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18 de ago. de 2024

entrevistas, debates etc.

 transmitidos no youtube, disponíveis aqui.



22 de jun. de 2024

entrevista

reproduzo abaixo uma entrevista que dei à querida luci collin alguns anos atrás (em 2019). havia um roteiro com as questões, e então respondi em texto corrido, dividido em quatro seções.


Entrevista Denise Bottmann

Quais foram as suas primeiras leituras?

Autores/Autoras que mais marcaram a sua vida acadêmica e que de alguma forma mais influenciaram a sua formação.

Como e quando você iniciou a sua trajetória de tradutora?

Você é uma tradutora multifacetada: Qual o seu gênero preferido?

Você acredita ser a tradução uma forma de autoria?

Segue algum método/modelo para traduzir?

Você escolheu os autores(as) que traduziu?

Com qual autor/autora você mais se identifica?

Você dialoga com os autores dos livros quando traduz

Ao traduzir, você conscientemente segue algum tipo de teoria?

Como é a sua relação com as editoras?

O que você tem na sua gaveta? Quais são seus projetos…

Ainda quer traduzir? O que ainda precisa ser traduzido.

O Brasil traduz muito, como você vê explicaria essa relação?

Você é a idealizador e responsável pelo movimento “não gosto de plágio”. Poderia falar como isso se originou, como foi o desenvolvimento e como está a situação atual?


I

 É curioso fazer um apanhado retrospectivo assim. A gente nunca sabe bem o que está vivendo enquanto está vivendo aquilo, não é mesmo? Depois as coisas se amontoam e, olhando para trás, mesmo que num recorte bastante relativo, as coisas parecem adquirir uma consistência, uma possibilidade de caracterização que não tinham na época.

Nasci mais de sessenta anos atrás, em 1954. Então, naquela época, nem televisão tinha na maioria das casas. Era jornal, revista, rádio, vitrola, livro. Acho que meus pais compraram uma televisão só em 1960 ou 1961, e eu assistia só uma hora por dia, e era aquele programa infantil com a Cidinha Campos, às quatro da tarde.

Com sete anos, peguei sarampo e fiquei uma semana de cama. Meu pai, que era um doce de pessoa, já no segundo dia passou na Biblioteca Monteiro Lobato, lá na Vila Buarque, em São Paulo, e tirou um livro para mim. Era As reinações de Narizinho. Eu já sabia ler, claro, estava no segundo ano primário, mas era o primeiro livro-livro, parecia até um catatau, com aquela capa dura e folha grossa, que deixava ele bem volumoso. Nossa, tracei o livro; no outro-outro dia meu pai devolveu na biblioteca e trouxe outro, também do Monteiro Lobato – não lembro bem qual, mas tinha o Visconde de Sabugosa na capa. No sexto dia, veio mais um livro, e esse nem sei qual foi. Mas a partir daí virei ledora compulsiva.

Por sorte, em casa, mesmo a gente não tendo muitos recursos, havia uma bibliotecazinha bem razoável. E existiam na época umas coleções infanto-juvenis bem legais, Trópico Ilustrado, Tesouro da Juventude, mesmo a Biblioteca Larousse, que dava para ler e reler. No final de semana, com a mesadinha que eu ganhava, ia na banca de jornal e comprava revistinha. Além disso, mesmo já com televisão em casa, à noite a gente não assistia, mas ficava conversando, jogando algum jogo de baralho ou palitinho e fazendo palavra cruzada! Eu adorava fazer com meu pai porque ele fingia que não sabia alguma palavra e me dizia para ir procurar no dicionário. Então dicionário sempre foi uma coisa muito amiga para mim, desde menina.

Bom, depois dessa fase inicial, o mais marcante foi mais ou menos a partir do terceiro ginasial, com uns doze anos de idade: o colégio onde eu estudava, o Rio Branco, tinha uma biblioteca que foi meu encanto por muito tempo. A gente tinha de pedir o livro no balcão, para a bibliotecária, que ia pegar na estante. Sei que, depois de um tempo, ela me deixava entrar sozinha e percorrer as prateleiras, para escolher o que quisesse.

Em suma, lia muito, basicamente literatura, desde Mika Waltari, Vicki Baum, Somerset Maugham, Jorge Amado, José Mauro de Vasconcelos a Kafka, Maupassant (que era da minha mãe e ela me proibia ler, pois dizia que eu era muito menina para aquilo, mas eu lia escondido mesmo assim), Tchekhov num volume lindo de contos que minha tia-avó me deu no meu aniversário de doze anos, até um Thomas Mann lá de casa que não dei conta de acabar, Os Buddenbrook. Mas não só; adorava mitologia, história geral e ganhei dois volumes maravilhosos sobre mitologia, um do Thomas Bulfinch, bem famoso, o outro não lembro. Li umas oitocentas vezes cada um deles.

Claro que, a essas alturas, meu português era bem razoavelzinho, sentia-me à vontade na língua, com facilidade de escrever. Mas não que desse muito para exercer meus pendores literários nas aulas propriamente ditas, porque era tudo na base da decoreba: história, geografia, matemática, ciências, inglês, francês e mesmo português. Nas aulas de português, a parte de leitura era, com uma tediosa previsibilidade, Machado de Assis (o de Helena e Iaiá Garcia, e não Brás Cubas ou Memorial de Aires, que hoje em dia é meu favoritaço do Machado), José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Castro Alves, Olavo Bilac... Redação, só uma vez por semana.

Em paralelo, uma coisa que estava sempre presente em casa eram as línguas estrangeiras: minha mãe dava aulas de inglês para alguns alunos particulares, meu pai sabia alemão e às vezes ficava praticando a escrita gótica clássica, minha irmã tinha o Yazigi completo e fazia francês na Aliança e depois fez o Nancy. E veja como é bizarra essa coisa de família: todos tão envolvidos em línguas e eu fugia das aulas de inglês na escola pedindo dispensa, alegando que já sabia muito inglês por causa da minha mãe (o que, claro, não era nem remotamente verdade); a única coisa que eu sabia em alemão era contar até dez; passei anos implicando com francês, cabulando todas as aulas que conseguisse, até ficando de segunda época...

Tudo isso na época do ginásio. Ai escolhi o clássico e, por alguma razão súbita e misteriosa, apaixonei-me pelo francês. O professor, que era o mesmo do ginasial, nem acreditou e dava risada. Virei ótima aluna de francês. E lá ia de Racine, Chateaubriand, Hugo, Verlaine, e a gente tinha de decorar os poemas em casa para recitar na chamada. Quase cinquenta anos depois, ainda me lembro da diversão que era enrolar a língua nos “l” para recitar les sanglots longs des violons de l’automne. E Baudelaire, claro, o grande preferido do nosso professor: era uma enxurrada de Baudelaires, e na esteira Rimbaud, com uns Villiers d’Isle-Adam de lambugem no meio.

No clássico tinha latim também. Esta é uma das grandes decepções da minha vida. Foi o professor mais deprimente que já conheci, triste, cansado, desanimado, sempre com o ar mais infeliz da face da terra. Três anos que não serviram para quase nada. Melhor nem lembrar. Uma lástima. Em três anos, se chegamos no ablativo absoluto, foi muito.

Mas, na verdade, na escola sempre fui da chamada “turma do fundão”. Ria, conversava, colava nas provas daquelas matérias mais infernalmente tediosas, cabulava aula indiscriminadamente, até chegar no limite máximo de faltas, e ia jogar pingue-pongue no grêmio, que ficava no térreo. Paixão por alguma matéria só tive duas: geografia com um professor que era incrível e foi o único ser no ginásio que me levou a pedir para uma colega que sentava bem na frente para trocar de carteira comigo durante as aulas dele. Pena que foi só um ano. E francês, já no clássico.

Quanto ao inglês, fui fazer fora. Muitas coleguinhas faziam a Cultura Inglesa, que ficava perto, ali em Higienópolis. Meus pais me resolveram pôr na UCBEU (União Cultural Brasil-Estados Unidos), que era longe, numa paralela da Paulista, tinha de tomar ônibus, mas minha mãe adorava o inglês americano: ela tinha feito o Bennett no Rio de Janeiro, e acho que foi por isso que resolveu me botar na União Cultural. Não foi nenhuma grande paixão, mas fiz lá até o começo do intermediário.

O grande marco nessa rotina escolar foi o cursinho. No último ano do clássico, fui fazer o semi no Equipe, que na época ainda era só cursinho. Nossa, que revelação. Foi todo um novo mundo se abrindo para mim.

Mas antes deixa eu contar um detalhe. Outro dia, uns seis meses atrás, pelo mais fortuito dos acasos, encontrei um caderno meu do primeiro clássico, do curso de inglês. Imagina só. Bom, folheando, sabe o que tinha lá? O caderno era dividido com folhas dobradas separando os temas das aulas: gramática, exercícios, versão e tradução. E lá encontrei três traduções de três contos que o professor tinha dado como lição de casa para a gente fazer. Não lembro onde pus de volta o caderno; senão, eu pegava e ia ver de novo os nomes dos contos; só sei que um deles era, veja só, A mão do macaco, do William Jacobs – em suma, eram legais, e a tradução, que reli nesses meses atrás, parecia bem normalzinha, corretinha. Quer dizer, naquela época a gente praticava tradução pelo menos desde os catorze anos de idade. Fazia parte do curso, fazia parte das lições de casa. Tipo, coisa normal, quase trivial.

