30/03/2010

a questão judaica

Um leitor do blog havia comentado algum tempo atrás que achava suspeita a edição d'A Questão Judaica, de K. Marx, pela editora Centauro: muito parecida com a edição da Laemmert. Joana Canêdo então fez um levantamento que apresento abaixo, acrescido de algumas informações adicionais.



A edição da Laemmert é de 1969, com tradução assinada por Wladimir Gomide, que também escreve a apresentação. Na orelha do livro consta a informação: “Esta é a primeira vez que o ensaio de Marx sobre A Questão Judaica aparece em língua portuguesa”. Muito provavelmente a tradução de Gomide se baseou na tradução de Wenceslao Roces para o espanhol, publicada pela Grijalbo em 1959 na coletânea La sagrada familia y otros escritos filosóficos de la primeira época (disponível para download aqui)

A Questão Judaica (1843) corresponde a duas resenhas escritas por Marx para os Anais Franco-Alemães: a primeira se chama “Bruno Bauer, A questão judaica” e a outra “Capacidade dos atuais judeus e cristãos de ser livres”. Além delas, a edição da Laemmert traz em apêndice mais quatro textos: “Colocação de problemas”, “Descobertas críticas sobre Socialismo, Jurisprudência e Política”, “Os anais franco-alemães e a questão judaica” e “Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel”. Wladimir Gomide explica em sua apresentação que optou por traduzir “todos os tópicos em que Marx aborda a questão judaica noutro texto da juventude” (i. é, A Sagrada Família).

Após esse lançamento da Laemmert em 1969, A Questão Judaica foi publicada por outras editoras no Brasil, a saber:

  •  Moraes, sem indicação do tradutor, c. 1981 e reedições.
  • Achiamé, trad. Wladimir Gomide, s/d.
  • Centauro, trad. Silvio Donizete Chagas, 2000 e diversas reedições.
  • Expressão Popular, trad. José Barata-Moura (sob licença da Avante de Portugal), 2009.
No caso da edição da Centauro, alguns detalhes editoriais chamam a atenção:
- A indicação do título original: Zur Judenfrage.
- Uma apresentação anônima.
- A divisão do volume em duas partes: A Questão Judaica propriamente dita, com suas duas resenhas; e os mesmos quatro textos em apêndice que constam na edição da Laemmert.

Salta à vista que a escolha dos textos da Laemmert e da Centauro é a mesma. Os textos das traduções são idênticos. A cópia é literal, do início ao fim, incluindo apresentação e notas de rodapé. As únicas diferenças entre as duas edições são o texto da orelha e a referência ao original. Se Gomide não indica a fonte de sua tradução para a Laemmert, a edição da Centauro indica o original Zur Judenfrage.

  

Seguem-se alguns trechos ilustrativos.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, p. 13)

I – Bruno Bauer, A Questão Judaica (Die Judenfrage). Braunschweig, 1843.
Os judeus alemães aspiram emancipar-se. A que emancipação aspiram? À emancipação civil, à emancipação política.
Bruno Bauer os contesta: Na Alemanha, ninguém está politicamente emancipado. Nós mesmos carecemos de liberdade. Como vamos, então, libertar-vos? Vós, judeus, sois egoístas quando exigis uma emancipação especial para vós, como judeus. Como alemães, devíeis trabalhar pela emancipação política da Alemanha; como homens, pela emancipação humana. Ao invés de sentir o tipo especial de vossa opressão e de vossa ignomínia como uma exceção à regra, devíeis, pelo contrário, senti-lo como a confirmação desta.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, p. 13)

I – Bruno Bauer, A Questão Judaica (Die Judenfrage). Braunschweig, 1843.
Os judeus alemães aspiram emancipar-se. A que emancipação aspiram? A emancipação civil, a emancipação política.
Bruno Bauer os contesta: Na Alemanha, ninguém está politicamente emancipado. Nós mesmos carecemos de liberdade. Como vamos, então, libertar-vos? Vós, judeus, sois egoístas quando exigis uma emancipação especial para vós, como judeus. Como alemães, devíeis trabalhar pela emancipação política da Alemanha; como homens, pela emancipação humana. Ao invés de sentir o tipo especial de vossa opressão e de vossa ignomínia como uma exceção à regra, devíeis, pelo contrário, senti-lo como a confirmação desta.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, p. 24)

A ascensão política do homem acima da religião partilha de todos os inconvenientes e de todas as vantagens da ascensão política em geral. O Estado como tal, anula, por exemplo, a propriedade privada. O homem declara abolida a propriedade privada de modo político quando suprime o aspecto riqueza (4) para o direito de sufrágio ativo e passivo, como já se fez em muitos Estados norte-americanos. Hamilton interpreta com toda exatidão este fato, do ponto de vista político, ao dizer: “A grande massa triunfou sobre os proprietários e o poder do dinheiro”. Acaso não se suprime idealmente a propriedade privada quando o despossuído se converte em legislador dos que possuem? O aspecto riqueza é a última forma política de reconhecimento da propriedade privada.

