transmitidos no youtube, disponíveis aqui.
18 de ago. de 2024
22 de jun. de 2024
entrevista
reproduzo abaixo uma entrevista que dei à querida luci collin alguns anos atrás (em 2019). havia um roteiro com as questões, e então respondi em texto corrido, dividido em quatro seções.
Entrevista Denise Bottmann
Quais foram as suas primeiras leituras?
Autores/Autoras que mais marcaram a sua vida acadêmica e que de alguma forma mais influenciaram a sua formação.
Como e quando você iniciou a sua trajetória de tradutora?
Você é uma tradutora multifacetada: Qual o seu gênero preferido?
Você acredita ser a tradução uma forma de autoria?
Segue algum método/modelo para traduzir?
Você escolheu os autores(as) que traduziu?
Com qual autor/autora você mais se identifica?
Você dialoga com os autores dos livros quando traduz
Ao traduzir, você conscientemente segue algum tipo de teoria?
Como é a sua relação com as editoras?
O que você tem na sua gaveta? Quais são seus projetos…
Ainda quer traduzir? O que ainda precisa ser traduzido.
O Brasil traduz muito, como você vê explicaria essa relação?
Você é a idealizador e responsável pelo movimento “não gosto de plágio”. Poderia falar como isso se originou, como foi o desenvolvimento e como está a situação atual?
I
É curioso fazer um apanhado retrospectivo assim. A gente nunca sabe bem o que está vivendo enquanto está vivendo aquilo, não é mesmo? Depois as coisas se amontoam e, olhando para trás, mesmo que num recorte bastante relativo, as coisas parecem adquirir uma consistência, uma possibilidade de caracterização que não tinham na época.
Nasci mais de sessenta anos atrás, em 1954. Então, naquela época, nem
televisão tinha na maioria das casas. Era jornal, revista, rádio, vitrola,
livro. Acho que meus pais compraram uma televisão só em 1960 ou 1961, e eu
assistia só uma hora por dia, e era aquele programa infantil com a Cidinha
Campos, às quatro da tarde.
Com sete anos, peguei sarampo e fiquei uma semana de cama. Meu pai, que era
um doce de pessoa, já no segundo dia passou na Biblioteca Monteiro Lobato, lá
na Vila Buarque, em São Paulo, e tirou um livro para mim. Era As reinações de Narizinho. Eu já sabia
ler, claro, estava no segundo ano primário, mas era o primeiro livro-livro,
parecia até um catatau, com aquela capa dura e folha grossa, que deixava ele
bem volumoso. Nossa, tracei o livro; no outro-outro dia meu pai devolveu na
biblioteca e trouxe outro, também do Monteiro Lobato – não lembro bem qual, mas
tinha o Visconde de Sabugosa na capa. No sexto dia, veio mais um livro, e esse
nem sei qual foi. Mas a partir daí virei ledora compulsiva.
Por sorte, em casa, mesmo a gente não tendo muitos recursos, havia uma
bibliotecazinha bem razoável. E existiam na época umas coleções infanto-juvenis
bem legais, Trópico Ilustrado, Tesouro da Juventude, mesmo a Biblioteca Larousse, que dava para ler e
reler. No final de semana, com a mesadinha que eu ganhava, ia na banca de
jornal e comprava revistinha. Além disso, mesmo já com televisão em casa, à
noite a gente não assistia, mas ficava conversando, jogando algum jogo de
baralho ou palitinho e fazendo palavra cruzada! Eu adorava fazer com meu pai
porque ele fingia que não sabia alguma palavra e me dizia para ir procurar no
dicionário. Então dicionário sempre foi uma coisa muito amiga para mim, desde
menina.
Bom, depois dessa fase inicial, o mais marcante foi mais ou menos a partir
do terceiro ginasial, com uns doze anos de idade: o colégio onde eu estudava, o
Rio Branco, tinha uma biblioteca que foi meu encanto por muito tempo. A gente
tinha de pedir o livro no balcão, para a bibliotecária, que ia pegar na
estante. Sei que, depois de um tempo, ela me deixava entrar sozinha e percorrer
as prateleiras, para escolher o que quisesse.
Em suma, lia muito, basicamente literatura, desde Mika Waltari, Vicki Baum,
Somerset Maugham, Jorge Amado, José Mauro de Vasconcelos a Kafka, Maupassant
(que era da minha mãe e ela me proibia ler, pois dizia que eu era muito menina
para aquilo, mas eu lia escondido mesmo assim), Tchekhov num volume lindo de
contos que minha tia-avó me deu no meu aniversário de doze anos, até um Thomas
Mann lá de casa que não dei conta de acabar, Os Buddenbrook. Mas não só; adorava mitologia, história geral e
ganhei dois volumes maravilhosos sobre mitologia, um do Thomas Bulfinch, bem
famoso, o outro não lembro. Li umas oitocentas vezes cada um deles.
Claro que, a essas alturas, meu português era bem razoavelzinho, sentia-me
à vontade na língua, com facilidade de escrever. Mas não que desse muito para
exercer meus pendores literários nas aulas propriamente ditas, porque era tudo
na base da decoreba: história, geografia, matemática, ciências, inglês, francês
e mesmo português. Nas aulas de português, a parte de leitura era, com uma
tediosa previsibilidade, Machado de Assis (o de Helena e Iaiá Garcia, e
não Brás Cubas ou Memorial de Aires, que hoje em dia é meu
favoritaço do Machado), José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Castro
Alves, Olavo Bilac... Redação, só uma vez por semana.
Em paralelo, uma coisa que estava sempre presente em casa eram as línguas
estrangeiras: minha mãe dava aulas de inglês para alguns alunos particulares,
meu pai sabia alemão e às vezes ficava praticando a escrita gótica clássica,
minha irmã tinha o Yazigi completo e fazia francês na Aliança e depois fez o
Nancy. E veja como é bizarra essa coisa de família: todos tão envolvidos em
línguas e eu fugia das aulas de inglês na escola pedindo dispensa, alegando que
já sabia muito inglês por causa da minha mãe (o que, claro, não era nem
remotamente verdade); a única coisa que eu sabia em alemão era contar até dez;
passei anos implicando com francês, cabulando todas as aulas que conseguisse,
até ficando de segunda época...
Tudo isso na época do ginásio. Ai escolhi o clássico e, por alguma razão
súbita e misteriosa, apaixonei-me pelo francês. O professor, que era o mesmo do
ginasial, nem acreditou e dava risada. Virei ótima aluna de francês. E lá ia de
Racine, Chateaubriand, Hugo, Verlaine, e a gente tinha de decorar os poemas em
casa para recitar na chamada. Quase cinquenta anos depois, ainda me lembro da
diversão que era enrolar a língua nos “l” para recitar les sanglots longs des violons de l’automne. E Baudelaire, claro, o
grande preferido do nosso professor: era uma enxurrada de Baudelaires, e na
esteira Rimbaud, com uns Villiers d’Isle-Adam de lambugem no meio.
No clássico tinha latim também. Esta é uma das grandes decepções da minha
vida. Foi o professor mais deprimente que já conheci, triste, cansado,
desanimado, sempre com o ar mais infeliz da face da terra. Três anos que não
serviram para quase nada. Melhor nem lembrar. Uma lástima. Em três anos, se
chegamos no ablativo absoluto, foi muito.
