só hoje vi uma postagem de 2018 do caetano galindo no blog da companhia das letras. lindinha a postagem sobre a importância da tradução - e agradeço a generosa menção. a postagem se chama em tradução (visibilia) e está disponível aqui.
11 de dez. de 2024
7 de dez. de 2024
gostos, nichos, artesanias
no começo desse ano, respondendo a algumas perguntas da jornalista natália albertoni, comentei:
Uma coisa muito importante e fascinante no ofício de tradução é o gosto, o prazer em
fazer aquilo. Transcende o aspecto meramente pragmático do trabalho; abre portas a
uma dedicação de outra natureza: é o que às vezes chamo de “tradução afetiva”. Faz-se
por amor à palavra e também, digamos, por humildade perante uma obra que nos
envolve e nos sobrepuja: o diletantismo na verdadeira acepção do termo. Felizmente,
são muitos os profissionais na área de tradução lítero-humanística (que é a que conheço
melhor) que preservam um bom grau de diletantismo nesse sentido estrito. E felizmente
há editoras que abrigam de bom grado esse diletantismo profissional ou esse
profissionalismo diletante. De entremeio a uma contemporaneidade permeada por
ferramentas de automatização do ofício, existem, pois, os profissionais-diletantes que
prezam mais a artesania das palavras do que a tecnologia de automatização; isto é, são
menos operadores de máquinas e mais “tradutores” na acepção digamos humanista,
atualmente até já obsoleta, do termo. E de entremeio à crescente enxurrada de textos
produzidos por várias modalidades de IA há nichos de artesãos de alta qualidade,
aqueles seres que – curiosamente – têm conseguido escapar à extinção e até, um pouco
aqui, um pouco ali, vêm esparsamente se somando e acrescentando novos nichos.
Sobreviverão? Sem dúvida. A onda avassaladora da automatização da tradução cessará?
Não, de forma alguma; aumentará. Isso é bom, isso é ruim? Não sei e não compete a
mim julgar. O bom, com certeza, é que existam nichos onde se pode tentar,
experimentar, renovar, se comprazer naquela antiquíssima atividade que confere sentido
concreto ao termo “humanidade”: o ofício da tradução.
um trecho desse comentário foi publicado na revista pernambuco, disponível aqui.
24 de set. de 2023
metáforas da tradução
no ano passado, tive a grande honra e satisfação de escrever a orelha do belo livro metáforas da tradução, de dirce waltrick do amarante, pela iluminuras.
transcrevo aqui:
Metáforas da tradução
Nunca tive a menor dúvida de que o traduzir é uma atividade infindável, desde o início dos tempos humanos, e de que toda, toda, toda tradução sempre tem um elemento de acaso, uma margem de arbitrariedade que nenhum praticante do ofício deixaria de reconhecer.
Traduzimos, e isso sempre pensando, refletindo,
escolhendo, desistindo, decidindo outra coisa e que, afinal, poderia ainda ser
uma terceira, uma quarta, uma centésima coisa diferente. Isso, cada um de nós,
individualmente, faz, e em cada texto. Imagine-se então a quantidade de obras
ao longo dos milênios, a quantidade de gente traduzindo ao longo dos milênios –
e nunca se chegando, nunca podendo nem pretendendo (e, na consciência desse drama,
muitas vezes nem querendo) se chegar a nada definitivo. Vertiginoso.
É preciso coragem, habilidade, conhecimento para
refletir sobre essas fossas profundas da precariedade e da transitoriedade do
traduzir. E quando falo “conhecimento”, refiro-me a conhecimento de causa,
conhecimento prático, experiência concreta. Pois afinal, como dizem, “falar é
fácil, fazer é que são elas”. E é o que encontramos em Metáforas da tradução,
em doses generosas: coragem, habilidade, conhecimento.
Aqui lembro outra metáfora: o crochê – “eu me sentia... desmanchando o crochê de certos escritores, descobrindo os pontos, os truques prediletos deles”, dizia Rachel de Queiroz. E essa imagem pode se aplicar não só a traduções, como também às reflexões sobre essa prática tão multifacetada. Metáforas da tradução é um elaboradíssimo crochê – tecido, destecido e retecido com maestria. Se em algumas passagens as reflexões de Dirce Waltrick do Amarante até intensificam perigosamente a sensação de vertigem, elas resgatam em grande estilo a delícia da aventura, a alegria do fazer e o mérito intrínseco do ofício de traduzir.
