22 de dez de 2008

richter

ainda sobre o amante de lady chatterley.

num post anterior (e isso, é certo?), seguindo o binômio "contra a impunidade e pela memória", comentei um pouco esse lado da impunidade, do corporativismo entre os editores, da indiferença pelo bem cultural, do desrespeito pelo leitor, expressos com clareza meridiana pela editora record, na figura de seu coordenador editorial sérgio frança.

agora, um pouco o lado da memória.

em termos muito despretensiosos, acho que há umas coisas que merecem atenção nessa tradução de o amante de lady chatterley em nome de rodrigo richter.

pois vejam: o livro saiu por umas 10 editoras diferentes no brasil, desde 1941 até a data de hoje (mas as traduções são poucas; o que há são vários casos de licença de publicação). desde que foi publicado pela primeira vez na itália, em 1928, lady chatterley's lover (na versão final de lawrence, a chamada "terceira versão") foi proibido pela censura britânica, sendo publicado em outros países, mas na inglaterra circulando ou clandestinamente ou numa versão "expurgada" durante 30 anos. em 1959, num julgamento nos estados unidos, a suprema corte liberou a edição da obra integral no país, abrindo a brecha para novo julgamento na inglaterra, onde foi liberada em 1960.

no brasil, a civilização brasileira publica em 1956 a versão integral "inexpurgada"; em 1958 sai uma versão "autorizada"; em 1959, a versão "inexpurgada" volta em nova capa e diagramação. não comparei a versão autorizada e as versões inexpurgadas, e estou citando os créditos estampados nas três edições [referências disponíveis em ana sofia mariz, pp. 134-35].

capa de eugênio hirsch, civ. brasileira, 1959

em 1964, 1966, 1972, 1982 continuam saindo edições pela civilização, sempre em nome de rodrigo richter, como tradução do original integral. ela também aparece em 1972 como o 33o. volume da coleção "imortais da literatura universal", da abril cultural. mais tarde, essa tradução em nome de rodrigo richter passa a ser publicada pela companhia editora nacional, com edições em 1974, 1977, 1980 e 1985. (deve ter mais alguma que não localizei, pois em meu exemplar de 1980 consta "4a. edição".)

e aí segue-se um lapso bastante longo, 22 anos, até ser relançada em 2007, desta vez em formato pocket na coleção de bolso da record.

a meu ver, há aí um ponto interessante: trata-se de uma tradução com mais de 50 anos de idade, circulando em sucessivas reedições até o presente. mesmo não sendo propriamente um primor, de certa forma tem resistido ao teste do tempo e continua a cativar leitores.

existem outras traduções: por exemplo a de fernando ximenes (ediouro) e a de glória loreto sampaio (graal), que também foram publicadas pela publifolha e pela superclássicos da abril.

mas vamos seguir o fio da tradução de 1956 da civilização: pouco antes de ressurgir na record em 2007, ela cai vítima de um procedimento que tem se tornado cada vez mais frequente nos últimos 10/15 anos.

em 2005, a editora martin claret lança o amante de lady chatterley, em circulação até hoje. trata-se de cópia literal, integral e "inexpurgada" da tradução em nome de rodrigo richter.

para obter o número de isbn, a martin claret cadastrou a tradução na fundação biblioteca nacional em nome daquele "jean melville" de triste fama. já no exemplar impresso, consta um ectoplasma que atende pela alcunha de "jorge luís penha".

assim, richter tem seu venerando périplo, iniciado cinco décadas antes, subitamente interrompido de chofre, mas prossegue sua jornada e chega à record. a resposta da record, ao ser avisada do plágio, está no post e isso, é certo?, acima indicado.

então juntem tudo isso: um livro que, sob vários aspectos, é um marco da literatura mundial, passa 30 anos censurado, é editado no brasil em sua versão integral antes mesmo de cair a censura, essa tradução completa se mantém até hoje, com meio século de movimentada existência nas costas, incluindo até uma rude espoliação - a gente sente uma espécie de densidade nessa trajetória, que acho interessante e, quem sabe, importante de ser lembrada e resgatada.

pena que hoje em dia essa tradução esteja nas mãos de uma editora que parece não dar um figo seco pela memória cultural do país e não se mostra disposta a defender um patrimônio intelectual que está sob sua guarda e responsabilidade. enquanto isso, o nome de rodrigo richter continua entre as vítimas arroladas na lista deste blog.

[em tempo: tive muita dificuldade em localizar maiores referências sobre a pessoa de rodrigo richter. até comecei a pensar que podia ser um nom de plume, mais do que compreensível em vista das circunstâncias. mas às vezes pode ser também um daqueles segredos de polichinelo que só a tonta aqui não sabe... ]


veja aqui a continuação: é bastante interessante!



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