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14 de set. de 2012

a título ilustrativo sobre as irredutíveis diferenças entre traduções de diferentes tradutores, vejam-se as traduções do mesmo conto feitas pelo anônimo da cultrix e por ruth guimarães:

anônimo (martins, 1947)
Está envolto numa espécie de roupão sujo e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes já, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada a sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 315)

isa tavares (boitempo, 1995)
Veste uma espécie de roupão sujo, e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 9)

ruth guimarães (ediouro, 1966)
Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. ... Mas gostaria bem de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, um saco sob a cabeça a guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar?

anônimo (martins, 1947)
Percebe, por um outro vidro uma outra sala; e ainda árvore e bolos de toda espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e, quando alguém chega, dão-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, meteu um kopek na mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino!
A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, de modo a segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? não sabia. Gostaria bem de chorar, porém, tem medo de mais. E corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão espantado! e, de repente, meu Deus! que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, que admira. Numa vitrina, por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente como se fossem vivas! E o velhinho sentado que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violino pequenino e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de fato! Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 317)

isa tavares (boitempo, 1995)
Percebe, por um outro vidro, uma outra sala; e ainda uma árvore e bolos de toda a espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e quando alguém chega uma delas dá-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, colocou uma moeda na sua mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino.
A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, para segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? Não sabia. Gostaria de chorar, porém, tem medo e corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão abandonado, quando, de repente, meu Deus, que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, numa vitrina. Por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente
como se fossem vivas. E o velhinho, sentado, que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violinos pequeninos e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de verdade. Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 13-4)

ruth guimarães (ediouro, 1966)
... e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe – nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar – de verdade – e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça.

anônimo (martins, 1947)
E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos; quando compreende que são bonecos, põe-se a rir. Nunca ele viu bonecos semelhantes e nem imaginara que os houvessem assim. Ri quase que tem vontade de chorar; mas... que ridículo chorar por causa de uns bonecos! (p. 317)

isa tavares (boitempo, 1995)
E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos. Quando compreende que são bonecos, começa a rir. Nunca viu bonecos semelhantes e nem imaginara que existissem assim. Eram tão engraçados, tão engraçados, que transformam em riso o seu pranto. (p. 14-5; *ver acima)

ruth guimarães (ediouro, 1966)
O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos!

anônimo (martins, 1947)
Ele cai. Ao mesmo tempo, todo o mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
"Aqui ninguém me vai encontrar; está bem escuro."
Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, ele mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogão e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
"Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez" - pensa ele e sorri à ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 318)

isa tavares (boitempo, 1995)
Ele cai. Ao mesmo tempo, todo [] mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
"Aqui ninguém vai me encontrar; está bem escuro."
Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, [] mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas, de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogo e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
"Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez", pensa ele e sorri com a ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 16)

ruth guimarães (ediouro, 1966)
O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. “Aqui, pelo menos”, refletiu ele, “não me acharão: está muito escuro.”
Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! “mais um instante e irei ver outra vez os bonecos”, pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: “Podia jurar que eram vivos!”

20 de ago. de 2012

you kiddin', rite? - parte IV

é tão estranho esse volume da boitempo, considerações sobre o marxismo ocidental/ nas trilhas do materialismo histórico, com pretensa tradução em nome de isa tavares, que até o isbn está errado.

está lá na quarta capa: ISBN 85-7559-033-3. isso não existe. o último dígito é verificador, e não bate.
ok, vejo então que o dígito verificador correto é 2, conforme consta na ficha catalográfica da página de créditos.

mas aí a gente vai ao site do isbn, faz a consulta e está lá:

PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN
"TODAS AS INFORMAÇÕES CONTIDAS NESTE CADASTRO FORAM FORNECIDAS
PELOS EDITORES NO MOMENTO DA SOLICITAÇÃO DO ISBN"
Escolha o campo para pesquisa:
ISBN
TÍTULO DA OBRA
NOME DA EDITORA
NOME DO AUTOR
Preencha o campo abaixo, sem os traços.
ISBN 10 Dígitos
ISBN 13 Dígitos
RESULTADO DA BUSCA
TÍTULO: CONSIDERACOES SOBRE O MARXISMO OCIDENTAL
VOLUME DA COLEÇÃO: 000
AUTOR: ANDERSON, PERRY
TRADUTOR: CASTANHEIRA, PAULO CESAR
PÁGINAS: NÃO INFORMADO
EDITORA: BOITEMPO EDITORIAL

paulo cesar castanheira como tradutor? e a tal da isa tavares, cadê?

