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23 de set. de 2011

o jabuti volátil


  • o prêmio jabuti, da cbl, foi criado em 1959, com oito categorias. 
  • em 1978, já com o dobro de categorias, dezesseis, estreou a categoria de tradução de obra científica. 
  • em 1979, criou sua décima-sétima categoria, a tradução de obra literária. 
  • até 1986, convivem as duas categorias de tradução. 
  • em 1987, as duas categorias são reduzidas a uma, sob a rubrica geral de "tradução".
  • em 1988, some a "tradução" e volta a categoria anterior de tradução de obra literária, mas apenas ela. 
  • em 1993, some a tradução de obra literária; volta a ser apenas tradução, contemplando os cinco primeiros classificados.
  • a partir de 1997, sempre na categoria única de tradução, passam a ser três classificados.
  • a partir de 1998, a categoria única de tradução volta a se restringir a obras de ficção, com três classificados.
  • em 2009, no ano brasil-frança, é criada uma categoria de tradução de obra literária em francês, além da categoria geral de tradução (apenas literária, desde 1998), com três classificados.
  • em 2010, a categoria de tradução do francês é substituída por tradução do espanhol, nas mesmas condições.
  • em 2011, essa categoria adicional é eliminada, e resta a tradução de obra literária, restrita a contos, crônicas, poesias e romances, com dez finalistas e apenas o primeiro classificado, num total de 29 categorias.
atualização em 13/06/2013:
  • em 2013, retorna a categoria adicional, neste ano contemplando o alemão; a premiação da categoria geral de tradução passa a acolher inscrições de obras de não ficção; o total de categorias é reduzido a 27; amplia-se o número de premiados para os três primeiros classificados, recebendo troféus, e o primeiro classificado recebendo um valor em dinheiro.
fonte: cbl

imagem: stacysix
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o jabuti atrapalhado

acabou que a comissão do jabuti da cbl resolveu desclassificar a tradução da obra de johann huizinga, o outono da idade média, que havia sido selecionada como obra de ficção, e substituiu por estranho interlúdio, peça de eugene o'neill, em tradução de alípio correia de franca neto. em vista do regulamento estreito e tacanho, mas muito explícito - "29. Tradução: Textos exclusivamente literários de ficção (contos, crônicas, romance, poesia), traduzidos de qualquer idioma, para a língua portuguesa falada e escrita no Brasil" -, acho meio confuso que se aceitem e se selecionem peças de teatro. uma pena...


acho que realmente o jabuti tem de parar e repensar com calma e sensatez seu inchamento descontrolado, que só gera confusão e alopramento, e deixa de lado coisas fundamentais como as traduções de novelas, peças de teatro, ensaios, artes e humanidades.

veja aqui o regulamento. acompanhe a confusão aqui e aqui. naturalmente, fica uma situação meio incômoda para a cosac, a record e a 34 que foram desclassificadas, mas é evidente que a falha foi, em primeiro lugar, da própria cbl, ao aceitar inscrições sem checar se atendiam aos critérios, e em segundo lugar dos membros das comissões que selecionaram os finalistas e nem se deram ao trabalho de examinar direito as obras que tinham em mãos.

atualização em 29/09/11: infelizmente, mais uma cincada e mais uma desclassificação - veja aqui
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16 de mar. de 2010

de plágios e processos



de plágios e processos: entrevista minha a bruno dorigatti, no portal literal.

imagem: montagem

atualização: como o portal literal encerrou suas atividades e saiu da rede, reproduzo aqui a revista banzeiro:

Por ser de UTILIDADE PÚBLICA, reproduzo aqui a entrevista que a TradutoraDenise Bottmann, editora do blog Não gosto de Plágio, concedeu ao Jornalista Bruno Dorigatti, do Portal Literal, em 15/03/2010.

De plágios e processos


Por Bruno Dorigatti*

A notícia estourou no fim de fevereiro e a repercussão tem sido considerável. Motivada por matérias publicadas em dezembro de 2007 pelo jornal Opção, de Goiânia, e pela Folha de S. Paulo, a tradutora e historiadora Denise Bottmann criou no mesmo mês blog Não gosto de plágio, onde vem denunciando casos de plágio em obras clássicas de nomes como Goethe, Tolstói, Dante, DH Lawrence, entre dezenas de outros autores. Na época, as denúncias caíram sobre as editoras Martin Claret e Nova Cultural. O dono da primeira, cujo nome é o mesmo da editora, entrou na Justiça contra Bottmann e a ação está em andamento. A tradutora, porém, não se intimidou e segue com o seu trabalho de levantar e apurar “coincidências” que ultrapassam o limite do tolerável em traduções. O caso mais recente envolve a editora Landmark e ganhou repercussão por conta de outro processo movido contra Bottmann e também contra Raquel Sallaberry, que mantém o site Jane Austen em Português. No blog, Bottmann apresentou provas de plágio na tradução dePersuasão, de Jane Austen, e O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë, publicadas pela Landmark em 2007. “O método é sempre o mesmo. Mantém-se a estrutura da tradução e muda-se uma ou outra palavra antes que o texto seja publicado sob pseudônimo ou assinado por um tradutor desconhecido”, escreve Nahima Maciel, em matéria para o Correio Braziliense

“Entre as 15 editoras com problemas de catálogo, referentes a plágios e contrafações de tradução, a Landmark é a única a negar as evidências”, informa Bottmann. Segundo Alberto J. Marchi Macedo, advogado da editora, “a Landmark propôs a ação competente em face da blogueira Denise Bottmann por entender que as denúncias por ela apresentadas encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto a acusação de plágio. Nesse momento a Editora Landmark acredita ser prudente aguardar a tutela jurisdicional que irá por um termo a esse assunto”.

