4 de ago de 2009

leontiev, centauro

já apresentei outro dia o caso da editora centauro, mais uma que parece engrossar a fileira das editoras não muito escrupulosas .

outra proeza desse quíron degenerado diz respeito ao livro de alexis leontiev, o desenvolvimento do psiquismo, publicado pela referida editora desde 2004, com reedições.

a atribuição dos créditos de tradução dessa obra de leontiev é um pouco tumultuada: no alto da página de créditos consta "tradutora: hellen roballo", e na ficha catalográfica logo em baixo (cip/cbl) consta o nome de rubens eduardo frias.

já a fundação biblioteca nacional resolveu a duplicidade dos pseudotradutores de forma muito democrática, ma não menos confusa: na agência do isbn/fbn, o livro se encontra cadastrado em nome de rubens eduardo frias [o mesmo que assina o plágio de suchodolski, que já mostramos aqui no nãogosto], ao passo que a bn/bn registra a ficha catalográfica com tradução de hellen roballo.

seja como for, hellen roballo ou rubens eduardo frias, o caso não muda de figura. trata-se de cópia pura e simples, da primeira à última letra, da tradução portuguesa publicada pela livros horizonte em 1978, de autoria de manuel dias duarte, apenas abrasileirando os acentos e a grafia e trocando um ou outro termo (p.ex., "complexificação" por "complexidade").

1. manuel dias duarte

INTRODUÇÃO
A obra psicológica de Alexis Leontiev é das mais notáveis da nossa época, e todavia é pouco conhecida nos países de língua francesa. As traduções de alguns trabalhos seus, dispersas por órgãos especializados como o Bulletin de psychologie ou nas Recherches internationales à la lumière du marxisme e a sua participação constante em encontros internacionais valeram ao autor uma autoridade incontestável. Faltava a obra fundamental que apresentamos aqui. Trata-se dos elementos de uma teoria do psiquismo humano. Leontiev recusa, no entanto, a qualificação de teórico. Com efeito, no decurso de meio século de actividade científica, efectuou e dirigiu um número considerável de trabalhos experimentais. Foi a partir deles e para melhor os interpretar que se interessou pelos problemas metodológicos e que chegou a uma concepção de conjunto. Seria simplista de mais afirmar que a sua teoria deve bastante ao marxismo enriquecendo-o, em contrapartida, pelo simples facto de Leontiev trabalhar na União Soviética. Foram as suas investigações que o levaram a defender a natureza socio-histórica do psiquismo humano e, a partir daí, a teoria marxista do desenvolvimento social tornava-se-lhe indispensável.
Experimentador, Alexis Leontiev não limita o seu horizonte ao laboratório. Preocupa-se com os problemas da vida humana em que o psiquismo intervém. O seu campo de estudos compreende a pedagogia, a cultura no seu conjunto, o problema da personalidade. Mais directamente ensina, dirige e organiza a investigação, criou a Faculdade de Psicologia da Universidade de Moscovo, de que é decano, intervém e é conselheiro em numerosos órgãos e organismos da vida científica, filosófica e política.