12 de ago. de 2012

pesadelo de uma noite de natal






na sequência do post uma duradoura árvore natalina, aqui, passo agora ao conto de máximo gorki, sonho de uma noite de natal, publicado em 1947 pela livraria martins editora, em tradução de luiz macedo, e em 1995 pela boitempo editorial, com tradução atribuída a isa tavares.



apresento sucintamente o trecho inicial e o trecho final do texto, com as duas edições em paralelo. todo o miolo do conto guarda o mesmo padrão de identidade.

luiz macedo (martins, 1947)
Eu havia terminado um conto sombrio como os breves e tristes dias de inverno, que então pesava sobre meu país. Deixei cair a pena e comecei a passear pela casa.
Era noite. Lá fora prenunciava-se uma tormenta. A neve caía em flocos espessos. A rua estava deserta e, encostando-me à vidraça, eu via apenas uma lanterna pendurada a uma porta, do outro lado da rua, e agitada pelo vento. Aquele espetáculo era tão profundamente desolador que, afastando-me da janela, apaguei a lâmpada e fui deitar-me.
Então, na escuridão que invadia todo o meu quarto, os sons da noite se fizeram mais nítidos. O relógio contava os segundos, mas por vezes o zumbir da neve, lá fora, afogava seu rumor. Em vão. O tic-tac apressado, incansável, voltava a dominar os murmúrios do inverno: e aquele tic-tac seco, monótono e teimoso, em sua marcha para a eternidade, impunha-se a meu cérebro, ressoava dentro dele.
Não podendo dormir, pensava nas páginas que acabara de escrever. Era uma narração muito simples: a história de dois velhos tímidos e meigos, dois abandonados pelo destino. Ele - cego; ela, sua esposa, humilde e fiel.
Uma madrugada, na véspera de Natal, saíram de seu sórdido abrigo e foram mendigar pela casaria da vizinhança, para ver se obtinham com que comprar um pouco de alegria e conforto para o dia, entre todos, santo.
Movidos por essa esperança, percorreram os arredores, crentes de que poderiam voltar, à hora da Missa do Galo, com os bolsos cheios de dádivas feitas em nome do Senhor. Mas foram tão escassas as esmolas que nem sequer compensaram a caminhada, e era já muito tarde quando o triste casal compreendeu que tinha de voltar a seu casebre sem fogo para se aquecer e apenas com o indispensável para não passar fome. (p. 253-4)

isa tavares (boitempo, 1995)
Eu havia terminado um conto sombrio como os breves e tristes dias de inverno, que então pesava sobre meu país. Deixei cair a pena e comecei a passear pela casa.
Era noite. Lá fora prenunciava-se uma tormenta. A neve caía em flocos espessos. A rua estava deserta e, encostando-me à vidraça, via apenas uma lanterna pendurada a uma porta, do outro lado da rua, e agitada pelo vento. Aquele espetáculo era tão profundamente desolador que, afastando-me da janela, apaguei a lâmpada e fui dormir.
Então, na escuridão que invadia todo o meu quarto, os sons da noite se fizeram mais nítidos. O relógio contava os segundos, mas por vezes o zumbir da neve, lá fora, afogava seu rumor. Em vão. O tic-tac apressado, incansável, voltava a dominar os murmúrios do inverno: e aquele tic-tac seco, monótono e teimoso, em sua marcha para a eternidade, entrava em meu cérebro, ressoava dentro dele.
Não conseguia dormir, pensava nas páginas que acabara de escrever. Era uma narração muito simples: a história de dois velhos tímidos e meigos, dois abandonados pelo destino.
Ele - cego; ela, sua esposa, humilde e fiel.
Uma madrugada, na véspera de Natal, saíram de seu sórdido abrigo e foram mendigar pelas casas da vizinhança, para ver se obtinham alguma coisa para comprar um pouco de alegria e conforto para o dia, entre todos, santo.
Movidos por essa esperança, percorreram os arredores, crentes de que poderiam voltar à hora da Missa do Galo, com os bolsos cheios de dádivas feitas em nome do Senhor. Mas foram tão escassas as esmolas que nem sequer compensaram a caminhada, e era já muito tarde quando o triste casal compreendeu que tinha de voltar a seu casebre sem fogo para se aquecer e apenas com o indispensável para não passar fome. (p. 21-2)

