19 de dez de 2018



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O papel do tradutor e a questão de autoria

Morte de tradutora de Harry Potter levanta debate sobre a falta de reconhecimento da profissão.

A morte de Lia Wyler, aos 84 anos, no dia 11/12, não causou muito alvoroço. Como a de nenhum tradutor parece causar. Responsável por verter ao português os sete livros de saga Harry Potter e autores como Tom Wolfe, Hnery Miller e Stephen King, a paulista de Ourinhos havia passado por dois AVCs – um deles logo após entregar Harry Potter e as relíquias da morte.
O quase silêncio sobre os tradutores incomoda, e muito. Lia, que entre 1991 e 1993 presidiu o Sindicato Nacional dos Tradutores, foi quem adaptou para o português termos do universo de Potter. Quidditch virou quadribol, e muggle trouxa. Certa feita, depois de encerrar a série do bruxinho, Wyler declarou sentir falta dos personagens e da mitologia que envolve os livros de J. K. Rowling.
A Rocco, editora para qual Lia mais traduziu, emitiu uma nota de falecimento. No comunicado, a casa reitera a sensibilidade da tradutora e a importância do seu labor. “O trabalho do tradutor é um dos fios principais de uma história. Ele empresta suas palavras para construir narrativas e fazer que uma história seja compreendida, tocando o coração das pessoas”, diz o texto.
Denise Bottmann: ‘É uma responsabilidade e tanto, pois, na hora em que você ‘decide’, digamos assim, qual o partido que vai adotar’.

O papel do tradutor

Denise Bottmann – tradutora de obras de Virginia Woolf, Harold Bloom, Thomas More e outros – mantém desde 2008 o blog não gosto de plágio, cujo objetivo é um pouco óbvio: encontrar incongruências e irregularidades nas traduções para o português do Brasil. Um dos grandes alvos de Bottmann foi a editora Martin Claret, inúmeras vezes apontada por Denise como fonte constante de plágios e apropriações de textos alheios. Para escamotear a ação, a editoria teria criado diversos pseudônimos e retalhado excertos de diversos tradutores.
Ainda assim, é difícil dimensionar o papel de um tradutor para a obra de um autor, mas é ele o responsável por dar acessibilidade a determinados escritores. Quando a primeira tradução de Ulisses, de Joyce, foi publicada no Brasil, o professor e filólogo Antônio Houaiss foi “acusado” de tornar o livro do irlandês ainda mais intransponível. No começo dos anos 2000, a professora Bernardina da Silveira Pinheiro sofreu a acusação inversa: a de simplificar demais. Caetano Galindo, uma década mais tarde, teve uma recepção mais amistosa, e sua versão foi classificada com a mais próxima do original.
“É uma responsabilidade e tanto, pois, na hora em que você ‘decide’, digamos assim, qual o partido que vai adotar, que tipo de tratamento vai dar à obra em sua tradução, o que você julga mais adequado ou mais compatível com o original, você vai ter de manter esse mesmo tipo de aderência/descolamento ao longo de todo o texto. Não é fácil. E é por isso que podem existir tantas traduções de uma mesma obra. As escolhas nunca são as mesmas”, disse Bottmann em entrevista de 2013.
Borges, em um dos seus mais célebres textos, tratou da questão do tradutor. No conto, Pierre Menard almeja uma tradução tão perfeita de Dom Quixote para que a autoria passe a lhe caber. O relato borgiano é o retrato do labirinto da tradução, das voltas e voltas que se dá para transpor com o máximo de fidelidade uma obra. E, no final, qual o reconhecimento dado ao tradutor? Pouco ainda.