Mas, na verdade, na escola sempre fui da chamada “turma do fundão”. Ria,
conversava, colava nas provas daquelas matérias mais infernalmente tediosas,
cabulava aula indiscriminadamente, até chegar no limite máximo de faltas, e ia
jogar pingue-pongue no grêmio, que ficava no térreo. Paixão por alguma matéria
só tive duas: geografia com um professor que era incrível e foi o único ser no
ginásio que me levou a pedir para uma colega que sentava bem na frente para
trocar de carteira comigo durante as aulas dele. Pena que foi só um ano. E
francês, já no clássico.
Quanto ao inglês, fui fazer fora. Muitas coleguinhas faziam a Cultura
Inglesa, que ficava perto, ali em Higienópolis. Meus pais me resolveram pôr na
UCBEU (União Cultural Brasil-Estados Unidos), que era longe, numa paralela da
Paulista, tinha de tomar ônibus, mas minha mãe adorava o inglês americano: ela
tinha feito o Bennett no Rio de Janeiro, e acho que foi por isso que resolveu
me botar na União Cultural. Não foi nenhuma grande paixão, mas fiz lá até o
começo do intermediário.
O grande marco nessa rotina escolar foi o cursinho. No último ano do
clássico, fui fazer o semi no Equipe, que na época ainda era só cursinho.
Nossa, que revelação. Foi todo um novo mundo se abrindo para mim.
Mas antes deixa eu contar um detalhe. Outro dia, uns seis meses atrás, pelo
mais fortuito dos acasos, encontrei um caderno meu do primeiro clássico, do
curso de inglês. Imagina só. Bom, folheando, sabe o que tinha lá? O caderno era
dividido com folhas dobradas separando os temas das aulas: gramática,
exercícios, versão e tradução. E lá encontrei três traduções de três contos que
o professor tinha dado como lição de casa para a gente fazer. Não lembro onde
pus de volta o caderno; senão, eu pegava e ia ver de novo os nomes dos contos;
só sei que um deles era, veja só, A mão
do macaco, do William Jacobs – em suma, eram legais, e a tradução, que reli
nesses meses atrás, parecia bem normalzinha, corretinha. Quer dizer, naquela
época a gente praticava tradução pelo menos desde os catorze anos de idade.
Fazia parte do curso, fazia parte das lições de casa. Tipo, coisa normal, quase
trivial.
Mas voltando ao
Equipe. Foi lá que tive meu primeiro emprego na vida, embora informal, foi
no Equipe, em São Paulo, onde eu estava fazendo cursinho, um semi, para prestar
vestibular. Isso foi em 1971: eu tinha 16 anos, escrevia bem, e o Gilson,
professor de redação do cursinho, me convidou a me juntar com seus assistentes
que liam, corrigiam e atribuíam conceito às redações da moçada. Foi lá que
então comecei a trabalhar com o Carlinhos e o Zé Antônio - José Antônio
Arantes, que veio a se tornar sensível e exímio tradutor.
O Zé trabalhava de
revisor na Edgard Blücher e resolveu sair de lá. Então me deu o toque de que ia
abrir a vaga, e lá fui eu bater à porta da editora. Me apresentei, fiz teste,
passei e fui contratada a título de experiência. A Blücher é uma editora
técnica, e eu tinha feito clássico: nada de matemática, física, química ou
biologia, a não ser o que se aprendia no ginasial. Imagine! Mas era para
revisão da segunda prova e aí o importante eram o português, a atenção e a
capacidade de concentração.
Fiquei encantada em
aprender coisas do ofício - basicamente as marcações, que não conhecia - e
decorar palavras às quais eu devia prestar a maior atenção, que era onde mais
passavam as gralhas: nunca me esqueci da biorrefringência (naquela época já era
com dois erres e tudo junto, e a atenção que a gente tinha de prestar era no
"n", pois parece que os gráficos viviam imprimindo
"biorrefrigência"). Se eu pegasse alguma biorrefrigência e pedisse um
"n", meu período de experiência estaria no papo, me diziam os
colegas.
Fiquei uns dois meses
na Edgard Blücher e então saí, por nenhuma razão em especial, talvez por ter em
mim uma espécie de bicho-carpinteiro que não me deixava parar por muito tempo
em lugar nenhum (mas só depois vim a constatar essa minha tendência) ou por não
me sentir especialmente motivada em revisar livros cujo conteúdo
transcendia meu entendimento e que eu não tinha a menor esperança de algum dia
vir a apreciar, como merecem ser apreciados todos os livros que a gente lê.
Depois fiquei sabendo
que a Abril, que na época era o máximo, ia fazer um teste de revisão. Fiz,
passei e entrei como trainee. Lá foi sensacional como experiência,
embora eu tenha cumprido apenas meus trinta dias e depois puxado o carro. Mas fundamental mesmo foi a Editora Perspectiva, onde fui trabalhar um
pouco depois. Foi maravilhoso. Pois contato com o mundo editorial faz muita
diferença, toda a diferença, na verdade: você começa a entender o que é um
livro.
Nesse meio tempo, entrei na faculdade, na USP, em ciências sociais. Mas era
uma coisa deprimente. Isso foi em 1972, maior perseguição política, vários
professores exilados, falta de cursos, banheiros pichados de cima a baixo com
palavras de ordem e de resistência, coisa e tal. Pedi transferência para o
curso de filosofia. Muito chatinho; um professor jovem, pernóstico, entochando As palavras e as coisas do Foucault
naquela turminha de 17-18 anos. Sem chance, larguei. No ano seguinte tentei de
novo; havia um curso novo, que estavam criando naquele ano, de semiótica. Mas
nem cheguei a frequentar.
Larguei mão da faculdade, virei macrobiótica, fui morar em comunidade,
essas coisas, e aí acho que foi que fiz minhas primeiras traduções do inglês
que vieram a ser impressas, voluntárias, claro: um manual de shiatsu e breves
artigos para a revista Satori, que o
prof. Tomio Kikuchi, o grande sensei da
tchurma, mantinha.
Ou seja, por alguns anos, foi um tal de entrar e sair de faculdade, de
pegar mochila e viajar; então fiquei em Curitiba um tempo. Aos 20 anos casei, fomos
morar na África (Guiné-Bissau, ambos muito idealistas), tivemos nossa filha, voltamos
uns anos depois para o Brasil, retomei a faculdade, separei. É dessa época que
dato meu interesse mais constante em tradução. Traduzia poetas que amava
(Eliot, por exemplo), e na época andava lendo freneticamente o Debord, Guy
Debord, e textos da Internacional Situacionista. Aí, um dia – eu assinava um
jornal baiano chamado O inimigo do rei
– resolvi enviar um textinho do Debord para eles, que traduzi do espanhol. Pois
veja: era bem mais pobrezinho o setor editorial naquela época, sob tantos anos
de ditadura militar; coisas mais tchans nem se publicavam muito, então muita
coisa nova, importante, a gente só encontrava em edições importadas. Havia
muitos livros em espanhol, importados sobretudo da Argentina, mas também do
México, que eram mais em conta e em maior variedade do que outros importados,
disponíveis, por exemplo, na Livraria Francesa. Enviei o texto para o Inimigo; publicaram, e traduzi mais
alguns. Aí alguém de lá me escreveu avisando que tinham criado uma dissidência
e estavam com uma revista, a Barbárie.