Mas voltando ao Equipe. Foi lá que tive meu primeiro emprego na vida, embora informal, foi no Equipe, em São Paulo, onde eu estava fazendo cursinho, um semi, para prestar vestibular. Isso foi em 1971: eu tinha 16 anos, escrevia bem, e o Gilson, professor de redação do cursinho, me convidou a me juntar com seus assistentes que liam, corrigiam e atribuíam conceito às redações da moçada. Foi lá que então comecei a trabalhar com o Carlinhos e o Zé Antônio - José Antônio Arantes, que veio a se tornar sensível e exímio tradutor.

O Zé trabalhava de revisor na Edgard Blücher e resolveu sair de lá. Então me deu o toque de que ia abrir a vaga, e lá fui eu bater à porta da editora. Me apresentei, fiz teste, passei e fui contratada a título de experiência. A Blücher é uma editora técnica, e eu tinha feito clássico: nada de matemática, física, química ou biologia, a não ser o que se aprendia no ginasial. Imagine! Mas era para revisão da segunda prova e aí o importante eram o português, a atenção e a capacidade de concentração.

Fiquei encantada em aprender coisas do ofício - basicamente as marcações, que não conhecia - e decorar palavras às quais eu devia prestar a maior atenção, que era onde mais passavam as gralhas: nunca me esqueci da biorrefringência (naquela época já era com dois erres e tudo junto, e a atenção que a gente tinha de prestar era no "n", pois parece que os gráficos viviam imprimindo "biorrefrigência"). Se eu pegasse alguma biorrefrigência e pedisse um "n", meu período de experiência estaria no papo, me diziam os colegas.

Fiquei uns dois meses na Edgard Blücher e então saí, por nenhuma razão em especial, talvez por ter em mim uma espécie de bicho-carpinteiro que não me deixava parar por muito tempo em lugar nenhum (mas só depois vim a constatar essa minha tendência) ou por não me sentir especialmente motivada em revisar livros cujo conteúdo transcendia meu entendimento e que eu não tinha a menor esperança de algum dia vir a apreciar, como merecem ser apreciados todos os livros que a gente lê.

Depois fiquei sabendo que a Abril, que na época era o máximo, ia fazer um teste de revisão. Fiz, passei e entrei como trainee. Lá foi sensacional como experiência, embora eu tenha cumprido apenas meus trinta dias e depois puxado o carro. Mas fundamental mesmo foi a Editora Perspectiva, onde fui trabalhar um pouco depois. Foi maravilhoso. Pois contato com o mundo editorial faz muita diferença, toda a diferença, na verdade: você começa a entender o que é um livro.

Nesse meio tempo, entrei na faculdade, na USP, em ciências sociais. Mas era uma coisa deprimente. Isso foi em 1972, maior perseguição política, vários professores exilados, falta de cursos, banheiros pichados de cima a baixo com palavras de ordem e de resistência, coisa e tal. Pedi transferência para o curso de filosofia. Muito chatinho; um professor jovem, pernóstico, entochando As palavras e as coisas do Foucault naquela turminha de 17-18 anos. Sem chance, larguei. No ano seguinte tentei de novo; havia um curso novo, que estavam criando naquele ano, de semiótica. Mas nem cheguei a frequentar.

Larguei mão da faculdade, virei macrobiótica, fui morar em comunidade, essas coisas, e aí acho que foi que fiz minhas primeiras traduções do inglês que vieram a ser impressas, voluntárias, claro: um manual de shiatsu e breves artigos para a revista Satori, que o prof. Tomio Kikuchi, o grande sensei da tchurma, mantinha.

Ou seja, por alguns anos, foi um tal de entrar e sair de faculdade, de pegar mochila e viajar; então fiquei em Curitiba um tempo. Aos 20 anos casei, fomos morar na África (Guiné-Bissau, ambos muito idealistas), tivemos nossa filha, voltamos uns anos depois para o Brasil, retomei a faculdade, separei. É dessa época que dato meu interesse mais constante em tradução. Traduzia poetas que amava (Eliot, por exemplo), e na época andava lendo freneticamente o Debord, Guy Debord, e textos da Internacional Situacionista. Aí, um dia – eu assinava um jornal baiano chamado O inimigo do rei – resolvi enviar um textinho do Debord para eles, que traduzi do espanhol. Pois veja: era bem mais pobrezinho o setor editorial naquela época, sob tantos anos de ditadura militar; coisas mais tchans nem se publicavam muito, então muita coisa nova, importante, a gente só encontrava em edições importadas. Havia muitos livros em espanhol, importados sobretudo da Argentina, mas também do México, que eram mais em conta e em maior variedade do que outros importados, disponíveis, por exemplo, na Livraria Francesa. Enviei o texto para o Inimigo; publicaram, e traduzi mais alguns. Aí alguém de lá me escreveu avisando que tinham criado uma dissidência e estavam com uma revista, a Barbárie. Para a Barbárie colaborei com mais algumas traduções voluntárias, sempre de textos situacionistas.

Então acho simpático esse começo quando começaram a publicar essas minhas traduções: entre macrobióticos e anarquistas, veja só!

Depois fui fazer pós, em Campinas, em 1982, e lá traduzi bastante para uma revista que resolvemos criar, a RH – Revista de História; traduzi Lefort, Hayden White e outros, sempre na maior “pirataria”. Não pensávamos em termos de pirataria, nem passava pela cabeça. Se era um texto legal, importante para a área (História, no caso), a gente traduzia e publicava, e pronto. Um dia, me liga uma amiga de São Paulo, a jornalista e tradutora Fátima Murad, que me disse: “Olha, a Brasiliense me ofereceu um livro, mas estou com muito trabalho e não vai dar para pegar. Posso te indicar? Você tem interesse?”. Falei que sim. Bom, então fui até São Paulo, até a Brasiliense, peguei um teste, fiz, passei e fiquei incumbida da tradução: era o livrinho do Perry Anderson, que saiu em 1984 com o título de A crise da crise do marxismo. Aí a coisa na Brasiliense engatou: a seguir veio o Wallerstein, depois mais uma meia-dúzia de outros. Havia grande carência de textos historiográficos que eram muito apreciados lá pelo pessoal do departamento, e Edgar De Decca e Michael Hall me apresentaram ao Marcus Gasparian, da Paz e Terra, que estava com a importantíssima obra do Thompson parada lá, precisando de alguém da área para traduzir: The Making of the English Working Class. E também nessa época o Luiz Schwarcz estava saindo da Brasiliense para criar a Companhia das Letras e me chamou para ir para lá; isso em 1985. Também fiz algumas coisas nesses anos para a EdUSP e para a editora da Unicamp, bem legais, do inglês, do francês e do espanhol – em suma, sempre textos basicamente acadêmicos, para o público universitário. O leque se ampliou um pouco na Companhia das Letras, passando a traduzir também de outras áreas das humanidades.

Mas depois, lá por 1995, parei de traduzir. Tinha me mudado com meu companheiro, o Federico Carotti, para Registro, no Vale do Ribeira, e mesmo da Unicamp pedi a conta em 1996 (a essas alturas, desde 1983 eu dava aulas lá, no Depto. de Filosofia, na área de Teoria da História e Epistemologia das Ciências Humanas). Ai, depois de 1995, passei dez anos sem traduzir nada.

 

II

Somente em 2005 voltei a pôr a mão na massa, e meu retorno à tradução foi pela Cosac Naify, com o Franco Moretti, e lá comecei também a fazer coisas maravilhosas de história da arte, como Roberto Longhi e Matisse. De lá para cá, a tradução se tornou minha atividade profissional exclusiva, com esse foco mais variado, abrangendo a área de humanidades em acepção ampla, e não só história ou historiografia, nem coisas exclusivamente acadêmicas. Foi na Cosac, aliás, que fiz minha primeira tradução literária, se bem me lembro: O amante, de Marguerite Duras.* Eu conhecia razoavelmente bem a obra dela e, mesmo meio temerosa, aceitei a proposta.

