19 de mar de 2010

susto


quase desmaiei com isso: 
 
A cigarra e a formiga 6

Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
“No verão em que lidavas?”
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: “Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
— Oh! Bravo! — torna a formiga —
Cantavas? Pois dança agora!”

6. LA FONTAINE, Jean de. Fábulas de La Fontaine. Tradução de Milton Amado e Eugênio Amado. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989, Tomo 1, p.25.
tal é a referência que consta na tese de mestrado uma definição de leitura pela teoria dos blocos semânticos, Anexo C, p. 88, além de extensa análise às pp. 66-69.

qualquer criança (pelo menos de antigamente) sabe que esta é a classicíssima tradução de bocage para a fábula de la fontaine, mas aqui amputada da quarta quadra (que é justo a hora em que a cigarra pede ajuda à formiga: - "Amiga", diz a cigarra, / - "Prometo, à fé d'animal, / Pagar-vos antes d'agosto / Os juros e o principal.").

até onde tenho conhecimento, a cigarra e a formiga que consta na edição da itatiaia é outra, aliás um tanto tosca (posta ao lado do primoroso lavor em a raposa e as uvas, no mesmo livro, pode-se ter um indicador bastante razoável das diferenças entre os dois tradutores, respectivamente eugênio e milton).

A CIGARRA E A FORMIGA

A cigarra, sem pensar
em guardar,
a cantar passou o verão.
Eis que chega o inverno, e então,
sem provisão na despensa,
como saída, ela pensa
em recorrer a uma amiga:
sua vizinha, a formiga,
pedindo a ela, emprestado,
algum grão, qualquer bocado,
até o bom tempo voltar.
"Antes de agosto chegar,
pode estar certa a senhora:
pago com juros, sem mora."
Obsequiosa, certamente,
a formiga não seria.
"Que fizeste até outro dia?"
perguntou à imprevidente.
"Eu cantava, sim, Senhora,
noite e dia, sem tristeza."
"Tu cantavas? Que beleza!
Muito bem: pois dança agora..."

LA FONTAINE, J. de. 1992. Fábulas de La Fontaine. Belo Horizonte, Itatiaia.
seja lá o que tenha acontecido, o que não se pode é lançar gratuita suspeição sobre nenhum dos dois tradutores. o caso adquire feições ainda mais surreais no caso do pai, milton amado, um dos grandes tradutores brasileiros de poesia: ivo barroso, por exemplo, considera sua tradução d'o corvo de poe inigualável, a melhor existente em língua portuguesa [veja aqui]. e quanto a suspeições, já basta a editora itatiaia querer manchar o nome de mario quintana como reles copista de galeão coutinho, no caso de zadig.

espero que o autor da tese tenha ocasião de esclarecer essa minha dúvida ou de dar uma checada adicional em suas referências. afinal, seu estudo está depositado no acervo de domínio público do mec, e uma afirmação séria como esta precisa ser muito bem fundamentada ou imediatamente corrigida.

ilustração: grandville

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