luiz macedo (martins, 1947)
- É mentira! - bradou a velha. - Mentira ingênua e ridícula. Então pretendes, com dores e misérias, despertar bons sentimentos nos corações acostumados a desgraças reais? Idiota! Pensas enternecer com tuas pobres fantasias os homens, que não se comovem ante a realidade miserável de todos os dias?
O resto do sonho foi uma confusão, que não consigo recompor. Mas, pela manhã, quando despertei, meu primeiro movimento foi correr à mesa onde deixara as tiras de papel escritas na véspera.
Rasguei-as sem tornar a lê-las; atirei os pedaços pela janela e eles esvoaçaram no ar claro como mariposas. (p. 256)

isa tavares (boitempo, 1995)
- É mentira! - bradou a velha. - Mentira ingênua e ridícula. Então pretende[], com dores e misérias, despertar bons sentimentos nos corações acostumados a desgraças reais? Idiota! Pensa[] enternecer com suas pobres fantasias os homens, que não se comovem ante a realidade miserável de todos os dias?
O resto do sonho foi uma confusão, que não consigo recompor. Mas, pela manhã, quando despertei, meu primeiro movimento foi correr à mesa onde deixara as tiras de papel escritas na véspera.
Rasguei-as sem tornar a lê-las; atirei os pedaços pela janela e eles esvoaçaram, no ar claro, como mariposas. (p. 29-30)

considerando a boa vontade da boitempo editorial em apurar possíveis irregularidades de outras obras com tradução atribuída a isa tavares, quero crer que a editora já esteja procedendo ou venha a proceder também à apuração das coincidências acima apontadas, em relação ao conto de máximo gorki.
    sobre outras traduções atribuídas a isa tavares, veja-se aqui. sobre o compromisso da boitempo editorial em apurar as irregularidades, veja-se aqui.

    9 de ago. de 2012

    uma duradoura árvore natalina


















    I.
    em 1947, a livraria martins editora lançou a antologia livro de natal - as mais lindas histórias de natal dos maiores escritores do mundo, com reedições até 1970. a coletânea ficou a cargo de araújo nabuco, também responsável pelas notas biográficas dos autores. alguns contos trazem o nome do tradutor; outros não. lá temos, entre muitos outros, "sonho de uma noite de natal" de máximo gorki, em tradução de luiz macedo, e "a árvore de cristo" de th. dostoiewski, sem crédito de tradução.



    em 1957, a cultrix lança maravilhas do conto russo, que também traz o mesmo conto de dostoiewski (adoravam o w naquela época), agora fedor e não mais th. (de theodor[e]), com o título de "a árvore de natal de cristo". a seleção ficou a cargo de um implausível "serge ivanovitch", com introdução e notas de edgard cavalheiro e "traduções revistas por t. booker washington". já comentei inúmeras vezes aqui no blog a doideira que era essa coleção das maravilhas da cultrix, com suas constantes "traduções revistas" pelo quase ubíquo "t. booker washington": a prática da editora, na verdade, consistia essencialmente em caçar aqui e ali contos já publicados em outras editoras, brasileiras e portuguesas, e republicá-los sem dar fontes nem créditos. 