Assim, se virei “tradutora multifacetada”, como você diz, foi algo meio gradual, que sentia que dava para ir incorporando conforme sentia maior segurança no ofício. E a gente, quando é tradutora profissional e mais ou menos especializada em determinadas áreas, pega um leque de autores de qualidade bastante variada. Em geral, não somos nós que indicamos ou escolhemos os livros nas editoras: quer dizer, você recusa se está entupida de trabalho ou se não domina aquele assunto ou se é algo meio brutal que dá nó nas tripas ou sobre algo com que você não tem a menor afinidade. Então a gente acaba não tendo um gênero preferido – o preferido, nessa ampla variedade, é o que mostra qualidade, seja o autor um teórico da pintura, um historiador, um romancista, um crítico literário ou um biógrafo. E qualidade, para mim, tem a ver com uma mescla sábia, discreta, sutil entre simplicidade e complexidade. Textos triviais costumam ser chatésimos de traduzir, sejam eles de literatura ou de, sei lá, epistemologia. São chatésimos porque dão sono, entediam, despertam vivas réplicas e objeções mentais frenéticas.... Pois claro que a gente, ao traduzir, está é tentando entender e acompanhar o raciocínio do autor ou, em literatura, o método compositivo dele. Os interessantes são aqueles cuja temática, evidentemente, não pode ser totalmente desconhecida para a gente. Um mínimo de desenvoltura na área a gente precisa ter. Mas, voltando, os interessantes são aqueles em que a gente aprende coisas novas, vê uma nova perspectiva dada àquele tema, entra em contato com uma nova interpretação do assunto, e que colocam algum tipo de – detesto o termo, mas vá lá – “desafio” intelectual. Então, naturalmente, claro que você fica dialogando com o autor; se não entende direito o raciocínio, obriga-se a voltar quantas vezes forem para entender melhor o argumento. Não é só entender o que está escrito, as palavras ali impressas; é entender o sentido daquilo e dentro daquele recorte ou daquela proposta do autor. E nunca, nunca, jamé dã lavi, você vai achar que é você quem sabe. A gente está ouvindo, por assim dizer, e tentando acompanhar de fato o desenvolvimento da coisa. A gente não é autor; a gente é, digamos, um tipo especial, muito atento, de leitor. Ou como quando você vai ao teatro: você assiste à peça, pode gostar, pode não gostar, pode entender, não entender, entender mais ou menos e pode recontar tudo aquilo com suas palavras, mas não foi você que fez aquilo. Traduzir, para mim, é meio isso. E “direito autoral”, claro que você tem, até por força de lei, mas esse direito autoral é sobre o texto traduzido, sobre aquela coisa que você passou pela sua cabeça e pôs em português, não sobre os dados, a trama, a estrutura argumentativa etc. – tal seria! Somos “autores de obra derivada”, este é o termo jurídico da coisa. Por isso também acho meio bocó falar em “recriação”, “transcriação” etc. O que a gente mais tem numa tradução são limites, e bastante férreos. Tradução às vezes é meio parecida com sudoku.

Criar, recriar, transcriar? Desculpe, acho isso mais palavrório bonito do que qualquer outra coisa, uma espécie de fazer da necessidade virtude e criar umas lantejoulas em torno, ou uma maneira de expressar um (justo) orgulho pelo trabalho feito. Mas, por falar nisso, tirando o tom às vezes meio farfelu, meio empetecado e precioso, gosto bastante, muito até, de algumas, muitas até, considerações do Haroldo de Campos. De todo modo, criação é criação, tradução é tradução. Não considero tradução, nem a mais sublime de todas, “arte”; tradutor não é artista, é artesão. 

No fundo, em tradução você pode fazer qualquer coisa e justificar como bem quiser, ou mesmo achar que não há nada a justificar – “Onde já se viu, justificar! É minha liberdade!”. Mas nem sempre a gente acha umas coisas muito convincentes. Claro que posso traduzir The book is on the table por, sei lá, Alberto escorregou e caiu no rio ou O cometa Hailey é visível a olho nu – nada me impede. Mas não sei se, traduzindo assim, vou conseguir, em primeiro lugar, pagar as contas no final do mês. A menos, claro, e é sempre uma hipótese possível, que eu desenvolva uma belíssima e abstrusa teoria explicando ao comum dos mortais o misterioso processo de reencarnação do verbo e fique famosa dando palestras remuneradas. Quer dizer, nesse sentido, traduzir é uma coisa que chega a ser caótica de tanta liberdade que você tem. Por outro lado, a gente é a gente, né? E cada um tem um jeito de pensar e de entender as coisas. Então creio que a grande, a grandíssima maioria traduziria The book is on the table por O livro está na, sobre a, em cima da mesa. Porque existe essa coisa danada que insistem em impingir na gente desde pequenininha, ou com a qual nossa mente vem até ingenitamente estruturada, que é a tal da estrutura da linguagem, sem contar essa coisa incrível, fenomenal, que chamam de “sentido”. Mas enganam-se os teóricos, mesmo os que acho menos escalafobéticos, quais sejam, os de alguma corrente funcionalista de tipo descritivista, que – vi uns meses atrás um artigo muito bom, pena que não lembro o nome – tratam a questão pegando por esse lado da nossa formação, desse nosso intelecto que tem uma certa padronização desenvolvida ao longo dos anos, com um trabalho lógico quase que automatizado, que funciona quase que intuitivamente, isto é, não de maneira analiticamente decupada, para o ato de entendimento e transposição de uma língua para outra – nesse artigo, o autor comentava que esse processamento mental era o que fornecia os resultados preliminares durante uma tradução, que a seguir são reformulados a uma segunda, terceira leituras. Hmmm, não sei se é bem assim. Seria longo discorrer sobre o que penso a respeito, mas posso lhe dizer que, mesmo que a gente tenha essa espécie de automatismo mental – e temos, sim –, o tradutor mais experiente, ou talvez mesmo não muito experiente, mas atento e sensível, não se deixa tanto arrastar por ele. Aliás, que graça teria? O que vejo é uma longa série de fatores que entram em consideração antes de você traduzir até mesmo um The book is on the table por O livro está na, sobre a, em cima da mesa. A gente não é tão ingênua assim. Pode se sentir autorizada a esse tipo de tradução dependendo do andar da carruagem, digo, do andamento do texto original. Mas o processo de crivo, de seleção, de escolha específica dentro daquele texto determinado – mesmo que se dê de maneira muito rápida, quase instantânea – ocorre antes mesmo de termos tempo de escrever ou digitar uma letra que seja. Aí, claro, a elaboração é contínua, constante, ininterrupta. É fascinante se você parar e pensar na máquina velocíssima que é nosso cérebro. E aí entram sucessivos e infindáveis fatores adicionais, à medida que o texto avança, e claro que com efeitos de retroalimentação para o que já foi formulado previamente, que poderia estar determinando o andamento adotado até aquele momento, mas aí, com o surgimento desses outros fatores, esse andamento não só se altera retrospectivamente, mas o “padrão” que se estabelecera nessa fase anterior se modifica para o andamento subsequente. É um trabalho mental, só isso. E no qual é melhor você saber do que não saber o que está fazendo: é o que chamo de “tradução refletida” – e refletida não só a posteriori, durante releituras e revisões, mas antes (mesmo que numa fração infinitesimal de segundos a cada micro-ocorrência) e durante o próprio ato de traduzir.

E é um gosto – esse trabalho mental não só é muito interessante como fenômeno fisiológico, mas como atividade cerebral bem peculiar. Acho que os neurônios gostam, não enjoam da brincadeira. Aliás, uma coisa que acho muito linda no Manuel Bandeira – prolífico tradutor, e com algumas traduções realmente magníficas – é que traduziu até morrer. Então, penso meio assim: quem tem isso no sangue, quem gosta de traduzir, das charadas mentais que tem de resolver, faz isso a vida toda – com intervalos maiores ou menores, mas faz. E, podendo, quer dizer, não tendo problemas de saúde que prejudiquem a atividade, faz mesmo até o fim.

 

III

Então imagine só: desde pequena lendo bastante, desde menina aprendendo tradução na escola, já grande traduzindo, depois virando profissional do ofício, depois ainda sentindo grande interesse pela história da tradução no Brasil, de repente você chega e vê um saque descomunal, na maior desfaçatez, com puros intuitos mercantilistas, a um tesouro bibliográfico? Vá lá que nem é um grande tesouro, pois o desenvolvimento de um setor editorial no Brasil, minimamente consolidado e consistente, começou não faz nem cem anos...

Mas imagine só: a pessoa lá suando as estopinhas, esforçando-se, o livro saindo, sendo lido, incorporado à bibliografia traduzida brasileira, vem um desqualificado qualquer e mete a mão? Não tem como: obras de tradução feitas por, sei lá, centenas de pessoas, desde Carlos Porto Carreiro, Jamil Almansur Haddad, Boris Schnaiderman, Brenno Silveira, Araújo Ribeiro, Jacó Guinsburg, Erwin Theodor Rosenthal, Lúcia Miguel-Pereira, Lígia Junqueira Smith, Lúcio Cardoso, Lívio Xavier, Wilson Velloso, Primavera das Neves (Vera Pedroso), o próprio Manuel Bandeira que mencionei há pouco – até o Odorico Mendes, que a certa altura virou “Alex Marins”! Tudo, tudo surripiado e saindo em nome de terceiros, reais ou fictícios, só para a editora pular uma etapa, delicada e morosa, do processo de edição de um livro e economizar uns tostões. Não tem como ficar quieto, deixar passar batido. Por isso nasceu o Não Gosto de Plágio, o blog que criei na esteira da ativa movimentação de um grupo de tradutores revoltados com tais descobertas (iniciadas, diga-se de passagem, por Ivo Barroso, Alfredo Monte e Saulo von Randow Jr.). No Não Gosto, a intenção era – e continua a ser – defender nosso patrimônio cultural apresentando cotejos comprobatórios e denúncias dessas falcatruas com divulgação na imprensa, em cartas a departamentos de universidades desse Brasilzão afora, em contatos com editoras, livrarias, tradutores lesados, nos raros casos que ainda eram/são vivos, ou com seus sucessores, além de ingressar com pedidos de representação junto aos Ministérios Públicos Estaduais de São Paulo e do Rio de Janeiro e mesmo junto ao Ministério Público Federal. Um fuzuê.

