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11 de dez. de 2024

visibilia

só hoje vi uma postagem de 2018 do caetano galindo no blog da companhia das letras. lindinha a postagem sobre a importância da tradução - e agradeço a  generosa menção. a postagem se chama em tradução (visibilia) e está disponível aqui.


7 de dez. de 2024

gostos, nichos, artesanias

 no começo desse ano, respondendo a algumas perguntas da jornalista natália albertoni, comentei:


Uma coisa muito importante e fascinante no ofício de tradução é o gosto, o prazer em

fazer aquilo. Transcende o aspecto meramente pragmático do trabalho; abre portas a

uma dedicação de outra natureza: é o que às vezes chamo de “tradução afetiva”. Faz-se

por amor à palavra e também, digamos, por humildade perante uma obra que nos

envolve e nos sobrepuja: o diletantismo na verdadeira acepção do termo. Felizmente,

são muitos os profissionais na área de tradução lítero-humanística (que é a que conheço

melhor) que preservam um bom grau de diletantismo nesse sentido estrito. E felizmente

há editoras que abrigam de bom grado esse diletantismo profissional ou esse

profissionalismo diletante. De entremeio a uma contemporaneidade permeada por

ferramentas de automatização do ofício, existem, pois, os profissionais-diletantes que

prezam mais a artesania das palavras do que a tecnologia de automatização; isto é, são

menos operadores de máquinas e mais “tradutores” na acepção digamos humanista,

atualmente até já obsoleta, do termo. E de entremeio à crescente enxurrada de textos

produzidos por várias modalidades de IA há nichos de artesãos de alta qualidade,

aqueles seres que – curiosamente – têm conseguido escapar à extinção e até, um pouco

aqui, um pouco ali, vêm esparsamente se somando e acrescentando novos nichos.

Sobreviverão? Sem dúvida. A onda avassaladora da automatização da tradução cessará?

Não, de forma alguma; aumentará. Isso é bom, isso é ruim? Não sei e não compete a

mim julgar. O bom, com certeza, é que existam nichos onde se pode tentar,

experimentar, renovar, se comprazer naquela antiquíssima atividade que confere sentido

concreto ao termo “humanidade”: o ofício da tradução.


um trecho desse comentário foi publicado na revista pernambuco, disponível aqui.


24 de set. de 2023

metáforas da tradução

 no ano passado, tive a grande honra e satisfação de escrever a orelha do belo livro metáforas da tradução, de dirce waltrick do amarante, pela iluminuras.

transcrevo aqui:

Metáforas da tradução

Nunca tive a menor dúvida de que o traduzir é uma atividade infindável, desde o início dos tempos humanos, e de que toda, toda, toda tradução sempre tem um elemento de acaso, uma margem de arbitrariedade que nenhum praticante do ofício deixaria de reconhecer.

Traduzimos, e isso sempre pensando, refletindo, escolhendo, desistindo, decidindo outra coisa e que, afinal, poderia ainda ser uma terceira, uma quarta, uma centésima coisa diferente. Isso, cada um de nós, individualmente, faz, e em cada texto. Imagine-se então a quantidade de obras ao longo dos milênios, a quantidade de gente traduzindo ao longo dos milênios – e nunca se chegando, nunca podendo nem pretendendo (e, na consciência desse drama, muitas vezes nem querendo) se chegar a nada definitivo. Vertiginoso.

É preciso coragem, habilidade, conhecimento para refletir sobre essas fossas profundas da precariedade e da transitoriedade do traduzir. E quando falo “conhecimento”, refiro-me a conhecimento de causa, conhecimento prático, experiência concreta. Pois afinal, como dizem, “falar é fácil, fazer é que são elas”. E é o que encontramos em Metáforas da tradução, em doses generosas: coragem, habilidade, conhecimento.

Aqui lembro outra metáfora: o crochê – “eu me sentia... desmanchando o crochê de certos escritores, descobrindo os pontos, os truques prediletos deles”, dizia Rachel de Queiroz. E essa imagem pode se aplicar não só a traduções, como também às reflexões sobre essa prática tão multifacetada. Metáforas da tradução é um elaboradíssimo crochê – tecido, destecido e retecido com maestria. Se em algumas passagens as reflexões de Dirce Waltrick do Amarante até intensificam perigosamente a sensação de vertigem, elas resgatam em grande estilo a delícia da aventura, a alegria do fazer e o mérito intrínseco do ofício de traduzir.