27 de abr. de 2023
tomates na feira
siu meu breve artiguinho, "tradução al pomodoro" na revista de arte e cultura qorpus, vol. 13, n. 1 (ufsc), disponível aqui.
22 de abr. de 2023
"quem tem medo de traduzir virginia woolf?"
um breve comentário meu em "quem tem medo de traduzir virginia woolf?",
na seção drops da vitruvius, disponível aqui.
Essa coisa de tradução às vezes cansa: outro dia encontrei alguém reclamando que o título Ao farol (“To the Lighthouse”), da Virginia Woolf, é "muito vago", e melhor seria usar "passeio ao farol".
Suspiro... (na verdade, vários suspiros...)
O farol não é só nem principalmente o farol da ilha que se enxerga da casa do casal Ramsay. É sobretudo a grande, centralíssima, ponderosíssima metáfora do papel da senhora Ramsay como o “farol” da família, que ilumina, orienta e vitaliza as relações entre seus integrantes.
O “to” em To the Lighthouse nada tem de vago: é denso e até pode ser ambíguo – é não só nem principalmente uma ida de bote (um “passeio”) até o farol físico, mas sobretudo uma dedicatória!
Como diz Virginia Woolf, o livro nem seria propriamente um romance: ela diz que gostaria de chamá-lo de elegia, uma homenagem póstuma à sua finada mãe, e é a ela que a autora o dedica.
Como já disseram, “no dictionary can classify the most famous ‘to’ in twentieth-century literature: the title of To the Lighthouse, with its specially laden and layered meanings of orientation and dedication, energy and elegy” (1).
(Por isso também gosto da capa da edição da L&PM, em que o alterego de Virginia Woolf contempla o farol, em vez de apresentar algum barquinho indicando um aplainado passeio ao farol (2). E a contemplação entre nuvens pesadas, águas agitadas, rajadas de vento – quem leu o livro bem sabe quantos conflitos, quantas questões se agitam dentro e em torno da família, e o “farol” ali, sempre firme, forte e fiel, como dizem).
É até por essas e outras que certa vez meio que me exasperei em uma entrevista em que uma das entrevistadoras insistia freneticamente na importância como que fundadora [!] do que ela chamava de “crítica” – e tão freneticamente insistia, até mesmo invocando o mais perfunctório comentário de algum leitor (“aain, não gostei...”), e tanto me exasperei que fui curta e grossa: “bom, aí o problema é dele; meu problema é com a obra, a responsabilidade diante dela”. Ela fez uma cara... mas, no fundo, para mim, é isso mesmo.
nota
1
FOWLER, Rowena. Virginia Woolf: Lexicographer. English Language Notes, v. 39, n. 3, Durham (EUA), mar. 2002, p. 54-70. Disponível em pdf na página web da autora no website da Universidade de Oxford: <https://bit.ly/3mO1UZe>.
2
WOOLF, Virginia. Ao farol. Tradução de Denise Bottmann. Porto Alegre, L&PM, 2013.
9 de jan. de 2022
a fazenda dos animais
"a tradução revelou que a 'revolução dos bichos' não foi de fato uma revolução": generosa resenha de dinaura julles sobre a fazenda dos animais, na revista re-produção, da casa guilherme de almeida, disponível aqui.
21 de mar. de 2021
matérias, entrevistas e palestras
matérias, entrevistas e palestras
- "a atual legislação é restritiva demais', estopim
- "a fazenda dos animais", blog l&pm
- "a tradução como traço da memória cultural", revista continente
- "ao farol, uma leitura", InComunidade
- "berenice xavier, um breve perfil", InComunidade
- "blog reúne denúncias na área de tradução", revista língua portuguesa
- "blogueira denuncia plágios no mundo das traduções", diário do nordeste
- "boitempo e plágio de tradução", folha de s.paulo
- "como escreve denise bottmann", como eu escrevo
- "de plágios e processos", portal literal
- "denúncias de plágio agitam o meio literário", jornal o globo
- "devaneio ou desejo possível? as grandes questões em torno do conceito de utopia", revista pessoa
- "dez dicas de denise bottmann para quem deseja ser tradutor", saraiva conteúdo
- "dez perguntas e meia para denise bottmann", meia palavra
- "do copo para o quase-copo", revista deriva
- "ecos de portugal no brasil, I", InComunidade
- "ecos de portugal no brasil, II", InComunidade
- "ecos de portugal no brasil, III", InComunidade
- "ecos de portugal no brasil, IV", InComunidade
- "ela não gosta de plágio", cidadão quem?