Pois uma questão fundamental é que nosso patrimônio cultural, na parte da letra impressa, passa necessariamente, eu diria até fundamentalmente, por obras de tradução. Devido à posição historicamente dependente, periférica do Brasil e, antes disso e em nível mais fundamental, à própria posição bastante secundária de Portugal e da língua portuguesa na produção do conhecimento ocidental em termos gerais, seja nas ciências, na filosofia ou na literatura, a possibilidade de acesso social aos mais variados ramos de conhecimento, para além do poliglotismo, dependia – muito mais do que em outros países, como a Inglaterra, a França ou a Alemanha, entre outros – da atividade de tradução, da transposição daqueles conteúdos para o idioma nacional, no caso o português lusitano. E no Brasil, ainda mais, evidente. Então não é que fosse uma meia-dúzia de Sabrinas de banca de jornal. Estamos falando de obras indispensáveis para a formação básica de um mínimo de bagagem humanista: Aristóteles, Platão, Santo Agostinho, Maquiavel, Locke, Hobbes, Pascal, Descartes, Kant, Darwin, Weber, Von Ihering, sem falar de teatro e literatura, com Sófocles, Shakespeare e tudo o que se possa imaginar entre os canônicos e mesmo não canônicos. Calculo uns vinte milhões de exemplares com traduções espúrias em lares e em bibliotecas públicas, de escolas e universidades. E se você pensar que livro não é propriamente uma laranja, quer dizer, não é perecível, calcule quantas e quantas décadas muitos e muitos milhares de pessoas passarão lendo, estudando, citando tais edições (e muitas vezes estropiadas, para tentar disfarçar a apropriação)... Dá raiva e dá dó.

Felizmente, depois de tanto berreiro e vários anos de alertas e denúncias, os meliantes andaram metendo um pouco a viola no saco. Algumas editoras cessaram completamente com a prática, e até retiraram as obras de circulação. Outras vêm cessando gradualmente, embora mantenham várias das obras espúrias ainda em circulação. E de vez em quando ainda descubro uma ou outra sapequice dessas em alguma pequena editora. Em todo caso, a situação nem se compara à de dez anos atrás, que vinha vicejando alegremente desde um bom tempo antes. Isso é ruim para o setor editorial como um todo, pois são poucas, umas dez, quinze empresas que agem/ agiam assim, mas aí a suspeição respinga de maneira um pouco indiscriminada sobre todo o setor. Então, naturalmente, as boas editoras, as editoras honestas – que, felizmente, compõem a grande maioria do universo editorial – também não gostaram nem gostam nada dessa história toda, dessas outras editoras praticando “concorrência desleal” (como me disse um editor) e criando um clima de desconfiança entre o público leitor. Em certo sentido, esse processo de fraudes e denúncias acabou também contribuindo para uma maior conscientização entre o público leitor quanto à importância da tradução, inclusive em seu papel formador.

 

IV

Então é isso. A gente traduz porque gosta, a cabeça funciona legal nessa atividade, a gente está sempre vendo coisas novas. Como a quantidade de obras interessantes é absolutamente gigantesca e como, até agora, tenho tido a grande sorte de trabalhar com editores maravilhosos que não acham meu trabalho muito horroroso, espero poder seguir o exemplo do Manuel Bandeira (e de tantos outros!) que comentei acima: traduzir até o final da vida.



* Minto. Relendo o texto, lembrei que fiz a tradução de Dáfnis e Cloé de Longo, a partir da famosa tradução francesa de Pierre Grimal, para a Papirus de Campinas, em 1990.


14 de jul. de 2021

entrevista

 "minha história", na biblioteca mário de andrade, disponível aqui.


28 de jun. de 2021

entrevista

 "enquadrando o tradutor", pela pget-ufsc, disponível aqui.




21 de jun. de 2021

entrevista

  "tradução refletida", uma conversa com anderson lucarezi e eliakim oliveira, no youtube, aqui 




2 de mar. de 2021

conversa

conversa pela biblioteca mário de andrade: aqui.



22 de abr. de 2019

entrevista

agradeço a fabiano seixas fernandes pela grande gentileza. entrevista disponível aqui.