Em entrevista exclusiva ao Portal Literal, a tradutora se defende: “Sustento o que afirmei e vou apresentar todas as provas em juízo. Imagino que a prática processual determinará que se proceda a uma perícia”. Desde que a notícia se tornou pública, divulgada pela tradutora e seu blog, há mais ou menos duas semanas, quase 250 posts, artigos e matérias foram publicados na rede sobre o tema. Foi criado o blogApoio a Denise Bottmann, onde um Manifesto de apoio à tradutora, inicialmente assinado pelos tradutores Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivo Barroso e Ivone C. Benedetti, já conta com mais de 2.500 adesões. O texto pede mobilização para desmascarar uma prática que “1.Fere a Lei de Direitos Autorais, que considera o tradutor como autor de obra derivada e salvaguarda seus direitos morais e patrimoniais; 2. Configura concorrência desleal, pois as editoras de má-fé, não arcando com os custos dos direitos de tradução ou não pagando por uma retradução, põem em desvantagem as editoras que, pautando-se pela idoneidade, assumem tais custos; e 3. Atenta contra nosso patrimônio cultural, ao disseminar a cópia fraudulenta de obras muitas vezes assinadas originalmente por nomes reconhecidos e estimados de nossa literatura”.

Uma das maiores críticas à Landmark foi a tentativa de censura ao blog, solicitando “a remoção do blogueNão gosto de plágio da internet, invocando o ‘direito de esquecimento’; antecipação dos efeitos da tutela de mérito (ou seja, determinação da remoção imediata do blog antes do exame do mérito da ação impetrada)”. Segundo o advogado da Landmark, em nota enviada ao Blog do Galeno, “em nenhum momento, a Editora está pretendendo cercear o direito de liberdade de expressão, mas tão somente está solicitando a prestação jurisdicional para colocar fim às acusações infundadas que a prejudicam no mercado editorial”.

A seguir, Denise Bottmann recapitula a história de plágios no Brasil, arrisca uma resposta para a proliferação de casos de plágios recentemente, e fala sobre o seu ofício, que – apesar destes casos que mancham um trabalho árduo, sério e nada simples – vem se profissionalizando cada vez mais no país, onde as editoras sérias têm investido em traduções diretamente da língua original em que as obras foram escritas. Confira.

Por que criar um blog para denunciar o plágio nas traduções?


Denise Bottmann. Na verdade, tudo começou em dezembro de 2007, na esteira de matérias do jornalOpção, de Goiânia, e da Folha de S. Paulo, denunciando plágios da editora Martin Claret e da editora Nova Cultural. O e-group Litterati, que reúne tradutores, começou a discutir o problema e um dos participantes, Fábio Said, teve a idéia de montar um blog onde apresentaríamos um abaixo-assinado de protesto contra tais procedimentos editoriais e divulgaríamos notícias, tentaríamos angariar apoio etc. O blog se chamava Assinado-Tradutores. Depois, por divergências internas entre os colaboradores do blog, preferi me retirar e criar um blog pessoal, que é o Não gosto de plágio.

Você falou em pressão e intimidação nestes dois anos. Mas agora a ameaça é judicial. Aposta o que teria motivado a editora?

Bottmann. Já há uma ação judicial do Sr. Martin Claret, como pessoa física, em andamento contra mim. O juiz havia rejeitado de plano as alegações do Sr. Claret, seus advogados entraram com recurso, meu advogado entrou com as chamadas contra-razões, e agora estamos aguardando a decisão da junta recursal.

Realmente, não sei o que pode ter motivado a editora Landmark. Entre as 15 editoras com problemas de catálogo, referentes a plágios e contrafações de tradução, a Landmark é a única a negar as evidências. Então não entendi a razão da ação. Numa declaração dada ao jornalista Guilherme Freitas, de O Globo, "a editora Landmark afirmou, através de seu advogado, que entrou com a ação contra Denise 'por entender que as denúncias por ela apresentadas encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto a acusação de plágio'." Bom, eu sustento o que afirmei e vou apresentar todas as provas em juízo. Imagino que a prática processual determinará que se proceda a uma perícia.

Ao que se deve a essa proliferação de plágios recentemente? A descoberta é que só se deu agora, ou a prática começou mesmo recentemente?

Bottmann. Olha, Bruno, esta é uma questão muito, muito importante. Plágio aqui, plágio ali, localizei um de 1903! Mas eram coisas muito avulsas e esporádicas, não chegavam, a meu ver, a configurar um procedimento sistemático no setor editorial. Não mesmo.

Bom, tenho a mais profunda convicção de que, enquanto fenômeno sociocultural em escala significativa, é algo recente. Embora eu sempre repita que o pioneirismo cabe à Nova Cultural, com o franco e deslavado recurso a essa prática a partir de 1995, foi um caso que hoje em dia considero até atípico. Em termos de volume, de escala, de abrangência, o caso da Nova Cultural foi brutal: calculo por baixo uns 2 milhões de exemplares.Considero atípico porque certamente a motivação, digamos assim, ou melhor, o contexto em que se desencadeou isso na Nova Cultural foi muito peculiar, em decorrência dos termos da partilha entre os dois irmãos e da extinção da Abril Cultural.

Bom, mas historicamente eu situo o início desse fenômeno nos plágios publicados pelo Círculo do Livro (que na época abrigava a recém-criada Nova Cultural) e pela própria Nova Cultural, tanto na coleção dos Imortais da Literatura Universal quanto na coleção d' Os Pensadores.

Mas a coisa realmente assume outro feitio a partir de 1999, em decorrência, em meu entender, da malfadadaLei do Direito Autoral (LDA), de 1998, a Lei n. 9.610. O que houve com essa lei? Em termos muitos resumidos, ela pura e simplesmente proibiu todo e qualquer tipo de xerox, cópia etc., e reduziu drasticamente as exceções anteriormente previstas pela lei de 1973.

Então, veja só, todo o ensino deste país, com o recurso maciço a xerox de capítulos de livros ou de livros inteiros, mesmo porque muitos são esgotados e não se encontram à venda, ficou refém dessa criminalização absurda.

Você deve lembrar das invasões policiais em tantos campi e faculdades de norte a sul do país, quando máquinas xérox foram lacradas, ações judiciais da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR), com o apoio do Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel) contra os próprios reitores das universidades.