(4) Nota da tradução brasileira: O direito de voto estava condicionado a determinado teto. O indivíduo que não possuísse o mínimo estipulado não podia ser eleitor.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, p. 22)

A ascensão política do homem acima da religião partilha de todos os inconvenientes e de todas as vantagens da ascensão política em geral. O Estado como tal, anula, por exemplo, a propriedade privada. O homem declara abolida a propriedade privada de modo político quando suprime o aspecto riqueza (4) para o direito de sufrágio ativo e passivo, como já se fez em muitos Estados norte-americanos. Hamilton interpreta com toda exatidão este fato, do ponto de vista político, ao dizer: “A grande massa triunfou sobre os proprietários e o poder do dinheiro”. Acaso não se suprime idealmente a propriedade privada quando o despossuído se converte em legislador dos que possuem? O aspecto riqueza é a última forma política de reconhecimento da propriedade privada.

(4) Nota da tradução brasileira: O direito de voto estava condicionado a determinado teto. O indivíduo que não possuísse o mínimo estipulado não podia ser eleitor.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, p. 62)

A venda é a prática da alienação. Assim como o homem – enquanto permanece sujeito às cadeias religiosas – só sabe expressar sua essência convertendo-a num ser fantástico, num ser estranho a ele, assim também só poderá conduzir-se praticamente sob o império da necessidade egoísta, só poderá produzir praticamente objetos, colocando seus produtos e sua atividade sob o império de um ser estranho e conferindo-lhes o significado de uma essência estranha, do dinheiro.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, p. 50)

A venda é a prática da alienação. Assim como o homem – enquanto permanece sujeito as cadeias religiosas – só sabe expressar sua essência convertendo-a num ser fantástico, num ser estranho a ele, assim também só poderá conduzir-se praticamente sob o império da necessidade egoísta, só poderá produzir praticamente objetos, colocando seus produtos e sua atividade sob o império de um ser estranho e conferindo-lhes o significado de uma essência estranha, do dinheiro.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, p. 65)

Apêndices
a) Colocação dos problemas
Em antítese à massa, o “espírito” passa a se conduzir criticamente ao considerar sua própria obra tão limitada – “A Questão Judaica”, de Bruno Bauer – como absoluta, somente classificando de equivocados os adversários dela. Na réplica número 1 aos ataques dirigidos contra esta obra, seu autor não demonstra sequer a menor disposição de compreender seus vários defeitos. Ao contrário, continua afirmando ter desenvolvido nela o “verdadeiro” significado, o significado “geral” da questão judaica.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, p. 53)

Apêndices
a) Colocação dos problemas
Em antítese à massa, o “espírito” passa a se conduzir criticamente ao considerar sua própria obra tão limitada – “A Questão Judaica”, de Bruno Bauer – como absoluta, somente classificando de equivocados os adversários dela. Na réplica número 1 aos ataques dirigidos contra esta obra, seu autor não demonstra sequer a menor disposição de compreender seus vários defeitos. Ao contrário, continua afirmando ter desenvolvido nela o “verdadeiro” significado, o significado “geral” da questão judaica.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, p. 71)

b) Descobertas Críticas sobre Socialismo, Jurisprudência e Política (nacionalidade)
Aos judeus da massa, materiais, se aconselha a doutrina cristã da liberdade espiritual, da liberdade teórica, esta liberdade espiritualista que aparenta ser livre inclusive sob o signo da sujeição, que se sente em estado de graça “na ideia” e que só entorpece tudo aquilo que seja existência de massa.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, p. 58)

b) Descobertas Críticas sobre Socialismo, Jurisprudência e Política (nacionalidade)
Aos judeus da massa, materiais, se aconselha a doutrina cristã da liberdade espiritual, da liberdade teórica, esta liberdade espiritualista que aparenta ser livre inclusive sob o signo da sujeição, que se sente em estado de graça “na ideia” e que só entorpece tudo aquilo que seja existência de massa.

1. Wladimir Gomide (Laemmert, 1969, pp. 101-102)

Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel
Na Alemanha, a crítica da religião chegou, no essencial, ao fim. A crítica da religião é a premissa de toda crítica.
A existência profana do erro ficou comprometida, uma vez refutada sua celestial oratio pro aris et focis (1). O homem que só encontrou o reflexo de si mesmo na realidade fantástica do céu, onde buscava um super-homem, já não se sentirá inclinado a encontrar somente a aparência de si próprio, o não-homem, já que aquilo que busca e deve necessariamente buscar é a sua verdadeira realidade.

(1) Oração pelo lar e pelo ócio.

2. Silvio Donizete Chagas (Centauro, 2005, pp. 83-85)

Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel
Na Alemanha, a crítica da religião chegou, no essencial, ao fim. A crítica da religião é a premissa de toda crítica.
A existência profana do erro ficou comprometida, uma vez refutada sua celestial oratio pro aris et focis (30). O homem que só encontrou o reflexo de si mesmo na realidade fantástica do céu, onde buscava um super-homem, já não se sentirá inclinado a encontrar somente a aparência de si próprio, o não-homem, já que aquilo que busca e deve necessariamente buscar é a sua verdadeira realidade.

(30) Oração pelo lar e pelo ócio.

veja mais sobre a editora centauro:

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





3 comentários:

  1. Parece ser um outro caso de "Pierre Menard, autor do Quixote".

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  2. Os casos de plágios descarados - e desmascarados - em vez de reprimir a prática parecem estar incentivando outros "empreendedores" do ramo editorial...

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  3. o que incentiva os outros "empreendedores", moscos, é a impunidade e a certeza do lucro fácil. de 1999 até 2008 o plágio foi num galope só, alastrou-se feito praga, cada ishperto tentando ser mais ishperto do que o outro.
    vamos torcer para que a década 2010-20 seja um pouco menos escabrosa...

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