Tradutora, investigadora, blogueira: entrevista com Denise Bottmann

 . 9 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes

Tradutora, investigadora, blogueira: entrevista com Denise Bottmann
A tradutora, escritora e pesquisadora Denise Bottmann é um dos mais importantes nomes da tradução no Brasil. Sua atividade como pesquisadora independente auxilia a resgatar a memória de tradução (como podemos ver em seu blogue arquivo de traduções) e também a repensarmos a honestidade intelectual do mercado editorial brasileiro (como fica evidente por meu favorito, o não gosto de plágio).
Bottmann muito gentilmente respondeu a algumas perguntas sobre sua atividade profissional como tradutora e investigadora.
Em sua entrevista ao Digestivo cultural, você comentou que vem desenvolvendo uma pesquisa independente no campo de História da Tradução. Gostaria que falasse um pouco da pesquisa em si, e de como é pesquisar sem vínculos institucionais.
Ah, é ótimo, faço o que quero do jeito e no ritmo que quero, sem maiores preocupações e sem ter de prestar contas senão a mim mesma. Por outro lado, como tento manter um mínimo de rigor e solidez nas pesquisas, encontro generoso espaço de publicação dos artigos resultantes dessas pesquisas em diversos periódicos universitários ligados à área. Então sinto-me agraciada com o melhor dos dois mundos: a liberdade do pesquisador independente e a receptividade na academia.
Sua última postagem no não gosto de plágio é uma entrevista de José Nunes que detalha o seu processo individual de tradução. Mas você também já traduziu a várias mãos. Quais as diferenças entre traduzir uma obra integralmente e traduzi-la dividindo-a com outras pessoas?
Veja, essas traduções a várias mãos se dão basicamente por problemas de prazo. A editora pretende lançar rapidamente aquela obra, por qualquer razão que seja, e avalia que um tradutor só não teria condições de fazer a tradução inteira no curto prazo exigido. Assim, opta por dividir a obra em duas ou mais partes, que entrega a dois ou mais tradutores. Normalmente não há um contato assíduo entre os diversos incumbidos da tarefa, e cada qual faz sua parte. A padronização do texto e a uniformização dos termos costumam ficar, na maioria das vezes, a cargo do preparador – que certamente é quem mais sofre nesse processo. Assim, pelo menos para mim, não faz muita diferença. Traduzo aquela parte como se fosse um todo – e é mesmo um todo, pelo menos como tarefa que me foi atribuída. Não gosto muito do sistema; aliás, imagino que nenhum dos envolvidos goste muito, mas são decisões editoriais que têm lá sua razão de ser e não cabe a mim achar ou deixar de achar nada.
Além de tradutora e autora, você também mantém uma intensa atividade nas redes sociais: uma conta bastante ativa no Twitter e alguns blogs—alguns pontuais, como o blogue a biografia do Van Gogh, e outros mais duradouros, como o não gosto de plágio. Inúmeras tradutoras e tradutores vêm, nos últimos tempos, participando dessa onda de digitalização, e buscando se tornar influencers em seus campos. Como você encara esse movimento, desde o ponto de vista da quase proverbial “invisibilidade do tradutor”?
Na verdade, não uso quase o Twitter. Minha conta no Facebook é vinculada à do Twitter; então o que posto no FB é automaticamente publicado no Twitter, só isso. Quanto aos blogs, tenho especial carinho por eles. Vários são de duração limitada, pois são blogs de acompanhamento da tradução que estou fazendo naquele momento: além da biografia do Van Gogh, há os blogs sobre WaldenMrs. DallowayAo farolComo ler literaturaAs mulherzinhasUtopiaEmily Dickinson… Além desses blogs de acompanhamento de tradução, mantenho alguns blogs, também de duração limitada, sobre essas pesquisas bibliográficas que faço: A Coleção Amarela da GloboA Série NegraA Coleção SaraivaBLM - Biblioteca do Leitor Moderno e outros mais. Não vejo, ou não via, essas iniciativas como parte de uma “onda de digitalização” – são espaços muito práticos, muito fáceis de operar, em que posso ir desenvolvendo questões que me interessam naquele momento, e acabam se tornando repositórios de coisas que posso vir a recuperar mais tarde.
O ramo da tradução ainda é um visto como atividade remunerada secundária; ainda há poucas pessoas que se dedicam, como você, à tradução como forma principal ou única de renda. Você acha importante que exista essa dedicação exclusiva para a classe das tradutoras e tradutores de um modo geral?
Não, não creio que seja muito importante. Sou grande defensora do que chamo de “diletantismo” e defensora ainda maior da fundamental importância de traduções acadêmicas feitas por docentes conhecedores daquela determinada área. E falar em “classe” de tradutores/as me parece um tanto abstrato. Não vejo o conjunto das pessoas que exercem o ofício de tradução, mesmo como atividade principal ou exclusiva, como uma “classe” ou sequer como uma “categoria”. Ainda mais se se incluírem intérpretes, dubladores, legendadores, o pessoal de língua de sinais, torna-se um campo quase infinito. Mas talvez quem sabe algum dia venha a se criar uma categoria profissional legalmente reconhecida como tal. A ideia não me entusiasma especialmente, de maneira alguma – mas, como dentro desse amplo universo da tradução em sentido geral trabalho num segmento minoritário, qual seja, a tradução de obras lítero-humanísticas para o setor editorial, nem tenho muito o que opinar.
Em relação ainda à digitalização da tradução, para além de vermos tradutores e intérpretes tomando as redes com podcasts, canais e blogs, também vemos que estão às voltas com um processo de uberização de seus serviços, recebendo encomendas por meio de plataformas semelhantes ao Uber, e vendo seus vencimentos serem achatados em decorrência. A inteligência artificial também é uma aliada ambígua, que, a longo prazo, poderá contribuir com a obsolescência desta e de muitas outras profissões. Como você enxerga a classe dos tradutores frente a esses desafios?
Repito, não consigo ver a soma dos mais variados tradutores, intérpretes, legendadores das mais variadas áreas para os mais variados fins como uma “classe”. De todo modo, essa uberização, como você diz, decorre da maciça terceirização de serviços que se iniciou nos anos 1970-1980. Um grande número de tradutores exerce hoje em dia funções que eram realizadas pelas antigas secretárias bilíngues e trilíngues (uso o feminino, pois era uma profissão ocupada majoritariamente por mulheres). A profissão da secretária executiva, da secretária de diretoria, altamente qualificada, hoje em dia está quase à beira da extinção, em decorrência, justamente, desse processo de terceirização. Então, até é possível que hoje o número de homens realizando tarefas antes realizadas pelas secretárias mulheres seja maior, em termos relativos, do que era trinta ou quarenta anos atrás. Quanto à tecnologia, sim, talvez. Não conheço a área de tradução técnica, comercial e financeira, que, até onde sei, é a que mais utiliza os novos recursos tecnológicos, como programas de tradução, memórias de tradução e assim por diante – se bem que o uso dessas ferramentas de auxílio à tradução parece estar abrindo caminho também na tradução editorial. Mas eis aí mais um assunto sobre o qual não posso falar, pois não estou bem a par.
não gosto de plágio oferece uma importante contribuição à produção intelectual, denunciando casos de apropriação indevida no meio editorial. Curiosamente, isso é feito de forma extra-institucional: em um país onde a universidade controla o grosso da produção intelectual, uma das defesas mais contundentes dessa produção vem, por assim dizer, de fora, de alguém que se afastou da carreira docente, e que emprega um meio a que as instituições de ensino e pesquisa não costumam recorrer. Como você encara a contribuição do não gosto de plágio não só à tradução, mas à pesquisa e às instituições onde é mais comumente realizada no Brasil?
Por uma série de circunstâncias, o gravíssimo problema das apropriações indébitas de traduções alheias encontrou ouvidos muito receptivos nas instituições acadêmicas. Para essa receptividade, sem dúvida contribuiu muito o fato de que centenas e centenas de traduções espúrias eram, precisamente, de obras utilizadas nas bibliografias de cursos universitários, sobretudo nas áreas de ciências humanas, filosofia, letras e direito: desde Aristóteles, Platão, Santo Agostinho, Descartes, Hume a Shakespeare, Emerson, Marx, Weber, Von Ihering e dezenas de outros autores de presença obrigatória na academia. Assim, houve um maciço apoio de muitas universidades e de muitas centenas de docentes, chocados com a extensão da fraude. Creio que Alfredo Bosi, na época, sintetizou bem o problema: tratava-se de um atentado “à integridade mesma da vida intelectual no Brasil”. Então creio que a contribuição do não gosto de plágio foi reconhecida nas e pelas esferas mais fortemente atingidas por tais contrafações. Não foram poucos os professores – e não só universitários – que, a partir de então, redobraram sua atenção e muitos passaram a adotar a prática sistemática de incluir os créditos de tradução em suas bibliografias de curso, bem como de exigir dos alunos que os incluíssem em seus trabalhos.
Gostaria que comentasse uma impressão pessoal que vou compartilhar. A tradução é uma tarefa de mediação cultural: entrega-se a um público o texto de outrem; nosso ato de fala basilar parece ser: “eis aqui o que Fulana disse em obra tal”. Isso contribuiu para nossa invisibilidade: quem lê Kakfa deseja ler Kafka, não Carone; quem lê Virginia Woolf deseja ler Woolf, não Cecília Meireles ou Denise Bottmann. Assim, embora seja intelectualmente impreciso e desonesto que não se mencione quem traduziu, dar ênfase demasiada ao tradutor também pode gerar uma espécie de quebra de confiança: se Haroldo é mais importante que Homero no Homero de Haroldo, a quem estou lendo? Não vejo solução fácil a essa contradição, e pediria que discorresse a respeito.
Bem, não vejo nenhuma contradição. Pois haverá alguém que julgue Haroldo mais importante do que Homero no Homero de Haroldo? Pode ser, e é, interessante como questão referente ao ofício e à prática da tradução, mas ninguém (a não ser algum estudante com algum projeto de mestrado ou doutorado muito específico ou algum estudioso da prática tradutória ou da produção específica de um determinado intelectual brasileiro), repetindo, ninguém vai ler Kafka por causa do Modesto – vai ler Modesto por causa de Kafka; nem vai ler Woolf por causa da Denise – vai ler Denise por causa da Woolf (no caso da Cecília Meirelles, é possível e até provável que leiam sua tradução de Orlando por causa dela mesma, mas aí é outra história: quem faz isso é porque está interessado na obra da Cecília, na qual se incluem suas traduções). Não vamos inverter as prioridades, os verdadeiros interesses, nem confundir literatura e obras de pensamento com suas várias e múltiplas versões em diferentes línguas: isso fala mais da riqueza da obra original do que de qualquer eventual mérito de suas diversas traduções, fala mais da historicidade e variabilidade das línguas do que das escolhas feitas numa tradução ou y.
Quanto ao primeiro aspecto que você havia levantado, concordo: tradução também é, ou pretende ser, esse “eis aqui o que Fulana disse em obra tal”. Em certa medida e em alguns aspectos, tradução também é isso, sem dúvida. Agora, mesmo limitando-nos a essa acepção mais restrita da tradução, esse “o que ela disse” vai variar muito: um vai dizer que, naquela passagem, Fulana disse “o tempo estava encoberto”, outro vai dizer que Fulana disse “o dia estava nublado” ou que “as nuvens toldavam o céu”. Ninguém vai dizer que, naquela passagem, Fulana disse “o navio chegou atrasado ao porto”. Mas as escolhas, as soluções, os fraseados já constituem outro assunto, bastante complexo. E daí, entre outras coisas, a dificuldade em decidir o que “de fato” Fulana teria dito.
Agora, se você não se importar, vou comentar um detalhe. Quando você fala em “invisibilidade”, a famosíssima invisibilidade do tradutor, está-se referindo, pelo que entendi, ao papel quase ignorado da atividade tradutória para o acesso à leitura em determinada língua de textos originalmente escritos em outra língua. De minha parte, entendo que a expressão significa um hipotético desideratum, isto é, que a mão, a pena do tradutor não se faça demasiado visível na tradução, e se aplica em oposição àquelas traduções geralmente muito decalcadas ou com muitos cacoetes desnecessários. Até onde sei e até onde consigo lembrar, foi apenas a partir de Lawrence Venuti que se desenvolveu ou se passou a divulgar aquela outra acepção quase, digamos, vitimista do pobre tradutor que tanto trabalha, tanto se esfalfa e ninguém vê – e Venuti até recomenda que o tradutor calque fortemente a mão para se fazer bem visível e deixar bem evidente que aquilo é uma tradução. Bom, não é de Venuti que estamos falando e deixemos isso de lado. Gostaria apenas de comentar que entendo a “invisibilidade do tradutor” naquele outro sentido, a meu ver mais preciso e mais objetivo, de um trabalho que não reproduza mecanicamente estruturas sintáticas próprias da língua original ou outros “vícios” do ofício, nem se exiba demais com um cartaz dizendo – ou nem precisando de cartaz nenhum, mas simplesmente alardeando: vejam, vejam, isso é uma tradução! Agora, que da invisibilidade do tradutor, nessa acepção que considero mais objetiva, se possa inferir que, então, o tradutor não deixa, não pode, não deve deixar sua marca pessoal... bom, são outros quinhentos. Seria uma tolice imaginar isso, e felizmente, ao que parece, as correntes tradutórias mais normativistas vêm deixando de lado algumas noções um tanto fantásticas como, por exemplo, a de “equivalência”. Eu proporia, só para não parecer muito implicante e para fazer um pouco de graça, algo como “a marca invisível” ou “a marcada invisibilidade” ou, ainda, “a marcante invisibilidade do tradutor”, naturalmente denotando um valor positivo.

17 de mar. de 2019

entrevista

agradeço a josé nunes pelo gentilíssimo convite. disponível aqui.