Bom, mas me diga: você dá aula de filosofia, ou de estética, ou de teoria literária, ou de artes cênicas, ou de cultura geral, quer falar sobre o conceito de unidade de ação, tempo e espaço, ou sobre a diferença entre tragédia e comédia, quer indicar aos alunos, sei lá, a leitura da Poética de Aristóteles. Meu deus, era pela coleção Os Pensadores, da Abril Cultural, vendida em bancas de revistas, livro esgotadíssimo, e agora não pode mais tirar xerox, e só há, sei lá, dois ou três exemplares na biblioteca da faculdade. Multiplique isso por milhares de cursos e estabelecimentos de ensino, imagine a demanda medonha pela obra, que não existe, que não se encontra em circulação, e você não pode xerocar.

Falei no Aristóteles. Ponha aí Platão, Descartes, Hobbes, Maquiavel, Thomas More, Campanella, Marx, Ihering, Rousseau, Locke, Weber e quantos mais você lembrar como bibliografia obrigatória da graduação de todo o país, sem falar nos clássicos da literatura, de Homero até o século XX.

Aí, em 1999 começa o primeiro esperto a ver essa imensa demanda sem ser atendida, a ver que a lei realmente proíbe o xerox e a ABDR realmente persegue policial e judicialmente as oficinas de xerox, os professores, os alunos, os reitores etc. – e num estalar de dedos, revirando em sebos, você tem um enorme catálogo de obras fundamentais, com mercado garantido, demanda constante, a custo praticamente de banana. Editoras fechadas, por exemplo, Vecchi, Pongetti, Atena e tantas outras; tradutores mortos, por exemplo, Lívio Xavier, Godofredo Rangel, Leonidas Hegenberg; e por aí vai.

Então, em meu entender, esse fenômeno se funda, em primeiro lugar, no absurdo período de tempo necessário para que uma obra entre em domínio público: 70 anos APÓS A MORTE do autor (e tradutor, perante a lei, tem todos os direitos de autor). Vem uma nova conjuntura, com uma nova legislação, proibindo o acesso à obras esgotadas por xerox, digitalização etc., as escolas continuam a indicar Aristóteles, Platão etc. O que que resulta? Nesse nicho extremamente próspero e perverso de algumas editoras que recorrem maciçamente a tais procedimentos.

Poderia falar um pouco mais sobre a Nova Cultural, e o que significa essa volta dos clássicos pela Abril , 32 anos depois?

Bottmann. Eis os fatos que conheço sobre a questão:

Em 1982, houve a partilha da Abril entre os dois filhos de Victor Civita. Os fascículos e coleções de banca couberam a Richard Civita. Em 1984, a Abril Cultural é extinta. Coleções importantes da antiga Abril Cultural, como Imortais da Literatura Universal, Obras-Primas, Os Pensadores, Os Economistas, passaram para a Ed. Nova Cultural, como empresa de início pertencente ao Círculo do Livro e depois ao grupo CLC (Comunicação Lazer e Cultura). Em 1995, é publicado o primeiro plágio da Nova Cultural: Os irmãos Karamazov, na tradução de Natália Nunes, surge em nome de "Enrico Corvisieri", como primeiro volume inaugurando sua Coleção Imortais da Literatura Universal, com 20 títulos. Veja aqui.

Na mesma coleção, os volumes 3 (Balzac, A mulher de trinta anos), 4 (Tolstói, Ana Karênina), 8 (Stendhal, O vermelho e o negro), 10 (Zola, Germinal), 11 (Scott Fitzgerald,Suave é a noite), 15 (Dumas, Os três mosqueteiros) e 16 (Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray) são cópias mais ou menos disfarçadas de traduções anteriores. Veja aqui.

Em 1999, começam a surgir edições fraudadas na coleção Os Pensadores. Veja, por exemplo, a calamidade da edição do Discurso do método [de Descartes], também em pretensa tradução de "Enrico Corvisieri", o grau de infiltração nas escolas etc. Em 2002-2003, é lançada a coleção Obras-Primas, com o patrocínio da Suzano Celulose e do Instituto Ecofuturo, com 50 títulos, dentre os quais nada menos de 20 são plagiados de traduções anteriores.


Naturalmente, não faço idéia das razões que podem ter levado a Editora Abril a criar umanova coleção de clássicos da literatura. Posso ter lá minhas opiniões a respeito, mas não vêm ao caso. O que sei é que é uma coleção nova – embora muitos títulos também tenham sido publicados pela antiga Abril Cultural e pela Nova Cultural, agora são outras traduções, ao que sei, pela relação divulgada pela Editora Abril. Segundo a sra. Marta Medeiros, com quem conversei na Editora Abril, essas traduções foram licenciadas junto às editoras e/ou herdeiros de tradutores falecidos detentores dos direitos patrimoniais sobre elas. É uma operação editorial absolutamente normal e corrente. Quanto ao conteúdo propriamente dito, a única coisa que lamento é que a tradução de Crime e castigo seja por interposição do francês, e não direta do russo.

O que acha que os advogados da editora querem dizer quando afirmam que a ação foi movida contra você "por entender que as denúncias por ela apresentadas encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto a acusação de plágio"?

Bottmann. Boa pergunta. Não sei te dizer. De minha parte, eu digo que as denúncias estão totalmente agarradas à realidade fática, razão pela qual existe todo o cabimento quanto à acusação de plágio.

Em que circunstâncias você começou a traduzir livros?

Bottmann. Olha só, que interessante. Naquela época (1985), eu dava aula na Unicamp, e um dia alguém da Brasiliense, meio de ponto em branco, por intermédio de uma amiga jornalista, me propôs fazer a tradução de um livrinho chamado O capitalismo histórico, de Immanuel Wallerstein. Como sou historiadora, achei interessante e topei. A Brasiliense gostou, e me passou logo a seguir A crise da crise do marxismo, de Perry Anderson. Então, de 1985 a 1995, mais ou menos, fiquei fazendo um pouco de tradução, sempre nessa área mais acadêmica, geralmente ligada à história, à historiografia, teoria da história etc. Mas depois parei, por uns dez anos, e em 2005 resolvi tentar de novo. Deu certo, e hoje em dia me dedico bastante a traduções. Mas sempre nessa área mais, digamos, acadêmica, ligada à ciências humanas e humanidades em geral.

