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23 de jun. de 2017

mais cinco autores e suas respectivas estreias em livro no brasil

Schopenhauer, 1887: 

O primeiro volume de Schopenhauer a ser publicado no Brasil em tradução brasileira foi Metaphysica do amor. Esboço sobre as mulheres (Pensamentos e fragmentos). A tradução ficou a cargo de Manuel Coelho da Rocha, muito provavelmente tomando por interposição a versão francesa de Jean Bourdeau (1880), Pensées e fragments. Foi publicada pela editora Laemmert em 1887.

A Semana, 1887, ed. 0144


Sua quarta edição em 1904, pela Bibliotheca Philosophica da Laemmert, vem, como consta em sua nova capa, "augmentada com um appendice sobre a pederastia". Essa tradução de M.C. da Rocha foi reeditada pela Cultura Moderna em 1938.



Para um histórico de Schopenhauer no Brasil, veja-se aqui.


Tolstói, 1890:

A obra que inaugurou Tolstói em livro no brasil foi A sonata de Kreutzer, em tradução de Visconti Coaracy. Foi publicada em 1890 pela B.-L. Garnier e serializada no Diário de Notícias logo após seu lançamento, de dezembro de 1890 a janeiro de 1891.

Essa edição se reveste de grande importância, e tanto maior por ter sido a primeira publicação em livro de um autor russo no Brasil, assim inaugurando a fértil bibliografia que veio a se multiplicar algumas décadas depois entre nós.

Infelizmente não obtive imagem de capa. Sobre a fortuna bibliográfica de Tolstói no Brasil, veja-se aqui.


Hegel, 1936:

A primeira obra integral de Hegel traduzida e publicada no Brasil foi a Enciclopédia das ciências filosóficas, em três volumes, pela Athena Editora, em 1936. A tradução coube a Lívio Xavier, e não me parece impossível que tenha sido feita a partir da tradução espanhola de Eduardo Ovejero y Maury. Teve diversas reedições.



Jane Austen, 1940:

Somente em 1940 sai no Brasil a primeira tradução de um livro de Jane Austen. Trata-se de Orgulho e preconceito, em tradução de Lúcio Cardoso. Teve inúmeras reedições e foi objeto de apropriação fraudulenta pela editora Best-Seller, como apontei aqui e aqui.


Para outras traduções feitas por Lúcio Cardoso, veja-se aqui.


Emily Dickinson, 1945:

Os primeiros poemas de Emily Dickinson a ser traduzidos e publicados em livro no Brasil foram "I never lost as much but twice", "I died for Beauty – but was scarce", "This quiet Dust was Gentlemen and …", "I never saw a Moor" e "My life closed twice before its close", apanhados na seção "Cinco poemas de Emily Dickinson" em Poemas traduzidos, por outro grande nome de nossas letras: Manuel Bandeira. Poemas traduzidos teve sua primeira edição em 1945, pela R.A. [Revista Acadêmica].




Vide também o post anterior sobre outros cinco autores aqui.

23 de nov. de 2010

o lobo perde o pelo...

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as fontes tipográficas criadas pela alemã pia frauss são famosas. uma delas, muito bonita, é a fonte jane austen, que tive o gosto de conhecer no brasil graças ao blog jane austen em português.

em vista do velho ditado, pergunto-me se a editora martin claret, para seu recente lançamento de algumas obras de jane austen em tradução legítima (ufa!), chegou a licenciar o direito de uso comercial da bela fonte criada por pia frauss, e estampada na capa do livro. é o que se espera, naturalmente, e a gente torce por isso. mas vai saber...


aliás, mesmo a vinheta rococozinha, até no mais mínimo caracolzinho, parece uma fiel reprodução
da vinheta da edição dent/dutton, que apresentei aqui.

deve ser o tal mashup em versão lítero-tupiniquim.
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27 de jan. de 2010

orgulho e preconceito da lpm

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et voilà!


a boa notícia é que, em meio a:
- a antiga tradução de lúcio cardoso, circulando desde 1940
- o plágio da tradução de lúcio cardoso na best-seller desde 1997
- outro plágio da tradução de lúcio cardoso na martin claret desde 2001

finalmente sai uma nova tradução de alto nível, feita por celina portocarrero, pela editora lpm, com introdução do poeta e tradutor ivo barroso e uma belíssima capa, em edição de bolso, com 400 páginas, a preço acessível.
 
nós leitores agradecemos à iniciativa de raquel sallaberry, do jane austen em português: cansada de tantos plágios e tantas dificuldades em encontrar os livros esgotados de jane no brasil, publicou um post aberto à editora, sugerindo boas edições a bons preços da obra completa de jane austen. et voilà!
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o insidioso orgulho plagiado

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mais um caso de involuntária legitimação acadêmica do mais pernicioso delito intelectual, a saber, o plágio - aqui, com a referência a "enrico corvisieri" como pretenso autor da tradução de orgulho e preconceito, na verdade furtada a lúcio cardoso. clique na imagem para ampliar.


Genilda Azeredo,
Jane Austen, adaptação e ironia : uma introdução
(agradeço a ivo barroso pelo aviso e pela imagem)

quando cessará a infiltração das fraudes tradutórias entre os materiais de estudo na academia? e a memória cultural, como preservá-la?

13 de jan. de 2010

orgulho e preconceito da best seller

jane austen no brasil é um caso sério. várias de suas obras vivem esgotadas, algumas traduções - por exemplo, persuasão pela landmark - são cópias adulteradas de traduções previamente existentes e por aí vai.

o caso de orgulho e preconceito, infelizmente, não é exceção. já mostrei em liz bennet kidnapped que a tradução atribuída a "jean melville", publicada em sucessivas reedições pela editora martin claret, é uma cópia mal disfarçada da tradução de maria francisca ferreira de lima, publicada em 1975 pela editora europa-américa.

a tradução brasileira mais conhecida é a de lúcio cardoso, de 1940, pela josé olympio e atualmente pela civilização brasileira. foi ela que serviu de base para uma cópia adulterada que tem sido publicada em nome de "enrico corvisieri", pela editora best seller, desde 1997 até hoje.

 escolhi alguns trechos salteados ao longo do livro.

1. capítulo VII, quando elizabeth vai visitar sua irmã jane.