Como escreve Denise Bottmann


Denise Bottmann é historiadora e tradutora.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Tenho uma espécie de rotina, sim, um pouco flexível. Levanto, preparo o café da manhã [meu querido amor, que é um madrugador, já deixa a mesa preparada, tudo no jeito], tomamos café, conversamos do mais e do menos, fazemos festa nos cachorros e nos gatos e vamos ver as orquídeas. Aí cada qual vai para seu escritório e seu computador, e começo a traduzir.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
De dia mesmo. Entre as 9 ou 10 da manhã e as 3 ou 4 da tarde, com os devidos intervalos – conversar, comer, espairecer, andar pelo jardim, ver alguma coisa aqui ou ali.
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Tradução é basicamente uma questão de método e rotina, creio eu. Então traduzo de segunda a sexta, com uma meta de dez a quinze laudas por dia. Às vezes vai que é um raio, e até dá para fazer mais. Outros dias a coisa fica mais devagar e sai um pouco menos. Mas, entre uma variação e outra, ao final acaba tendo uma média relativamente constante.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
Tem gente que faz uma série de preparações prévias antes de começar a traduzir. Lê o original inteiro ou boa parte dele, assinala e consulta as dúvidas, faz pesquisas de antemão e assim por diante. Já eu não. Tenho uma concepção da coisa que é meio assim: entendo melhor a estrutura compositiva do texto se eu for traduzindo à medida que o leio, pois então, ao traduzir, preciso ir pegando os vários aspectos presentes, desde as escolhas vocabulares do autor, os recursos linguísticos de que lança mão, as figuras de estilo que adota, até a construção gradual e cumulativa de um ou mais sentidos que constroem o conjunto da coisa. Numa leitura corrida prévia, creio que eu perderia boa parte da construção do texto, que, a meu ver, capta-se melhor num acompanhamento mais denso, mais próximo, que é o que procuro fazer nesse processo concomitante de leitura/tradução.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Felizmente, não tenho esses problemas mais peculiares a um escritor de obra própria.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Ah, ler, reler, treler tradução é indispensável! Sempre mudando uma coisinha aqui, outra ali. Até a hora em que a gente precisa dar um basta, senão nunca para.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
No mundo da tradução, sou o que chamam de “dinossauro”. Enquanto boa parte dos tradutores e tradutoras de áreas técnicas, comerciais e até mesmo acadêmicas e literárias emprega programas e ferramentas de auxílio à tradução, utiliza glossários montados a partir de memórias de tradução e assim por diante, fico só com meu computadorzinho. E claro que o buscador do Google é uma imensa mão na roda para consultas das mais variadas questões, pois cobre quase a totalidade dos dicionários e enciclopédias mais importantes e oferece uma grande variedade de outras fontes de consulta, bem como traz uma profusão de links para textos e pesquisas sobre o tema em que estou trabalhando naquele momento.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativa?
“Ideias” nesse sentido, em tradução, imagino que significa basicamente pensar, avaliar e definir o partido tradutório (o tom, o tratamento, o tipo de costura, os níveis de registro da linguagem, o tipo e grau de aderência ao texto de origem, os recursos a adotar em ocorrências de difícil solução, e assim por diante) que emprego no trabalho que estou fazendo naquele momento. Mas, como disse, visto que meu processo de tradução é praticamente simultâneo à leitura do texto, essa reflexão, essa avaliação e essa definição do partido tradutório vão se fazendo e se configurando ao longo desse mesmo processo, sobretudo em suas fases iniciais. Conforme a gente caminha, as ideias quanto aos procedimentos mais cabíveis vão se fazendo mais claras e se consolidando melhor.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesma se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?
Ah, a gente adquire mais segurança, sente a palavra, a formulação das palavras de maneira mais correta e mais escorreita, a gente fica mais à vontade no e com o texto. Acho que não diria nada; ou, talvez, agradeceria àquela pessoinha das primeiras traduções, sempre tão bem-disposta, a despeito dos erros e das inseguranças que nem percebia serem erros e inseguranças.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Projetos profissionais e próprios não faltam. Que os deuses permitam que eu os vá executando dia a dia, vez a vez.

2 de mar. de 2019

podcast

"lugar da mulher é onde ela quiser", edição especial de a voz do tradutor, ano II, n. 33, com organização e coordenação de damiana rosa de oliveira, disponível aqui.


A VOZ DO TRADUTOR - ano II - nº33 - O podcast da Escola de Tradutores! - Edição Especial "O podcast é delas" de 02 de março de 2019

Nesta edição, você vai ouvir: mensagem da presidente do Sintra,  Luisa Lamas; Hora do café com a tradutora literária Denise Bottmann; relatos emocionantes das colegas tradutoras Rane Souza, Carol Pimentel, Andressa Gatto e Ligia Ribeiro.


21 de jun. de 2018

entrevista

saiu no digestivo cultural uma entrevista minha a jardel filho, a quem agradeço o convite. 

trato de vários temas, e o resumo da história é: "tradutor nunca está sozinho e tradução nunca ninguém faz sozinho".  

disponível aqui.

Leitores da área de ciências humanas com certeza conhecem Denise Bottmann, cujo nome aparece na primeira página de um grande número de livros como a tradutora de áreas como a história da arte, teoria e história literária, ensaios sobre cultura, biografias e romances. Nomes como os de Argan, Longhi, Edward Said, Arendt, Thoreau, Thompson, George Steiner, Eagleton, Matisse, Virginia Woolf, Duras, Sam Shepard, dentre tantos outros, tiveram suas obras traduzidas para o português graças ao excelente trabalho como tradutora que Denise Bottmann desenvolve desde 1985, em línguas como o inglês, francês e italiano.

A tradutora Denise Bottmann é graduada em História pela Universidade Federal do Paraná e mestre em Teoria da História pela UNICAMP. Foi por um período docente de filosofia da Unicamp.

Desde 2008 mantém o blog Não Gosto de Plágio, em que denuncia a publicação, por editoras brasileiras, de plágios de traduções de autores clássicos. Ganhou em 2013 o Prêmio Paulo Rónai pela sua tradução de Mrs Dalloway, de Virginia Woolf, e no ano seguinte o Prêmio Jabuti, terceiro lugar, por uma outra tradução de Woolf, Ao Farol. Em 2015, recebeu o Prêmio ABL de Tradução por Aguapés, de Jhumpa Lahiri.

Na entrevista, que gentilmente deu por e-mail para o Digestivocultural, Denise Bottmann comenta questões que envolvem seu trabalho como tradutora e as especificidades do ato de tradução.



JARDEL: O que a levou a abandonar a área de sua formação acadêmica (História) para se tornar uma tradutora profissional?

DENISE BOTTMANN: Ah, a vida é sempre meio engraçada, com tantas voltas e reviravoltas que fica até difícil traçar retrospectivamente um percurso mais ou menos coerente, quem dirá linear. Na verdade, entre me formar em História e virar tradutora profissional, como atividade principal, passaram-se bem uns 25 anos. Mas mesmo isso precisa de uns grãos de sal: comecei a traduzir profissionalmente, isto é, recebendo a encomenda de uma tradução e sendo paga para isso, em 1984. Mas minha atividade principal na época era a docência. Depois, nos meados dos anos 90, deixei a tradução e, logo depois, também a universidade. Para a universidade não voltei, mas a tradução retomei em 2005, aí já como atividade principal, embora não exclusiva, e nela me mantenho até hoje, agora em caráter exclusivo. O que me levou a isso, como formula a pergunta, foi um oceano de coisas, que nem vale muito a pena detalhar. O que foi legal nesses últimos cinco ou seis anos foi também a retomada de uma atividade propriamente historiográfica, pesquisando – de forma independente, sem vínculos profissionais – a história da tradução no Brasil. Como essas minhas pesquisas vêm sendo publicadas em vários periódicos acadêmicos, é como se todos esses aspectos, a formação, a vivência acadêmica e a paixão pela tradução, se reunissem numa coisa só.



JARDEL: Como é feito um contrato de tradução entre você e a editora? Quem escolhe a obra a ser traduzida, que tempo se exige do tradutor, como é pago o trabalho?

DENISE BOTTMANN: Aí vou falar mais por mim, embora algumas coisas possam ter caráter geral, aplicável à maioria dos profissionais em tradução editorial. Os contratos entre a editora e mim são de transferência dos direitos autorais sobre a obra de tradução. Ou seja, segundo nossa legislação autoral, o que faço não é uma prestação de serviços, mas sim uma obra portadora de direitos autorais, que são de dois tipos, os patrimoniais (os direitos de explorar economicamente a obra, publicá-la, vendê-la etc.) e os morais (os direitos referentes à autoria dela, isto é, que traga meu nome, não seja alterada sem minha autorização e coisas do gênero). Então assinamos, a editora e eu, um contrato pelo qual transfiro meus direitos patrimoniais a ela, para que possa utilizá-la comercialmente. Os direitos morais permanecem comigo. Quem escolhe a obra é a editora: é ela que negocia com o autor ou a editora do autor os direitos para traduzi-la aqui no Brasil (salvo as obras em domínio público, que dispensam essa etapa), e aí ela me encomenda a tradução dessa obra. Claro que eu poderia sugerir algum livro a alguma editora, sem dúvida. Mas, se fiz isso uma ou duas vezes, foi muito.

Quanto ao prazo, há aquelas obras em que é um verdadeiro perereco, uma correria, mas isso é meio raro, bastante raro, eu diria – e, quando a pressa é muita, a editora divide a obra entre dois ou mais tradutores, para agilizar o processo. Naturalmente, se há uma urgência urgentíssima, a própria editora é que tem a iniciativa de oferecer um “adicional” no pagamento em vista dessa urgência. Mas o habitual – ufa, ainda bem, tal seria! – é que os prazos sejam razoáveis, tranquilos, sem maiores pressões. E não é bem que “se exige” um prazo: conversa-se, oferece-se, propõe-se, conversa-se. É tudo muito decente e civilizado.

E como se paga, você pergunta? Bom, a editora costuma ter uma tabela ou uma faixa de preços com que remunera esse trabalho de tradução. Os valores, sei que variam muito entre as centenas de editoras existentes no Brasil. Mas, nas editoras com que trabalho, essa faixa é mais ou menos parecida e não é nada que possa te levar a morrer de fome. E, se alguém procura você para algum trabalho oferecendo valores a que você não está acostumada, você explica, diz que sua faixa é outra; se houver acordo, muito que bem; se não, fica para outra oportunidade. Quando ao modo de pagamento, como às vezes são obras grandes, com oitocentas, mil laudas, vou retirando um tanto por mês até a entrega do trabalho, e depois recebo o saldo.