Traduzir é sua ocupação integral? É possível dedicar-se só a ela no Brasil?

Bottmann. Quer dizer, atualmente é minha única ocupação, embora não em tempo integral. As pesquisas de história da tradução no Brasil, dos plágios, que faço por conta própria, me tomam um tempo danado. Dedicar-se só a ela, você diz em termos monetários? Olha, quando eu me afastei da Unicamp, foi por razões de ordem pessoal, e nunca cheguei a me aposentar. Então minha renda atual provém única e exclusivamente das traduções. Como vivemos, meu marido e eu, meio retirados, numa cidade pequena, não faço muita idéia do que são salários, remunerações etc., hoje em dia. O que posso te dizer é que é mais do que eu recebia como docente universitária. Não sei, Bruno, realmente não sei se é feio falar essas coisas ou se eu vivo muito defasada das faixas de remuneração dessa classe média-média à qual me sinto integrada, mas acho que, para mim, está de bom tamanho. Então acho que sim, é possível viver bem razoavelmente apenas com o trabalho de tradução.

O que lhe instiga nas traduções?

Bottmann. Ah, eu adoro. Não sei dizer. É tipo charada, são pequenos desafios constantes e ininterruptos. É algo que realmente envolve a mente. Sempre tive a impressão de que é um tipo de atividade que demanda alguns traços obsessivos de caráter: aquela coisa meio maníaca de muita concentração e persistência, e senso de desafio. É algo meio competitivo, de você consigo mesmo.

Para o que um tradutor deve atentar quando mergulha na tradução de uma obra?

Bottmann. Ih, não sei. Como não faço tradução literária, e sim mais teórica e conceitual, as principais preocupações são com os conceitos, o fio da argumentação e a estruturação "lógica", digamos assim, da obra. Claro, não estou falando da língua, das estruturas sintáticas, frasais, pois ça va sans dire.

Você traduz prosa, poesia, ficção e não-ficção, ensaios etc.? O que muda de um gênero para outro?

Bottmann. Vide acima. Não faço tradução literária. Fiz apenas O amante, de Marguerite Duras, para a Cosac Naify, acho que ficou bem razoável, recebeu boas críticas e uma boa tese de análise comparada. No momento, excepcionalmente, até estou fazendo um romance, mas não é muito minha praia. Talvez algum dia... Muda, muda muito. Não tem nada uma coisa a ver com a outra. Traduzir, sei lá, Hannah Arendt, cuja língua materna é o alemão, mas que escreveu muita coisa em inglês, num inglês aliás bem arrevesado, discorrendo sobre Dilthey ou sobre o conceito de compreensão ou de causalidade em Kant, é muito diferente da mocinha contemplando o Mekong conforme a barca vai descendo o rio, no francês ébrio e semissussurrado de uma Duras. São paixões diferentes. Pessoalmente, gosto mais da paixão arendtiana. Bem ou mal, uma teórica apaixonada acaba tendo uma passionalidade mais concreta do que uma literata apaixonada, pois esta até pode projetar e transpor essa paixão para os personagens, enquanto uma teórica apaixonada dificilmente projetará suas paixões sobre Santo Agostinho, por exemplo. Sua paixão se executará na escrita, num outro registro, num outro nível, na reflexão, não sei bem como dizer.

O que lhe deu mais prazer ao traduzir?

Bottmann. Olha, há vários livros de que gosto muito. Um que foi muito importante para mim foi Piero della Francesca, de Roberto Longhi, que foi minha efetiva retomada do ofício, já em 2006. O primeiro Longhi, o da juventude, mesmo para os italianos é considerado um desafio estilístico. E aprendi muitíssimo, é uma obra linda, e fiquei muito, muito feliz quando soube que a tradução foi apreciada por gente que respeito muito, como Jorge Coli, Luiz Marques, Marco Lucchesi...

E o que lhe deu mais dificuldade?

Bottmann. Além do Longhi, que foi difícil e muito prazeroso, fiquei assombrada com o grau de dificuldade que tive, você não acredita com quem: Thoreau, Walden Pond !!! A quantidade de referências ocultas, implícitas, cruzadas, entrecruzadas, sobrecruzadas, de trocadilhos, aliterações, assonâncias, dissonâncias, metáforas, um tratamento alegórico forte, sua concepção da correspondência entre micro e macrocosmo não só na natureza, mas também envolvendo as sociedades humanas, jogos de palavras, registros diferentes do oral ao mais formal e até o lírico, com poemas do próprio Thoreau, as classificações zoológicas e botânicas e outros, fiquei perplexa. Não fazia idéia. Tomou-me o triplo do tempo que eu imaginava que levaria. Cheguei a fazer uma edição anotada, com umas cinqüenta páginas, mas a editora teve por bem não usar as notas. Ainda não saiu, deve sair em julho. Sinceramente não sei como ficou em português, tomara que preste. Mas é um texto muito difícil, quase hermético, e boa parte das referências vai passar batido para o leitor, e talvez o texto em português possa vir a parecer inexplicavelmente opaco, mas é porque não tinha como ficar parafraseando, cortando ou simplificando demais aquela carga absurda de referências. Fiquei orgulhosinha porque, naturalmente, consultei edições anotadas de vários comentadores abalizados, e trechos que nem eles próprios conseguiam desvendar eu consegui! Não digo a língua, o inglês, mas o sentido da coisa, o sentido da inserção daquele trecho naquela passagem, sua relação interna e suas referências externas, esse tipo de coisa. Mas, como lhe disse, a edição não vai sair anotada. Talvez algum dia eu publique um voluminho,Lendo Thoreau :-)

Como vê a situação da tradução no Brasil, comparada com outros países, não só da Europa e os Estados Unidos, mas também com o restante da América Latina, Ásia e Leste europeu?