Para a Barbárie colaborei com mais
algumas traduções voluntárias, sempre de textos situacionistas.
Então acho simpático esse começo quando começaram a publicar essas minhas
traduções: entre macrobióticos e anarquistas, veja só!
Depois fui fazer pós, em Campinas, em 1982, e lá traduzi bastante para uma
revista que resolvemos criar, a RH –
Revista de História; traduzi Lefort, Hayden White e outros, sempre na maior
“pirataria”. Não pensávamos em termos de pirataria, nem passava pela cabeça. Se
era um texto legal, importante para a área (História, no caso), a gente
traduzia e publicava, e pronto. Um dia, me liga uma amiga de São Paulo, a
jornalista e tradutora Fátima Murad, que me disse: “Olha, a Brasiliense me
ofereceu um livro, mas estou com muito trabalho e não vai dar para pegar. Posso
te indicar? Você tem interesse?”. Falei que sim. Bom, então fui até São Paulo,
até a Brasiliense, peguei um teste, fiz, passei e fiquei incumbida da tradução:
era o livrinho do Perry Anderson, que saiu em 1984 com o título de A crise da crise do marxismo. Aí a coisa
na Brasiliense engatou: a seguir veio o Wallerstein, depois mais uma meia-dúzia
de outros. Havia grande carência de textos historiográficos que eram muito
apreciados lá pelo pessoal do departamento, e Edgar De Decca e Michael Hall me
apresentaram ao Marcus Gasparian, da Paz e Terra, que estava com a
importantíssima obra do Thompson parada lá, precisando de alguém da área para
traduzir: The Making of the English
Working Class. E também nessa época o Luiz Schwarcz estava saindo da
Brasiliense para criar a Companhia das Letras e me chamou para ir para lá; isso
em 1985. Também fiz algumas coisas nesses anos para a EdUSP e para a editora da
Unicamp, bem legais, do inglês, do francês e do espanhol – em suma, sempre
textos basicamente acadêmicos, para o público universitário. O leque se ampliou
um pouco na Companhia das Letras, passando a traduzir também de outras áreas
das humanidades.
Mas depois, lá por 1995, parei de traduzir. Tinha me mudado com meu
companheiro, o Federico Carotti, para Registro, no Vale do Ribeira, e mesmo da
Unicamp pedi a conta em 1996 (a essas alturas, desde 1983 eu dava aulas lá, no
Depto. de Filosofia, na área de Teoria da História e Epistemologia das Ciências
Humanas). Ai, depois de 1995, passei dez anos sem traduzir nada.
II
Somente em 2005 voltei a pôr a mão na massa, e meu retorno à tradução foi
pela Cosac Naify, com o Franco Moretti, e lá comecei também a fazer coisas maravilhosas
de história da arte, como Roberto Longhi e Matisse. De lá para cá, a tradução
se tornou minha atividade profissional exclusiva, com esse foco mais variado,
abrangendo a área de humanidades em acepção ampla, e não só história ou
historiografia, nem coisas exclusivamente acadêmicas. Foi na Cosac, aliás, que
fiz minha primeira tradução literária, se bem me lembro: O amante, de Marguerite Duras.* Eu conhecia razoavelmente bem a obra dela e, mesmo meio temerosa, aceitei
a proposta.
Assim, se virei “tradutora multifacetada”, como você diz, foi algo meio
gradual, que sentia que dava para ir incorporando conforme sentia maior
segurança no ofício. E a gente, quando é tradutora profissional e mais ou menos
especializada em determinadas áreas, pega um leque de autores de qualidade
bastante variada. Em geral, não somos nós que indicamos ou escolhemos os livros
nas editoras: quer dizer, você recusa se está entupida de trabalho ou se não
domina aquele assunto ou se é algo meio brutal que dá nó nas tripas ou sobre
algo com que você não tem a menor afinidade. Então a gente acaba não tendo um
gênero preferido – o preferido, nessa ampla variedade, é o que mostra
qualidade, seja o autor um teórico da pintura, um historiador, um romancista,
um crítico literário ou um biógrafo. E qualidade, para mim, tem a ver com uma
mescla sábia, discreta, sutil entre simplicidade e complexidade. Textos
triviais costumam ser chatésimos de traduzir, sejam eles de literatura ou de,
sei lá, epistemologia. São chatésimos porque dão sono, entediam, despertam
vivas réplicas e objeções mentais frenéticas.... Pois claro que a gente, ao
traduzir, está é tentando entender e acompanhar o raciocínio do autor ou, em
literatura, o método compositivo dele. Os interessantes são aqueles cuja
temática, evidentemente, não pode ser totalmente desconhecida para a gente. Um
mínimo de desenvoltura na área a gente precisa ter. Mas, voltando, os
interessantes são aqueles em que a gente aprende coisas novas, vê uma nova
perspectiva dada àquele tema, entra em contato com uma nova interpretação do
assunto, e que colocam algum tipo de – detesto o termo, mas vá lá – “desafio”
intelectual. Então, naturalmente, claro que você fica dialogando com o autor;
se não entende direito o raciocínio, obriga-se a voltar quantas vezes forem para
entender melhor o argumento. Não é só entender o que está escrito, as palavras
ali impressas; é entender o sentido daquilo e dentro daquele recorte ou daquela
proposta do autor. E nunca, nunca, jamé dã lavi, você vai achar que é você quem
sabe. A gente está ouvindo, por assim dizer, e tentando acompanhar de fato o
desenvolvimento da coisa. A gente não é autor; a gente é, digamos, um tipo
especial, muito atento, de leitor. Ou como quando você vai ao teatro: você
assiste à peça, pode gostar, pode não gostar, pode entender, não entender,
entender mais ou menos e pode recontar tudo aquilo com suas palavras, mas não
foi você que fez aquilo. Traduzir, para mim, é meio isso. E “direito autoral”,
claro que você tem, até por força de lei, mas esse direito autoral é sobre o
texto traduzido, sobre aquela coisa que você passou pela sua cabeça e pôs em
português, não sobre os dados, a trama, a estrutura argumentativa etc. – tal
seria! Somos “autores de obra derivada”, este é o termo jurídico da coisa. Por
isso também acho meio bocó falar em “recriação”, “transcriação” etc. O que a
gente mais tem numa tradução são limites, e bastante férreos. Tradução às vezes é meio parecida com sudoku.
Criar, recriar, transcriar? Desculpe, acho isso mais palavrório bonito do que qualquer outra coisa, uma espécie de fazer da necessidade virtude e criar umas lantejoulas em torno, ou uma maneira de expressar um (justo) orgulho pelo trabalho feito. Mas, por falar nisso, tirando o tom às vezes meio farfelu, meio empetecado e precioso, gosto bastante, muito até, de algumas, muitas até, considerações do Haroldo de Campos. De todo modo, criação é criação, tradução é tradução. Não considero tradução, nem a mais sublime de todas, “arte”; tradutor não é artista, é artesão.