2. hellen roballo / rubens eduardo frias

INTRODUÇÃO
A obra psicológica de Alexis Leontiev é das mais notáveis da nossa época, e, todavia pouco conhecida nos países de língua francesa. As traduções de alguns trabalhos seus, dispersas por órgãos especializados como o Bulletin de psychologie ou nas Recherches internationales à la lumière du marxisme e a sua participação constante em encontros internacionais valeram ao autor uma autoridade incontestável. Faltava a obra fundamental que apresentamos aqui.
Trata-se dos elementos de uma teoria do psiquismo humano. Leontiev recusa, no entanto, a qualificação de "teórico". Com efeito, no decurso de meio século de atividade científica, efetuou e dirigiu um número considerável de trabalhos experimentais. Foi a partir deles e para melhor os interpretar que se interessou pelos problemas metodológicos e que chegou a uma concepção de conjunto. Seria simplista demais afirmar que a sua teoria deve bastante ao marxismo enriquecendo-o, em contrapartida, pelo simples fato de Leontiev trabalhar na União Soviética. Foram as suas investigações que o levaram a defender a natureza sócio-histórica do psiquismo humano e, a partir daí, a teoria marxista do desenvolvimento social tornava-se-lhe indispensável.
Experimentador, Alexis Leontiev não limita o seu horizonte ao laboratório. Preocupa-se com os problemas da vida humana em que o psiquismo intervém. O seu campo de estudos compreende a pedagogia, a cultura no seu conjunto, o problema da personalidade. Mais diretamente ensina, dirige e organiza a investigação, criou a Faculdade de Psicologia da Universidade de Moscovu, de que é decano, intervém e é conselheiro em numerosos órgãos e organismos da vida científica, filosófica e política.


1. manuel dias duarte

I O DESENVOLVIMENTO DO PSIQUISMO ANIMAL
1. Estádio do psiquismo sensorial elementar
O aparecimento de organismos vivos dotados de sensibilidade está ligado à complexificação da sua actividade vital. Esta complexificação reside na formação de processos da actividade exterior que mediatizam as relações entre os organismos e as propriedades do meio donde depende a conservação e o desenvolvimento da sua vida. A formação destes processos é determinada pelo aparecimento de uma irritabilidade em relação aos agentes exteriores que preenchem a função de sinal. Assim nasce a aptidão dos organismos para reflectir as acções da realidade circundante nas suas ligações e relações objectivas: é o reflexo psíquico.
Estas formas de reflexo psíquico desenvolvem-se com a complexidade estrutural dos organismos e em função do desenvolvimento da actividade que elas acompanham. Por esta razão, é impossível analisá-las cientificamente sem examinar a própria actividade dos animais.
A que actividade animal se liga a forma de psiquismo mais elementar? A sua particularidade essencial é ser suscitada por tal e tal propriedade que age sobre o animal, propriedade para a qual se orienta, mas que não coincide com as propriedades de que depende directamente a vida doanimal. Assim, esta actividade é determinada não pelas propriedades actuantes do meio, mas por estas mesmas propriedades.


2. hellen roballo / rubens eduardo frias

I O DESENVOLVIMENTO DO PSIQUISMO ANIMAL
1. Estádio do psiquismo sensorial elementar
O aparecimento de organismos vivos dotados de sensibilidade está ligado à complexidae da sua atividade vital. Esta complexidade reside na formação de processos da atividade exterior que mediatizam as relações entre os organismos e as propriedades do meio donde depende a conservação e o desenvolvimento da sua vida. A formação destes processos é determinada pelo aparecimento de uma irritabilidade em relação aos agentes exteriores que preenchem a função de sinal. Assim nasce a aptidão dos organismos para refletir as ações da realidade circundante nas suas ligações e relações objetivas: é o reflexo psíquico.
Estas formas de reflexo psíquico desenvolvem-se com a complexidade estrutural dos organismos e em função do desenvolvimento da atividade que elas acompanham. Por esta razão, é impossível analisá-las cientificamente sem examinar a própria atividade dos animais.
A que atividade animal se liga a forma de psiquismo mais elementar? A sua particularidade essencial é ser suscitada por tal e tal propriedade que age sobre o animal, propriedade para a qual se orienta, mas que não coincide com as propriedades de que depende diretamente a vida doanimal. Assim, esta atividade é determinada não pelas propriedades atuantes do meio, mas por estas mesmas propriedades.