- "ensaio sobre poe é referência obrigatória", folha de s.paulo
- "entrevista com a criadora do não gosto de plágio, denise bottmann", posfácio
- "entrevista com a tradutora denise bottmann", digestivo cultural
- "entrevista exclusiva com a tradutora denise bottmann", nada de meias palavras
- "entrevista: denise bottmann", ibahia
- "entrevista: denise bottmann", lendo jane austen
- "escuta existencial entre emily brontë e lúcio cardoso", suplemento pernambuco
- "golpe - antologia manifesto"
- "guerrilheira antiplágio", folha de s.paulo
- "interrogação sobre as traduções de 'utopia' no brasil", suplemento pernambuco
- "intervista a denise bottmann", a cura di sandra biondo, strade magazine
- "investir em tradução (1/2)", publishnews
- "investir em tradução (2/2)", publishnews
- "invisibilidade e outras questões", colóquio de tradução, unimep
- "letras sob suspeita", jornal do comércio rs
- "lugar da mulher é onde ela quiser", A voz do tradutor, podcast, edição especial
- "maurício santana dias fala de pasolini e pavese", peixe-elétrico
- "melhores leituras 2014", posfácio
- "mesa-redonda sobre tradução", bienal do livro
- "mesa-redonda sobre tradução", bienal do livro (conclusão)
- "minha história", biblioteca mário de andrade, palestra virtual
- "notas avulsas sobre thoreau", jornal relevo
- "notícias na rede I"
- "notícias na rede II"
- "ode à língua universal", musa rara
- "os rubaiyat de manuel bandeira e de torrieri guimarães", InComunidade
- "osmose literária", revista da livraria cultura
- "palavras replicadas", correio braziliense
- "patrulheira das traduções", o tempo
- "pitadas de thoreau em walden", InComunidade
- "plagiat, plagiat... plágio", caros amigos
- "prejuízo para o leitor", diário do nordeste
- "primavera das neves", InComunidade
- "processada por denunciar", estado de s.paulo
- "quando monsieur jourdain descobre que fala em prosa", aula inaugural, pget, ufsc
- "recomendação de leitura", rascunho
- "reconstruir um texto original", cândido
- "sobre as traduções de 'utopia' no brasil", suplemento pernambuco
- "thoreau e poe", deriva
- "thoreau em walden", folha de s.paulo
- "thoreau para além de seu próprio tempo", instituto humanitas unisinos
- "tradução de três poemas de t.s.eliot", InComunidade, 67
- "tradução é tudo de bom", suplemento literário mg
- "traduções e plágios", instituto cultural aletria
- "tradutora denuncia plágios", entrevista na rádio cbn
- "tradutora, investigadora, blogueira: entrevista com denise bottmann", fabiano seixas fernandes
- "traduzindo o pequeno príncipe", suplemento pernambuco
- "três poemas", InComunidade 69
- "três vezes mrs. dalloway", prosa&verso
- "um breve apontamento intertextual", InComunidade 65
- "um depoimento", blog da companhia das letras
- "um mergulho em walden", site da l&pm
- "virginia woolf feminista é uma 'invenção da tradição'", jornal opção
- dois poemas, deriva
20 de mar. de 2021
artigos acadêmicos
artigos acadêmicos
- a coleção amarela da livraria do globo (1931-1956), com sérgio karam, in belas infiéis, v. 5, n. 3 (2016), unb
- a coleção amarela da livraria do globo (1931-1956), II, com sérgio karam, tradterm, 30, 2017
- alguns aspectos da presença de edgar allan poe no brasil, in tradução em revista, puc-rio
- arthur schopenhauer no brasil (1887-2015), in belas infiéis, v. 5, n. 1 (2016), unb
- baudelaire no brasil (1872-2021)
- bibliografia russa traduzida no brasil (1900-1950), in rus, usp
- bibliografia russa, breves notas complementares, in rus 5, usp
- curiosidades freudianas (1931-1969), in belas infiéis, unb
- de primavera das neves a vera pedroso: um perfil, in tradução em revista 18, puc-rio
- ditra, ufsc