No fundo, em tradução você pode fazer qualquer coisa e justificar como bem
quiser, ou mesmo achar que não há nada a justificar – “Onde já se viu,
justificar! É minha liberdade!”. Mas nem sempre a gente acha umas coisas muito
convincentes. Claro que posso
traduzir The book is on the table
por, sei lá, Alberto escorregou e caiu no
rio ou O cometa Hailey é visível a
olho nu – nada me impede. Mas não sei se, traduzindo assim, vou conseguir,
em primeiro lugar, pagar as contas no final do mês. A menos, claro, e é sempre
uma hipótese possível, que eu desenvolva uma belíssima e abstrusa teoria
explicando ao comum dos mortais o misterioso processo de reencarnação do verbo
e fique famosa dando palestras remuneradas. Quer dizer, nesse sentido, traduzir
é uma coisa que chega a ser caótica de tanta liberdade que você tem. Por outro
lado, a gente é a gente, né? E cada um tem um jeito de pensar e de entender as
coisas. Então creio que a grande, a grandíssima maioria traduziria The book is on the table por O livro está na, sobre a, em cima da mesa.
Porque existe essa coisa danada que insistem em impingir na gente desde
pequenininha, ou com a qual nossa mente vem até ingenitamente estruturada, que
é a tal da estrutura da linguagem, sem contar essa coisa incrível, fenomenal, que
chamam de “sentido”. Mas enganam-se os teóricos, mesmo os que acho menos
escalafobéticos, quais sejam, os de alguma corrente funcionalista de tipo
descritivista, que – vi uns meses atrás um artigo muito bom, pena que não
lembro o nome – tratam a questão pegando por esse lado da nossa formação, desse
nosso intelecto que tem uma certa padronização desenvolvida ao longo dos anos,
com um trabalho lógico quase que automatizado, que funciona quase que
intuitivamente, isto é, não de maneira analiticamente decupada, para o ato de
entendimento e transposição de uma língua para outra – nesse artigo, o autor
comentava que esse processamento mental era o que fornecia os resultados
preliminares durante uma tradução, que a seguir são reformulados a uma segunda,
terceira leituras. Hmmm, não sei se é bem assim. Seria longo discorrer sobre o
que penso a respeito, mas posso lhe dizer que, mesmo que a gente tenha essa
espécie de automatismo mental – e temos, sim –, o tradutor mais experiente, ou
talvez mesmo não muito experiente, mas atento e sensível, não se deixa tanto
arrastar por ele. Aliás, que graça teria? O que vejo é uma longa série de
fatores que entram em consideração antes de você traduzir até mesmo um The book is on the table por O livro está na, sobre a, em cima da mesa.
A gente não é tão ingênua assim. Pode se sentir autorizada a esse tipo de
tradução dependendo do andar da carruagem, digo, do andamento do texto
original. Mas o processo de crivo, de seleção, de escolha específica dentro daquele
texto determinado – mesmo que se dê de maneira muito rápida, quase instantânea
– ocorre antes mesmo de termos tempo de escrever ou digitar uma letra que seja.
Aí, claro, a elaboração é contínua, constante, ininterrupta. É fascinante se
você parar e pensar na máquina velocíssima que é nosso cérebro. E aí entram
sucessivos e infindáveis fatores adicionais, à medida que o texto avança, e
claro que com efeitos de retroalimentação para o que já foi formulado
previamente, que poderia estar determinando o andamento adotado até aquele
momento, mas aí, com o surgimento desses outros fatores, esse andamento não só
se altera retrospectivamente, mas o “padrão” que se estabelecera nessa fase
anterior se modifica para o andamento subsequente. É um trabalho mental, só
isso. E no qual é melhor você saber do que não saber o que está fazendo: é o
que chamo de “tradução refletida” – e refletida não só a posteriori, durante releituras e revisões, mas antes (mesmo que
numa fração infinitesimal de segundos a cada micro-ocorrência) e durante o
próprio ato de traduzir.
E é um gosto – esse trabalho mental não só é
muito interessante como fenômeno fisiológico, mas como atividade cerebral bem
peculiar. Acho que os neurônios gostam, não enjoam da brincadeira. Aliás, uma coisa que acho muito linda no Manuel Bandeira – prolífico tradutor, e
com algumas traduções realmente magníficas – é que traduziu até morrer. Então,
penso meio assim: quem tem isso no sangue, quem gosta de traduzir, das charadas
mentais que tem de resolver, faz isso a vida toda – com intervalos maiores ou
menores, mas faz. E, podendo, quer dizer, não tendo problemas de saúde que
prejudiquem a atividade, faz mesmo até o fim.
III
Então imagine só: desde pequena lendo bastante, desde menina aprendendo
tradução na escola, já grande traduzindo, depois virando profissional do
ofício, depois ainda sentindo grande interesse pela história da tradução no
Brasil, de repente você chega e vê um saque descomunal, na maior desfaçatez,
com puros intuitos mercantilistas, a um tesouro bibliográfico? Vá lá que nem é
um grande tesouro, pois o desenvolvimento de um setor editorial no Brasil,
minimamente consolidado e consistente, começou não faz nem cem anos...
Mas imagine só: a pessoa lá suando as estopinhas, esforçando-se, o livro
saindo, sendo lido, incorporado à bibliografia traduzida brasileira, vem um
desqualificado qualquer e mete a mão? Não tem como: obras de tradução feitas
por, sei lá, centenas de pessoas, desde Carlos Porto Carreiro, Jamil Almansur
Haddad, Boris Schnaiderman, Brenno Silveira, Araújo Ribeiro, Jacó Guinsburg,
Erwin Theodor Rosenthal, Lúcia Miguel-Pereira, Lígia Junqueira Smith, Lúcio
Cardoso, Lívio Xavier, Wilson Velloso, Primavera das Neves (Vera Pedroso), o
próprio Manuel Bandeira que mencionei há pouco – até o Odorico Mendes, que a
certa altura virou “Alex Marins”! Tudo, tudo surripiado e saindo em nome de
terceiros, reais ou fictícios, só para a editora pular uma etapa, delicada e
morosa, do processo de edição de um livro e economizar uns tostões. Não tem
como ficar quieto, deixar passar batido. Por isso nasceu o Não Gosto de Plágio, o blog que criei na esteira da ativa
movimentação de um grupo de tradutores revoltados com tais descobertas
(iniciadas, diga-se de passagem, por Ivo Barroso, Alfredo Monte e Saulo von
Randow Jr.). No Não Gosto, a intenção
era – e continua a ser – defender nosso patrimônio cultural apresentando
cotejos comprobatórios e denúncias dessas falcatruas com divulgação na
imprensa, em cartas a departamentos de universidades desse Brasilzão afora, em
contatos com editoras, livrarias, tradutores lesados, nos raros casos que ainda
eram/são vivos, ou com seus sucessores, além de ingressar com pedidos de
representação junto aos Ministérios Públicos Estaduais de São Paulo e do Rio de
Janeiro e mesmo junto ao Ministério Público Federal. Um fuzuê.