    bem, seja como for, as traduções da martins e da cultrix são totalmente independentes. por exemplo, na descrição inicial tem-se:
    • um "velho colchão de capim, duro e seco como um pão de pobre, onde, com um saco por travesseiro, repousava sua mãe doente" na cultrix e um "leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino omo um crepe, onde está deitada a sua mãe" na martins;
    • para esta, o menino "está sentado a um canto, em cima de uma mala"; na cultrix, ele está "sentado no canto de uma sala" (o que parece meio absurdo, pois trata-se de um pequeno tugúrio num porão - que sala seria esta?);
    • para o anônimo da martins, o menino usa "uma espécie de roupão sujo"; para o anônimo da cultrix, são "farrapos que o cobriam".
    ou, do meio para o fim:
    • na cultrix, os bonecos que ele vê na vitrine "eram tão engraçados, tão engraçados que transformaram em riso o seu pranto";* já na martins, o menino "ri quase que tem vontade de chorar; mas... que ridículo chorar por causa de uns bonecos!";
    • para o anônimo da martins, entre os meninos do final, havia alguns "mortos nas isbás sem ar dos tchaukhnas"; segundo o anônimo da cultrix, "morreram nos asilos das províncias";
    • e no final, para a martins, "quanto à árvore de natal, meu deus! não sou eu romancista para inventar coisas como estas?"; para a cultrix, "quanto à árvore de natal de cristo, não poderei afirmar que exista. mas, já que sou romancista, posso bem imaginar que sim".
    II.
    em 1995, entre seus primeiros lançamentos, a boitempo editorial publica um pequeno volume chamado histórias de natal, com apenas dois contos: um de máximo gorki, "sonho de uma noite de natal", e o mesmo de fedor dostoiewski, "a árvore de natal de cristo", que atualmente consta no site da editora como esgotado.*


    * atualização em 19/9/2012: agora sumariamente removido do site, mas ainda constante nos catálogos da editora.

    a tradução, segundo o que consta no volume impresso, teria sido feita por isa tavares a partir do espanhol. no entanto, têm-se semelhanças ou, melhor, identidades difíceis de explicar, mesmo sendo uma tradução supostamente feita do espanhol (aliás, engana-se redondamente quem pensa que o espanhol não passa de una adaptación del portugués o viceversa). vejamos alguns exemplos:

    anônimo (martins, 1947)
    Está envolto numa espécie de roupão sujo e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes já, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada a sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 315)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    Veste uma espécie de roupão sujo, e treme. ... Mas tem muita fome. Várias vezes, desde a manhã, ele se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada sua mãe. Por que razão estará ela ali? (p. 9)

    anônimo (martins, 1947)
    Percebe, por um outro vidro uma outra sala; e ainda árvore e bolos de toda espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e, quando alguém chega, dão-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
    Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, meteu um kopek na mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino!
    A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, de modo a segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? não sabia. Gostaria bem de chorar, porém, tem medo de mais. E corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão espantado! e, de repente, meu Deus! que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, que admira. Numa vitrina, por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente como se fossem vivas! E o velhinho sentado que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violino pequenino e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de fato! Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 317)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    Percebe, por um outro vidro, uma outra sala; e ainda uma árvore e bolos de toda a espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e quando alguém chega uma delas dá-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
    Oh, que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, colocou uma moeda na sua mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como ele teve medo, o menino.
    A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, para segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? Não sabia. Gostaria de chorar, porém, tem medo e corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza; sente-se tão só, tão abandonado, quando, de repente, meu Deus, que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, numa vitrina. Por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente
    como se fossem vivas. E o velhinho, sentado, que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violinos pequeninos e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de verdade. Apenas não se ouve, por causa do vidro. (p. 13-4)

    anônimo (martins, 1947)
    E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos; quando compreende que são bonecos, põe-se a rir. Nunca ele viu bonecos semelhantes e nem imaginara que os houvessem assim. Ri quase que tem vontade de chorar; mas... que ridículo chorar por causa de uns bonecos! (p. 317)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos. Quando compreende que são bonecos, começa a rir. Nunca viu bonecos semelhantes e nem imaginara que existissem assim. Eram tão engraçados, tão engraçados, que transformam em riso o seu pranto. (p. 14-5; *ver acima)

    anônimo (martins, 1947)
    Ele cai. Ao mesmo tempo, todo o mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
    "Aqui ninguém me vai encontrar; está bem escuro."
    Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, ele mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogão e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
    "Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez" - pensa ele e sorri à ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 318)

    isa tavares (boitempo, 1995)
    Ele cai. Ao mesmo tempo, todo [] mundo grita; ele fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
    "Aqui ninguém vai me encontrar; está bem escuro."
    Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, [] mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar... Mas, de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e ele se sente quente como se estivesse perto do fogo e todo o seu corpo estremece. Ah! ele vai adormecer.
    "Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez", pensa ele e sorri com a ideia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!..." (p. 16)