27 de abr. de 2023

tomates na feira

 siu meu breve artiguinho, "tradução al pomodoro" na revista de arte e cultura qorpus, vol. 13, n. 1 (ufsc), disponível aqui.





22 de abr. de 2023

"quem tem medo de traduzir virginia woolf?"

um breve comentário meu em "quem tem medo de traduzir virginia woolf?", 

na seção drops da vitruvius, disponível aqui.


em tempo: quem se interessar pela questão,
recomendo o blog de acompanhamento da tradução:
https://aofaroldewoolf.blogspot.com/ 


Essa coisa de tradução às vezes cansa: outro dia encontrei alguém reclamando que o título Ao farol (“To the Lighthouse”), da Virginia Woolf, é "muito vago", e melhor seria usar "passeio ao farol".

Suspiro... (na verdade, vários suspiros...)

O farol não é só nem principalmente o farol da ilha que se enxerga da casa do casal Ramsay. É sobretudo a grande, centralíssima, ponderosíssima metáfora do papel da senhora Ramsay como o “farol” da família, que ilumina, orienta e vitaliza as relações entre seus integrantes.

O “to” em To the Lighthouse nada tem de vago: é denso e até pode ser ambíguo – é não só nem principalmente uma ida de bote (um “passeio”) até o farol físico, mas sobretudo uma dedicatória!

Como diz Virginia Woolf, o livro nem seria propriamente um romance: ela diz que gostaria de chamá-lo de elegia, uma homenagem póstuma à sua finada mãe, e é a ela que a autora o dedica.

Como já disseram, “no dictionary can classify the most famous ‘to’ in twentieth-century literature: the title of To the Lighthouse, with its specially laden and layered meanings of orientation and dedication, energy and elegy” (1).

(Por isso também gosto da capa da edição da L&PM, em que o alterego de Virginia Woolf contempla o farol, em vez de apresentar algum barquinho indicando um aplainado passeio ao farol (2). E a contemplação entre nuvens pesadas, águas agitadas, rajadas de vento – quem leu o livro bem sabe quantos conflitos, quantas questões se agitam dentro e em torno da família, e o “farol” ali, sempre firme, forte e fiel, como dizem).

É até por essas e outras que certa vez meio que me exasperei em uma entrevista em que uma das entrevistadoras insistia freneticamente na importância como que fundadora [!] do que ela chamava de “crítica” – e tão freneticamente insistia, até mesmo invocando o mais perfunctório comentário de algum leitor (“aain, não gostei...”), e tanto me exasperei que fui curta e grossa: “bom, aí o problema é dele; meu problema é com a obra, a responsabilidade diante dela”. Ela fez uma cara... mas, no fundo, para mim, é isso mesmo.

nota

1
FOWLER, Rowena. Virginia Woolf: Lexicographer. English Language Notes, v. 39, n. 3, Durham (EUA), mar. 2002, p. 54-70. Disponível em pdf na página web da autora no website da Universidade de Oxford: <https://bit.ly/3mO1UZe>.

2
WOOLF, Virginia. Ao farol. Tradução de Denise Bottmann. Porto Alegre, L&PM, 2013.


19 de abr. de 2023

fico feliz em poder informar que saiu meu artigo sobre "a coleção rubáiyát", disponível aqui




9 de jan. de 2022

a fazenda dos animais

 "a tradução revelou que a 'revolução dos bichos' não foi de fato uma revolução": generosa resenha de dinaura julles sobre a fazenda dos animais, na revista re-produção, da casa guilherme de almeida, disponível aqui.




21 de mar. de 2021

matérias, entrevistas e palestras

 

matérias, entrevistas e palestras


20 de mar. de 2021

artigos acadêmicos

artigos acadêmicos

3 de mar. de 2021

a fazenda dos animais

Denise Bottmann e sua tradução de “A fazenda dos animais”, de George Orwell

Denise Bottmann é uma respeitada e premiada tradutora que há muitos anos trabalha com a L&PM Editores. Pedimos que ela escrevesse um texto contando sobre sua tradução de A fazenda dos animais, de George Orwell que, por um longo período, foi editado no Brasil com o título de A revolução dos bichos. Por mais que alguns leitores tenham se apegado a esse título, Denise explica sua opção de seguir o original que é publicado na L&PM. 

A fazenda dos animais 

Por Denise Bottmann

Creio que uma das áreas a que melhor se aplica o sapientíssimo dito “Ninguém é dono da verdade” é, provavelmente, a tradução. E a infindável variedade de seus frutos é o que faz da tradução algo tão interessante e fascinante.