- original:
In Meryton they parted; the two youngest repaired to the lodgings of one of the officers' wives, and Elizabeth continued her walk alone, crossing field after field at a quick pace, jumping over stiles and springing over puddles with impatient activity, and finding herself at last within view of the house, with weary ankles, dirty stockings, and a face glowing with the warmth of exercise.

She was shown into the breakfast-parlour, where all but Jane were assembled, and where her appearance created a great deal of surprise. That she should have walked three miles so early in the day, in such dirty weather, and by herself, was almost incredible to Mrs. Hurst and Miss Bingley; and Elizabeth was convinced that they held her in contempt for it. She was received, however, very politely by them; and in their brother's manners there was something better than politeness; there was good humour and kindness. Mr. Darcy said very little, and Mr. Hurst nothing at all. The former was divided between admiration of the brilliancy which exercise had given to her complexion, and doubt as to the occasion's justifying her coming so far alone. The latter was thinking only of his breakfast.

- tradução de lúcio cardoso:
Em Meryton as moças se separaram. As duas mais jovens se dirigiram para a residência da esposa de um dos oficiais e Elizabeth continuou sozinha, atravessando campo após campo, pulando cercas e saltando por sobre poças d'água, com impaciência, e afinal encontrou-se a pouca distância da casa, com os tornozelos doídos, as meias sujas e o rosto corado pelo exercício.
Foi introduzida numa sala de almoço onde todos estavam reunidos, com exceção de Jane. O seu aparecimento causou bastante surpresa. Mrs. Hurst e Miss Bingley acharam incrível que ela tivesse caminhado três milhas tão cedo, com tanta umidade e sozinha; e Elizabeth ficou convencida de que elas a desprezaram por isto. Receberam-na, entretanto, muito amavelmente; quanto ao irmão dessas senhoras, havia nas suas maneiras mais do que simples polidez; havia bom humor e bondade. Mr. Darcy falou pouco e Mr. Hurst não disse nada. O primeiro estava em dúvida sobre se devia admirar as belas cores que o exercício emprestara ao rosto da moça ou refletir que o motivo talvez não justificasse a sua vinda sozinha, de tão longe. O segundo pensava apenas no seu almoço.

- "tradução" de enrico corvisieri:
Em Meryton, as moças se separaram. As duas mais jovens se dirigiram para a residência da esposa de um dos oficiais e Elizabeth continuou sozinha, atravessando campo após campo, pulando cercas e saltando por sobre poças d'água, com impaciência, e finalmente encontrou-se a pouca distância da casa, com os tornozelos doídos, as meias sujas e o rosto corado pelo exercício.
Foi introduzida em uma sala de almoço onde todos estavam reunidos, com exceção de Jane. Seu aparecimento causou grande surpresa. A sra. Hurst e a srta. Bingley acharam incrível que ela tivesse caminhado cinco quilômetros tão cedo, com tanta umidade e sozinha; e Elizabeth ficou convencida de que elas a desprezaram por isso. Contudo receberam-na [] muito amavelmente; quanto ao irmão dessas senhoras, havia em suas maneiras mais do que simples polidez, havia bom humor e bondade. O sr. Darcy falou pouco e o sr. Hurst não disse nada. O primeiro estava em dúvida sobre se devia admirar as belas cores que o exercício emprestara ao rosto da moça ou refletir que o motivo talvez não justificasse a sua vinda, sozinha, de tão longe. O segundo pensava apenas em seu almoço.

2. capítulo XIX, parte inicial do comicíssimo pedido de casamento de mr. collins.

- original:
My reasons for marrying are, first, that I think it a right thing for every clergyman in easy circumstances (like myself) to set the example of matrimony in his parish; secondly, that I am convinced that it will add very greatly to my happiness; and thirdly—which perhaps I ought to have mentioned earlier, that it is the particular advice and recommendation of the very noble lady whom I have the honour of calling patroness. Twice has she condescended to give me her opinion (unasked too!) on this subject; and it was but the very Saturday night before I left Hunsford—between our pools at quadrille, while Mrs. Jenkinson was arranging Miss de Bourgh's footstool, that she said, 'Mr. Collins, you must marry. A clergyman like you must marry. Choose properly, choose a gentlewoman for my sake; and for your own, let her be an active, useful sort of person, not brought up high, but able to make a small income go a good way. This is my advice. Find such a woman as soon as you can, bring her to Hunsford, and I will visit her.' Allow me, by the way, to observe, my fair cousin, that I do not reckon the notice and kindness of Lady Catherine de Bourgh as among the least of the advantages in my power to offer. You will find her manners beyond anything I can describe; and your wit and vivacity, I think, must be acceptable to her, especially when tempered with the silence and respect which her rank will inevitably excite.

- tradução de lúcio cardoso:
- Minhas razões para casar são: primeiro, penso que é uma obrigação de todos os pastores que se encontrem em boa situação, como eu, dar bom exemplo à sua paróquia. Em segundo lugar estou convencido de que isto contribuirá grandemente para a minha felicidade. E o terceiro motivo, que eu devia talvez ter mencionado primeiro, é o conselho e a expressa recomendação da muito nobre senhora que eu tenho a honra de chamar a minha protetora. Duas vezes ela condescendeu em dar-me a sua opinião sobre este assunto, sem que eu lhe pedisse. E na noite que precedeu a minha partida de Hunsford, durante um jogo de cartas e enquanto Miss Jenkinson punha um tamborete sob os pés de Miss de Bourgh, Lady Catherine disse: "Mr. Collins, o senhor precisa se casar. Um pastor como o senhor tem a obrigação de se casar. Escolha uma mulher educada, é o que lhe peço; e, para seu interesse, escolha uma pessoa ativa, útil, que não tenha sido mimada pelos pais, mas que saiba administrar uma casa com economia. Encontre uma pessoa nessas condições o mais depressa possível, traga-a para Hunsford e eu irei visitá-la". Permita-me a propósito observar, minha encatandora prima, que não considero a atenção e a amabilidade de Lady Catherine uma das menores vantagens que estão em meu poder oferecer-lhe; [aqui faltou uma frase do original] penso que o seu espírito e a sua vivacidade a tornarão aceitável aos olhos de Lady Catherine, especialmente se combinar estas qualidades com a veneração e o respeito que a posição de Lady Catherine hão [sic] de provocar inevitavelmente em seu espírito.