Pois uma questão fundamental é que nosso patrimônio cultural, na parte da
letra impressa, passa necessariamente, eu diria até fundamentalmente, por obras
de tradução. Devido à posição historicamente dependente, periférica do Brasil
e, antes disso e em nível mais fundamental, à própria posição bastante
secundária de Portugal e da língua portuguesa na produção do conhecimento
ocidental em termos gerais, seja nas ciências, na filosofia ou na literatura, a
possibilidade de acesso social aos mais variados ramos de conhecimento, para
além do poliglotismo, dependia – muito mais do que em outros países, como a
Inglaterra, a França ou a Alemanha, entre outros – da atividade de tradução, da
transposição daqueles conteúdos para o idioma nacional, no caso o português
lusitano. E no Brasil, ainda mais, evidente. Então não é que fosse uma
meia-dúzia de Sabrinas de banca de jornal.
Estamos falando de obras indispensáveis para a formação básica de um mínimo de
bagagem humanista: Aristóteles,
Platão, Santo Agostinho, Maquiavel, Locke, Hobbes, Pascal, Descartes, Kant,
Darwin, Weber, Von Ihering, sem falar de teatro e literatura, com Sófocles,
Shakespeare e tudo o que se possa imaginar entre os canônicos e mesmo não
canônicos. Calculo uns vinte milhões de exemplares com traduções espúrias em
lares e em bibliotecas públicas, de escolas e universidades. E se você pensar
que livro não é propriamente uma laranja, quer dizer, não é perecível, calcule
quantas e quantas décadas muitos e muitos milhares de pessoas passarão lendo,
estudando, citando tais edições (e muitas vezes estropiadas, para tentar
disfarçar a apropriação)... Dá raiva e dá dó.
Felizmente, depois de tanto berreiro e vários
anos de alertas e denúncias, os meliantes andaram metendo um pouco a viola no
saco. Algumas editoras cessaram completamente com a prática, e até retiraram as
obras de circulação. Outras vêm cessando gradualmente, embora mantenham várias
das obras espúrias ainda em circulação. E de vez em quando ainda descubro uma
ou outra sapequice dessas em alguma pequena editora. Em todo caso, a situação
nem se compara à de dez anos atrás, que vinha vicejando alegremente desde um
bom tempo antes. Isso é ruim para o setor editorial como um todo, pois são
poucas, umas dez, quinze empresas que agem/ agiam assim, mas aí a suspeição
respinga de maneira um pouco indiscriminada sobre todo o setor. Então,
naturalmente, as boas editoras, as editoras honestas – que, felizmente, compõem
a grande maioria do universo editorial – também não gostaram nem gostam nada
dessa história toda, dessas outras editoras praticando “concorrência desleal”
(como me disse um editor) e criando um clima de desconfiança entre o público
leitor. Em certo sentido, esse processo de fraudes e denúncias acabou também
contribuindo para uma maior conscientização entre o público leitor quanto à
importância da tradução, inclusive em seu papel formador.
IV
Então é isso. A gente traduz porque gosta, a cabeça funciona legal nessa
atividade, a gente está sempre vendo coisas novas. Como a quantidade de obras
interessantes é absolutamente gigantesca e como, até agora, tenho tido a grande
sorte de trabalhar com editores maravilhosos que não acham meu trabalho muito
horroroso, espero poder seguir o exemplo do Manuel Bandeira (e de tantos
outros!) que comentei acima: traduzir até o final da vida.
*
Minto. Relendo o texto, lembrei que fiz a tradução de Dáfnis e Cloé de Longo, a partir da
famosa tradução francesa de Pierre Grimal, para a Papirus de Campinas, em 1990.
14 de jul. de 2021
28 de jun. de 2021
21 de jun. de 2021
2 de mar. de 2021
22 de abr. de 2019
entrevista
Tradutora, investigadora, blogueira: entrevista com Denise Bottmann
. 9 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
17 de mar. de 2019
entrevista
Como escreve Denise Bottmann

10 de mar. de 2019
2 de mar. de 2019
podcast
A VOZ DO TRADUTOR - ano II - nº33 - O podcast da Escola de Tradutores! - Edição Especial "O podcast é delas" de 02 de março de 2019
Nesta edição, você vai ouvir: mensagem da presidente do Sintra, Luisa Lamas; Hora do café com a tradutora literária Denise Bottmann; relatos emocionantes das colegas tradutoras Rane Souza, Carol Pimentel, Andressa Gatto e Ligia Ribeiro.
21 de jun. de 2018
entrevista
trato de vários temas, e o resumo da história é: "tradutor nunca está sozinho e tradução nunca ninguém faz sozinho".
disponível aqui.
Leitores da área de ciências humanas com certeza conhecem Denise Bottmann, cujo nome aparece na primeira página de um grande número de livros como a tradutora de áreas como a história da arte, teoria e história literária, ensaios sobre cultura, biografias e romances. Nomes como os de Argan, Longhi, Edward Said, Arendt, Thoreau, Thompson, George Steiner, Eagleton, Matisse, Virginia Woolf, Duras, Sam Shepard, dentre tantos outros, tiveram suas obras traduzidas para o português graças ao excelente trabalho como tradutora que Denise Bottmann desenvolve desde 1985, em línguas como o inglês, francês e italiano.
A tradutora Denise Bottmann é graduada em História pela Universidade Federal do Paraná e mestre em Teoria da História pela UNICAMP. Foi por um período docente de filosofia da Unicamp.
Desde 2008 mantém o blog Não Gosto de Plágio, em que denuncia a publicação, por editoras brasileiras, de plágios de traduções de autores clássicos. Ganhou em 2013 o Prêmio Paulo Rónai pela sua tradução de Mrs Dalloway, de Virginia Woolf, e no ano seguinte o Prêmio Jabuti, terceiro lugar, por uma outra tradução de Woolf, Ao Farol. Em 2015, recebeu o Prêmio ABL de Tradução por Aguapés, de Jhumpa Lahiri.
Na entrevista, que gentilmente deu por e-mail para o Digestivocultural, Denise Bottmann comenta questões que envolvem seu trabalho como tradutora e as especificidades do ato de tradução.
JARDEL: O que a levou a abandonar a área de sua formação acadêmica (História) para se tornar uma tradutora profissional?
DENISE BOTTMANN: Ah, a vida é sempre meio engraçada, com tantas voltas e reviravoltas que fica até difícil traçar retrospectivamente um percurso mais ou menos coerente, quem dirá linear. Na verdade, entre me formar em História e virar tradutora profissional, como atividade principal, passaram-se bem uns 25 anos. Mas mesmo isso precisa de uns grãos de sal: comecei a traduzir profissionalmente, isto é, recebendo a encomenda de uma tradução e sendo paga para isso, em 1984. Mas minha atividade principal na época era a docência. Depois, nos meados dos anos 90, deixei a tradução e, logo depois, também a universidade. Para a universidade não voltei, mas a tradução retomei em 2005, aí já como atividade principal, embora não exclusiva, e nela me mantenho até hoje, agora em caráter exclusivo. O que me levou a isso, como formula a pergunta, foi um oceano de coisas, que nem vale muito a pena detalhar. O que foi legal nesses últimos cinco ou seis anos foi também a retomada de uma atividade propriamente historiográfica, pesquisando – de forma independente, sem vínculos profissionais – a história da tradução no Brasil. Como essas minhas pesquisas vêm sendo publicadas em vários periódicos acadêmicos, é como se todos esses aspectos, a formação, a vivência acadêmica e a paixão pela tradução, se reunissem numa coisa só.