    III.
    no conto de dostoiewski, às p. 9-19 do volume da boitempo, não me parece implausível supor que, em vista de tantos elementos coincidentes, trate-se de uma reprodução levemente adulterada da tradução publicada em 1947 pela livraria martins. notam-se três ou quatro diferenças expressivas em relação à tradução publicada pela martins, as quais, porém, correspondem exatamente às soluções adotadas na tradução anônima da cultrix de 1957.*

    * a menos, claro, que a referida isa tavares tivesse publicado anonimamente sua dita tradução do espanhol pela martins em 1947 e apenas quase cinquenta anos depois, em 1995, decidisse assumir sua autoria, depois de substituir algumas soluções antigas suas por outras adotadas na tradução que saiu pela cultrix em 1957 - mas essa hipótese, embora não de todo impossível, parece-me um pouco menos plausível. 

    considerando a boa vontade da boitempo editorial em apurar possíveis irregularidades de outras obras com tradução atribuída a isa tavares, quero crer que a editora já esteja procedendo ou venha a proceder também à apuração das coincidências acima apontadas, em relação ao conto de dostoiewski.
    sobre outras traduções atribuídas a isa tavares, veja-se aqui. sobre o compromisso da boitempo editorial em apurar as irregularidades, veja-se aqui.

    2 de ago. de 2012

    o trabalho alienado

    I.
    em 1981, foi publicado no brasil o livro de istván mészáros, marx's theory of alienation, na tradução de waltensir dutra, marx: a teoria da alienação, pela zahar editores.



    em 2006, a boitempo editorial publica a teoria da alienação em marx, com tradução em nome de isa tavares, com reimpressões em 2007 e 2009 e uma nova edição com atualização ortográfica em 2011.



    IIa.
    ao examinar os dois volumes, não há como não perceber a absoluta identidade entre a tradução de waltensir dutra e a suposta tradução de isa tavares para os versos de schiller: 


    ou aqui, onde a única diferença da tradução em nome de isa tavares consiste nos itálicos de alguns versos:

    waltensir dutra (zahar)
    Que o grito da ralé passe por cima de ti
    E o grunhir dos porcos extravagantes!
    De nenhum homem livre tens medo,
    Nem do escravo que conquistou a liberdade. 

    E há um Deus, cuja vontade compele
    A mente indecisa do homem:
    A lembrança dos céus supera
    Toda possibilidade de conhecimento.
    Embora o mundo viva em eternas vicissitudes
    Há sempre repouso para a alma tranquila. (p. 268)



    isa tavares (boitempo)
    Que o grito da ralé passe por cima de ti
    E o grunhir dos porcos extravagantes!
    De nenhum homem livre tens medo,
    Nem do escravo que conquistou a liberdade. 

    E há um Deus, cuja vontade compele
    A mente indecisa do homem:
    A lembrança dos céus supera
    Toda possibilidade de conhecimento.
    Embora o mundo viva em eternas vicissitudes
    Há sempre repouso para a alma tranquila. 
    (p. 271)

    o mesmo fiel decalque pode ser visto na citação de fausto de goethe. 


    essa pura cópia se repete nas notas, que não sofreram praticamente nenhuma alteração. segue-se uma nota bastante extensa para ilustrar o fato apontado:





    IIb.
    no texto propriamente dito, é difícil não notar como são esporádicas e perfunctórias as diferenças entre as duas traduções. elas se concentram majoritariamente no mais singelo nível lexical, fazendo lembrar aquilo que saulo von randow jr. chamava jocosamente de "tradução por sinonímia", isto é, a substituição de vocábulos de uma tradução prévia para "melhorar" e disfarçar a cópia, apresentando o texto assim alterado como outra tradução, pretensamente nova.  

    apesar da linguagem razoavelmente simples de mészáros, notam-se, de um lado, alterações vocabulares bastante triviais de um para outro texto ("rigorosa igualdade" por "estrita igualdade"; "conseguir o domínio" por "alcançar o domínio"; "fundamentos firmes" por "fundamentos sólidos" etc.); de outro lado, observam-se similaridades nas estruturas sintáticas e alguns vezos bastante particulares de linguagem ("[marx] não tinha mais de parar no ponto de postular", "deu um grande passo à frente", "suposições muito exageradas são feitas", e assim por diante).veem-se também frases inteiras idênticas, como "as razões pelas quais essa determinação política passa a existir podem, é claro, ser muito variadas, desde um desafio exterior que ameaça[ce] a vida da comunidade, até uma localização geográfica que estimule uma acumulação mais rápida da riqueza; mas seu estudo não cabe[,] aqui" ou "o artista tornou-se livre para escolher, sob todos os aspectos, o assunto-tema [sic] de suas obras, mas ao preço de dúvidas constantes sobre sua relevância". seguem algumas imagens exemplificativas:


     

    III.
    perante tantas identidades e semelhanças difíceis de explicar pela mera coincidência, entrei em contato com a editora boitempo. eu tinha também algumas dúvidas sobre outras edições da casa, e ficaram de apurar as informações que pedi (algumas já divulguei aqui, aqui e aqui). explicaram-me que, de fato, a casa tem como praxe utilizar, "sempre que possível", traduções pré-existentes. ora, não vejo como a "revisão" de um texto poderia em qualquer hipótese autorizar ou justificar a omissão do nome do verdadeiro tradutor e sua substituição pelo do "revisor" da obra traduzida* - pelo contrário, até onde sei, tal procedimento fere frontalmente nossa legislação, isso sem falar no desdouro que acarreta indiretamente para toda a categoria dos lídimos e honestos revisores.

    IV.
    a meu ver, o principal aspecto que se destaca na obra de tradução marx: a teoria da alienação é que ela constitui um claro exemplo de obra abandonada. até onde sei, ela teve apenas uma edição, a já referida de 1981. seu autor, waltensir dutra, faleceu em 1994, quando, aliás, ocupava a presidência do sintra (sindicato dos tradutores). a zahar editores se reestruturou em 1985, passando a ser jorge zahar editora. entrei em contato com a jorge zahar, que me informou que boa parte do catálogo da antiga zahar foi transferida para a koogan guanabara - mas marx: a teoria da alienação não parece constar no catálogo ativo desta última. ou seja, tudo indica que se trata de obra de tradução esgotada e abandonada, de autor falecido, cujos sucessores (se os há) não estão exercendo a guarda de seus direitos.

    assim, largada no fundo do baú, à solta no limbo editorial, a tradução de waltensir dutra, pelo que consigo entender, foi retomada pela boitempo, submetida a uma revisão cosmética e publicada como de autoria de isa tavares, passando a engrossar o catálogo da editora. com tal artifício, a editora recriou para si todo um novo leque de pretensos direitos autorais sobre ela: um novo ciclo inteiro de proteção agora pertencente à suposta tradutora isa tavares e a seus herdeiros durante setenta anos após sua morte, e um novo copyright agora pertencente à boitempo. o fato de ter a editora me assegurado, naquela época em que a consultei a respeito desta obra, que "Muitas vezes isso não significou inclusive qualquer diminuição nos valores pagos, tendo sido os tradutores [?] remunerados integralmente ao reverem antigas traduções que foram por nós republicadas" não me parece anular a grande questão que se revela nesse tipo de procedimento: além de ilícito, a meu ver demonstra um acintoso desrespeito à tradução legítima e ao trabalho legítimo dos legítimos tradutores. 

    V. 
    a editora anunciou aqui suas providências quanto a outras duas edições bastante problemáticas, conforme apontei aqui, e declarou que "está revisando outros trabalhos da mesma tradutora", isa tavares. espero que entre eles esteja incluído o caso acima apresentado.

    30 de jul. de 2012

    lágrimas, lágrimas


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    lacrimaeLacrimae Rerum – ensaios sobre Kieslowski, Hitchcock, Tarkovski e Lynch
    Slavoj Žižek

    Título original Lacrimae Rerum
    Tradução Luís Leitão
    Ano de edição 2008
    N.º pp. 276
    Formato 12,3 x 18 cm
    EAN 9789899556522


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    Lacrimae Rerum
    ensaios sobre cinema moderno
    Slavoj Žižek
    Trad.: Isa Tavares e Ricardo Gozzi
    182 páginas
    ISBN: 978-85-7559-134-5
    [2009]