Assim é que Animal Farm, a fábula escrita por George Orwell nos idos dos anos 40, pode ser lida em Portugal e no Brasil sob diferentes títulos: A quinta dos animais, O porco triunfante, O triunfo dos porcos, A revolução dos bichos e, last but not least, A fazenda dos animais.

De meu ponto de vista, um elemento útil para me nortear no oceano relativista em que nós tradutorxs podemos navegar – e talvez, ou não, nos afogar – é o original. Não ouço mentalmente nenhuma voz clamando para que me afaste de um claro e singelo Animal Farm: A fazenda dos animais, sem maiores problemas nem grandes dúvidas. Aí alguém pode objetar: “fazenda”? Melhor “sítio” ou “granja” ou “herdade”… Tenho lá minhas razões para preferir “fazenda” – mas que seja, não vou ficar brigando por causa disso.

Até aí, é simples. Mas, atendo-nos ao título mais usado no Brasil – A revolução dos bichos –, fico um pouco confusa, em primeiro lugar, com “bichos”. Que bichos, gente? Pois, quanto a isso, a grande questão é que Orwell estabelece muito cuidadosamente, muito meticulosamente, muito sistematicamente, uma divisão do reino animal dentro da obra. E a estabelece adotando uma terminologia muito específica e constante ao longo de toda a sua fábula.

Vejamos, pois. Por animals ele designa única e exclusivamente o que chamamos de animais domésticos, de trabalho, criação e reprodução: vacas, cavalos, cabras, ovelhas, porcos, galinhas, gansos, pombos. Aram as terras, puxam carroças, pisam o trigo, fornecem ovos, servem de reprodutores e assim por diante. Note-se – e isso é bonitinho – que também há entre eles uma gata: ela vive fugindo ao trabalho, mas os outros animais não se zangam com sua mandriice porque, quando aparece depois das jornadas de trabalho, é sempre muito meiga, carinhosa e afetiva. Ou seja, entre os animais domésticos inclui-se também o que chamaríamos de animal de estimação (não de trabalho, criação etc.). Além da gata, há os cachorros, também incluídos entre eles na função de cães de guarda, de pastoreio e mesmo de caça. Esses são os animals orwellianos.

E os outros? Os ratos, os coelhos do mato, os pardais? Orwell nunca, nunca os trata como animals: são wild creatures, não domésticos e sim silvestres. Aliás, é muito interessante que, depois de expulsos os homens e instaurado o novo regime – animal – na fazenda, um dos líderes, o porco Bola de Neve, cria “o Comitê de Reeducação dos Camaradas Silvestres (o objetivo desse comitê era domesticar os ratos e os coelhos)”, para integrar as wild creatures à sociedade animal – que não tenha dado muito certo, são outros quinhentos.

E, por fim, temos beasts: aqui, sim, eu diria “bichos”. Com o termo beasts, Orwell abarca a totalidade dos seres animais, domésticos e silvestres. Daí a importância da canção Beasts of England, que se torna por algum tempo o hino da nova sociedade animal: todos os seres animais, os domésticos e os silvestres, nele se congregam. Aliás, logo no começo, quando o Maioral começava a organizar os animais da fazenda, havia até algumas dúvidas se os bichos do mato, as criaturas silvestres, seriam considerados “camaradas” dos animais domésticos. “Os bichos do mato, como os ratos e os coelhos, são amigos ou inimigos nossos? Vamos pôr em votação. Faço a seguinte pergunta à assembleia: os ratos são camaradas?”. Sim, foram considerados camaradas quase por unanimidade (e vale notar que apenas os cachorros votaram contra: afinal gostavam de perseguir os ratos e acompanhavam os homens na caça às lebres).

Bem, a questão central é que animals, wild creatures e beasts designam coisas diferentes, de abrangência e interrelações bem específicas. Posso em sã consciência tratar indiscriminadamente os termos? Falar em “bichos” para me referir especificamente aos animals? Ou, inversamente, falar em “animais” para me referir especificamente às wild creatures? A meu ver, creio que não. Se Orwell fez assim, tinha lá suas razões para isso – as quais, aliás, ficam muito claras durante a leitura do texto. Assim, não entendo como eu poderia falar em Fazenda dos bichos ou, ainda menos, em Revolução dos bichos. Repisando, não foram as beasts que se rebelaram, foram apenas os animals.