JARDEL: Existe um gênero específico em que você se sente mais à vontade para traduzir ou que graças à sua prática nesse gênero você o domina melhor e que também lhe interessa mais profundamente traduzir? Por quê?

DENISE BOTTMANN: Minha área são as ciências humanas ou, mais amplamente, as humanidades em geral. É do que mais gosto e em que tenho mais facilidade. Como trabalho, vai que é uma beleza. Como interesse e estímulo intelectual, é também o que prefiro. Mas é um leque razoavelmente amplo, desde história da arte (adorei traduzir os livros do Roberto Longhi, por exemplo) a estudos literários variados, com o amplo recheio de obras de história, sociologia, filosofia, teoria política, teoria econômica, ensaios de diversos tipos e assim por diante. E claro que o tema por si só não garante que a obra seja interessante ou agradável ou fácil ou difícil de fazer. Mas é a área por onde trafego com mais frequência. Curiosamente, outro dia me dei conta da quantidade de biografias (individuais e familiares) que traduzi: Freud, Van Gogh, a rainha Vitória, Mandela, Salinger, Chanel, Oliver Sacks, a dinastia americana dos Stein, os Románov, Steve Jobs, Frank Sinatra, imagine só! (Se bem que os três últimos foram naquele esquema de dividir o trabalho por causa dos prazos.) O Van Gogh eu adorei. Por literatura ando me aventurando um pouco nos últimos anos, e tenho feito coisas que acho fascinantes – por exemplo, esse romance autobiográfico do Sam Shepard, Aqui de dentro, que saiu recentemente.



JARDEL: Existe no Brasil o reconhecimento do tradutor como deveria, com prêmios e tudo o mais, reconhecimento à altura do resultado do trabalho que realiza não só da tradução em si, mas como introdutor de importantes obras literárias, filosóficas e científicas de outras culturas em um país como o nosso, praticamente monolíngue?

DENISE BOTTMANN: Hahaha, imagino que nenhuma profissão acha que é reconhecida “como deveria”. Mas sim, o que você levanta é importante. Não, não há. E nos últimos anos os prêmios – que já não eram muitos – andaram diminuindo bastante: o Oceanos parou de contemplar a categoria Tradução; a ABL acabou com todos os seus prêmios (e não só o de tradução), mantendo apenas o Machado de Assis pelo conjunto da obra; o União Latina (para obras técnicas e científicas) deixou de existir. Restaram o Jabuti da CBL, apenas para tradução de obras literárias, o da FNLIJ, para tradução de obras infantis e juvenis, o da APCA, também para tradução literária, e sem sistema formal de inscrição e julgamento, mas por avaliação interna, e o Paulo Rónai da FBN, que acaba sendo o mais abrangente. E nem de longe passa muito a ideia disso que você comenta: o papel da tradução como a grande, a única maneira de estabelecer contato, criar laços, fazer parte do mundo para além de nossas fronteiras. Mas esse mérito, creio eu, cabe mais à tradução concebida em termos amplos, como atividade que se processa social e historicamente, envolvendo um grande número de agentes, contando na linha de frente, claro, com um setor editorial que tenha um mínimo de pujança dentro da economia geral de um país.

JARDEL: Quando comecei a ler a biografia de Van Gogh, de mais de mil páginas, e descobri que você a traduziu, pensei e me interroguei: meu Deus, que trabalheira traduzir tantas páginas, quanto tempo deve ter demorado esse trabalho? Então, quanto tempo, quanta dificuldade e quanto suor foi necessário para esse trabalho todo?

DENISE BOTTMANN: Ah, até comentei mais acima (não tinha ainda visto essa pergunta) que adorei fazer o Van Gogh. Sim, foi uma delícia. Trabalheira é, claro, mas trabalheira da boa, gostosa. De tanto que me envolvi com aquilo, até criei um blog de acompanhamento da tradução, que se chamava A biografia do Van Gogh – enquanto vou fazendo, vou falando [https://abiografiadovangogh.blogspot.com/]. Não foi difícil, de forma alguma, e aprendi muito. Foram quatro meses, quatro meses e meio talvez. Mas é isso o que eu faço, entende? Tanto faz que o livro tenha cem ou mil páginas; traduzo todos os dias, de segunda a sexta, antigamente umas seis a oito horas por dia; hoje, que ando mais vagabunda, são umas quatro, cinco horas por dia. Então tanto faz; se não for uma coisa, é outra. E é muito gostoso, ótimo mesmo, quando o livro é legal e é comprido. Ruim é quando o livro é irritante ou tristíssimo ou medonho. Aí, sim, você sofre, aquilo, mesmo que não seja imenso, parece que não acaba mais.

JARDEL: No livro “Poética do traduzir”, Henri Meschonnic diz que “traduzir põe em jogo a representação da linguagem na íntegra, não se limitando a ser o instrumento de comunicação e de informação, de uma cultura a outra, considerado inferior à criação original, sendo a tradução o melhor posto de observação sobre as estratégias de linguagem”. O que você acha dessa afirmação?

DENISE BOTTMANN: Sim, sim, concordo. Gosto de uma imagem da Rachel de Queiroz (que foi ótima tradutora e durante uns dez anos teve a tradução como seu ganha-pão), que dizia: “Eu lembro que, na época em que traduzia, eu me sentia como se estivesse desmanchando a costura, desmanchando o crochê de certos escritores, descobrindo os pontos, os truques prediletos deles”. Você como que decompõe o trabalho feito e tem de reconstituí-lo em português levando em conta esses procedimentos compositivos, que você só consegue sacar num nível mais estrutural, analisando as “estratégias de linguagem”, como diz o Meschonnic. Daí tanta gente dizer, inclusive os próprios autores, que o melhor leitor é o tradutor – pois claro, tem que ser mesmo, pelo menos o mais detalhista e minucioso; senão, como fica?

JARDEL: Em “Além do bem e do mal”, Nietzsche diz que a maior obra de prosa alemã é a tradução da Bíblia por Lutero. Nesse sentido, a valorização da tradução supera o conteúdo específico do livro sagrado, tornando-o uma obra exemplar de prosa. O tradutor pode ser também, nesse sentido, um bom prosador? Como?

DENISE BOTTMANN: A história do Lutero tradutor é interessante, mas também meio complicada, e a afirmação talvez um tanto demagógica do Nietzsche também tem um pouco desse lado de querer desmistificar um eruditismo pedante que não lhe agradava – embora o elogio da tradução luterana não fosse original; pelo contrário, já era algo corrente. Mas, pegando o cerne da questão, sim, claro, o tradutor pode – e até deve – ser um bom prosador. Não precisa ser autor de obra própria, mas precisa ter domínio e desenvoltura na escrita. E tantos livros, tantos tradutores têm uma prosa tão maravilhosa que dá gosto de ler. O mais recente a me despertar grande encanto pelo texto tão agradável e envolvente foi a tradução do Rubens Figueiredo para os Contos de Odessa, do Isaac Bábel.

JARDEL: No seu trabalho de tradução já ocorreu de você ter que melhorar um texto que julgasse ruim, tornando-o não só mais claro, mas mais bem escrito?

DENISE BOTTMANN: Hmm, não, não que eu me lembre. Posso não gostar, achar dogmático, trivial, repetitivo, ensandecido, qualquer coisa assim, mas isso quem acha é a Denise leitora, não a Denise tradutora. O que às vezes ocorre – mas é meio raro, devido ao tipo de obras que traduzo com mais frequência, que costumam ter razoável rigor e coerência – é encontrar algum pequeno lapso, algum equívoco, algum problema de continuidade. Aí marco a passagem traduzida conforme o original, ponho um destaque em amarelo por cima da passagem e acrescento entre colchetes, também em destaque para o editor ver, a retificação que me parece cabível. Aí o editor decide, às vezes consulta o autor ou a editora do original, e procede como julgar mais conveniente. Porém, como disse, é algo raro de acontecer. Mas, pegando a deixa, tem autor que não é claro, deliberadamente; é equívoco, é ambíguo, é contraditório, é elíptico. Aí, evidentemente, você vai manter a obscuridade pretendida, não vai “esclarecer”, não vai aplainar nem facilitar. Mas isso também é detalhe, é uma questão mais técnica, meio difícil de explicar sucintamente, e que ocorre mais em literatura do que em bibliografia acadêmica.

JARDEL: O tradutor de poesia é visto como traidor, dadas as especificidades da poesia, que são praticamente impossíveis de serem reproduzidas em outra língua. Como você vê as ideias de Augusto de Campos e Haroldo de Campos, que na tradução de poesia propõem, como resposta a essa impossibilidade, uma espécie de “transcriação” do poema (e até “transluciferação”), exigindo do tradutor de poesia a “recriação” do poema original e não apenas uma tradução do “conteúdo”? Exigência essa que pede atenção sobre todos os planos da linguagem: o fonético, o sintático, o semântico, o prosódico. (NOTA: Formulei essa questão a partir da leitura do texto “Augusto de Campos como tradutor”, de Paulo Henriques Britto).

