2 de mar de 2010

Matéria para reflexão: a responsabilidade das livrarias

A loucura que está sendo o processo movido pela editora Landmark contra a Denise e a Raquel, juntamente com toda a repercussão da história, tem gerado em mim muita matéria para reflexão, principalmente em torno da ideia de responsabilidade social, em seu sentido mais amplo.
Vou começar com uma anedota:

Outro dia estava parada no sinal vermelho. O sinal verde abriu e eu me pus em movimento. Qual não foi a minha surpresa quando um táxi, estacionado em seu ponto na rua que atravessava aquela onde eu estava, também acelerou e, passando o sinal vermelho (para ele), cortou bem na minha frente. O acidente só não aconteceu por pouco. Por coincidência o tal táxi parou 50 metros à frente, exatamente onde eu ia parar também. Isso me deu a oportunidade de confrontá-lo. Perguntei (tenho que admitir que estava um tanto histérica no momento) como um profissional no trânsito tinha a coragem de fazer uma coisa dessas. Ao que ele me respondeu: “Você é da CET? Então não lhe devo satisfação alguma.” Mas... E as leis do trânsito, e a segurança das pessoas nas ruas, e...? Enfim. O fato é que, para ele, só precisamos respeitar a segurança, a lei e a ética se tem alguma agência fiscalizadora observando. Se não, para quê? Cada um por si, certo?

Pois é. Foi isso o que me fez pensar a reação do diretor da Livraria Cultura, Fabio Herz, no depoimento que deu ao Correio Braziliense na matéria sobre plágio deste fim-de-semana (Palavras replicadas). Ele diz:
“A partir de um momento em que o juiz determina alguma coisa e foi dado como algo plagiado, a gente recolhe (os livros). Só que não tenho a competência para julgar isso. Denúncia não significa que algo está errado, alguém vai apurar. Se o Ministério Público chegar à conclusão que é plágio, retiro da livraria. Mas antes de uma decisão da Justiça não posso tomar decisão precipitada porque não me cabe o julgamento. É uma situação delicada, mas não gosto de tomar uma decisão antes que a Justiça determine uma posição”.

Eu penso assim: quando um comerciante recebe um produto ruim de seu fornecedor, ele pode (e deve) se recusar a vendê-lo, no mínimo por respeito a seu cliente, talvez pelo bem de seu negócio, mas não apenas porque a justiça ordenou. Um supermercado não vai esperar ser acionado pela justiça por ter vendido iogurte estragado: ele vai tirar o iogurte ruim da prateleira, mesmo antes de vencer a data de validade, caso verifique, empiricamente, que não está mais bom. Não vai precisar de prova forense para isso, não vai esperar que um fiscal da Anvisa venha lhe dizer para retirar.

Um profissional do trânsito deveria saber que as leis do trânsito não estão aí simplesmente para tirar pontos da carteira. Mas porque quando se vive em sociedade é importante que se respeitem algumas normas básicas para que o trânsito não fique caótico, para não criar situação de riscos, para não provocar acidentes... É sua responsabilidade social contribuir para um bom trânsito nas ruas.

Um profissional do livro, da leitura, da cultura afinal, deveria estar ciente de seu papel de disseminador da cultura, e de sua parte de responsabilidade para o enriquecimento cultural de toda a sociedade. Pois acredito que disseminar o plágio é péssimo para a cultura e para o negócio livreiro também. Um comerciante PODE escolher o que vender ou não (posição perfeitamente legítima no mundo dos negócios!). Quem conhece seu ramo de negócios tem discernimento suficiente para identificar produtos bons e produtos fraudulentos. Por respeito a seu cliente, é possível se recusar a disponibilizar produtos espúrios e não ser coadjuvante de fraudes. Faz parte de sua responsabilidade social, no sentindo mais amplo, a responsabilidade, enquanto profissional da área, de favorecer um mundo editorial mais ético, uma cultura mais rica, e a defesa do leitor, seu principal cliente.
Cabe, aliás, lembrar que alguns representantes dos livreiros compartilham essa opinião. É o caso da livraria Crisálida, por exemplo: “Bom seria se os livreiros agissem em defesa do leitor e retirassem de comércio essas edições espúrias. Infelizmente a maior parte prefere fingir que não sabe ou usar o recurso legalista de ‘só tiraremos de comércio se formos citados judicialmente’ ”, conforme afirmou em seu blogue na semana passada.