E os animais não fazem uma revolução: os animais se rebelam, se levantam numa rebelião. Não têm qualquer programa revolucionário, a não ser aspirações de tipo cooperativista e autogestionário de longo prazo. Mobilizam-se por insatisfação, rebelam-se contra a opressão: que essa rebelião coletiva depois resulte numa nova situação, cujo comando virá a se concentrar progressivamente num número cada vez mais restrito de animais, são outros quinhentos. Dá-se a rebelião, mas não se implanta concretamente qualquer tipo de coisa que se assemelhe às aspirações que acompanhavam a rebelião: e é esse é o drama da coisa.

A propósito, é o papel fundamental dessa mobilização pessoal contra a opressão que Orwell deixa tão claro em relação a si mesmo, no famoso prefácio à edição ucraniana: “Tornei-me pró-socialista mais por horror à opressão e ao descaso a que estava submetida a parcela mais pobre dos operários industriais do que por qualquer admiração teórica por uma sociedade planejada”. É esse elemento subjetivo, a profunda insatisfação com o status quo, amparado em outro elemento subjetivo, o sonho com um mundo melhor, que leva os animais da Fazenda do Solar a se erguerem contra a situação, e não uma adesão a um projeto revolucionário pré-elaborado. Não à toa, em momento algum encontramos o termo revolution em Animal Farm; é sempre, única e exclusivamente, rebellion. A única vez em que encontramos algo similar a revolution é um derivado: o adjetivo revolutionary, tratado como algo descabido, quando o porco Napoleão se reúne com um grupo de fazendeiros humanos e declara, em discurso indireto citado: “Por muito tempo circularam rumores – divulgados … por algum inimigo malévolo – de que havia algo de subversivo e até de revolucionário na posição dele e dos seus colegas. … Nada podia estar mais distante da verdade!”.  

Em suma, em tradução pode-se fazer praticamente qualquer coisa. O que nos dá bússola, guia, norte, é o texto original. Nada, porém, obriga que o tomemos como bússola, guia ou norte. Vai de cada um. De minha parte, prefiro me ancorar no autor. E viva A fazenda dos animais!

disponível aqui.

 



23 de mar. de 2020

artigo

com várias contribuições inestimáveis, terminei meu artigo com o levantamento bibliográfico das traduções de obras das irmãs brontë, katherine mansfield e virginia woolf no brasil (c.1916-19 a 2019). disponível aqui.

11 de nov. de 2019

artigo

saiu meu artigo "três coleções de livros", abordando a série negra, a seleção labirinto e a coleção saraiva, cobrindo um arco temporal de 1934 a 1972. está na tradterm, da usp, disponível aqui.

13 de out. de 2019

três coleções


saiu agora na revistra tradterm, da citrat/ usp, um artigo meu sobre a série negra, da companhia editora nacional, a seleção labirinto, da editora mérito, e a coleção saraiva, da editora saraiva. disponível aqui.

11 de set. de 2019

artigo

uma boa geralzona:

A Translation for Our Time?
Tim Parks

Do contemporary approaches to translation tell us something about our times?
Samuel Johnson was the first to offer a brief history of attitudes to translation, observing how some periods produce many translations, others very few, and how each period tends to privilege different criteria when translating. He notes that the Greeks did not translate texts from the Egyptians, that eminent Romans tended to learn Greek and experience it directly rather than make or read Latin versions, that “the Arabs were the first nation who felt the ardour of translation,” when they conquered parts of the Greek empire and sought to acquire their new subjects’ knowledge for themselves. 
Moving to modern times, Johnson analyzed different approaches before and after the Restoration in 1660. The writers before the Restoration, he decided, “had at least learning equal to their genius”; when tackling classical texts, if they couldn’t “exhibit their graces and transfuse their spirit,” they made up for it by translating a great deal, and they “translated literally, that their fidelity might shelter their insipidity or harshness.” The wits of the Restoration, on the other hand, Johnson claims, having “seldom more than slight and superficial views,” hid “their want of learning behind the colours of a gay imagination” hoping “that their readers should accept sprightliness for knowledge, and consider ignorance and mistake as the impatience and negligence of a mind too rapid to stop at difficulties, and too elevated to descend to minuteness.”
From the Romantic period onward, such observations on how other times and cultures have translated became commonplace, with both English and German critics remarking on how remorselessly the French reduced any foreign text, however idiosyncratic, to their own way of writing. It was understood at once that this kind of radical domestication had to do with the confidence of French culture, though philosopher and critic Johann Gottfried Herder (1744–1803), biblical scholar Friedrich Schleiermacher (1768–1834), and German language scholar Wilhelm von Humboldt (1767–1835) all believed it prevented the French from learning anything at all from the many translations they made. 
Schleiermacher was convinced that, in contrast, it was the destiny of “the German people to incorporate linguistically, and to preserve in the geographical center and heart of Europe, all the treasures of both foreign and our own art and scholarship in a prodigious historical totality, so that with the help of our language everyone can enjoy, as purely and as perfectly as a foreigner can, all the beauty that the ages have wrought.” This would be done, he decided, with a radically non-domesticating approach, taking the reader as far as possible toward the foreignness of the foreign text, something German was better equipped to do than other languages, he believed. The poet and critic Friedrich Schlegel (1772–1829) agreed: “Of all the languages into which prose and verse translations of Homer have been made, from the Syriac to the English, none can approach the original text with such happy fidelity as German.” 
So, while the French appeared to believe that French style was already the proper template for everything, the Germans believed their language was the most flexible instrument to reflect every style.
In 1882, Friedrich Nietzsche observed that, “The degree of the historical sense of any age may be inferred from the manner in which this age makes translations and tries to absorb former ages and books.” The more a culture becomes aware of the real differences of other cultures and other times, as the Germans had become, the less likely it is, he wrote, to try to “take possession” of the other the way “in the age of Corneille… the French took possession of Roman antiquity.”
But what of our own time and our culture? Are we reducing everything we translate to standard English, whatever that might be? Or are we struggling to get close to the otherness of foreign texts? 
What strikes anyone listening to the discussion of such issues in the translation world among its academics, practitioners, and publishers is the huge range of opinion and approaches advocated, the extreme eclecticism and general vagueness about what is entailed in translation. Reviewing any number of books in translation over the last thirty years, I’ve come to the conclusion that there is no dominant approach in our age: accurate and inaccurate, fluent and clumsy, all translations seem to be equally praised and criticized (though rather more the former than the latter). Two opinions, however, do emerge as so universally held as scarcely to need articulating. 
The first is that translation is always a good thing, politically, ethically, aesthetically. The translator brings cultures together, promotes understanding, undermines nationalism, contributes to avoiding conflict. It’s something we should all be doing and feeling good about doing, and congratulating one another for doing.
The second is that literary translation is not only entirely possible, but, somewhat surprisingly, that it can often match or even improve upon the quality of the original. The press release announcing shortlists for the UK’s Society of Authors 2019 Translation Prizes uses the verb “capture” again and again to suggest that the winning translations have left nothing of the original unexpressed; hence readers can feel confident they are missing nothing by reading in translation. Of one work we hear that it “equals, and sometimes even surpasses” its original, while another is praised for how it “captures the music of [the original’s] terrestrial spheres, showing that translation is, in fact, our universal language.” 