DENISE BOTTMANN: Cá entre nós, não me derreto de amores pelo Augusto de Campos – há belas traduções dele, claro; penso sobretudo nas de trinta, quarenta anos atrás, de poesia provençal, mas sempre preferi o Haroldo, tanto em suas teorizações quanto em suas traduções. A grande alavancada da coisa foi, sem dúvida, a inspirada iniciativa de Haroldo em se abeberar no Pound, trazendo brisas renovadoras à nossa paisagem. A sensação que tenho, às vezes, é que o termo se trivializou um pouco – o próprio Haroldo foi, até onde consigo entender, modificando um pouco o conceito e ficou um tanto fluido: o que, aliás, me parece mais uma prova de sua altíssima qualidade de tradutor, de tal forma que a dinâmica, a práxis tradutória se mostra muito mais fundamental e determinante do que a elaboração teórica; para manter alguma validade efetiva, esta se adequa, se molda àquela. Em termos mais gerais, porém, as dificuldades mais específicas da tradução de poesia, pelo que vejo, estão relacionadas sobretudo a questões de rima e metro (e/ou também distribuição tônica). Pois os planos da linguagem que você cita, “o fonético, o sintático, o semântico, o prosódico”, encontram-se também a todo vapor em qualquer prosa literária dotada de alguma densidade. Você não consegue sequer imaginar um romance de, sei lá, Virginia Woolf dissociado de sua elaboração linguístico-estilística: não existe um “conteúdo” pairando espectralmente por cima ou em volta da estrutura compositiva da obra. Este, aliás, acho que é um problema que às vezes ocorre em certas concepções da tradução poética: no frenesi em tanto afirmar a unidade do poema, e talvez até como forma de compensação de um suposto tradicional conteudismo, enfatiza-se de tal modo um dos lados (digamos, a não-mais-chamada “forma”) que sua própria matéria, o não-mais-chamado “conteúdo”, acaba ficando um pouco mutilada. À força de, digamos, tentar fazer caber os versos dentro de uma moldura métrica, rímica e rítmica, vê-se em alguns casos o cruento e implacável sacrifício de imagens e figuras de linguagem que, não raro, têm peso maior do que o enquadramento adotado para a transposição. E você fica com a impressão de que, em alguns casos, aquilo vira quase uma espécie de fetichismo. Mas digo isso mais como leitora do que como tradutora de poesia, embora, de vez em quando, eu também tenha de me aventurar pela tradução de alguns poemas.

JARDEL: Citando Paul Valéry: “O poeta é uma espécie singular de tradutor que traduz o discurso comum, modificado por uma emoção, em ‘linguagem dos deuses`”. Invertendo a questão, podemos falar em uma poética da tradução?

DENISE BOTTMANN: Hm, não creio que tenha entendido bem a pergunta.

JARDEL: Talvez eu queira saber se a tradução pode operar um milagre diante do original. Mas deixemos essa questão para lá. Rs

JARDEL: Traduzir uma obra a partir de uma tradução já existente em outra língua (por exemplo, Kafka e Dostoievski traduzidos do inglês e francês, como aconteceu no Brasil) é um mal menor (afinal, pode-se ler, mesmo assim, aquilo que não se leria no original), ou apenas um desastre?

DENISE BOTTMANN: Imagina, desastre! De maneira nenhuma. E “mal menor” em termos, também, não é? De todo modo, a pergunta me parece um pouco ambígua: “traduzir uma obra” e “pode-se ler” – estamos falando do tradutor ou do leitor final? O leitor, suponho eu, há de agradecer, claro, pois, como você diz, apesar da ressalva “mesmo assim”, ele pode ler aquilo que não leria no original. Já o tradutor há de fazer o que lhe é possível fazer. Isso falando em termos gerais. Falando em termos mais concretos, o surgimento de um efetivo setor editorial no Brasil, com alguma capacidade de autossustentação, é fenômeno bastante recente, que não chega a um século de existência, e sua consolidação não foi instantânea e sim gradual, embora, em vista das circunstâncias, até relativamente rápida. Então até podia haver um ou outro editor que se empenhasse em publicar traduções diretas, por exemplo, do russo, e podia haver um ou outro tradutor capacitado a fazer traduções diretas, ainda por exemplo, do russo. E não era só uma questão de conhecimento ou domínio de línguas menos usuais no Brasil – o tema é longo e complexo, envolvendo outras variáveis, talvez até mais importantes. Em todo caso, o que quero dizer é que se traduzia como dava: direta ou indiretamente do francês, do espanhol e, a partir de certa altura, diretamente do inglês – e nisso foi fundamental o papel do Monteiro Lobato (pois, não sei se você sabe, mas até o Oliver Twist o Machado de Assis traduziu do francês e, por lindo que seja O corvo dele, não sei como ficaria sem suas consultas também ao Baudelaire). Repito, sempre havia aquele classicista oitocentista que traduzia do latim ou do grego (Odorico Mendes, p.ex.), ou aquela descendente de algum imigrante germânico que conhecia a língua e traduzia do alemão (Carolina von Koseritz, p.ex.), ou aquele refugiado da Revolução soviética (Georges Selzoff, p.ex.) ou aquele comunista que fora viver algum tempo na URSS e dominava o russo (Moacir Werneck de Castro, p.ex.) – mas eram de se contar nos dedos. Já era fantástico, a meu ver, que, na esteira da grande crise de 1929, inviabilizadas as importações de livros estrangeiros e da maciça quantidade de traduções publicadas em Portugal, começasse a se desenvolver uma indústria editorial brasileira, inclusive vigorosamente fomentada pela política nacionalista de Vargas. Então, falar em desastre, em mal menor, isso e aquilo, me parece – com desculpas pela expressão – coisa de criança manhosa. Fazia-se o que se podia – e até, penso eu, freneticamente. E hoje em dia, sendo o cenário muito diferente nesses últimos cinquenta anos, ainda pode haver casos de tradução por interposição, mas são cada vez mais raros. Aliás, por falar nisso, recentemente fiz uma tradução interposta (talvez a primeira na minha vida profissional), a Utopia, de Thomas More, a partir do inglês. Por sorte, como não sou totalmente ignorante em latim, deu para acompanhar linha a linha pelo original neolatino (e até encontrei uma frase do original que o grandíssimo tradutor inglês, Dominic Baker-Smith, havia pulado, acredita numa coisa dessas? Achei divertido!). Mas, em suma, o que quero dizer é que, mesmo que ainda se faça, vez por outra, alguma tradução por interposição, qualquer tradutor, imagino eu, vai buscar amparo no original e/ou no aparato crítico que cerca aquela obra.

JARDEL: É famoso o caso das traduções de Freud, onde alguns conceitos-chave de sua obra são precariamente traduzidos colocando o sentido de suas ideias em risco, e há muita literatura sobre os equívocos das traduções das obras do pai da psicanálise. Como um tradutor pode evitar criar problemas em uma obra tão exigente como a de Freud ou outro pensador?

DENISE BOTTMANN: Nisso há um pouco de mitologia também, não? Quase cem anos depois, fica fácil falar qualquer coisa. Há décadas criticam-se tremendamente as traduções do James Strachey, que até hoje formam a Standard Edition das obras completas de Freud. Mas se a gente lembrar que o Freud estava ciente, a par, acompanhando as publicações, que foi a própria associação internacional de psicanálise em sua seção britânica que criou uma parceria com a Hogarth Press nos anos 1920 (editora, aliás, de Leonard e Virginia Woolf), que o Strachey fazia parte daquele círculo, você vai dizer o quê? Que o Freud foi “traído”? Que o Strachey era um desleixado? Complicado, né? Ou a história da turma francesa oscilando entre instinct e o neologismo pulsion para o Trieboriginal (que no inglês ficou como drive)? Quer dizer, isso para mim fala mais do aprofundamento, complexificação e diversificação de uma área de estudos do que propriamente de “problemas de tradução”. E essa abrupta afirmação, “precariamente traduzidos colocando o sentido de suas ideias em risco”, que hoje em dia faz parte do senso comum, às vezes talvez sirva também como uma espécie de slogan, como acompanhamento de uma pretensão de grande avanço qualitativo de tal ou tal estudo ou de tal ou tal tradução. Então eu iria com mais calma na hora de avaliar esse tipo de questão, antes de enunciar juízos muito bombásticos.

Mas, respondendo mais diretamente à pergunta, com autor vivo (como Freud naquela época), não há muito problema. É só conversar com ele – e, mesmo assim, depois pode dar um tremendo bafafá (exemplos: Freud, mais uma vez, ou, mais próximo de nós, o Guimarães Rosa, apesar da extensa e minuciosa correspondência com seu tradutor alemão, Curt Meyer-Clason, que depois virou saco de pancadas). O bafafá faz parte. As coisas não param, e sempre vai ter gente criticando, retificando, aprimorando etc., até que alguma hora, décadas ou séculos depois, aquilo vai ser resgatado com grandes pompas e fanfarras. Normal. Agora, com autor clássico, o grande arrimo com que o tradutor pode contar é a fortuna histórico-crítica de muitas décadas ou de séculos, às vezes até milênios, de análises, estudos, interpretações em torno da obra, do autor, da época, da inserção dentro de tal ou tal panorama, de seu impacto e desdobramentos, e assim por diante.

Resumindo, tradutor nunca está sozinho e tradução nunca ninguém faz sozinho. Você está no mundo, dos vivos e dos mortos, e vai dialogando. Pode evitar alguns problemas, mas certamente criará (ou criarão por você) outros. E é bom que assim seja. 


Jardel Dias Cavalcanti .

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