- edições de baudelaire no brasil, in revista XIX, unb [periódico descontinuado e link fora do ar; vide baudelaire no brasil (1872-2021), acima
- em defesa de brenno, in domínios de linguagem, ufu
- georges selzoff: uma crônica, in tradução em revista 14. puc-rio
- georges selzoff: uma crônica, notas complementares, academia.edu
- giovanni boccaccio no brasil, in literatura italiana traduzida, ago. 2020
- gustave flaubert no brasil, in belas infiés, unb
- henry james no brasil (1945-2014), in belas infiéis, unb
- irmãs brontë, katherine mansfield e virginia woolf, in academia.edu
- joseph conrad no brasil, in belas infiéis, unb
- kafka no brasil, 1946-1979, in tradterm, usp
- lima barreto em tradução, anpoll 44, 1
- nathaniel hawthorne no brasil, in belas infiéis, unb
- o quinteto da renascença americana no brasil, in cadernos de tradução, ufsc
- o vento da noite, cadernos de tradução 36, 3 (2016), ufsc
- os rubaiyat de manuel bandeira e torrieri guimarães, qorpus 24, ufsc
- tardio, porém viçoso: poe contista no brasil, in tradterm, usp
- thomas hobbes: os textos introdutórios da sua tradução de "história da guerra do peloponeso", de tucídides, in filosofia, unisinos
- tolstói no brasil, in belas infiéis v. 4, n. 3 (2015), unb
- traduções de aleksandr púchkin no brasil, in belas infiéis v. 3, n. 1 (2014), unb
- traduções de marguerite duras no brasil, société duras
- três coleções de livros, in tradterm, usp
- um breve apontamento intertextual, academia.edu
- um curioso às voltas com uma curiosidade historiográfica, in cadernos de tradução, ufsc
- uma vinheta, in traduzires, unb
3 de mar. de 2021
a fazenda dos animais
Denise Bottmann e sua tradução de “A fazenda dos animais”, de George Orwell
Denise Bottmann é uma respeitada e premiada tradutora que há muitos anos trabalha com a L&PM Editores. Pedimos que ela escrevesse um texto contando sobre sua tradução de A fazenda dos animais, de George Orwell que, por um longo período, foi editado no Brasil com o título de A revolução dos bichos. Por mais que alguns leitores tenham se apegado a esse título, Denise explica sua opção de seguir o original que é publicado na L&PM.
A fazenda dos animais
Por Denise Bottmann
Creio que uma das áreas a que melhor se aplica o sapientíssimo dito “Ninguém é dono da verdade” é, provavelmente, a tradução. E a infindável variedade de seus frutos é o que faz da tradução algo tão interessante e fascinante.
Assim é que Animal Farm, a fábula escrita por George Orwell nos idos dos anos 40, pode ser lida em Portugal e no Brasil sob diferentes títulos: A quinta dos animais, O porco triunfante, O triunfo dos porcos, A revolução dos bichos e, last but not least, A fazenda dos animais.
De meu ponto de vista, um elemento útil para me nortear no oceano relativista em que nós tradutorxs podemos navegar – e talvez, ou não, nos afogar – é o original. Não ouço mentalmente nenhuma voz clamando para que me afaste de um claro e singelo Animal Farm: A fazenda dos animais, sem maiores problemas nem grandes dúvidas. Aí alguém pode objetar: “fazenda”? Melhor “sítio” ou “granja” ou “herdade”… Tenho lá minhas razões para preferir “fazenda” – mas que seja, não vou ficar brigando por causa disso.
Até aí, é simples. Mas, atendo-nos ao título mais usado no Brasil – A revolução dos bichos –, fico um pouco confusa, em primeiro lugar, com “bichos”. Que bichos, gente? Pois, quanto a isso, a grande questão é que Orwell estabelece muito cuidadosamente, muito meticulosamente, muito sistematicamente, uma divisão do reino animal dentro da obra. E a estabelece adotando uma terminologia muito específica e constante ao longo de toda a sua fábula.