Turning to the academic world, one is struck by how rarely translations are carefully compared against originals, how little is said about language competence. Instead, if we consider the kind of texts regularly included in anthologies of translation theory—from Schleiermacher’s seminal work “On the Different Methods of Translating” (1813), through Walter Benjamin’s “The Task of the Translator” (1923), Octavio Paz’s “Translation: Literature and Letters” (1971), and Jacques Derrida’s “Des Tours de Babel” (1985)—it’s not hard to see how a pervasive romantic idealism, mysticism even, comes to underwrite those effusive contemporary panegyrics that would have translations improving on their originals and saving humanity in the process. 
We’ve already heard Schleiermacher speaking of his dream of “a prodigious historical totality,” in which every book ever written can be enjoyed by everyone. Here is Benjamin: “In translation the original rises into a higher and purer linguistic air… the predestined, hitherto inaccessible realm of reconciliation and fulfillment of languages…” And again: “It is the task of the translator to release in his own language that pure language which is under the spell of another, to liberate the language imprisoned in a work in his re-creation of that work.”
Derrida, after giving enormous weight to the Biblical myth of the Tower of Babel, reaches the following conclusion:
Nothing is more serious than a translation… For if the structure of the original [work] is marked by the requirement to be translated, it is because in laying down the law, the original begins by indebting itself as well with regard to the translator. The original is the first debtor, the first petitioner; it begins by lacking—and by pleading for translation.
This mysterious speculation that any written text is immediately “lacking” completion because it is not available in all the other languages of the world has become a staple in translation theory, perhaps because by elevating translation to a categorical imperative it implicitly confers great and solemn importance on a field that was largely ignored in universities until some twenty years ago. In general, it’s astonishing how much respect is still afforded to these bizarre and muddled texts. 
Paz, though he never reaches the dizzy heights of Benjamin and Derrida, is equally positive and emphatically universalist: “Translation within the same language is not essentially different from translation between two tongues, and the histories of all peoples parallel the child’s experience…” And again: “Although language is not universal, languages nevertheless form part of a universal society in which, once some difficulties have been overcome, all people can communicate with and understand each other. And they can do so because in any language men always say the same things.”
Any talk of untranslatability, for Paz, can only be the result of an “inordinate attachment to verbal matter,” or becoming “ensnared in the trap of subjectivity.” “Throughout the ages,” he goes on, “European poets—and now those of both halves of the American continent as well—have been writing the same poem in different languages… a symphony in which improvisation is inseparable from translation and creation is indistinguishable from imitation.”
Essentially, then, all these approaches to translation underwrite the age’s appetite for globalization and feed a zeitgeist that favors the cultural melting pot in which any individual can fully possess any cultural expression, and no profound difference or incomprehension is admitted. 
Is there a problem? Or is my unease mere grumpiness? “To a thousand cavils,” Samuel Johnson wrote, defending Pope’s translation of Homer, “one answer is sufficient; the purpose of a writer is to be read, and the criticism which would destroy the power of pleasing must be blown aside.” That seems a persuasive, salutary, no-nonsense attitude, especially when tempered by Johnson’s insistence on scholarship and accuracy. I’m as ready as anyone for a world teeming with translations. After all, I’ve been responsible for quite a few myself. 
But let us recall that, for all their enthusiasm, the theorists I’ve mentioned, with the exception perhaps of Paz, are nevertheless aware of an otherness in a foreign text that remains elusive to translation—unconquered, uncaptured. And even as Schleiermacher launches into his vision of a German language adapting itself in a thousand ways to “bring those two utterly unconnected people together”—the original author and the reader of the translation—he nevertheless remembers that at best the reader will only “catch a glimmer … of the original language and the work’s indebtedness to it.” Certainly this is Nabokov’s position in “Problems of Translation: Onegin in English,” when he suggests, lepidopterist as he was, that the translation will have the same relation to the original as a butterfly mounted in a collector’s case will have to a butterfly in its natural state. 
Nabokov’s analogy is discouraging and I think inaccurate; there are plenty of very lively translations fluttering around. But what underlies both his and Schleiermacher’s thought is the understanding of translation as an invitation toward a meeting that is exciting as it is difficult, between quite different mind sets, different cultures, different languages. “All humans are under the sway of the language they speak,” Schleiermacher acknowledges, “so that it is impossible to think with complete clarity anything that lies beyond its boundaries.”
What is exciting about translation, then, is not the notion that it has delivered a hundred percent—something Schleiermacher would never have signed up to—or that the entire world of human feeling can be made available to us in our own idiom—a fantasy that will only induce complacency—but its encouragement to move toward, or at least become aware of, what we do not know; translation as a wake-up call, and an instrument to spur us to more effort, not to have us sit back and applaud another successful worldwide publishing phenomenon.
To close on a provocation, it’s perhaps worth observing that current enthusiasm for literary translation in the Anglo-Saxon world has come at the same time as a steep decline in language learning. 