- "tradução" de enrico corvisieri:
- Minhas razões para casar são: primeiro, penso que é uma obrigação de todos os pastores que se encontrem em boa situação, como eu, dar bom exemplo a sua paróquia. Em segundo lugar, estou convencido de que isto contribuirá grandemente para a minha felicidade. E o terceiro motivo, que eu deveria talvez ter mencionado primeiro, é o conselho e a expressa recomendação da muito nobre senhora que eu tenho a honra de chamar de minha protetora. Duas vezes ela condescendeu em dar-me a sua opinião sobre este assunto, sem que eu lhe pedisse. E na noite que precedeu a minha partida de Hunsford, durante um jogo de cartas e enquanto a sra. Jenkinson punha um tamborete sob os pés da srta. De Bourgh, lady Catherine disse: "Senhor Collins, o senhor precisa se casar. Um pastor como o senhor tem a obrigação de se casar. Escolha uma mulher educada, é o que lhe peço; e, para seu interesse, escolha uma pessoa ativa, útil, que não tenha sido mimada pelos pais, mas que saiba administrar uma casa com economia. Encontre uma pessoa nessas condições o mais depressa possível, traga-a para Hunsford e eu irei visitá-la". Permita-me a propósito observar, minha encantadora prima, que não considero a atenção e a amabilidade de lady Catherine uma das menores vantagens que estão em meu poder oferecer-lhe; [mesmo salto] penso que o seu espírito e a sua vivacidade a tornarão aceitável aos olhos de lady Catherine, especialmente se combinar essas qualidades com a veneração e o respeito que a posição de lady Catherine hão [tb sic] de provocar inevitavelmente em seu espírito.

3. seguem alguns trechos da longuíssima carta de mr. darcy a elizabeth, no capítulo XXXV, com uma inversão de frase e alguns cosméticos. a bobagem em lançar mão de tais cosméticos é que eles costumam passar longe das peculiaridades do texto submetido a plágio, e apenas ressaltam ainda mais o fato.

- original:
"Be not alarmed, madam, on receiving this letter, by the apprehension of its containing any repetition of those sentiments or renewal of those offers which were last night so disgusting to you. I write without any intention of paining you, or humbling myself, by dwelling on wishes which, for the happiness of both, cannot be too soon forgotten; and the effort which the formation and the perusal of this letter must occasion, should have been spared, had not my character required it to be written and read. You must, therefore, pardon the freedom with which I demand your attention; your feelings, I know, will bestow it unwillingly, but I demand it of your justice.
"Two offenses of a very different nature, and by no means of equal magnitude, you last night laid to my charge. The first mentioned was, that, regardless of the sentiments of either, I had detached Mr. Bingley from your sister, and the other, that I had, in defiance of various claims, in defiance of honour and humanity, ruined the immediate prosperity and blasted the prospects of Mr. Wickham. Wilfully and wantonly to have thrown off the companion of my youth, the acknowledged favourite of my father, a young man who had scarcely any other dependence than on our patronage, and who had been brought up to expect its exertion, would be a depravity, to which the separation of two young persons, whose affection could be the growth of only a few weeks, could bear no comparison. But from the severity of that blame which was last night so liberally bestowed, respecting each circumstance, I shall hope to be in the future secured, when the following account of my actions and their motives has been read. If, in the explanation of them, which is due to myself, I am under the necessity of relating feelings which may be offensive to yours, I can only say that I am sorry. The necessity must be obeyed, and further apology would be absurd."

- tradução de lúcio cardoso:
"Não fique alarmada, Miss Eliza, ao receber esta carta, pela apreensão de que ela contenha a repetição daqueles sentimentos ou a renovação daquelas propostas que ontem à noite tanto lhe repugnaram. Escrevo-lhe sem nenhuma intenção de aborrecê-la ou de me humilhar insistindo em exprimir esperanças que para a felicidade de ambos não podem ser esquecidas cedo demais. E o esforço da minha parte ao escrever esta carta e o seu em percorrê-la teria sido poupado se o meu caráter não exigisse que ela fosse escrita e lida. É preciso pois que me perdoe a liberdade com que exijo a sua atenção; sei que os seus sentimentos a concederão com relutância. Mas eu o exijo da sua justiça. Duas foram as acusações que me fez ontem à noite, de natureza muito diferente e de importância igualmente desigual. A primeira foi: que eu tinha separado Mr. Bingley da sua irmã, indiferente aos sentimentos de ambos. E a outra de ter arruinado a possibilidade imediata e as probabilidades futuras de Mr. Wickham, ferindo vários direitos, desafiando a honra e a humanidade. Ter repudiado voluntária e gratuitamente o companheiro da minha infância, o favorito declarado de meu pai, um rapaz que dependia exclusivamente da nossa proteção e a quem esta fora prometida seria uma perversidade incomparavelmente mais grave do que a separação de duas pessoas cuja afeição, embora real, não poderia ter crescido excessivamente no espaço das poucas semanas que estiveram juntas. Espero estar a salvo, para o futuro, da severidade das censuras que me foram feitas com tanta veemência a respeito destes dois casos, depois de ter lido a seguinte explicação dos meus atos e dos seus motivos. Se durante esta explanação eu me encontrar na necessidade de exprimir sentimentos que possam ser ofensivos aos seus, posso dizer apenas que isto me entristece sinceramente. A necessidade de expô-los deve ser obedecida. E quaisquer outras desculpas serão supérfluas."

