29 de dez de 2008

trivia I


não que faça muita diferença, mas vão aí uns rudimentos sobre a construção de "pseudônimos".

começa assim: a cova cultural* resolve publicar a toque de caixa uma coleção tirada do baú, "obras-primas", um monstrengo montado a partir de vários pedaços de coleções anteriores da abril cultural, com o patrocínio da suzano celulose bancando 50% da edição.

ela descobre que não detém os direitos de publicação de boa parte dos títulos, mas não vai se deixar desacorçoar por um detalhe desses. fácil, é só trocar os nomes dos verdadeiros tradutores por outros nomes, alguns de gente de verdade, outros inventados. afinal, que diferença faz... (isso me lembra o que me contaram do editor da claret num encontro que ele teve com uma das inúmeras editoras lesadas: "ué, mas por que tanta história? é só uma tradução, é tudo a mesma coisa!")

e assim fábio m. alberti, um fulaninho de carne e osso, assina o terceiro volume da coleção, a divina comédia, inaugurando o capítulo das fraudes na coleção covaculturaliana. é o terceiro volume, mas digo que é ele que inaugura porque os volumes anteriores (dom quixote e os trabalhadores do mar) trazem as traduções em domínio público dos dois viscondes e de machado de assis.

aí dona janice resolve pular o nome da tradutora natália nunes no quarto volume, e no quinto volume ressurge o mesmo fábio m. alberti, agora em cyrano de bergerac. todos hão de convir que não são as obras mais banais do mundo, e que o tal fábio foi trêfego e ligeirinho em abocanhar essas iguarias.
[em tempo, o m. é de "maximiliano": fábio maximiliano alberti.]

seguem-se alguns enricos corvisieris, umas mirtes ugedas, e lá pelas tantas a turminha bem-humorada das cobras-primas fica indecisa sobre o nome a atribuir às traduções de fausto e werther, em substituição aos nomes de silvio meira e galeão coutinho.

é então que tiram do chapéu um tal "alberto maximiliano" para ornar o volume de goethe nas obras-primas cova-culturais. em vista do exposto acima, a fonte de inspiração dispensa maiores esclarecimentos.

uma outra solução, mais indireta, mas também mais zombeteira, foi a que a divertida trupe deu ao sumiço de rui cabeçadas nos créditos de tradução de o leopardo: criou-se o espectral leonardo codignoto. o processo mental não é difícil de acompanhar, mas é como uma piada: se explicar, perde a graça, e o leitor certamente entenderá a composição do trocadilho.

já no nível do puro escárnio foi a utilização do nome "calvin carruthers". esse caso saiu na matéria do prosa&verso do globo, mas vou repetir aqui.

calvin carruthers aparece como tradutor de a metamorfose do kafka nessas obras covaculturais. aviso que não fui atrás dessa tradução, não sei se é plágio ou deixa de ser, mas o uso do nome de fantasia por si só já dá um certo pano para a manga.

bom, qualquer criança sabe que o protagonista do livro se chama gregor samsa. e de que rincão do mundo algum desinfeliz resolveu desenterrar o nome de "calvin carruthers" como tradutor das vicissitudes de gregor samsa?

aí, por mero acaso, você sabe que um ator chamado vic tayback fez em 1971 um filme de horror chamado blood and lace, onde representava o papel de um detetive chamado "calvin carruthers". e sabe também que no último filme do tayback antes de morrer, em 1990, seu personagem se chamava george samsa. (quem gostar dessas curiosidades, pode ver a filmografia dele.) aqui o processo mental da turminha covaculturaliana é mais elaborado, com uma triangulação das referências, mas nada muito complicado. o complicado é o despudor com que se exibe o prazer pelo escárnio.

a clara sensação que a gente tem é de uma criançada pintando o diabo a quatro e achando suas molecagens muito espertas e engraçadas. o problema é quando as pequenas travessuras se põem a serviço de uma prática editorial desonesta, que atinge milhões de pessoas. aí perdem qualquer graça.

*agradeço ao comentarista anônimo deste blog o bem-azado apelido de cova cultural.

imagem: cordel sobre o plágio, www.globoonliners.com.br

2 comentários:

  1. Anônimo30.12.08

    Uau, agora v. bateu forte, denise... Mas isso é o que v chama de brincar?;)
    Esse recado v não precisa postar não, se não quiser. Não diz respeito a nenhum assunto que rola em seu blog. Só escrevi pra me desculpar por umas grosserias que escrevi, como a do cerol, e mais umas 2 ou 3. Eu simplesmente não percebi que extrapolei. Mandei mal mesmo. Estar anônimo já é meio chato, mas ser anônimo e sem-noção já é demais... Se pudesse apagar o post em questão eu te agradeceria. Abraço...

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  2. claro que não, meu querido. publiquei todos os teus comentários, com ou sem sarcamos. e não estou sendo desrespeitosa neste post, apenas situando um pouco o povo. a brincadeira mal começou.
    vamos lá, mocinho. your turn now.

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