circuitos, uma na muralha interna e a outra na externa, é que se sobem uns degraus de tal forma construídos que mal se sente a subida, pois estão colocados obliquamente e muito pouco mais elevados uns do que os outros. No cimo do monte, encontra-se, então, uma espaçosa planície, em cujo centro se ergue um templo de maravilhosa construção.

2. "heloísa da graça burati"

GRÃO-MESTRE— Vamos, peço-lhe, conte finalmente o que lhe aconteceu durante essa viagem.
ALMIRANTE — Já lhe disse como fiz a volta da terra e, por fim, perto da Taprobana, como fui obrigado a desembarcar e, com receio dos habitantes, a embrenhar-me numa floresta, de onde só sai, depois de muito tempo, para alcançar uma extensa planície sob a linha do Equador.
G. M. — E que lhe sucedeu, então?
ALM. — Subitamente, encontramos um numeroso grupo de homens e mulheres, todos armados, alguns eram conhecedores da nossa língua, que logo nos fizeram companhia e nos levaram à Cidade do Sol.
G. M. — Pode dizer-me como é [] essa cidade e qual a sua forma de governo?
ALM. — A maior parte da cidade está localizada sobre uma alta colina que se ergue no meio de uma ampla planície. Mas as suas múltiplas circunferências se estendem num longo trecho, além das encostas do morro, de forma que o diâmetro da cidade ocupa mais de duas milhas por sete do recinto total. Mas, achando-se sobre uma elevação, ela apresenta uma capacidade bem maior do que se estivesse situada numa planície interrompida [sic]. Divide-se em sete círculos e recintos particularmente designados com os nomes dos sete planetas. Cada círculo se comunica com o outro por quatro diferentes caminhos, que terminam por quatro portas, voltadas todas para os quatro pontos cardeais da terra. A cidade foi construída de tal forma que, se alguém ganhasse em combate o primeiro recinto, precisaria do dobro das forças para superar o segundo, do triplo para o terceiro, e, assim, num contínuo multiplicar de esforços e de trabalhos, para transpor os seguintes. Por essa razão, quem se propusesse subjugá-la precisaria recomeçar sete vezes o empreendimento. Porém considero humanamente impossível conquistar sequer o primeiro recinto, já que ele é extenso, munido de terraplenos e guarnecido de defesas de todo tipo, torres, fossas e máquinas guerreiras. Assim é que, tendo eu entrado pela porta que dá para o norte (toda coberta de ferro e fabricada de modo que pode ser levantada e abaixada, fechando-se com toda facilidade e com plena segurança, graças à arte maravilhosa com que as suas engrenagens se adaptam às aberturas dos robustos umbrais), o que primeiro me chamou a atenção foi o intervalo formado por uma planície de setenta passos de extensão e situada entre a primeira e a segunda muralhas. Distinguem-se, daí, os grandiosos palácios que, de tão unidos uns aos outros, ao longo da muralha do segundo círculo, parecem mais um edifício só. A meia altura desses palácios vêem-se surgir, de fora para dentro do círculo, várias arcadas com galerias superiores, sustentadas por elegantes colunas e circundando quase toda a parte inferior do pórtico, à maneira dos peristilos ou dos claustros religiosos. Embaixo, além disso, só estão encravados na parte côncava das muralhas, e é caminhando no plano que se penetra nos compartimentos inferiores, ao passo que, para alcançar os superiores, é necessário subir umas escadas de mármore que conduzem às galerias internas, chegando-se então às partes mais altas e belas dos edifícios, as quais recebem luz pelas janelas existentes tanto na parte côncava como na convexa das muralhas, estupendas por sua sutileza. Cada muralha convexa, isto é, a sua parte externa, tem uma espessura de cerca de oito palmos, por três somente da parte côncava, ou seja a sua parte interna, enquanto os tabiques têm apenas um, ou pouco mais. Atravessada a primeira planície, chega-se à segunda, mais estreita uns três passos, e aí se descobre a primeira muralha do segundo círculo, igualmente guarnecido de palácios que, como os do primeiro círculo, possuem galerias embaixo e em cima, havendo na parte interior outra muralha interna que circunda os palácios e tem na parte inferior sacadas e peristilos sustentados por colunas, sendo que em cima, onde se acham as portas das casas superiores, apresenta preciosas pinturas. E assim, por esses círculos e duplas muralhas que cercam os palácios, ornados de galerias sustentadas por colunas, chega-se à última parte da cidade, sempre caminhando no plano. Só quando se entra pelas portas duplas dos vários circuitos, uma na muralha interna e a outra na externa, é que [] sobem uns degraus de tal forma construídos que mal se sente a subida, pois estão colocados obliquamente e muito pouco mais elevados uns do que os outros. No alto do monte, encontra-se, então, uma espaçosa planície, em cujo centro se ergue um templo de maravilhosa construção.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



imagem: realfake

22 de ago. de 2009

manuscrito encontrado em uma garrafa

ainda documentando o plágio de edgar allan poe, histórias extraordinárias, pela martin claret, em pseudotradução, na verdade copiada de brenno silveira.