Bottmann. Não sei dizer. Mas o Paulo Werneck [editor da Cosac Naify] diz uma coisa interessante: o Brasil é o país no mundo com os melhores tradutores literários no mais amplo leque de línguas, devido às inúmeras migrações para o país, desde poloneses, húngaros, chineses, japoneses, russos, árabes ao que mais você imaginar. Ele coloca a coisa de forma mais elaborada, mas é algo meio por aí.

O que esses casos de plágios revelam sobre essa situação?

Bottmann. Os casos de plágios de tradução, a meu ver, mostram o absurdo e o despropósito da atual Lei n. 9610/98 e a necessidade premente de uma reformulação de alguns dispositivos da lei, no que refere ao direito de reprodução para fins de ensino e uso privado, sem fim lucrativo, mas principalmente a liberação, mesmo para fins comerciais, dos direitos de publicação das obras esgotadas, órfãs e abandonadas, que são o grande alvo dos saques. Os EUA traduzem tão pouco, a Europa idem, seus capítulos sobre o acesso a obras órfãs e abandonadas, e uso didático e privado, são de modo geral tão mais flexíveis do que os nossos que nem há termo de comparação possível. De fato, acho que esse terreno tão fértil para a avalanche dos plágios em escala industrial resulta de uma conjuntura muito específica: o tremendo avanço das tecnologias digitais e uma reforma extremamente retrógrada da lei de 1973, que resultou no espantalho da de 1998, justamente num momento de salto tecnológico na área digital. Fica patético: e-books a torto e a direito, cópias xerox proibidas, livros de baixa qualidade gráfica e editorial com conteúdo roubado. Tenho pena das turmas que ingressaram nas universidades a partir de 1999...

O que pensa sobre a autoria e o direito autoral do tradutor? Como equacionar essa questão delicada?

Bottmann. Não entendi bem. Mas o que eu gostaria de comentar é a bizarríssima situação jurídica criada pela malfadada Lei n. 9610/98, nossa atual Lei do Direito Autoral (LDA). Já comentei que houve um brutal estreitamento dos capítulos que dispunham sobre o acesso às obras. Além disso, segundo a LDA, quanto às violações de seus dispositivos, a eventuais lesões dos direitos ali regulamentados, as únicas partes que poderiam reclamar e ir a juízo seriam os "diretamente" envolvidos, ou seja, no setor editorial, o autor/tradutor ou seus sucessores, e a editora lesada. Como se não existissem leitores, como se não existissem cidadãos, como se não existissem entidades, instituições públicas e privadas, bibliotecas idem idem, que pudessem se sentir lesadas, por exemplo, com o problema do plágio editorial. O único recurso que restava justamente ao destinatário mais importante deste bem cultural que é o livro – a saber, o cidadão leitor – seria reclamar ao Ministério Público... Imagine só! Se você lembrar, de mais a mais, a gradual extinção de qualquer instância pública regulatória na seara autoral a partir de 1990, a situação realmente ficou um descalabro. Veja, com a LDA de 1973 foi criado o Conselho Nacional do Direito Autoral (CNDA). Em 1990, ele foi praticamente desativado, e na lei de 1998 foi simplesmente extinto. Então ficou apenas aLei n. 9610/98, dispondo sobre os direitos autorais exclusivamente entre as partes, sem levar minimamente em conta as necessidades sociais de acesso aos bens culturais (de novo, repito, proibição de xerox, microfilmes, todo e qualquer tipo de reprodução sem fins lucrativos, para acervos públicos, ensino, uso privado etc.), nem a possibilidade de ação judicial no caso dos destinatários finais, os próprios usuários, que eventualmente se sentissem lesados, nem a existência de qualquer instância oficial, pública, a que pudéssemos recorrer. Não é um absurdo? Ficou uma lei totalmente patrimonialista, a indústria cultural de um lado, as pessoas físicas dos autores do outro, e ponto. Então, saudei com grande alegria a recente criação daDiretoria dos Direitos Intelectuais (DDI), no Ministério da Cultura (MinC), que prevê também o atendimento e defesa dos interesses do LEITOR! Ainda é muito recente, não sei como está operando, mas acho que é um grande avanço. Afinal, quem compra os livros são os cidadãos (e o governo, para escolas, bibliotecas etc.), e não vai poder reclamar quando vê algum problema? Complicado. Além disso, também nesse debate em curso para a revisão de alguns aspectos demasiado restritivos da atual LDA, estou vendo a inclusão da figura do cidadão, do usuário, justamente, e acho isso muito positivo.

Mas foi em virtude dessa falta de dispositivos jurídicos na atual LDA para a defesa dos interesses dos leitores cidadãos que me vi obrigada a entrar com mais de uma dúzia de pedidos de representação junto ao Ministério Público Federal e aos Ministérios Públicos estaduais de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Paraná, para pedir providências nesses descalabros.

Outra coisa: diz-se "direito autoral". Bom, acontece que em grande parte dos debates, das discussões, do mero uso da expressão "direito(s) autoral(is)", o que está se mencionando é o direito autoral patrimonial, isto é, o direito econômico de exploração comercial daquela obra. Então você tem aquela situação bizarra de algumas editoras ou associações de editoras dizendo "respeite o direito autoral", mas silenciando ou fazendo vistas grossas sobre suas próprias práticas ou as práticas de alguns de seus associados que infringem rudemente os direitos autorais MORAIS, isto é, o direito a ter estampado seu nome, a reivindicar a qualquer momento a paternidade e exigir a integridade da obra de sua autoria etc. No caso dos plágios, repito, como a imensa maioria dos autores/tradutores é falecida, e muitas vezes nem se localizam seus sucessores, a coisa realmente fica meio descontrolada.

Ora, pessoalmente eu me recuso a engolir uma tradução de Monteiro Lobato ou de Odorico Mendes ou de Eça de Queiroz, copiada e estampada em nome de um fantasma inventado qualquer, e acho realmente um atentado contra os direitos morais desses autores/tradutores, e principalmente contra os direitos dos cidadãos em ter acesso a obras legítimas e os direitos da sociedade em ter preservado seu patrimônio imaterial. Pois imagine que empobrecimento de nossa cultura geral! Você está lendo a prosa de Eça tradutor, de Lobato tradutor, de Odorico tradutor, e nem sabe! E depois vai dizer: "Ai, mas que coisa difícil esse Homero", ou "Nossa, Monteiro Lobato traduzia? Eu não sabia..."