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    a diferença de quantidade de páginas entre as duas edições provavelmente se explica pelas respectivas dimensões dos dois volumes: 12,3 x 18 na orfeu negro, com 32 linhas/página, para 16 x 23 na boitempo, com 40 linhas/página. há também algumas diferenças de conteúdo: o ensaio sobre kieslowski publicado pela orfeu negro apresenta três extensas seções a mais do que o publicado pela boitempo, ao passo que esta última traz o texto "hollywood hoje: notícias de um front ideológico" à guisa de prefácio e o ensaio "matrix ou os dois lados da perversão", ausentes da edição da orfeu negro.


    não sei o que dizer sobre o cotradutor ricardo gozzi. já sobre isa tavares sei dizer que consta como pretensa autora de uma tradução minha (veja aqui). como a editora boitempo não especifica na página de créditos quais textos couberam a cada um deles, tomarei como hipótese que ricardo gozzi tenha sido o legítimo responsável pela tradução dos dois textos ausentes da edição da orfeu negro, e que isa tavares - a julgar pelo precedente dado - seja o nome usado em edições com procedimentos semelhantes aos adotados contra minha tradução, no caso supracitado.

    seguem-se alguns trechos dos vários ensaios, a título comparativo. aqui utilizo a edição da boitempo de 2011.*
    * não destacarei em vermelho abrasileiramentos simples como "direto" para "directo", "objeto" para "objecto", "gênero" para "género" e similares.

    luís leitão (orfeu negro)
    De que modo, exactamente, o Decálogo de Kieslowski está relacionado com os Dez Mandamentos? A maioria dos analistas refugia-se na presumida ambiguidade desta relação: não devíamos correlacionar cada episódio com um único Mandamento; as correspondências são mais vagas e, por vezes, uma história refere-se a uma multiplicidade de Mandamentos... Contra esta escapatória fácil, devemos sublinhar a correlação estreita entre os episódios e os Mandamentos: cada história refere-se apenas a um Mandamento, mas com uma "mudança de velocidade". O Decálogo 1 refere-se ao segundo Mandamento, e assim por diante, até, finalmente, ao Decálogo 10, que nos traz de volta ao primeiro Mandamento. Este desfasamento é indicativo do deslocamento a que os Mandamentos são submetidos por Kieslowski. O que este faz está muito próximo do que Hegel realiza na sua Fenomenologia do Espírito: selecciona um Mandamento e "encena-o", consubstancia-o numa situação de vida exemplar, tornando assim visível a sua "verdade" e as suas consequências inesperadas que lhe minam as premissas. Quase se é tentado a afirmar que, no modo hegeliano estrito, este deslocamento de cada mandamento gera o mandamento seguinte. ("A teologia materialista de Krzysztof Kieslowski", p.  50-1)

    isa tavares (boitempo)
    De que modo exatamente o Decálogo de Kieslowski está relacionado com os Dez Mandamentos? A maioria dos analistas refugia-se na presumida ambiguidade dessa relação: não deveríamos relacionar cada episódio com um único mandamento; as correspondências são mais vagas e, por vezes, uma história refere-se a uma multiplicidade de  mandamentos... Contra essa escapatória fácil, devemos sublinhar a relação estreita entre os episódios e os  mandamentos: cada história diz respeito a apenas um Mandamento, mas com uma "mudança de velocidade". O Decálogo 1 refere-se ao segundo  mandamento e assim por diante, até finalmente o Decálogo 10, que nos traz de volta ao primeiro  mandamento. Essa defasagem é indicativdo deslocamento a que os mandamentos são submetidos por Kieslowski. O que este faz está muito próximo do que Hegel realiza em sua Fenomenologia do Espírito: seleciona um  mandamento e "encena-o", consubstancia-o numa situação de vida exemplar, tornando visível assim sua "verdade" e suas consequências inesperadas, que minam suas premissas. Quase se é tentado a afirmar que, no modo hegeliano estrito, este deslocamento de cada mandamento gera o mandamento seguinte. ("A teologia materialista de Krzysztof Kieslowski", p. 17-8)