1. manuel dias duarte

"As doze horas de trabalho não têm, de modo algum, para ele, o sentido de tecer, de fiar, de furar, etc., mas o de ganhar aquilo que lhe permita sentar-se à mesa, dormir na cama ".
A tecelagem tem, portanto, para o operário a significação objectiva de tecelagem, a fiação a de
fiação. Todavia não é por aí que se caracteriza a sua consciência, mas pela relação que existe entre estas significações e o sentido pessoal que têm para ele as suas acções de trabalho. Sabemos que o sentido depende do motivo. Por consequência, o sentido da tecelagem ou da fiação para o operário é determinado por aquilo que o incita a tecer ou a fiar. Mas são tais as suas condições de existência que ele não fia ou não tece para corresponder às necessidades da
sociedade em fio ou em tecido, mas únicamente pelo salário; é o salário que confere ao fio e ao
tecido o seu sentido para o operário que os produziu.
Certamente que a significação social do produto do seu trabalho não está escondida ao operário, mas ela é estranha ao sentido que este produto tem para ele. Se tivesse a possibilidade de escolher o seu trabalho, seria coagido a escolher antes de mais entre dois salários e não entre a tecelagem e a fiação.
O operário experimenta o sentimento da sua dependência em face de condições que nada têm de comum com o conteúdo do seu trabalho, com um sentimento crescente de insegurança face ao futuro. Certas investigações psicológicas recentes revelam especialmente que, em Inglaterra,
os operários de uma fábrica procuram antes de mais a segurança do emprego.


2. hellen roballo / rubens eduardo frias

"As doze horas de trabalho não têm, de modo algum, para ele, o sentido de tecer, de fiar, de furar etc., mas o de ganhar aquilo que lhe permita sentar-se à mesa, dormir na cama ".
A tecelagem tem, portanto, para o operário a significação objetiva de tecelagem, a fiação de fiação. Todavia não é por aí que se caracteriza a sua consciência, mas pela relação que existe entre estas significações e o sentido pessoal que tem [sic] para ele as ações de trabalho. Sabemos que o sentido depende do motivo. Por conseqüência, o sentido da tecelagem ou da fiação para o operário é determinado por aquilo que o incita a tecer ou a fiar. Mas são tais as suas condições de existência que ele não fia ou não tece para corresponder às necessidades da sociedade em fio ou em tecido, mas unicamente pelo salário; é o salário que confere ao fio e ao tecido o seu sentido para o operário que o produziu.
Certamente que a significação social do produto do seu trabalho não está escondida ao operário, mas ela é estranha ao sentido que este produto tem para ele. Se tivesse a possibilidade de escolher o seu trabalho, seria coagido a escolher antes de mais entre dois salários e não entre a tecelagem e a fiação.
O operário experimenta o sentimento da sua dependência em face de condições que nada tem de comum com o conteúdo do seu trabalho, com um sentimento crescente de insegurança face ao futuro. Certas investigações psicológicas recentes revelam que, na Inglaterra, os operários de uma fábrica procuram antes de mais a segurança do emprego.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagens: www.elfwood.com; google images

7 comentários:

  1. Denise,
    sobrará alguma editora? Como dizem hoje em dia: Que meda!

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  2. olá, raquel: felizmente é uma pequena minoria, embora façam um estrago medonho!
    agora, se isso não parar logo, continua a se alastrar que é um horror - o exemplo pega!

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  3. E é realmente um péssimo exemplo...

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  4. Anônimo26.11.09

    Por favor, alguém conhece um tradutor chamado Nestor Silveira Chaves? Desconfio da tradução dele da Política de Aristóteles. Esse tradutor e essa obra foram usados pela Edipro,Atena, Escala

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  5. prezado anônimo: veja resposta a seu comentário postado em "que bom gente com memória!"

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  6. Anônimo14.2.10

    Meu prezado amigo Rubens Eduardo Frias é também vítima dessa espúria editora, pois ele nem sabia que seu nome estava na ficha catalográfica da obra. Não recebeu um centavo pelo pseudotrabalho e ainda tem o prejuízo de ter seu nome avacalhado.

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  7. prezado anônimo: de fato é lamentabilíssima a posição em que se encontra o sr. rubens eduardo frias. espero vivamente que ele tome as devidas providências judiciais junto à editora.

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