De qualquer maneira, temos visto surgir muitas e boas traduções nos últimos anos, diretamente da língua de origem dos livros, o que não acontecia até alguns anos atrás. O que, de fato, mudou para melhor? E o que ainda precisa melhorar, em se tratando das traduções no Brasil?

Bottmann. Sim, é verdade, ufa, que bom. Acho que é fruto de um amadurecimento gradual do setor editorial. Pois todos esses descalabros que me deixam doente, e imagino que deixem muita gente doente, são praticados por uma pequena minoria de casas editoriais. Seus efeitos são medonhos, já comentei isso antes, e a impunidade que tem cercado esse vicejamento dos plágios a partir de 1999 é também um dos principais elementos a contribuir para esse fenômeno. Já disse também: acho que a DDI pode ter aí um bom papel para dirimir esse tipo de conflito leitor lesado x editora lesiva; acho que o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e as promotorias da Justiça do Consumidor têm mostrado maior sensibilidade ao problema e assim por diante.

Posto isso, olha, sinceramente acho que as traduções no Brasil, graças aos bons praticantes do ofício, às editoras sérias e idôneas e aos leitores atentos e exigentes, estão indo bem, obrigado.

E uma última questão é: será que a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores do Livro (Snel) poderiam se manifestar claramente sobre a situação dos plágios no país?



*Bruno Dorigatti foi editor do Portal Literal entre setembro de 2009 e junho de 2010. Foi subeditor e repórter do Portal Literal de março de 2005 a março de 2009.

fonte: http://banzeirotextual.blogspot.com.br/2010/07/bruno-dorigatti-entrevista-denise.html

8 de mar. de 2010

o código de ética da cbl

na longa matéria do correio braziliense sobre os plágios de tradução, há várias declarações interessantes. joana canêdo, em matéria para reflexão, comentou a posição do sr. fábio herz, proprietário da livraria cultura.

outra posição que merece atenção é a da câmara brasileira do livro (cbl), na figura de sua presidente, sra. rosely boschini. declara ela:
Ações isoladas de empresas associadas que ferem o desenvolvimento do mercado devem ser rechaçadas, quando devidamente comprovadas. Porém, não cabe à CBL o papel fiscalizador de referidas empresas. Também não acreditamos que a nossa instituição, com tantos anos de serviços prestados em prol do livro, possa ser atingida por práticas de um número reduzido de agentes do mercado que ferem regras básicas do setor.
há alguns detalhes aí que poderiam ser esmiuçados, mas julguei que não seria o caso, pois afinal de contas, conforme me alertou joana canêdo, a cbl dispõe de um código de ética para seus associados determinando que:
Art. 8º Os Associados da Câmara Brasileira do Livro devem, obrigatoriamente, observar as seguintes condutas:
I – respeitar os direitos autorais, combatendo o plágio e a reprodução não autorizada de textos e imagens [negritos meus, db]
pessoalmente, fiquei satisfeitíssima ao saber que a cbl tem clareza de que é obrigação de seus associados combater o plágio e a contrafação. o citado código se encontra disponível aqui: código de ética da cbl.

li atentamente o texto, e notei que ele não trazia data, especificando em seu último artigo que "Este Código entrará em vigor na data de sua aprovação pela Assembleia Geral".

costumo ser meticulosa em relação a dados, datas e informações, e então escrevi um e-mail ao diretor executivo da cbl, sr. eduardo mendes, congratulando vivamente a entidade por um código de ética tão atento a esse nefasto problema dos plágios e contrafações e pedindo informações sobre a data em que ele fora aprovado.

como não obtive resposta, um ou dois dias depois consegui falar diretamente com a sra. rosely boschini. parabenizei a cbl pelo zelo expresso no artigo 8, e também procurei me informar sobre a vigência do código. a presidente da cbl me esclareceu que ele ainda não entrara em vigor, pois estava-se aguardando a realização da próxima assembleia geral para ser aprovado. ok, dei-me por satisfeita.

no dia seguinte, ligou-me dra. fernanda, do departamento jurídico da cbl, em nome do sr. eduardo mendes, dispondo-se com muita gentileza e eloquência a fornecer as informações que eu solicitasse. repeti a ela o teor do e-mail que tinha enviado ao diretor executivo da cbl e, antes que eu terminasse a frase esclarecendo que a sra. roseli já havia respondido minha dúvida, dra. fernanda informou que o código de ética estava em vigor já fazia muito tempo. fiquei um tanto surpresa, e prontamente dra. fernanda solicitou a uma assistente que fosse buscar a ata da assembleia com a aprovação do referido código. logo a seguir, ela me informou que fora aprovado na assembleia geral realizada em 11 de junho de 2006.

quando finalmente pude comentar que, em conversa com a sra. boschini no dia anterior, ela me informara que o código ainda não fora aprovado pela assembleia e, portanto, ainda não estava em vigência, dra. fernanda explicou que muito provavelmente a presidente da cbl havia se confundido, e deu a conversa por encerrada.

ora, como expliquei tanto à sra. rosely quanto ao sr. eduardo mendes e à dra. fernanda, meu intuito ao entrar em contato com eles era simplesmente pedir uma informação trivial sobre a data de entrada em vigor do código, para redigir um post saudando seus termos. mas, em vista da dúvida - está em vigor? não está em vigor? foi aprovado? ainda não foi aprovado? -, aqui registro apenas os desencontros de informação.

em minha singela opinião, seria desejável que a presidência, a diretoria executiva e o departamento jurídico da câmara brasileira do livro se pusessem de acordo sobre dados tão elementares acerca de algo que, de meu ponto de vista de cidadã preocupada com a idoneidade do setor editorial, é de suma importância.

agradeceria muito se a cbl pudesse informar inequivocamente aqui aos leitores do nãogostodeplágio se, afinal, seu código de ética já entrou em vigor ou não.