Vejamos, pois. Por animals ele designa única e exclusivamente o que chamamos de animais domésticos, de trabalho, criação e reprodução: vacas, cavalos, cabras, ovelhas, porcos, galinhas, gansos, pombos. Aram as terras, puxam carroças, pisam o trigo, fornecem ovos, servem de reprodutores e assim por diante. Note-se – e isso é bonitinho – que também há entre eles uma gata: ela vive fugindo ao trabalho, mas os outros animais não se zangam com sua mandriice porque, quando aparece depois das jornadas de trabalho, é sempre muito meiga, carinhosa e afetiva. Ou seja, entre os animais domésticos inclui-se também o que chamaríamos de animal de estimação (não de trabalho, criação etc.). Além da gata, há os cachorros, também incluídos entre eles na função de cães de guarda, de pastoreio e mesmo de caça. Esses são os animals orwellianos.
E os outros? Os ratos, os coelhos do mato, os pardais? Orwell nunca, nunca os trata como animals: são wild creatures, não domésticos e sim silvestres. Aliás, é muito interessante que, depois de expulsos os homens e instaurado o novo regime – animal – na fazenda, um dos líderes, o porco Bola de Neve, cria “o Comitê de Reeducação dos Camaradas Silvestres (o objetivo desse comitê era domesticar os ratos e os coelhos)”, para integrar as wild creatures à sociedade animal – que não tenha dado muito certo, são outros quinhentos.
E, por fim, temos beasts: aqui, sim, eu diria “bichos”. Com o termo beasts, Orwell abarca a totalidade dos seres animais, domésticos e silvestres. Daí a importância da canção Beasts of England, que se torna por algum tempo o hino da nova sociedade animal: todos os seres animais, os domésticos e os silvestres, nele se congregam. Aliás, logo no começo, quando o Maioral começava a organizar os animais da fazenda, havia até algumas dúvidas se os bichos do mato, as criaturas silvestres, seriam considerados “camaradas” dos animais domésticos. “Os bichos do mato, como os ratos e os coelhos, são amigos ou inimigos nossos? Vamos pôr em votação. Faço a seguinte pergunta à assembleia: os ratos são camaradas?”. Sim, foram considerados camaradas quase por unanimidade (e vale notar que apenas os cachorros votaram contra: afinal gostavam de perseguir os ratos e acompanhavam os homens na caça às lebres).
Bem, a questão central é que animals, wild creatures e beasts designam coisas diferentes, de abrangência e interrelações bem específicas. Posso em sã consciência tratar indiscriminadamente os termos? Falar em “bichos” para me referir especificamente aos animals? Ou, inversamente, falar em “animais” para me referir especificamente às wild creatures? A meu ver, creio que não. Se Orwell fez assim, tinha lá suas razões para isso – as quais, aliás, ficam muito claras durante a leitura do texto. Assim, não entendo como eu poderia falar em Fazenda dos bichos ou, ainda menos, em Revolução dos bichos. Repisando, não foram as beasts que se rebelaram, foram apenas os animals.
E os animais não fazem uma revolução: os animais se rebelam, se levantam numa rebelião. Não têm qualquer programa revolucionário, a não ser aspirações de tipo cooperativista e autogestionário de longo prazo. Mobilizam-se por insatisfação, rebelam-se contra a opressão: que essa rebelião coletiva depois resulte numa nova situação, cujo comando virá a se concentrar progressivamente num número cada vez mais restrito de animais, são outros quinhentos. Dá-se a rebelião, mas não se implanta concretamente qualquer tipo de coisa que se assemelhe às aspirações que acompanhavam a rebelião: e é esse é o drama da coisa.