- "tradução" de enrico corvisieri:
"Não se alarmesenhorita Eliza, ao receber esta carta, por apreensão de que ela contenha a reiteração dos sentimentos ou a renovação das propostas que ontem à noite lhe causaram tanto repúdio. Escrevo-lhe sem nenhuma intenção de aborrecê-la ou de me humilhar insistindo em exprimir esperanças que, para a felicidade de ambos, não podem ser esquecidas cedo demais. E o esforço da minha parte ao escrever esta carta e o seu de lê-la teria sido poupado se meu caráter não exigisse que ela fosse escrita e lida. É preciso, pois, que me perdoe a liberdade com que exijo sua atenção; sei que os seus sentimentos hão de concedê-la com relutância. Mas isso eu exijo de seu senso de justiça. Duas foram as acusações que me fez ontem à noite, de natureza muito diferente e de importância igualmente díspar. A primeira foi: que eu havia separado o senhor Bingley de sua irmã, indiferente aos sentimentos de ambos. E a outra de eu ter arruinado a possibilidade imediata e as probabilidades futuras do senhor Wickham, ferindo vários direitos, desafiando a honra e a humanidade. Ter repudiado voluntária e gratuitamente o companheiro de minha infância, o favorito declarado de meu pai, [] rapaz que dependia exclusivamente da nossa proteção e a quem esta fora prometida, seria uma perversidade incomparavelmente mais grave do que a separação de duas pessoas cuja afeição, embora real, não poderia ter crescido excessivamente no intervalo das poucas semanas em que estiveram juntas. Depois que a senhorita tiver lido a seguinte explicação dos meus atos e [] motivações, espero estar a salvo, no futuro, do rigor das censuras que me foram dirigidas com tamanha eloquência a respeito desses dois casos. Se ao longo desta explanação eu me vir na necessidade de expressar sentimentos que possam ser ofensivos aos seus, só me resta afirmar que isso me entristece sinceramente. A necessidade de expô-los deve ser obedecida. E quaisquer outras desculpas serão supérfluas."

4. um exemplo final, do cap. LVII, mais um trecho do divertido mr. collins:

- original:
Mr. Collins moreover adds, 'I am truly rejoiced that my cousin Lydia's sad business has been so well hushed up, and am only concerned that their living together before the marriage took place should be so generally known. I must not, however, neglect the duties of my station, or refrain from declaring my amazement at hearing that you received the young couple into your house as soon as they were married. It was an encouragement of vice; and had I been the rector of Longbourn, I should very strenuously have opposed it. You ought certainly to forgive them, as a Christian, but never to admit them in your sight, or allow their names to be mentioned in your hearing.' That is his notion of Christian forgiveness! The rest of his letter is only about his dear Charlotte's situation, and his expectation of a young olive-branch. But, Lizzy, you look as if you did not enjoy it. You are not going to be missish, I hope, and pretend to be affronted at an idle report. For what do we live, but to make sport for our neighbours, and laugh at them in our turn?"

- tradução de lúcio cardoso:
"Causa-me muita alegria saber que o triste caso da minha prima Lydia conseguiu ser abafado tão depressa! E o que me preocupa apenas é que outros tenham ficado sabendo que eles vivessem juntos antes de se casarem. Não posso, entretanto, esquecer os deveres do meu estado, nem deixar de manifestar o espanto que senti, ao ouvir dizer que o senhor recebeu o jovem casal na sua casa logo após o matrimônio. Considero isto um encorajamento ao vício, e se fosse o reitor de Longbourn ter-me-ia oposto a isto terminantemente. É certo que como cristãos [sic] os devia ter perdoado, porém jamais devia admiti-los em sua presença nem permitir que os seus nomes lhe fossem mencionados."
- Esta é a noção que ele tem do perdão cristão das ofensas. O resto da carta trata apenas da situação da sua querida Charlotte e das esperanças que ele tem de um herdeiro. Mas, Lizzy, você parece que não está gostando. Espero que não leve a sério e nem vá ficar ofendida por causa deste boato tolo. Não vejo por que não possamos rir, do nosso lado, com o ridículo dos nossos vizinhos...

- "tradução" de enrico corvisieri:
"Causa-me muita alegria saber que o triste caso da minha prima Lydia conseguiu ser abafado tão depressa! E o que me preocupa apenas é que outros tenham ficado sabendo que eles vivessem juntos antes de se casarem. Não posso, entretanto, esquecer os deveres do meu estado, nem deixar de manifestar o espanto que senti, ao ouvir dizer que o senhor recebeu o jovem casal na sua casa logo após o matrimônio. Considero isto um encorajamento ao vício, e se fosse o reitor de Longbourn ter-me-ia oposto a isto terminantemente. É certo que como cristãos [sic] os devia ter perdoado, porém jamais devia admiti-los em sua presença nem permitir que os seus nomes lhe fossem mencionados."
- Esta é a noção que ele tem do perdão cristão das ofensas. O resto da carta trata apenas da situação da sua querida Charlotte e das esperanças que ele tem de um herdeiro. Mas, Lizzy, você parece que não está gostando. Espero que não leve a sério e nem vá ficar ofendida por causa deste boato tolo. Não vejo por que não possamos rir, do nosso lado, com o ridículo dos nossos vizinhos...

espero sinceramente que o grupo record não se limite a "aguardar" a "iniciativa dos interessados diretos, os tradutores dessas obras, que são os titulares dos eventuais direitos, na forma da lei", conforme declarou seu coordenador editorial, e mostre o devido apreço por seus leitores.

aliás, se o requisito do grupo record para retirar esse plágio de catálogo e circulação é, não o respeito pelo leitor, mas o contato com o tradutor e/ou sucessor, quem sabe talvez o próprio grupo record não se dispõe a encaminhar a questão junto ao interessado direto, o sobrinho de lúcio cardoso e, até onde sei, atual detentor de seus direitos?

imagino que não seja muito difícil - pois afinal a civilização brasileira, que decerto obteve a devida autorização para publicar a obra orgulho e preconceito traduzida por seu falecido tio, faz parte do mesmo grupo editorial a que pertence a best seller.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagens de capa: penguin; best seller; civilização brasileira.

12 de jan. de 2010

record, recapitulando

um ano e meio atrás, entrei em contato com o grupo editorial record, primeiro por telefone e depois por e-mail, sobre duas questões.

- a primeira delas era o caso de o amante de lady chatterley, na tradução de rodrigo richter, que passara a integrar o catálogo da bestbolso/record. a obra tinha sido integralmente plagiada, sem rebuços, pela editora martin claret, que atribuía a autoria da tradução a um fantasmático "jorge luís penha". veja aqui o cotejo.

essa tradução que traz o nome de rodrigo richter tem uma história muito interessante, que remonta aos anos 1930. sobre sua curiosa trajetória, ver richter e encerrando o ano (mais chatterley).

avisei a record do plágio, lembrei a ela que nós leitores podemos nos sentir um tanto confusos diante de duas traduções idênticas atribuídas a duas pessoas diferentes, e opinei que seria muito bom se ela pudesse sanar esse problema.