2 de mar. de 2019

plágios

matéria de alessandro giannini, disponível aqui.

Denúncias de plágio agitam o meio literário: como fica a autoria no século XXI?
Hoje é muito mais fácil praticar — mas também descobrir — as cópias
Alessandro Giannini
02/03/2019 - O Globo
Acusações de plágio já respingaram em nomes tão diversos como Valesca Popozuda, Led Zeppelin, o ministro do STF Alexandre de Moraes e até o designer da logo do Galeão.
Num mundo globalizado, empresas têm gastado muito para proteger suas marcas.
Na produção literária, porém, a cópia tornou-se tão frequente quanto o uso dos comandos Control-C e Control-V (copiar e colar). Só neste ano, foram revelados casos envolvendo o britânico Ian McEwan, o americano Dan Mallory e a brasileira Cristiane Serruya, best-seller da autopublicação responsabilizada por surrupiar textos de (no mínimo) 34 autores.
Com tanto conteúdo disponível na internet, há quem sustente que usar escritos de outros é homenagem. Para muita gente, porém, é roubo descarado e ponto final. Opiniões à parte, o plágio está tipificado no artigo 184 do Código Penal Brasileiro como crime passível de três meses a 4 anos de detenção. E multa.
Perfil devastador
O plágio (diz-se também plagiarismo ou plagiato) é o ato de assinar ou apresentar uma obra intelectual de qualquer natureza (texto, música, obra pictórica, fotografia, obra audiovisual etc.) contendo partes de uma obra que pertença a outra pessoa sem a permissão do autor.
Mas a arte só começa onde a imitação acaba.
Em 2009, o argentino Pablo Katchadjian incluiu 5.600 palavras no conto “O Aleph”, de Jorge Luis Borges. Criou, assim, “O Aleph engordado”. A viúva de Borges não curtiu a “homenagem” e processou Katchadjian por plágio. Ele só foi inocentado seis anos depois.
— Hoje, o plágio é fácil de praticar, mas muitíssimo mais fácil de localizar — decreta a historiadora e tradutora Denise Bottmann. — E dura pouco essa coisa do “eu sou o autor”, “eu escrevi”. Até porque todo mundo sabe que não se vive de escrever livro, pelo menos não aqui no Brasil.
Denise é conhecida pela excelência de suas versões e pela inclemência com editores que plagiam traduções — modalidade infelizmente comum no mercado. Em 2010, a Landmark entrou com uma ação contra ela e a blogueira Raquel Salaberry, que acusaram a editora de copiar versões de clássicos para o português. No mês passado, as duas venceram a batalha.
Outro caso recente de grande repercussão foi o do americano Dan Mallory, autor do bem-sucedido suspense “A mulher na janela” e uma das mais festejadas atrações da última Bienal do Livro de São Paulo. Ele foi alvo de um perfil devastador publicado pela revista “New Yorker”, que o pinta como um farsante inventor de histórias sobre sua vida. Logo depois, deu no “New York Times”: Mallory acusado de plagiar o romance “Saving April”, da britânica Sarah A. Denzil.
O advogado do escritor, porém, apresentou provas de que ele havia enviado um rascunho com personagens bem desenhados e tramas bem definidas antes de Sarah começar a escrever seu romance.
— A melhor ficção se baseia em trabalhos anteriores em termos de linguagem e senso de lugar — diz Stuart Karle, professor adjunto da Columbia Journalism School, especialista em lei de mídia. — Na ficção, é mais aceito e espera-se estar sujeito a isso.
A internet facilita o plágio e a descoberta dele, como disse Denise Bottmann, mas a prática vem de muito antes, como mostram episódios emblemáticos da produção literária brasileira.
Caso curioso o dos herdeiros do escritor Humberto de Campos, que moveram ação contra a Federação Espírita Brasileira, reivindicando direitos sobre a publicação de obra psicografada por Chico Xavier, de autoria do espírito do “autor”. A ação foi julgada improcedente. Apesar da perícia ter afirmado semelhança de estilos na obra, não se poderia pleitear direito do espírito.
Outro caso famoso é o do romance “A sucessora”, da escritora e tradutora Carolina Nabuco (1890-1981), que teria virado o romance “Rebecca” (1934), adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock .
— Um escândalo — diz o advogado José Thomaz Nabuco, de 82 anos, sobrinho da escritora. — Roubaram a obra dela.
Saindo do armário
Mas a própria definição do plágio tem mudado ao longo da História. William Shakespeare foi acusado de ter plagiado “Romeu e Julieta” de outro autor. Na verdade, havia cinco versões diferentes do drama. Hoje, o caso provavelmente acabaria nos tribunais.
Para a tradutora Ana Resende, falar de empréstimos, influências e supostos plágios literários requer cuidado:
— Era prática comum autores desenvolverem temas de seus pares e reconhecer isso. O tema do guarda-roupa como um portal mágico, central na série de romances sobre Nárnia, de C.S. Lewis, foi retirado de um conto, “The Aunt and Amabel", de Edith Nesbit. E Lewis reconheceu sua dívida com Nesbit, que hoje é pouquíssimo lembrada.
Todo homem nasce original e morre plágio.
Colaborou (com os plágios, inclusive) Emiliano Urbim.