Joana Canêdo

Imagem: hscweb3.hsc.usf.edu

26 comentários:

  1. Olá! passando para desejar uma ótima semana!

    E excelente texto. Ao lê-lo, fiquei pensando que realmente o ser humano, em sua maioria, tem medo é da punição de seus atos.
    Aí, lembrei de uma frase que eu havia lido há tempos e acho que cabe com naturalidade nesse evento relatado no seu post:
    "Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível." (Albert Einstein)

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  2. Ah, Joana!, nem me faça lembrar o que - pelo que lembro - foi a última sandice que cometi com livros: meu sobrinho estava para nascer e eu, toda animada, comprei um "pacote" (assim mesmo, plastificado) de livrinhos simples de historinhas, numa Bienal da vida. Uma pechincha!

    Nem olhei, dei para minha irmã, e qual não foi meu terror quando - ele ainda pequenininho - fui ler as histórias (já bem "manuseadas" por ele; sorte que ainda não sabia ler).

    Erros tipográficos, ortográficos, redação ruim, de padrão, tudo o que você imaginar.

    Já tentei sumir com aquilo - na diplomacia, ou explicando a ele com todas as letras. Não adianta. Ele se APEGOU a eles, como de resto a todos os livrinhos (bons ou ruins) que tem.

    O trabalho de tentar se livrar dessas historinhas prossegue. O que pude fazer foram intervenções a caneta.

    Belo potencial para estrago. Não me eximo de culpa. Mas o problema começou com uma decisão (não decisão?) editorial, passando pela tibieza de um comerciante, pelo bundalelê de uma feira, desaguou na distração de uma tia e na exposição de um menino a algo ruim, muito ruim.

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  3. Joana,

    você colocou o ponto central:

    "Um comerciante PODE escolher o que vender ou não (posição perfeitamente legítima no mundo dos negócios!)."

    as outras alegações são lamúrias flácidas para dormitar bovinos, como dizia uma antiga professora.

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  4. Engraçado esse problema com a Landmark. Recentemente enviei-lhes um e-mail reclamando da péssima qualidade de tradução e gramática do título "Contos completos" de Oscar Wilde. Sem exagero, encontrei centenas de erros de ortografia, concordância etc. Enumerei uma parte desses erros e mandei para a editora. Pensei que fossem se desculpar, mas nem me responderam. Então mandei outro e-mail dizendo que a editora não respeitava seus leitores e outras críticas; daí me responderam alegando que estavam avaliando o problema, mas continuaram sem pedir desculpas e nunca mais deram notícias. Essa edição de Wilde é ridícula, você se irrita com tantos erros. E a editora demonstrou que é de uma irresponsabilidade e desrespeito aos seus leitores fora do comum.

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  5. em diversas áreas o vendedor age como se não vendesse produtos muito específicos, considera que está vendendo "qualquer coisa" sobre a qual não precisa saber muito, afinal, o que importa é saber vender, e bom vendedor vende qualquer coisa.

    lembrei do dia em que fui ver um carro na concessionária, e o vendedor não sabia o que era um cárter...

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  6. Anônimo2.3.10

    Prezada Senhora
    Sou advogada e venho trabalhando há anos com a propriedade intelectual.
    Para minha alegria, aos 41, sou sócia-administradora de uma pequena (e valente) Editora, cujos ideais são rigorosamente distintos dessa em tela.
    O comportamento da Landmark é de dar nojo, a ação pode ser considerada pura aventura e tentativa descarada de lhe causar embaraço, desânimo e desestímulo.
    Contudo, por causa do ajuizamento e da repercussão, muitas pessoas conhecerão seu blog e sua firme postura.
    Acompanho seu trabalho em silêncio há muito tempo, depois que um sócio o elogiou.
    A impressão que tenho é que haverá maior popularidade do nãogostodeplágio e muita solidariedade com a senhora
    Sugiro aos seus advogados que busquem jurisprudência tb fora de SP (eg, em Minas), há muitos acórdãos em que o tema é detalhado, ao contrário da opinião esposada por muitos nos comentários aos posts.
    Boa sorte, estamos certos que são Jerônimo lhe abençoará nesta encruzilhada do destino e que a senhora sairá não só bem-sucedida desta kafkiana demanda, mas muito mais forte.
    E, na carona da sua, digamos, vitória, lucrarão o país e nós, os leitores.
    MAVB

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  7. Carlos Eduardo2.3.10

    Boa tarde, Denise e demais colaboradores deste blog.
    Mais uma vez, parabéns pelo trabalho.
    Já li aqui que até mesmo capas de livros a Martin Claret tem plagiado... "Crime e Castigo", por exemplo, nada mais é do que uma cópia do cartaz do filme "Crime and Punishment", realizado em 1998 diretamente para a tv, com Patrick Dempsey e Julie Delpy (não à toa na capa da Martin a loira se parece muito com a J. Delpy).
    No link, do Rottentomatoes.com, a imagem do pôster do filme. Comparem com a da Martin...