[...] Escapei da morte por verdadeiro e inexplicável milagre. Aturdido pelo violento impacto da água, encontrei-me, ao voltar a mim, comprimido entre o leme e o cadaste. Pus-me de pé com grande dificuldade e, ao olhar, tonto, em torno, tive a impressão de que nos achávamos em meio de ondas de rebentação, tão espantoso e inacreditável era o redemoinho de águas tumultuosas e espumejantes em que nos encontrávamos engolfados. Decorrido um momento, ouvi a voz de um velho sueco, que embarcara poucos minuto antes de o navio partir. Gritei-lhe a plenos pulmões e ele, afinal, veio ao meu encontro, cambaleante. Verificamos, logo, que éramos os únicos sobreviventes do acidente. Com exceção de nós, todos os que se achavam no convés haviam sido varridos para o mar; o capitão e os marinheiros deviam ter perecido enquanto dormiam, pois as cabinas foram inundadas. Sem assistência, pouco podíamos fazer pela segurança do navio, e nossos esforços foram, a princípio, paralisados pela impressão de que iríamos soçobrar. Nossa amarra, certamente, ao primeiro sopro do furacão, partira-se como um fio de linha; do contrário, teríamos sido imediatamente tragados pelas vagas. Deslizávamos com espantosa velocidade sobre o mar, enquanto a água se precipitava sobre as visíveis brechas. O vigamento da popa estava errivelmente avariado e, sob odos os aspectosw, havíamos sofrido danos consideráveis; mas, para nossa grande alegria, vimos que as bombas funcionavam e que a carga permanecera mais ou menos em seu lugar. (brenno silveira)

[...] Escapei da morte por verdadeiro e inexplicável milagre. Atordoado pelo violento impacto da água, encontrei-me, ao recobrar os sentidos, comprimido entre o leme e o cadaste. Levantei-me e, ao olhar, zonzo, em volta, tive a impressão de que estávamos em meio de ondas de rebentação, tão assombroso e incrível era o redemoinho de águas tumultuosas e espumejantes em que estávamos mergulhados. Passado um momento, ouvi a voz de um velho sueco, que embarcara poucos minutos antes de o navio partir. Gritei-lhe a plenos pulmões e ele, cambaleante, veio ao meu encontro, afinal. Logo verificamos que éramos os únicos sobreviventes do acidente. Exceto nós, todos os que estavam no convés haviam sido varridos para o mar; o capitão e os marinheiros deviam ter morrido enquanto dormiam, pois as cabinas foram inundadas. Sem ajuda, pouco podíamos fazer pela segurança do navio, e nossos esforços foram, a princípio, paralisados pela impressão de que iríamos afundar. Nossa amarra, certamente ao primeiro sopro do furacão, partira-se como um fio de linha. Se não fosse assim, teríamos sido imediatamente tragados pelas ondas. Deslizávamos com espantosa velocidade sobre o mar, enquanto a água se precipitava sobre as visíveis tendas [sic!]. O vigamento da popa estava terrivelmente danificado e, sob todos os aspectos, havíamos sofrido danos consideráveis; porém, para nossa grande alegria, vimos que as bombas funcionavam e que a carga continuara mais ou menos em seu lugar. (pietro nassetti)


abaixo o original e uma amostra de outra tradução de verdade:


By what miracle I escaped destruction, it is impossible to say. Stunned by the shock of the water, I found myself, upon recovery, jammed in between the stern-post and rudder. With great difficulty I gained my feet, and looking dizzily around, was at first struck with the idea of our being among breakers; so terrific, beyond the wildest imagination, was the whirlpool of mountainous and foaming ocean within which we were ingulfed. After a while, I heard the voice of an old Swede, who had shipped with us at the moment of our leaving port. I hallooed to him with all my strength, and presently he came reeling aft. We soon discovered that we were the sole survivors of the accident. All on deck, with the exception of ourselves, had been swept overboard; the captain and mates must have perished as they slept, for the cabins were deluged with water. Without assistance, we could expect to do little for the security of the ship, and our exertions were at first paralyzed by the momentary expectation of going down. Our cable had, of course, parted like pack-thread, at the first breath of the hurricane, or we should have been instantaneously overwhelmed. We scudded with frightful velocity before the sea, and the water made clear breaches over us. The frame-work of our stern was shattered excessively, and, in almost every respect, we had received considerable injury; but to our extreme joy we found the pumps unchoked, and that we had made no great shifting of our ballast.


Não sei dizer por que milagre escapei à destruição. Atordoado pelo embate de água, dei por mim, uma vez refeito, entalado entre o cadaste e o leme. com grande dificuldade, pus-me de pé e, olhando confusamente ao redor, fui inicialmente assaltado pela idéia de que estivéssemos no meio de recifes, de tal modo terrível e inimaginável era o turbilhão do oceano alteroso e espumejante em que estávamos mergulhados. Passados algum tempo ouvi a voz de um velho sueco, que embarcara conosco no momento em que largávamos do porto. Gritei-lhe com todas as forças e ele acabou por dirigir-se, a cambalear, para a popa. Depressa descobrimos que éramos os únicos sobreviventes do acidente. Todos os que estavam no convés, exceto nós, tinham sido varridos pela borda fora; o comandante e os oficiais deviam ter perecido durante o sono, visto que os camarotes se encontravam totalmente alagados. Sem auxílio, pouco poderíamos contar fazer pela segurança do navio e os nossos esforços foram de princípio paralisados pela perspectiva momentânea de irmos a pique. Era evidente que a amarra se quebrara como se fosse uma guita ao primeiro sopro do furacão, pois de contrário teríamos sido instantaneamente esmagados. Corríamos com o furacão a uma velocidade assustadora e as águas abriam brechas visíveis à nossa frente. A estrutura da popa tinha sofrido enormes danos e, praticamente sob todos os aspectos, fôramos objeto de consideráveis avarias; mas para nossa extrema alegria, descobrimos que as bombas não tinham ficado obstruídas e que o lastro não sofrera grande deslocação. (oscar mendes e milton amado)



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



imagem: www.historiaehistoria.com.br