- a segunda questão se referia a orgulho e preconceito de jane austen, que consta no catálogo da bestseller/record com tradução atribuída a "enrico corvisieri". quem acompanhou a história das fraudes na editora nova cultural está familiarizado com o nome desse fantasma. quem não conhece, pode ver os nomes das obras espúrias em nome do referido corvisieri aqui (coleção "imortais da literatura universal" e coleção "obras-primas") e aqui (coleção "os pensadores").

como o grupo record havia adquirido a editora bestseller, até então pertencente (tal como a editora nova cultural) ao grupo c.l.c. do sr. richard civita, naturalmente os direitos patrimoniais sobre orgulho e preconceito nesta versão em português passaram a pertencer ao grupo record, que continuou a publicá-la.

a resposta que recebi na época foi:

"Prezada Senhora Denise,

Com relação aos seus emails de 10/09/2008 e 12/09/2008, sobre a autenticidade das traduções de diversas obras publicadas por nosso grupo editorial, cumpre-nos informar que:
(1) Os direitos autorais sobre as obras em domínio público, antes publicadas pela Editora Nova Cultural, foram adquiridos como parte do acervo daquela editora. Os contratos e informações disponíveis foram examinados por auditores independentes e, dentro das limitações da auditoria, as falhas observadas foram e serão adequadamente corrigidas;
(2) As obras de domínio público publicadas pelo nosso grupo editorial são revistas regularmente e, em muitos casos, as traduções são totalmente refeitas, de modo a corrigir e atualizar os textos;
(3) Nossa empresa não firmou qualquer acordo de co-edição com as editoras mencionadas em seus emails e desconhece a utilização de nossos textos por essas editoras;
(4) Nossa empresa aguardará qualquer iniciativa dos interessados diretos, os tradutores dessas obras, que são os titulares dos eventuais direitos, na forma da lei.
Cordialmente,
Sérgio França
Coordenador editorial
Editora Record"

tirando o detalhe de que tais traduções não são obras em domínio público, longe disso, fiquei um tanto perplexa com a posição do coordenador editorial da record exposta no item 4. expressei meu desconforto em e isso, é certo?

em dezembro passado, resolvi retomar o contato com a record. desta vez falei com um outro rapaz da best-seller. a seu pedido, coloquei a questão em e-mail e enviei a seus cuidados:

"conforme lhe expus por telefone na semana passada, a best-seller da record tem em catálogo uma edição de orgulho e preconceito na pretensa tradução de enrico corvisieri, que é bastante problemática em termos de confiabilidade.

"não só essa edição é uma contrafação atamancada da clássica tradução de lúcio cardoso, como 'enrico corvisieri' é um nome fictício utilizado por muitos anos em edições publicadas pela nova cultural, a bem dizer desde 1995 até data recente. foi muito empregado para acobertar fraudes de tradução, e a própria nova cultural já retirou de catálogo, faz uns dois anos, todas as edições com tradução atribuída ao tal 'enrico corvisieri'.

"eu já tinha avisado a record cerca de um ano e meio atrás, conversei com várias pessoas, e afinal um rapaz muito atencioso, cujo nome infelizmente não lembro, tentou averiguar melhor por que essa tradução espúria de orgulho e preconceito em nome de enrico corvisieri estava no catálogo de vcs. conforme ele me explicou, essa tradução veio no catálogo da bestseller quando da aquisição pela record. depois tentei novamente alertar a record por e-mail em relação a este caso e ao caso de o amante de lady chatterley (que é um pouco diferente; trata-se da apropriação da obra do catálogo da record em plágio publicado pela martin claret), mas em sua resposta o sr. sérgio frança considerou que seria um problema que competiria apenas aos tradutores lesados.

"humildemente permito-me discordar desta posição, pois considero que é um direito do leitor-consumidor ter acesso a informações corretas, e que cabe às editoras se assegurarem de oferecer produtos idôneos ao público.

"é por isso que volto a solicitar uma vez mais à record que reconsidere a presença dessa obra falsificada em seu catálogo.

"agradeço
denise bottmann


enquanto aguardamos manifestação da record, passo a apresentar os cotejos entre a tradução legítima de lúcio cardoso e essa tradução espúria de orgulho e preconceito.

imagem: oclick
obs.: atualização - como a identificação deste último contato na record é irrelevante para a questão mais geral, retirei o nome a pedido seu.

5 de dez. de 2009

leitura


jane austen em português é um blog maravilhoso, de raquel sallaberry. nenhum estudioso, apreciador ou casual leitor de austen jamais poderá dispensar a mina de informações, mimos e preciosidades que há por lá.

meses atrás, raquel sallaberry, considerando a dificuldade de se encontrarem várias obras da dama de steventon no brasil, resolveu escrever um post aberto em seu blog, sugerindo a publicação da obra completa de jane austen. o post era dirigido à l&pm, em vista da qualidade e preços acessíveis de suas edições. e o apelo teve êxito.

a editora escolheu orgulho e preconceito para inaugurar sua coleção jane austen. a tradução ficou a cargo de celina portocarrero, e a obra também ganhou uma introdução do poeta, crítico literário e tradutor ivo barroso.

o livro será lançado em janeiro, mas já podemos ler os capítulos iniciais disponibilizados pela lpm e reproduzidos em jane austen em português.

parabéns a raquel por esse fantástico trabalho de sensibilizar as editoras para a necessidade de boas e novas traduções de austen no país; parabéns à l&pm pela receptividade à demanda dos leitores e pelo capricho dedicado a essa publicação.

a iniciativa é tanto mais bem-vinda porque a tradução de lúcio cardoso, pela civilização brasileira, é boa e bonita, mas um tanto datada (de 1940), a best-seller tem uma pretensa tradução em nome de "enrico corvisieri", protagonista de tantos plágios pela ed. nova cultural, a martin claret apresenta em nome de "jean melville" um descarado plágio da edição portuguesa da europa-américa, e a da francisco alves, em tradução de laura alves e aurélio barroso, é inencontrabilésima. 

imagem: pride and prejudice

4 de dez. de 2009

gracias, gracias


flanela paulistana, os ofendidos somos nós
jane austen em português, uma ótima notícia!
livros e afins, juiz rejeita queixa-crime
tradutor profissional, edição extra extra


imagem: coletivo wu ming

6 de nov. de 2009

deu no blog do galeno:

Licenciamento de obras esgotadas

Postado por Galeno Amorim - 05/11/2009

Corre no mundo do livro um debate interessante sobre o licenciamento de obras de tradução esgotadas. A proposta será apresentada como contribuição às discussões para a reforma da lei do direito autoral na segunda-feira, dia 9/11. Quem quiser conhecer ou mesmo aderir à proposta, ela está em http://naogostodeplagio.blogspot.com/2009/11/proposta-para-reforma-da-lda.html.

agradeço a ele e a todos os blogs e sites que estão divulgando a proposta: jane austen em portuguêsa grenha, livros e afinsflanela paulistana7 razões, vermelho carne, meia palavra, tradutoria, abrates

3 de out. de 2009

licenciamento social


conversa uns seis meses atrás em jane austen em português:

"JAP: O que está sendo feito e o que é possível fazer para nos livrar dos plágios?