    Abraços.

    http://images.rottentomatoes.com/images/movie/coverv/89/149089.jpg

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  8. Preciso do contato com o(s/a/as) dono(s/a/as) do blog.

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  9. encontra-se na coluna à direita (edição: denise bottmann) ou no perfil do google, no início desta mensagem.

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  10. Parabéns pela luta contra o plágio.
    O "tiro" da Editora Landmark já saiu pela culatra!
    :o)

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  11. Olá Two Ways,
    gostei da frase do Einstein, vou guardar entre minhas citações. Aliás, outra para anotar é a da professora da Raquel.
    Letícia,
    quantas vezes não fiz isso antes. Mas quanto a qualidade, nem sempre dá para discutir muito. Por outro lado, quando é fraude, não há desculpa possível.
    Obrigada por todos os comentários. E que cada um assuma sua parte de responsabilidade.
    Abraços,
    Joana

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  12. Obrigada, Joana, boa sorte em sua nova empreitada!

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  13. Bola fora da Cultura. Mesmo que não tenha havido má-fé por parte da editora, a livraria deveria provisoriamente retirar o livro de circulação. Afinal, se for vendido a algum desavisado, e depois for ordenado uma espécie de recall (não sei se isso já aconteceu), quem corre o risco de perder mais dinheiro e capital simbólico é a livraria (ainda mais a Cultura, que raramente trabalha com consignações). Declaração desastrada.

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  14. Concordo plenamente com a opinião do texto acima. Mas retirar plágios não é proteger o público; isso é proteger os tradutores. Proteger o público seria retirar das prateleiras as traduções ruins, burras e sofríveis, deixando ali apenas as boas. ¿Esperança de q isso aconteça? Nenhuma.

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  15. a questão é complicada, permafrost. em caso de condenação por plágio judicialmente comprovado, a lei prevê várias providências, entre elas errata e retratação pública, o que, em meu entender, significa também um recall ou restituição dos valores pagos pelos compradores (não só leitores individuais, mas também bibliotecas públicas, com verbas públicas do governo).
    um dos aspectos a levar em conta é que a maioria das editoras aqui apontadas tem se disposto voluntariamente a retirar as obras de catálogo e circulação, e o problema específico daqueles casos não é levado a juízo. a cada vez que publico a informação, lembro que resta ver como ficarão os exemplares já vendidos, presentes nas prateleiras de lares, escolas e bibliotecas.
    a meu ver, esta é toda uma outra batalha que em algum momento terá de ser travada.

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  16. mas entendo este texto de joana canêdo como expressão do ponto de vista do leitor e da cidadania, não do tradutor. hoje em dia, vejo a coisa em dois momentos: o "daqui para frente" e o "daqui para trás". comentei isso a respeito do caso da editora rideel.

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  17. matéria contundente em livros e afins sobre a posição da livraria cultura:
    http://livroseafins.com/nas-livrarias-etica-so-nas-paginas-dos-livros/

    e na gazeta do povo, http://www.gazetadopovo.com.br/blog/namira/?mes=, chamada para > Matéria para reflexão: responsabilidade das livrarias, no Não gosto de plágio, da Joana Canêdo.

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  18. Olá! Acompanho este blog há algum tempo e gostaria de manifestar minha opinião sobre o posicionamento da Livraria Cultura. Embora concorde que a retirada dos livros seja importante e proteja os direitos do consumidor, achei sensata a declaração do Fabio Herz. O caso é que ele abriria precedentes para a retirada de outros livros em situações semelhantes no futuro, o que causaria instabilidade e insegurança em relação à livraria, aos fornecedores e mesmo junto ao público. Afinal, creio que a livraria não possui profissionais qualificados para fazer trabalho tão cuidadoso com todos os livros que entram e saem e mesmo traduções honestas poderiam ser prejudicadas caso o livreiro as julgasse como plágios antes que a justiça efetivamente se pronunciasse acerca do caso. Poderiam até surgir graves acusações contra editoras inocentes: é o grande jogo do mercado. Bem, sou apenas leiga, não trabalho com tradução, revisão ou edição. Apenas quis deixar meu ponto de vista. De qualquer forma, gostaria de salientar que é valiosíssimo o trabalho do "naogostodeplagio". Parabéns!