14 de dez. de 2009

solicitação

dra. ana maria dolce braga enviou uma solicitação em comentário a não gosto de plágio, que reproduzo abaixo:

"Na qualidade de advogada de Caroline Kazue Ramos Furukawa, vimos silicitar o seguinte:

Na indicação das obras: A origem das Especies e a Seleção Natural de Darwin; A cabana do Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe e Seleções de Flavius Josephus, de Flávio Josephus acusadas de plágio,que seja retirado o nome de Caroline Kazue Ramos Furukawa, como sendo a tradutora, para evitar prejuízos que a ela estão sendo causados, em face da divulgação do referido fato nesse blog."

em 10/12, no post informe, este blog divulgou um comunicado de dra. ana maria dolce braga, esclarecendo que a atribuição dos créditos de tradução de tais obras à sua cliente é indevida e que estaria tomando providências judiciais junto ao responsável pelo uso indevido de seu nome. o nãogostodeplágio se prontifica a colaborar da melhor maneira que estiver a seu alcance para o respeito na forma da lei aos direitos morais dos praticantes do ofício de tradução, aos direitos dos leitores e cidadãos às informações corretas sobre as obras de tradução, e aos interesses difusos da sociedade no acesso e preservação dos bens intelectuais, sem qualquer intenção de causar prejuízos imotivados a quem quer que seja. dentro deste espírito e em atendimento à solicitação da sra. caroline ramos furukawa por meio de sua representante legal, as menções a seu nome serão excluídas e substituídas por links direcionando para seus esclarecimentos públicos.

cabe ressalvar que em momento algum este blog acusa ou acusou a pessoa de caroline kazue ramos furukawa de qualquer conduta ilícita ou de plágio. aqui encontra-se publicada a apresentação de materiais apontando a existência de obras espúrias publicadas pela editora madras, as quais trazem a menção a seu nome como autora das traduções, conforme os dados editoriais constantes nos volumes impressos à disposição dos leitores, nos catálogos e acervos da fundação biblioteca nacional e, no caso de a origem das espécies e a seleção natural, na própria ficha catalográfica da cbl. estes são fatos objetivos que demandam urgente correção. o nãogostodeplágio torce vivamente para que a editora responsável retire de circulação os exemplares das obras falsificadas, divulgue uma errata pública para esclarecimento dos leitores e da sociedade em geral e proceda ao ressarcimento dos lesados por tais práticas.

11 de dez. de 2009

cebelices

o jornalista e editor a. p. quartim de moraes publicou no estadão mais uma na ferradura, matéria inteligente e lúcida sobre problemas de fundo das entidades do mundo do livro, apontando entre outras coisas o perfil pouco representativo da cbl.

flanela paulistana, um dos blogs de jornalismo independente mais alertas e de mira mais certeira que conheço, desdobrou em câmara da mãe joana alguns importantes aspectos da matéria de quartim de moraes.

16 de nov. de 2009

pingos nos is


em 10 de novembro, atendendo a um convite da sra. rosely boschini, presidente da cbl, estive na sede da entidade em são paulo, para uma reunião com ela e seu diretor executivo eduardo mendes.

nesta ocasião, foi-me participado que a cbl vinha organizando nos últimos meses alguns encontros entre representantes das várias áreas de produção editorial do livro, citando-se como exemplo a associação dos ilustradores. a sra. rosely comentou que consideraria importante a participação dos tradutores, com o que concordei e sugeri que fosse feito um convite à abrates, associação brasileira de tradutores e intérpretes. o sr. eduardo mendes se prontificou a contatar a referida associação.

de minha parte, em 11/11 entrei em contato com a abrates e repassei o convite da cbl a seu presidente em exercício, recomendando a iniciativa da cbl como um bom canal para os tradutores. a abrates enviou à cbl a aceitação formal do convite, aliás mencionando gentilmente minha pessoa e o trabalho do nãogostodeplágio, e indicou representante para participar da reunião de 13/11.

posteriormente fui informada de que a referida reunião na cbl congregava não as entidades dos profissionais diretamente envolvidos na produção de um livro, conforme eu havia entendido, e sim os integrantes do chamado "grupo do livro pelo direito autoral". trata-se de uma esfera de discussões do setor privado que nem remotamente interessam a mim ou ao nãogostodeplágio. desculpei-me junto ao presidente em exercício da abrates pelo papel que acabei desempenhando involuntariamente, o de emissária de um convite cujo teor havia escapado ao meu entendimento.

quero aqui deixar registrado que eu, denise bottmann, sou uma cidadã sem vínculos associativos, não faço política e não nutro simpatias por práticas de instrumentalização, quaisquer que sejam. desautorizo qualquer menção pessoal ou institucional a meu nome e ao blog nãogostodeplágio relacionada com a cbl ou com o grupo do livro pelo direito autoral, e repudio publicamente qualquer tentativa de envolvimento de minha pessoa em assuntos que desconheço ou não me dizem respeito.

28 de out. de 2009

o cisco e a trave

GIE - Grupo Iberoamericano de Editores realiza encontro bem sucedido durante a Líber 2009
[...]
Compareceram os presidentes das Câmaras Iberoamericanas, inclusive Rosely Boschini pela CBL, onde fizeram relatos sobre a situação de cada mercado, compras de governo e pirataria.

- se pirataria é "utilização e reprodução não autorizadas de obras intelectuais (como obras musicais, artísticas, científicas, literárias e outras) com finalidade de lucro", conforme a cartilha da ABDR;
 

 
- se a editora madras, a editora rideel e a ediouro reproduzem sem autorização obras intelectuais com finalidade de lucro;
- se, portanto, tais editoras (que aliás ocupam 3 das 4 diretorias editoriais da cbl) se enquadram na definição de pirataria dada pela abdr,
- terá rosely boschini, a presidente da entidade, incluído tais lamentáveis exemplos em seu relato sobre pirataria?