DB: A primeira e principal medida para reduzir a quantidade de plágios no Brasil, a meu ver, é uma reformulação da Lei dos Direitos Autorais 9.610/98. [...] Enquanto não há essa reformulação ou uma flexibilização da lei, impedindo que as obras criem mofo no fundo dos baús das editoras, o que resta a nós é denunciar, reclamar, entrar com petições e representações contra as editoras criminosas, e não compactuar de maneira alguma, a pretexto algum, com tais fraudes."

24 de set. de 2009

imortais e obras-primas


parei um pouco de postar sobre as coleções de clássicos da literatura da editora nova cultural - não porque suas fraudes desapareceram, e sim porque dei por encerrada a pesquisa de seus títulos. conferi todos os títulos, e os casos de plágio comprovado foram apresentados um a um aqui no nãogosto. outras notícias referentes a essas fraudes na nova cultural foram igualmente divulgadas: ações judiciais de editoras lesadas, acordos extrajudiciais com tradutores lesados, matérias na imprensa, errata pública, republicação da obra legítima lesada etc. a quem interessar, o material está no arquivo classificado em nova cultural.

por outro lado, graças ao alerta de um leitor, percebi que ficou um ponto meio confuso que quero esclarecer melhor: a nova cultural tem duas coleções literárias com problemas de contrafação - a saber, "imortais da literatura universal" e "obras-primas".

a coleção "imortais da literatura universal" é composta por 20 volumes, e foi publicada em 1995 e 1996 pela nova cultural/ círculo do livro. a coleção "obras-primas" é composta por 50 volumes, e foi publicada em 2002 e 2003 pela nova cultural/ suzano. ambas as coleções eram de alta tiragem, alguns títulos com várias reedições.

segue abaixo a relação das obras integrantes de cada coleção. quando a tradução é legítima, consta apenas o nome do tradutor sem destaque. quando a tradução é espúria, constam o nome do pretenso tradutor em destaque vermelho e o nome do tradutor legítimo em destaque verde. para ver o respectivo cotejo publicado aqui no blog, basta clicar na listinha dos cotejos disponíveis.


IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL
1. dostoievski, irmãos karamázovi - enrico corvisieri (natália nunes, adapt. para o português do brasil por oscar mendes)
2. emily brontë, o morro dos ventos uivantes - rachel de queiroz
3. balzac, a mulher de 30 anos - enrico corvisieri (josé maria machado)
4. tolstói, ana karênina - mirtes ugeda (joão gaspar simões)
5. choderlos de laclos, relações perigosas - sérgio milliet
6. tchecov, as três irmãs - maria jacintha
7. machado de assis, brás cubas/ dom casmurro
8. stendhal, o vermelho e o negro - maria cristina f. da silva (luiz costa lima)
9. hemingway, o sol também se levanta - berenice xavier
10. émile zola, germinal - eduardo nunes fonseca (j. martins)
11. scott fitzgerald, suave é a noite - enrico corvisieri (lygia junqueira)
12. charles dickens, conto de duas cidades - sandra luzia couto
13. sartre, a idade da razão - sérgio milliet
14. d. h. lawrence, mulheres apaixonadas - cabral do nascimento
15. alexandre dumas, os três mosqueteiros - mirtes ugeda (octavio mendes cajado)
16. oscar wilde, o retrato de dorian gray - maria cristina f. da silva (oscar mendes)
17. boccaccio, decamerão - torrieri guimarães (esta é uma fraude, mas não pela nova cultural, e sim pelo próprio torrieri, hemus, 1970, que garfou a tradução de raul de polillo)
18. eça de queiroz, o primo basílio
19. jonathan swift, viagens de gulliver - therezinha monteiro deutsch
20. daniel defoe, moll flanders - antônio alves cury