JARDEL: Como é feito um contrato de tradução entre você e a editora? Quem escolhe a obra a ser traduzida, que tempo se exige do tradutor, como é pago o trabalho?
DENISE BOTTMANN: Aí vou falar mais por mim, embora algumas coisas possam ter caráter geral, aplicável à maioria dos profissionais em tradução editorial. Os contratos entre a editora e mim são de transferência dos direitos autorais sobre a obra de tradução. Ou seja, segundo nossa legislação autoral, o que faço não é uma prestação de serviços, mas sim uma obra portadora de direitos autorais, que são de dois tipos, os patrimoniais (os direitos de explorar economicamente a obra, publicá-la, vendê-la etc.) e os morais (os direitos referentes à autoria dela, isto é, que traga meu nome, não seja alterada sem minha autorização e coisas do gênero). Então assinamos, a editora e eu, um contrato pelo qual transfiro meus direitos patrimoniais a ela, para que possa utilizá-la comercialmente. Os direitos morais permanecem comigo. Quem escolhe a obra é a editora: é ela que negocia com o autor ou a editora do autor os direitos para traduzi-la aqui no Brasil (salvo as obras em domínio público, que dispensam essa etapa), e aí ela me encomenda a tradução dessa obra. Claro que eu poderia sugerir algum livro a alguma editora, sem dúvida. Mas, se fiz isso uma ou duas vezes, foi muito.
Quanto ao prazo, há aquelas obras em que é um verdadeiro perereco, uma correria, mas isso é meio raro, bastante raro, eu diria – e, quando a pressa é muita, a editora divide a obra entre dois ou mais tradutores, para agilizar o processo. Naturalmente, se há uma urgência urgentíssima, a própria editora é que tem a iniciativa de oferecer um “adicional” no pagamento em vista dessa urgência. Mas o habitual – ufa, ainda bem, tal seria! – é que os prazos sejam razoáveis, tranquilos, sem maiores pressões. E não é bem que “se exige” um prazo: conversa-se, oferece-se, propõe-se, conversa-se. É tudo muito decente e civilizado.
E como se paga, você pergunta? Bom, a editora costuma ter uma tabela ou uma faixa de preços com que remunera esse trabalho de tradução. Os valores, sei que variam muito entre as centenas de editoras existentes no Brasil. Mas, nas editoras com que trabalho, essa faixa é mais ou menos parecida e não é nada que possa te levar a morrer de fome. E, se alguém procura você para algum trabalho oferecendo valores a que você não está acostumada, você explica, diz que sua faixa é outra; se houver acordo, muito que bem; se não, fica para outra oportunidade. Quando ao modo de pagamento, como às vezes são obras grandes, com oitocentas, mil laudas, vou retirando um tanto por mês até a entrega do trabalho, e depois recebo o saldo.
JARDEL: Existe um gênero específico em que você se sente mais à vontade para traduzir ou que graças à sua prática nesse gênero você o domina melhor e que também lhe interessa mais profundamente traduzir? Por quê?
DENISE BOTTMANN: Minha área são as ciências humanas ou, mais amplamente, as humanidades em geral. É do que mais gosto e em que tenho mais facilidade. Como trabalho, vai que é uma beleza. Como interesse e estímulo intelectual, é também o que prefiro. Mas é um leque razoavelmente amplo, desde história da arte (adorei traduzir os livros do Roberto Longhi, por exemplo) a estudos literários variados, com o amplo recheio de obras de história, sociologia, filosofia, teoria política, teoria econômica, ensaios de diversos tipos e assim por diante. E claro que o tema por si só não garante que a obra seja interessante ou agradável ou fácil ou difícil de fazer. Mas é a área por onde trafego com mais frequência. Curiosamente, outro dia me dei conta da quantidade de biografias (individuais e familiares) que traduzi: Freud, Van Gogh, a rainha Vitória, Mandela, Salinger, Chanel, Oliver Sacks, a dinastia americana dos Stein, os Románov, Steve Jobs, Frank Sinatra, imagine só! (Se bem que os três últimos foram naquele esquema de dividir o trabalho por causa dos prazos.) O Van Gogh eu adorei. Por literatura ando me aventurando um pouco nos últimos anos, e tenho feito coisas que acho fascinantes – por exemplo, esse romance autobiográfico do Sam Shepard, Aqui de dentro, que saiu recentemente.
JARDEL: Existe no Brasil o reconhecimento do tradutor como deveria, com prêmios e tudo o mais, reconhecimento à altura do resultado do trabalho que realiza não só da tradução em si, mas como introdutor de importantes obras literárias, filosóficas e científicas de outras culturas em um país como o nosso, praticamente monolíngue?
DENISE BOTTMANN: Hahaha, imagino que nenhuma profissão acha que é reconhecida “como deveria”. Mas sim, o que você levanta é importante. Não, não há. E nos últimos anos os prêmios – que já não eram muitos – andaram diminuindo bastante: o Oceanos parou de contemplar a categoria Tradução; a ABL acabou com todos os seus prêmios (e não só o de tradução), mantendo apenas o Machado de Assis pelo conjunto da obra; o União Latina (para obras técnicas e científicas) deixou de existir. Restaram o Jabuti da CBL, apenas para tradução de obras literárias, o da FNLIJ, para tradução de obras infantis e juvenis, o da APCA, também para tradução literária, e sem sistema formal de inscrição e julgamento, mas por avaliação interna, e o Paulo Rónai da FBN, que acaba sendo o mais abrangente. E nem de longe passa muito a ideia disso que você comenta: o papel da tradução como a grande, a única maneira de estabelecer contato, criar laços, fazer parte do mundo para além de nossas fronteiras. Mas esse mérito, creio eu, cabe mais à tradução concebida em termos amplos, como atividade que se processa social e historicamente, envolvendo um grande número de agentes, contando na linha de frente, claro, com um setor editorial que tenha um mínimo de pujança dentro da economia geral de um país.
JARDEL: Quando comecei a ler a biografia de Van Gogh, de mais de mil páginas, e descobri que você a traduziu, pensei e me interroguei: meu Deus, que trabalheira traduzir tantas páginas, quanto tempo deve ter demorado esse trabalho? Então, quanto tempo, quanta dificuldade e quanto suor foi necessário para esse trabalho todo?
DENISE BOTTMANN: Ah, até comentei mais acima (não tinha ainda visto essa pergunta) que adorei fazer o Van Gogh. Sim, foi uma delícia. Trabalheira é, claro, mas trabalheira da boa, gostosa. De tanto que me envolvi com aquilo, até criei um blog de acompanhamento da tradução, que se chamava A biografia do Van Gogh – enquanto vou fazendo, vou falando [https://abiografiadovangogh.blogspot.com/]. Não foi difícil, de forma alguma, e aprendi muito. Foram quatro meses, quatro meses e meio talvez. Mas é isso o que eu faço, entende? Tanto faz que o livro tenha cem ou mil páginas; traduzo todos os dias, de segunda a sexta, antigamente umas seis a oito horas por dia; hoje, que ando mais vagabunda, são umas quatro, cinco horas por dia. Então tanto faz; se não for uma coisa, é outra. E é muito gostoso, ótimo mesmo, quando o livro é legal e é comprido. Ruim é quando o livro é irritante ou tristíssimo ou medonho. Aí, sim, você sofre, aquilo, mesmo que não seja imenso, parece que não acaba mais.