18 de out. de 2018

um depoimento

na semana dos tradutores, blog da companhia das letras, disponível aqui


Um depoimento, por Denise Bottmann
Este ano faz 35 anos que comecei a traduzir. Digo, traduzir “para fora”. Antes já traduzia um pouco, poemas, ensaios, coisas de que gostava, que guardava na gaveta ou às vezes publicava aqui e ali, em alguma revista. Mas traduzir por encomenda, a pedido, por contratação, a primeira vez foi 35 anos atrás, com Luiz Schwarcz, ainda na Brasiliense. Ocorreu meio por acaso, e nem vem muito – para rimar – ao caso. Tirando um intervalo de dez anos em que parei de traduzir, continuo na C/companhia de Luiz, com alguns passeios paralelos.
Traduzir é algo maravilhoso, por todos os lados que se olhe. Começa, em primeiro lugar, por ser a única – não, única talvez não, mas a principal – coisa capaz de estabelecer contato entre povos e culturas de qualquer tempo e de qualquer espaço, transpondo milhares de anos e muitos milhares de quilômetros. Então é uma coisa significativa, importante. Imaginem todo mundo ilhado na sua língua. Bem ou mal, não haveria propriamente uma humanidade. Não estaríamos aqui conversando.
Outro lado de traduzir é que a gente se sente, de certa forma, contribuindo não só para conservar, mas também para criar uma memória das coisas – e, de mais a mais, uma memória compartilhada, trazida de outro canto do mundo. Digo isso porque considero memória algo muito importante. Sou historiadora, por formação, por carreira acadêmica e, na última década, por estudos historiográficos que venho fazendo sobre... ora, vejam só, a tradução no Brasil.
Além disso, o ofício é muito generoso, ensina sem cessar; a gente está sempre aprendendo, vendo coisas novas, sabendo coisas que não sabia antes, e de maneira muito agradável: lendo, escrevendo, com paz e tranquilidade, tendo nosso fiel amigo, o leão cuja pata ferida ajudamos a curar, sempre a nosso lado.

Assim, nesses 35 anos, é como se se formasse um círculo perfeito para quem adotou a tradução por gosto e convicção: é uma das mais importantes atividades que vieram a constituir um tempo-espaço humano coletivo; é o eixo de formação de um patrimônio imaterial comum; como se não bastasse, é um ofício prazeroso e enriquecedor no plano pessoal.
Quase tudo passa. Mas algumas coisas ficam. Ficam vozes de estadistas firmando a paz, súplicas de reis ansiando por herdeiros, cantos de amor e aventura de poetas, devoções ardentes, cosmogonias e épicos grandiosos, conselhos e receituários médicos multimilenares, de povos há muito desaparecidos.
Fica a escrita – e a escrita nunca cessa de se multiplicar: sobre ela, prosseguem os infindáveis pentimentos que a mão de todos os jerônimos e todas as jerônimas traça incansavelmente ao longo do tempo. E é assim que dialogamos.

21 de mai. de 2018

baudelaire no brasil

saiu meu artigo sobre as traduções de baudelaire no brasil, na revista XIX - artes e técnicas em transformação, da unb. disponível aqui.



16 de abr. de 2018

três poemas de eliot

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saiu na revista InComunidade, em seu número 67, de abril de 2018, uma tradução minha de três poemas de eliot, disponível aqui.

Três poemas de Thomas Stearns Eliot, presentes em Prufrock and Other Observations, sua primeira coletânea de poemas, publicada em 1917


Manhã à janela [1914]

Lidam com a louça nas cozinhas do porão,
E ao longo do meio-fio gasto da rua
Percebo as almas entorpecidas das criadas
Despontando exânimes na entrada de serviço.

As ondas pardas da neblina trazem-me
Faces retorcidas do rés-do-chão
E a uma passante de saia enlameada
Arrancam um sorriso vago que flutua
E desaparece na linha dos telhados.


O Boston Evening Transcript [1915]

Os leitores do Boston Evening Transcript
Ondulam ao vento como trigal maduro.

Quando tênue o anoitecer se apressa na rua,
Despertando os apetites da vida nuns
E a outros trazendo o Boston Evening Transcript,
Subo os degraus e toco a campainha, virando-me
Cansado, como viraria alguém num adeus a Rochefoucauld
Fosse a rua o tempo e estivesse ele no final da rua,
E digo: “Prima Harriet, eis o Boston Evening Transcript”.


A prima Nancy [1915]

Miss Nancy Ellicot
Vencia os morros a largas passadas,
Vencia os morros montada a cavalo –
Os morros estéreis da Nova Inglaterra –
Caçando raposas
Além das pastagens.

Miss Nancy Ellicot fumava
E dançava todas as danças modernas;
E as tias ficavam um tanto indecisas, 
Mas sabiam que era moderno.

Nas prateleiras laqueadas vigiavam
Matthew e Waldo, guardiões da fé,
O exército da lei inabalável.

14 de fev. de 2018

artigo

saiu "um breve apontamento intertextual", retomando anotações minhas sobre thoreau e poe, na revista InComunidade, disponível aqui.


12 de fev. de 2018

uma agradável surpresa

um gentil texto de caetano galindo sobre o não gosto de plágio, aqui.