OBRAS-PRIMAS
1. Miguel de Cervantes, Dom Quixote - Viscondes de Castilho e Azevedo
2. Victor Hugo, Os trabalhadores do mar - Machado de Assis
3. Dante Alighieri, A divina comédia - Fábio M. Alberti (Hernâni Donato)*
4. Dostoievski, Crime e castigo - não consta tradutor (Natália Nunes)
5. Edmond Rostand, Cyrano de Bergerac - Fábio M. Alberti (Carlos Porto Carreiro)
6. Stendhal, O vermelho e o negro - Maria Cristina F. da Silva (Luiz Costa Lima)*
7. Flaubert, Madame Bovary - Enrico Corvisieri (Araújo Nabuco)
8. Jane Austen, Razão e sensibilidade - Therezinha Deutsch
9. Leon Tolstoi, Ana Karênina - Mirtes Ugeda Coscodai (João Gaspar Simões)
10. Homero, Odisséia - Antônio Pinto de Carvalho
11. Tommaso di Lampedusa, O leopardo - Leonardo Codignoto (Rui Cabeçadas)
12. Charles Dickens, Um conto de duas cidades - Sandra Luzia Couto
13. Bram Stoker, Drácula - Vera M. Renoldi
14. Euclides da Cunha, Os sertões
15. Franz Kafka, A metamorfose - Calvin Carruthers (não dou um figo seco por essa edição, mas não localizei a fonte)
16. Mark Twain, As aventuras de Tom Sawyer - Luísa Derouet
17. Choderlos de Laclos, Relações perigosas - Sérgio Milliet
18. Sinclair Lewis, Babbitt - Leonel Vallandro
19. Camões, Os lusíadas
20. Goethe, Fausto e Werther - Alberto Maximiliano (Silvio Meira e Galeão Coutinho, respectivamente)
21. Voltaire, Contos - Roberto Domenico Proença (Mário Quintana)
22. Tchecov, As três irmãs - Maria Jacintha
23. Herman Melville, Moby Dick - Péricles Eugênio da Silva Ramos
24. Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes - Silvana Laplace (Oscar Mendes)
25. Machado de Assis, Memorial de Aires e Esaú e Jacó
26. Daniel Defoe, Moll Flanders - Antônio Alves Cury
27. Eça de Queiroz, A cidade e as serras
28. Gogol, Almas mortas - Tatiana Belinky
29. Boccaccio, Decamerão - Torrieri Guimarães (esta é uma fraude, mas não pela Nova Cultural, e sim pelo próprio Torrieri, Hemus, 1970, que garfou a tradução de Raul de Polillo)
30. Pirandello, O falecido Mattia Pascal e Seis personagens à procura de autor - Fernando Corrêa Fonseca (Mário da Silva e Brutus Pedreira respectivamente)
31. Louisa May Alcott, Mulherzinhas - Vera Maria Marques Martins**
32. Virgílio, Eneida - Tassilo Orpheu Spalding
33. Alexandre Dumas Filho, A dama das camélias - Therezinha Deutsch
34. Henry Fielding, Tom Jones - Jorge Pádua Conceição (Octavio Mendes Cajado)
35. Émile Zola, Naná - Roberto Valeriano (Eugênio Vieira)
36. Shakespeare, Tragédias - Beatriz Viéga-Farias
37. Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray - Enrico Corvisieri (Oscar Mendes)
38. Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos - Gisele Donat Soares (José Maria Machado)
39. Edgar Allan Poe, Histórias extraordinárias - Brenno Silveira e outros
40. Jules Verne, A volta ao mundo em oitenta dias - Therezinha Monteiro Deutsch
41. Jonathan Swift,
As viagens de Gulliver - Therezinha Deutsch
42. Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros - Mirtes Ugeda Coscodai (Octavio Mendes Cajado)
43. Ibsen, A casa de bonecas - Cecil Thiré
44. Joseph Conrad, Lord Jim - Carmen Lia Lomonaco (Mário Quintana)
45. Henry James, Lady Barberina e A outra volta do parafuso - Leônidas Gontijo e Brenno Silveira respectivamente
46. Raul Pompéia, O ateneu
47. Guy de Maupassant, Uma vida - Roberto Domenico Proença (Ascendino Leite)
48. Scott Fitzgerald, Suave é a noite - Enrico Corvisieri (Lígia Junqueira)
49. D. H. Lawrence, Mulheres apaixonadas - Cabral do Nascimento
50. Walter Scott, Ivanhoé - Roberto Nunes Whitaker (Brenno Silveira)

* nos casos da divina comédia e de o vermelho e o negro, os tradutores lesados foram ressarcidos, mas não houve nenhum recall ou substituição dos exemplares espúrios adquiridos pelos leitores e instituições públicas e privadas. em todo caso, a nova cultural retirou de catálogo os 20 títulos das "Obras-Primas" com plágio comprovado.

** atualização em 19/09/2015: constatei que páginas e mais páginas desta tradução de mulherzinhas  em nome de vera maria marques martins não passam de mera cópia da tradução de marcos bagno (melhoramentos, 1998). vide aqui.

imagem: rjartworks

12 de set. de 2009

the book is on the table

alguém me explica?

Agência FAPESP – Dois protótipos de ferramentas computacionais foram criados pela equipe do projeto PorSimples. O primeiro, chamado Facilita, visa a simplificar a linguagem de textos em português disponíveis na internet e, com isso, facilitar a compreensão das informações para crianças e adultos em processo de alfabetização ou pessoas com algum tipo de deficiência de leitura.
O segundo, o editor Simplifica, é destinado a produtores de conteúdo (escritores, professores, webmasters, jornalistas, por exemplo) que desejam criar textos simplificados adequados ao mesmo público. [...]
O objetivo da simplificação linguística é melhorar a capacidade de um texto ser lido para poder ser compreendido. [...] sentenças longas, com vários níveis de subordinação, cláusulas embutidas (relativas), sentenças na voz passiva, uso da ordem não canônica para os componentes de uma sentença, além do uso de palavras de baixa frequência, aumentam a complexidade de um texto.

aliás, a frase "melhorar a capacidade de um texto ser lido para poder ser compreendido" é de doer... é essa a ideia?

notícia via contraditorium, flanela paulistana e jane austen em português

imagem: lasarina

9 de set. de 2009

a net e suas netices


achei imperdível: uma curiosa bizarrice em nota da martin claret?

e pus o google translator ali ao lado, para os gentis visitantes não-lusófonos. agradeço o toque de raquel do jane austen em português; fica bem legalzinho ou, pelo menos, bem divertidinho.

19 de ago. de 2009

os padecimentos de savigny

friedrich karl von savigny (1779-1861) é um dos luminares do historicismo jurídico ou da chamada "escola histórica do direito".

uma de suas obras mais importantes, juristiches methodenlehre (metodologia jurídica), foi publicada no brasil em 2001 pela extinta edicamp, uma pequena editora de campinas especializada em estudos jurídicos.

é um livro pequeno de edição caprichada. papel bom, de boa cor para a leitura, capa bonita, com orelha larga, gramatura pesada, agradável de ter nas mãos. a ficha catalográfica é completa e honesta: trata-se de uma tradução da clássica tradução espanhola de j. j. santa-pinter.

conversei com a tradutora para o português, hebe caletti marenco, sobre esse seu trabalho. além de ser um texto muito bem vasado em português, a tradutora relatou a cuidadosa pesquisa de terminologia jurídica a que procedeu, para garantir a precisão técnica dos termos e conceitos.

naturalmente, como as pragas bíblicas nos têm assolado de maneira impiedosa, encontro na livraria uma edição da metodologia jurídica de savigny em papel branco-horror (como diz raquel do jane austen em português), de terceira categoria, que massacra os olhos do leitor, com uma capa mal refilada de cartão grosso, com o verso áspero que se esfarela quando a gente passa o dedo, a frente com uma plastificação manchada, sem orelha nenhuma.

até aí, passa (embora, sendo um livrinho pequeno, R$ 15,00 por ele não é tão barato assim, e não justificaria a baixa qualidade). o problema mesmo é que o nome de hebe caletti marenco como responsável pela cuidadosa tradução indireta da obra foi pelo ralo. e aí não é mais questão de bonito ou feio, caro ou barato, e sim de roubo intelectual.