A propósito, é o papel fundamental dessa mobilização pessoal contra a opressão que Orwell deixa tão claro em relação a si mesmo, no famoso prefácio à edição ucraniana: “Tornei-me pró-socialista mais por horror à opressão e ao descaso a que estava submetida a parcela mais pobre dos operários industriais do que por qualquer admiração teórica por uma sociedade planejada”. É esse elemento subjetivo, a profunda insatisfação com o status quo, amparado em outro elemento subjetivo, o sonho com um mundo melhor, que leva os animais da Fazenda do Solar a se erguerem contra a situação, e não uma adesão a um projeto revolucionário pré-elaborado. Não à toa, em momento algum encontramos o termo revolution em Animal Farm; é sempre, única e exclusivamente, rebellion. A única vez em que encontramos algo similar a revolution é um derivado: o adjetivo revolutionary, tratado como algo descabido, quando o porco Napoleão se reúne com um grupo de fazendeiros humanos e declara, em discurso indireto citado: “Por muito tempo circularam rumores – divulgados … por algum inimigo malévolo – de que havia algo de subversivo e até de revolucionário na posição dele e dos seus colegas. … Nada podia estar mais distante da verdade!”.
Em suma, em tradução pode-se fazer praticamente qualquer coisa. O que nos dá bússola, guia, norte, é o texto original. Nada, porém, obriga que o tomemos como bússola, guia ou norte. Vai de cada um. De minha parte, prefiro me ancorar no autor. E viva A fazenda dos animais!
disponível aqui.
23 de mar. de 2020
11 de nov. de 2019
13 de out. de 2019
três coleções
saiu agora na revistra tradterm, da citrat/ usp, um artigo meu sobre a série negra, da companhia editora nacional, a seleção labirinto, da editora mérito, e a coleção saraiva, da editora saraiva. disponível aqui.
11 de set. de 2019
artigo
A Translation for Our Time?
Tim Parks
Nothing is more serious than a translation… For if the structure of the original [work] is marked by the requirement to be translated, it is because in laying down the law, the original begins by indebting itself as well with regard to the translator. The original is the first debtor, the first petitioner; it begins by lacking—and by pleading for translation.
2 de mar. de 2019
plágios
Hoje é muito mais fácil praticar — mas também descobrir — as cópias
Alessandro Giannini
02/03/2019 - O Globo
O plágio (diz-se também plagiarismo ou plagiato) é o ato de assinar ou apresentar uma obra intelectual de qualquer natureza (texto, música, obra pictórica, fotografia, obra audiovisual etc.) contendo partes de uma obra que pertença a outra pessoa sem a permissão do autor.
Mas a própria definição do plágio tem mudado ao longo da História. William Shakespeare foi acusado de ter plagiado “Romeu e Julieta” de outro autor. Na verdade, havia cinco versões diferentes do drama. Hoje, o caso provavelmente acabaria nos tribunais.
18 de out. de 2018
um depoimento
21 de mai. de 2018
baudelaire no brasil
16 de abr. de 2018
três poemas de eliot
saiu na revista InComunidade, em seu número 67, de abril de 2018, uma tradução minha de três poemas de eliot, disponível aqui.
Três poemas de Thomas Stearns Eliot, presentes em Prufrock and Other Observations, sua primeira coletânea de poemas, publicada em 1917
Manhã à janela [1914]
Lidam com a louça nas cozinhas do porão,
E ao longo do meio-fio gasto da rua
Percebo as almas entorpecidas das criadas
Despontando exânimes na entrada de serviço.
As ondas pardas da neblina trazem-me
Faces retorcidas do rés-do-chão
E a uma passante de saia enlameada
Arrancam um sorriso vago que flutua
E desaparece na linha dos telhados.
O Boston Evening Transcript [1915]
Os leitores do Boston Evening Transcript
Ondulam ao vento como trigal maduro.
Quando tênue o anoitecer se apressa na rua,
Despertando os apetites da vida nuns
E a outros trazendo o Boston Evening Transcript,
Subo os degraus e toco a campainha, virando-me
Cansado, como viraria alguém num adeus a Rochefoucauld
Fosse a rua o tempo e estivesse ele no final da rua,
E digo: “Prima Harriet, eis o Boston Evening Transcript”.
A prima Nancy [1915]
Miss Nancy Ellicot
Vencia os morros a largas passadas,
Vencia os morros montada a cavalo –
Os morros estéreis da Nova Inglaterra –
Caçando raposas
Além das pastagens.
Miss Nancy Ellicot fumava
E dançava todas as danças modernas;
E as tias ficavam um tanto indecisas,
Mas sabiam que era moderno.
Nas prateleiras laqueadas vigiavam
Matthew e Waldo, guardiões da fé,
O exército da lei inabalável.