JARDEL: No livro “Poética do traduzir”, Henri Meschonnic diz que “traduzir põe em jogo a representação da linguagem na íntegra, não se limitando a ser o instrumento de comunicação e de informação, de uma cultura a outra, considerado inferior à criação original, sendo a tradução o melhor posto de observação sobre as estratégias de linguagem”. O que você acha dessa afirmação?
DENISE BOTTMANN: Sim, sim, concordo. Gosto de uma imagem da Rachel de Queiroz (que foi ótima tradutora e durante uns dez anos teve a tradução como seu ganha-pão), que dizia: “Eu lembro que, na época em que traduzia, eu me sentia como se estivesse desmanchando a costura, desmanchando o crochê de certos escritores, descobrindo os pontos, os truques prediletos deles”. Você como que decompõe o trabalho feito e tem de reconstituí-lo em português levando em conta esses procedimentos compositivos, que você só consegue sacar num nível mais estrutural, analisando as “estratégias de linguagem”, como diz o Meschonnic. Daí tanta gente dizer, inclusive os próprios autores, que o melhor leitor é o tradutor – pois claro, tem que ser mesmo, pelo menos o mais detalhista e minucioso; senão, como fica?
JARDEL: Em “Além do bem e do mal”, Nietzsche diz que a maior obra de prosa alemã é a tradução da Bíblia por Lutero. Nesse sentido, a valorização da tradução supera o conteúdo específico do livro sagrado, tornando-o uma obra exemplar de prosa. O tradutor pode ser também, nesse sentido, um bom prosador? Como?
DENISE BOTTMANN: A história do Lutero tradutor é interessante, mas também meio complicada, e a afirmação talvez um tanto demagógica do Nietzsche também tem um pouco desse lado de querer desmistificar um eruditismo pedante que não lhe agradava – embora o elogio da tradução luterana não fosse original; pelo contrário, já era algo corrente. Mas, pegando o cerne da questão, sim, claro, o tradutor pode – e até deve – ser um bom prosador. Não precisa ser autor de obra própria, mas precisa ter domínio e desenvoltura na escrita. E tantos livros, tantos tradutores têm uma prosa tão maravilhosa que dá gosto de ler. O mais recente a me despertar grande encanto pelo texto tão agradável e envolvente foi a tradução do Rubens Figueiredo para os Contos de Odessa, do Isaac Bábel.
JARDEL: No seu trabalho de tradução já ocorreu de você ter que melhorar um texto que julgasse ruim, tornando-o não só mais claro, mas mais bem escrito?
DENISE BOTTMANN: Hmm, não, não que eu me lembre. Posso não gostar, achar dogmático, trivial, repetitivo, ensandecido, qualquer coisa assim, mas isso quem acha é a Denise leitora, não a Denise tradutora. O que às vezes ocorre – mas é meio raro, devido ao tipo de obras que traduzo com mais frequência, que costumam ter razoável rigor e coerência – é encontrar algum pequeno lapso, algum equívoco, algum problema de continuidade. Aí marco a passagem traduzida conforme o original, ponho um destaque em amarelo por cima da passagem e acrescento entre colchetes, também em destaque para o editor ver, a retificação que me parece cabível. Aí o editor decide, às vezes consulta o autor ou a editora do original, e procede como julgar mais conveniente. Porém, como disse, é algo raro de acontecer. Mas, pegando a deixa, tem autor que não é claro, deliberadamente; é equívoco, é ambíguo, é contraditório, é elíptico. Aí, evidentemente, você vai manter a obscuridade pretendida, não vai “esclarecer”, não vai aplainar nem facilitar. Mas isso também é detalhe, é uma questão mais técnica, meio difícil de explicar sucintamente, e que ocorre mais em literatura do que em bibliografia acadêmica.
JARDEL: O tradutor de poesia é visto como traidor, dadas as especificidades da poesia, que são praticamente impossíveis de serem reproduzidas em outra língua. Como você vê as ideias de Augusto de Campos e Haroldo de Campos, que na tradução de poesia propõem, como resposta a essa impossibilidade, uma espécie de “transcriação” do poema (e até “transluciferação”), exigindo do tradutor de poesia a “recriação” do poema original e não apenas uma tradução do “conteúdo”? Exigência essa que pede atenção sobre todos os planos da linguagem: o fonético, o sintático, o semântico, o prosódico. (NOTA: Formulei essa questão a partir da leitura do texto “Augusto de Campos como tradutor”, de Paulo Henriques Britto).
DENISE BOTTMANN: Cá entre nós, não me derreto de amores pelo Augusto de Campos – há belas traduções dele, claro; penso sobretudo nas de trinta, quarenta anos atrás, de poesia provençal, mas sempre preferi o Haroldo, tanto em suas teorizações quanto em suas traduções. A grande alavancada da coisa foi, sem dúvida, a inspirada iniciativa de Haroldo em se abeberar no Pound, trazendo brisas renovadoras à nossa paisagem. A sensação que tenho, às vezes, é que o termo se trivializou um pouco – o próprio Haroldo foi, até onde consigo entender, modificando um pouco o conceito e ficou um tanto fluido: o que, aliás, me parece mais uma prova de sua altíssima qualidade de tradutor, de tal forma que a dinâmica, a práxis tradutória se mostra muito mais fundamental e determinante do que a elaboração teórica; para manter alguma validade efetiva, esta se adequa, se molda àquela. Em termos mais gerais, porém, as dificuldades mais específicas da tradução de poesia, pelo que vejo, estão relacionadas sobretudo a questões de rima e metro (e/ou também distribuição tônica). Pois os planos da linguagem que você cita, “o fonético, o sintático, o semântico, o prosódico”, encontram-se também a todo vapor em qualquer prosa literária dotada de alguma densidade. Você não consegue sequer imaginar um romance de, sei lá, Virginia Woolf dissociado de sua elaboração linguístico-estilística: não existe um “conteúdo” pairando espectralmente por cima ou em volta da estrutura compositiva da obra. Este, aliás, acho que é um problema que às vezes ocorre em certas concepções da tradução poética: no frenesi em tanto afirmar a unidade do poema, e talvez até como forma de compensação de um suposto tradicional conteudismo, enfatiza-se de tal modo um dos lados (digamos, a não-mais-chamada “forma”) que sua própria matéria, o não-mais-chamado “conteúdo”, acaba ficando um pouco mutilada. À força de, digamos, tentar fazer caber os versos dentro de uma moldura métrica, rímica e rítmica, vê-se em alguns casos o cruento e implacável sacrifício de imagens e figuras de linguagem que, não raro, têm peso maior do que o enquadramento adotado para a transposição. E você fica com a impressão de que, em alguns casos, aquilo vira quase uma espécie de fetichismo. Mas digo isso mais como leitora do que como tradutora de poesia, embora, de vez em quando, eu também tenha de me aventurar pela tradução de alguns poemas.