ao consultar a editora rideel, que abriga essa fraude sob sua égide, ela me afirmou que está "bem calçada" e possui "todos os contratos assinados" com "heloísa da graça burati", aparentemente sua pietra nassetti de plantão. bom, isso é problema lá da editora com seus colaboradores contratados. meu problema como leitora é que existe à venda um livro publicado pela referida editora - que traz em seu expediente o nome do editor responsável pela edição (e, portanto, pela fidedignidade dos dados sobre a autoria da tradução) -, sendo que na verdade trata-se de um embuste.

vamos lá:

1. hebe caletti marenco
Introdução
Uma vez que o êxito dos trabalhos eruditos não depende somente do talento, isto é, do grau da força espiritual do indivíduo, nem da aplicação, ou seja, de certo uso dessa força, deve existir também um terceiro fator do qual dependa em grande medida o método, a direção de tal força. Cada um tem um método, mas em poucos tem-se tornado uma consciência e um sistema. Porém, o método é elevado a sistema pelo fato de que uma ciência é estruturada em conformidade com as leis inerentes à sua natureza ou em conformidade com um ideal desta. Só a contemplação dela nos conduzirá a um método correto. Como podemos, então, atingir o ideal de uma ciência? Um meio auxiliar geral é a história da literatura, pois dela surge o estudo literário e, com isso, um método geral e um juízo sobre o indivíduo particular. (edicamp, p. xv)

2. "heloísa da graça buratti"
Introdução
Uma vez que o êxito dos trabalhos eruditos não depende somente do talento, isto é, do grau da força espiritual do indivíduo, nem da aplicação, ou seja, de certo uso dessa força, deve existir também um terceiro fator do qual dependa em grande medida o método, a direção de tal força. Cada um tem um método, mas em poucos se tem tornado uma consciência e um sistema. Porém, o método é elevado a sistema pelo fato de que uma ciência é estruturada em conformidade com as leis inerentes à sua natureza ou em conformidade com um ideal desta. Só a contemplação dela nos conduzirá a um método correto. Como podemos, então, atingir o ideal de uma ciência? Um meio auxiliar geral é a história da literatura, pois dela surge o estudo literário e, com isso, um método geral e um juízo sobre o indivíduo particular. (rideel, p. 15)


1. hebe caletti marenco
A legislação deve ser concebida em um determinado período. Com isto retornaremos à elaboração verdadeiramente histórica da jurisprudência, que já mencionamos (v. supra). Isto nos conduz ao conceito de uma história do direito que, por sua vez, está relacionada exatamente com a história dos Estados e dos povos, já que a legislação é uma ação do Estado. Porém, o conceito usual da história do direito é limitado demais. Ela era considerada como uma parte da história do Estado e somente eram enumeradas as mudanças introduzidas (história exterior do direito). Este fato, mesmo sendo útil, não era suficiente. O sistema deve ser concebido como em progresso constante, e estar relacionado com o todo (história interior do direito), mas não deve elaborar somente questões isoladas do direito.
Esta elaboração histórica da jurisprudência pressupõe outras elaborações, deve-se partir da exegese e relacionar o sistema com ela. (Pelo contrário, se também considerarmos a atividade espiritual, a elaboração histórica se assemelha à filológica e se coordena com ela. Ambas serão designadas como elaboração histórica e estarão colocadas à frente da sistemática.) Disto surge, então, a elaboração histórica. A legislação deve, primeiramente, estar separada em seus elementos particulares, e depois ser apresentada na relação verdadeira segundo seu espírito, e só então o sistema, assim descoberto, poderá ser colocado nos períodos particulares determinados, segundo uma ordem histórica. (edicamp, pp. 6-7)

2. "heloísa da graça buratti"
A legislação deve ser concebida em um determinado período. Com isto retornaremos à elaboração verdadeiramente histórica da jurisprudência, que já mencionamos (v. supra). Isto nos conduz ao conceito de uma história do direito que, por sua vez, está relacionada exatamente com a história dos Estados e dos povos, já que a legislação é uma ação do Estado. Porém, o conceito usual da história do direito é limitado demais. Ela era considerada como uma parte da história do Estado e somente eram enumeradas as mudanças introduzidas (história exterior do direito). Este fato, mesmo sendo útil, não era suficiente. O sistema deve ser concebido como em progresso constante, e estar relacionado com o todo (história interior do direito), mas não deve elaborar somente questões isoladas do direito.
Esta elaboração histórica da jurisprudência pressupõe outras elaborações, deve-se partir da exegese e relacionar o sistema com ela. (Pelo contrário, se também considerarmos a atividade espiritual, a elaboração histórica se assemelha à filológica e se coordena com ela. Ambas serão designadas como elaboração histórica e estarão colocadas frente à sistemática.) Disto surge, então, a elaboração histórica. A legislação deve, primeiramente, estar separada em seus elementos particulares, e depois ser apresentada na relação verdadeira segundo seu espírito, e só então o sistema, assim descoberto, poderá ser colocado nos períodos particulares determinados, segundo uma ordem histórica. (rideel, pp. 23-24)

aliás, esta única alteração no trecho me parece bastante infeliz. ninguém há de discordar que "à frente de" é bastante diferente de "frente a". pelo que entendo, savigny está dizendo que a elaboração histórica da jurisprudência, na doutrina historicista do direito, deve vir antes da elaboração do direito como sistema. no texto da rideel, por causa dessa descabida mudança, a relação de anterioridade se transforma numa relação comparativa, se não antagônica: a história frente ao sistema...


atualização em 22/09/2009 - felizmente, a editora teve por bem retirar esta e outras obras fraudadas de seu catálogo.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



4 de jun. de 2009

destemperos

raquel do jane austen em português deu um toque, fui lá ver.

a ridicularia do mês (ou do ano?):
Leticia Wierzchowski processa este blog (I)
(milton ribeiro)

13 de mai. de 2009

o papel pedagógico dos blogs

acalorado debate sobre os méritos e deméritos das más traduções e dos plágios em novesfora:
http://9sfora.wordpress.com/2009/05/08/jane-austen-em-maos-erradas

muito interessante. o responsável pelo blog, aliás, está de parabéns por sua quase infinita paciência com os mais exaltados. uma bonita lição de civismo.

imagem: http://sandrapontes.com