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  19. prezada amanda, como a autora do texto acima é joana canêdo, deixo a ela a resposta a suas justas ponderações.

    de minha parte, pretendo me manifestar com calma sobre o assunto mais adiante. em todo caso, resumidamente, vejo aí um complicador porque inúmeros casos em que apontei a ocorrência de plágio foram publicamente reconhecidos pelas editoras, com retirada de catálogo e eventual substituição por outras traduções legítimas das mesmas obras – portanto, obviamente não levarei a questão à esfera judicial. trata-se, digamos, de providências que foram tomadas voluntariamente por várias editoras depois de apontados os problemas no nãogostodeplágio, e não vejo sentido em entrar com pedido de representação no ministério público em tais casos.

    ora, decorre daí que jamais a livraria vai receber notificação judicial com a decisão da justiça comprovando o plágio (pois tais editoras já o reconheceram anterirmente, em caráter público e extrajudicial) e determinando a retirada dos livros em estoque e disponíveis para venda.

    pretendo alguma hora conversar com o sr. fábio herz a este respeito. por ora pedi algumas vezes a atenção da anl (associação nacional de livrarias) para tais problemas.

    mas de fato acho um tanto desconcertante que a editora reconheça o plágio, retire a obra de catálogo, eventualmente até substitua a tradução - e o livro fraudado continue à venda numa livraria sob pretexto de não haver mandado judicial para sua retirada! que provas mais seriam necessárias para que o livreiro se sinta persuadido, além da própria admissão do fato por parte da editora?

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  20. Denise,

    Neste caso, retiro o que disse. Creio que houve precipitação de minha parte, pois expus meu pensamento apenas a partir desta matéria e não tinha ficado claro para mim que muitas vezes as próprias editoras assumiram a fraude. Desta maneira, concordo com a crítica acerca da atitude da Livraria Cultura.

    Novamente, parabéns pelo blog!

    Continuem levando em frente o belo trabalho!

    Amanda

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  21. não, imagine, amanda, não tem nada o que retirar. como lhe disse, uma coisa é a discussão mais geral e fundamental sobre responsabilidade cívica (tema do artigo da joana canêdo), outra coisa são casos concretos em que acabam surgindo alguns impasses de perfil legalista, difíceis de encaminhar a não ser por vias judiciais, diretamente contra as livrarias renitentes em tirar tais obras de suas estantes físicas e virtuais.

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  22. Prezado Permafrost,
    Obrigada pelo comentário. E concordo plenamente que o ideal seria tirar de circulação todos os trabalhos de má qualidade. Mas não se trata apenas de qualidade: trata-se também de cultura, de ética, de memória, de relações de consumo... Por isso acredito que retirar plágios é proteger o público sim - não apenas os tradutores. O problema da difusão do plágio não está somente em quem recolhe ou deixa de recolher direitos autorais. Considero a questão do direito moral do tradutor fundamental: para valorizar o trabalho do tradutor sim, mas também por uma questão de transparência com o público: é preciso saber quem fez o trabalho, até para poder criticá-lo, se for o caso. Além de ser um problema ético, é também um problema de relações de consumo: ninguém quer comprar gato por lebre, seja quando se está comprando leite adulterado, seja quando se está comprando livro adulterado. Além disso, existe um outro problema, que para muita gente pode parecer menor, admito, mas que é a questão da cultura. A cultura de um povo se forma, também, por meio de seu sistema literário. Esse sistema literário inclui traduções. Difundir o plágio coloca em risco nosso patrimônio literário, acadêmico e até científico. Uma prova disso está, por exemplo, nos trabalhos acadêmicos e científicos desenvolvidos com base em textos roubados – amplamente documentado pela Denise aqui no nãogosto. Isso é terrível para o público, para a cultura, para a ética, para... Puxa. Dá para ir longe nessa discussão...

    Joana

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  23. Prezada Amanda,
    Não discordo de suas considerações práticas. Mas, como a Denise bem salientou, estou defendendo aqui uma postura de respeito ao cliente/leitor e de responsabilidade social. Não vejo a coisa como um grande movimento de reação imediata e sem reflexão a denúncias aleatórias – que de fato poderia ser mal feito, por funcionários desqualificados, enfim. Vejo como uma postura de busca de qualidade para o negócio e, de maneira mais ampla, para a sociedade, por que não? Qualquer comerciante escolhe o que quer ou não vender: essa seleção é que vai dar a cara do negócio. Então não se trata de sair tirando livro a torto e a direito, mas, como comerciante, de escolher bem o que disponibilizar para o seu cliente, para o seu público e, idealmente, fazer essa escolha pensando em suas consequências, boas ou nefastas, para a sociedade em geral.

    Joana

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  24. Denise,
    Obrigada por todas as suas colocações e por responder aos comentários. Tenho que admitir que estou pasma e contente que a questão tenha de fato suscitado matéria para reflexão.
    Joana

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