JARDEL: Citando Paul Valéry: “O poeta é uma espécie singular de tradutor que traduz o discurso comum, modificado por uma emoção, em ‘linguagem dos deuses`”. Invertendo a questão, podemos falar em uma poética da tradução?
DENISE BOTTMANN: Hm, não creio que tenha entendido bem a pergunta.
JARDEL: Talvez eu queira saber se a tradução pode operar um milagre diante do original. Mas deixemos essa questão para lá. Rs
JARDEL: Traduzir uma obra a partir de uma tradução já existente em outra língua (por exemplo, Kafka e Dostoievski traduzidos do inglês e francês, como aconteceu no Brasil) é um mal menor (afinal, pode-se ler, mesmo assim, aquilo que não se leria no original), ou apenas um desastre?
DENISE BOTTMANN: Imagina, desastre! De maneira nenhuma. E “mal menor” em termos, também, não é? De todo modo, a pergunta me parece um pouco ambígua: “traduzir uma obra” e “pode-se ler” – estamos falando do tradutor ou do leitor final? O leitor, suponho eu, há de agradecer, claro, pois, como você diz, apesar da ressalva “mesmo assim”, ele pode ler aquilo que não leria no original. Já o tradutor há de fazer o que lhe é possível fazer. Isso falando em termos gerais. Falando em termos mais concretos, o surgimento de um efetivo setor editorial no Brasil, com alguma capacidade de autossustentação, é fenômeno bastante recente, que não chega a um século de existência, e sua consolidação não foi instantânea e sim gradual, embora, em vista das circunstâncias, até relativamente rápida. Então até podia haver um ou outro editor que se empenhasse em publicar traduções diretas, por exemplo, do russo, e podia haver um ou outro tradutor capacitado a fazer traduções diretas, ainda por exemplo, do russo. E não era só uma questão de conhecimento ou domínio de línguas menos usuais no Brasil – o tema é longo e complexo, envolvendo outras variáveis, talvez até mais importantes. Em todo caso, o que quero dizer é que se traduzia como dava: direta ou indiretamente do francês, do espanhol e, a partir de certa altura, diretamente do inglês – e nisso foi fundamental o papel do Monteiro Lobato (pois, não sei se você sabe, mas até o Oliver Twist o Machado de Assis traduziu do francês e, por lindo que seja O corvo dele, não sei como ficaria sem suas consultas também ao Baudelaire). Repito, sempre havia aquele classicista oitocentista que traduzia do latim ou do grego (Odorico Mendes, p.ex.), ou aquela descendente de algum imigrante germânico que conhecia a língua e traduzia do alemão (Carolina von Koseritz, p.ex.), ou aquele refugiado da Revolução soviética (Georges Selzoff, p.ex.) ou aquele comunista que fora viver algum tempo na URSS e dominava o russo (Moacir Werneck de Castro, p.ex.) – mas eram de se contar nos dedos. Já era fantástico, a meu ver, que, na esteira da grande crise de 1929, inviabilizadas as importações de livros estrangeiros e da maciça quantidade de traduções publicadas em Portugal, começasse a se desenvolver uma indústria editorial brasileira, inclusive vigorosamente fomentada pela política nacionalista de Vargas. Então, falar em desastre, em mal menor, isso e aquilo, me parece – com desculpas pela expressão – coisa de criança manhosa. Fazia-se o que se podia – e até, penso eu, freneticamente. E hoje em dia, sendo o cenário muito diferente nesses últimos cinquenta anos, ainda pode haver casos de tradução por interposição, mas são cada vez mais raros. Aliás, por falar nisso, recentemente fiz uma tradução interposta (talvez a primeira na minha vida profissional), a Utopia, de Thomas More, a partir do inglês. Por sorte, como não sou totalmente ignorante em latim, deu para acompanhar linha a linha pelo original neolatino (e até encontrei uma frase do original que o grandíssimo tradutor inglês, Dominic Baker-Smith, havia pulado, acredita numa coisa dessas? Achei divertido!). Mas, em suma, o que quero dizer é que, mesmo que ainda se faça, vez por outra, alguma tradução por interposição, qualquer tradutor, imagino eu, vai buscar amparo no original e/ou no aparato crítico que cerca aquela obra.
JARDEL: É famoso o caso das traduções de Freud, onde alguns conceitos-chave de sua obra são precariamente traduzidos colocando o sentido de suas ideias em risco, e há muita literatura sobre os equívocos das traduções das obras do pai da psicanálise. Como um tradutor pode evitar criar problemas em uma obra tão exigente como a de Freud ou outro pensador?
DENISE BOTTMANN: Nisso há um pouco de mitologia também, não? Quase cem anos depois, fica fácil falar qualquer coisa. Há décadas criticam-se tremendamente as traduções do James Strachey, que até hoje formam a Standard Edition das obras completas de Freud. Mas se a gente lembrar que o Freud estava ciente, a par, acompanhando as publicações, que foi a própria associação internacional de psicanálise em sua seção britânica que criou uma parceria com a Hogarth Press nos anos 1920 (editora, aliás, de Leonard e Virginia Woolf), que o Strachey fazia parte daquele círculo, você vai dizer o quê? Que o Freud foi “traído”? Que o Strachey era um desleixado? Complicado, né? Ou a história da turma francesa oscilando entre instinct e o neologismo pulsion para o Trieboriginal (que no inglês ficou como drive)? Quer dizer, isso para mim fala mais do aprofundamento, complexificação e diversificação de uma área de estudos do que propriamente de “problemas de tradução”. E essa abrupta afirmação, “precariamente traduzidos colocando o sentido de suas ideias em risco”, que hoje em dia faz parte do senso comum, às vezes talvez sirva também como uma espécie de slogan, como acompanhamento de uma pretensão de grande avanço qualitativo de tal ou tal estudo ou de tal ou tal tradução. Então eu iria com mais calma na hora de avaliar esse tipo de questão, antes de enunciar juízos muito bombásticos.
Mas, respondendo mais diretamente à pergunta, com autor vivo (como Freud naquela época), não há muito problema. É só conversar com ele – e, mesmo assim, depois pode dar um tremendo bafafá (exemplos: Freud, mais uma vez, ou, mais próximo de nós, o Guimarães Rosa, apesar da extensa e minuciosa correspondência com seu tradutor alemão, Curt Meyer-Clason, que depois virou saco de pancadas). O bafafá faz parte. As coisas não param, e sempre vai ter gente criticando, retificando, aprimorando etc., até que alguma hora, décadas ou séculos depois, aquilo vai ser resgatado com grandes pompas e fanfarras. Normal. Agora, com autor clássico, o grande arrimo com que o tradutor pode contar é a fortuna histórico-crítica de muitas décadas ou de séculos, às vezes até milênios, de análises, estudos, interpretações em torno da obra, do autor, da época, da inserção dentro de tal ou tal panorama, de seu impacto e desdobramentos, e assim por diante.
Resumindo, tradutor nunca está sozinho e tradução nunca ninguém faz sozinho. Você está no mundo, dos vivos e dos mortos, e vai dialogando. Pode evitar alguns problemas, mas certamente criará (ou criarão por você) outros. E é bom que assim seja.
Jardel Dias Cavalcanti .
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