25 de out. de 2009

leituras



via pedro paranaguá: a comprehensive framework for copyright protection and access to knowledge - http://is.gd/4yii7

entrevista de sérgio branco em cultura na era digital

imagem: khakgallery, via lasarina

14 de out. de 2009

madras, cbl

tudo isso entristece muito. a linha maciçamente dominante no catálogo da madras é esotérica, e a editora tem também uma linha infantil bem desenvolvida - para que então incluir um clássico da literatura, até destoante de seu catálogo, usando a prática tão revoltante de cópia de uma antiga tradução esgotada? podíamos passar sem isso... *

* veja aqui a contrafação publicada pela madras.


e mais contristador ainda é ver que, dos quatro diretores editores da câmara brasileira do livro, três apresentam problemas de plágio em seus catálogos: ediouro, rideel e agora madras. a ediouro pode dizer que foi enganada em sua boa fé e apenas adquiriu licença da hemus, mas continua vendendo seu plágio; a rideel pode jurar de pé junto que tirou ou está tirando de circulação quase 50 títulos, mas vários continuam à venda; a madras, não sei - tentei falar duas vezes na editora, não consegui - de qualquer forma, o fato é que nosso mercado editorial está inundado com plágios, contrafações e reproduções não autorizadas de antigas traduções.

e que, ainda por cima, sejam estes editores a ocupar cargos de direção na cbl, é realmente alarmante.

Diretores Editores
Andrés Cardó - Editora Moderna
Wagner Veneziani Costa - Madras Editora
Jorge Rodrigues Carneiro - Ediouro
Italo Amadio - Editora Rideel

13 de out. de 2009

a ironia das coisas II, com moral edificante

contrastes:

I.
talvez para compensar o excesso de créditos à minha pessoa no maravilhoso a cultura do romance, org. franco moretti, a cosac & naify por alguma razão qualquer esqueceu de me dar os créditos pela tradução dos textos de a new sentimental journey, de alair gomes, outra belíssima edição sua.

como boa editora que se preza, tão logo se deu conta do lapso (que eu nem sabia), entrou em contato comigo e comunicou que tinha providenciado a correção em seu site - veja aqui - e mandou imprimir milhares de etiquetinhas autoadesivas para colar nos exemplares em estoque e nas livrarias de são paulo.

II.
então, ninguém me venha com a história de dizer que, nos casos efetiva e deliberadamente criminosos de plágios descarados e desmascarados, não dá para providenciar rapidinho uma boa solução. estão aí os bons exemplos de gente de bem e de empresas do bem.

e chega de tanta má-fé dos bad guys. dona cbl, dona abdr, donas entidades do livro, parem de posar de acomodatícias, vão à luta e por favor limpem seus quadros - afinal, também de vos fabula narratur.

7 de out. de 2009

a dança do vira

em 2006, várias entidades estudantis redigiram um manifesto protestando contra a criminalização da cópia de trechos, capítulos e livros de bibliografias indicadas em seus cursos. o manifesto se chamava "copiar livro é direito", o simples direito, garantido pela constituição e pelas convenções internacionais, de acesso a cópias parciais ou integrais de obras para uso privado, nos estudos, sem fins lucrativos.

é incrível que os estudantes tenham de brigar desesperadamente para poder ler materiais de estudo.

é incrível que a abdr processe reitores por causa da presença de máquina xerox na universidade.

é incrível que se passe mais de uma década com esse massacre do ensino já debilitado por tantas carências, e que pelo menos duas gerações de jovens tenham se formado sob os abusos perpetrados pela abdr, com o respaldo da cbl, do snel e da abrelivros, contra toda a sociedade brasileira.

é incrível que tais atentados contra o ensino e a educação de milhões de jovens, sacrificando o futuro do país, tenham sido motivados por interesses econômicos de uma parcela do setor editorial privado.

e realmente incrível, a ver a profecia da abdr de que "assim ninguém mais vai querer publicar livros e os alunos vão ter que se virar", é que políticas deste naipe exerçam tamanha influência nos destinos do livro e do ensino em nosso pobre país.

imagem: a dança do vira

27 de ago. de 2009

"comigo ninguém pode"


mais uma na linha da fraude humorística, tão apreciada pela editora rideel (responsável: sr. italo amadio, da atual diretoria da cbl).

seu metodologia jurídica, de savigny, é uma singela cópia que vem em nome de heloísa da graça burati, publicada em SÃO PAULO, 2005, reproduzindo a tradução de hebe caletti marenco que a edicamp tinha lançado em CAMPINAS, 2001.

não satisfeita com a proeza, a rideel copiou também o prefácio todinho da edicamp, sem se esquecer de reproduzir a data e o local.

aqui a edicamp, com a especificação de data e local em baixo:




aqui a rideel, idem:












































26 de ago. de 2009

ao mestre com carinho 2

a obra de tommaso de campanella, a cidade do sol, em cópia de tradução que a editora rideel atribui ao nome de "heloísa da graça burat(t)i", está presente em:

http://www.prto.mpf.gov.br/info/info_bibdetalhes.php?iid=665&ctg=&sctg=http://www.paulofreire.org/twiki/pub/FPF2008/TrabalhoMonicaBrunnerSchiffer/artigo_utopia_Forum_Paulo_Freire_(2008).doc
http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2008/anais/pdf/581_430.pdf
http://www.upf.tche.br/biblioteca/download/Boletim%202008%20n1.pdf
http://www.fsa.br/santoandre/editor/userfiles/File/livrog.htm
http://www.sec.ba.gov.br/iat/SITE_2007/acervo%20biblioteca%201.pdf

o sr. mario amadio havia afirmado que a rideel retirou de circulação essa baixaria. hmmm, não sei não. continuam solidariamente responsáveis pela fraude, segundo os termos da lei 9610/98:

- fnac
- camargo
- curitiba
- loyola (cujo dono, sr. vítor tavares, aliás, é colega do editor responsável pela rideel, sr. italo amadio, na diretoria da cbl)

outra coisa complicada: no meu exemplar dessa obra consta 2005, 1a. edição. encontrei vários exemplares da mesma obra que traziam como data da 1a. edição o ano de 2004. a martin claret também vive fazendo isso: em geral todas as suas edições do mesmo livro são "1a. edição". engraçado, não é mesmo?

imagem: www.myspace.com