    luís leitão (orfeu negro)
    Em primeiro lugar, ao nível da solução "literal" do mistério, há cinco possibilidades:
         - a explicação natural simples: três raparigas e uma das professoras caíram numa das fendas profundas que existem na intrincada estrutura do rochedo, ou foram mortas pelas aranhas e cobras que lá abundam;
         - a explicação do crime sexual: elas foram raptadas, violadas e mortas no rochedo por algum dos aborígenes sinistros que se escondem por lá, à espera de visitantes incautos, ou por Michael e Albert, os dois jovens que obviamente se sentem atraídos pelas raparigas e que depois salvam uma delas;
         - a explicação da sexualidade patológica: o recalcamento erótico das raparigas conduziu-as a uma explosão histérica de violência autodestrutiva;
         - a explicação natural da religião primitiva: o espírito da montanha raptou estes intrusos, escolhendo os que estavam mais em sintonia com os seus apetites (e que, por essa razão, rejeitou a quarta rapariga, a gorda, que não tinha interesse pelos mistérios da sensualidade);
         - a explicação do sequestro por alienígenas: as raparigas penetraram numa Zona do espaço-tempo diferente. (p. 195)

    isa tavares (boitempo)
    Em primeiro lugar, no nível da solução "literal" do mistério, há cinco possibilidades:
    • a explicação natural simples: três moças e uma das professoras caíram numa das fendas profundas que existem na intrincada estrutura do rochedo, ou foram mortas pelas aranhas e cobras que lá abundam;
    • a explicação do crime sexual: elas foram raptadas, violentadas e mortas no rochedo por algum dos aborígenes sinistros que se escondem por lá, à espera de visitantes incautos, ou por Michael e Albert, os dois jovens que obviamente se sentem atraídos pelas moças e que depois salvam uma delas;
    • a explicação da sexualidade patológica: o recalcamento erótico das moças conduziu-as a uma explosão histérica de violência autodestrutiva;
    • a explicação natural da religião primitiva: o espírito da montanha raptou os intrusos, escolhendo os que estavam mais em sintonia com [] seus apetites (e que, por essa razão, rejeitou a quarta moça, a gorda, que não tinha interesse pelos mistérios da sensualidade);
    • a explicação do sequestro por alienígenas: as moças penetraram numa Zona do espaço-tempo diferente. (p. 102-3)

    luís leitão (orfeu negro)
    Para além destas, existem pelo menos duas explicações "metafóricas": a história baseia-se na oposição entre a atmosfera vitoriana rígida e disciplinadora do internato, situado numa casa vetusta, asseada e em ordem, e a vida natural, exuberante e livre que impera na protuberância selvagem do Rochedo. A atmosfera rígida da escola está carregada de um erotismo latente (o desejo lésbico semi-reprimido de alunas por alunas, de alunas por professoras e de professoras por alunas...). Em contraste com esta severidade "vitoriana" proverbial, com os seus desejos recalcados, o Rochedo representa a riqueza irrefreável da vida com toda a sua profusão de formas, por vezes repugnantes (grandes planos de répteis e cobras, associados ao pecado original, a rastejar em volta das raparigas adormecidas, para já não falar na vegetação selvagem e luxuriante e nos bandos de pássaros). Então, nada mais natural do que interpretar a história do desaparecimento como uma variação do velho tema da repressão vitoriana que explode à luz do dia: a professora de matemática, a frígida Miss McCraw, descreve o nascimento do Rochedo como o produto da lava fundente que é "empurrada de baixo... expulsa num estado altamente viscoso", mais uma descrição do despertar lento das hormonas nas recalcadas raparigas púberes do que de um fenómeno natural, uma protuberância vulcânica proveniente das profundezas da Terra. Assim, o Rochedo representa obviamente a paixão irreprimível da vida desde há muito controlada pelos costumes sociais e que finalmente explode... (p. 196)

    isa tavares (boitempo)
    Para além dessas, existem pelo menos duas explicações "metafóricas": a história baseia-se na oposição entre a atmosfera vitoriana rígida e disciplinadora do internato, situado numa casa vetusta, asseada e organizada, e a vida natural, exuberante e livre que impera na protuberância selvagem do rochedo. A atmosfera rígida da escola está carregada de um erotismo latente (o desejo lésbico semirreprimido de alunas por alunas, de alunas por professoras e de professoras por alunas...). Em contraste com essa severidade "vitoriana" proverbial, com seus desejos recalcados, o rochedo representa a riqueza irrefreável da vida com toda a sua profusão de formas, por vezes repugnantes (grandes planos de répteis[], associados ao pecado original, rastejando em volta das moças adormecidas, para já não falar na vegetação selvagem e luxuriante e nos bandos de pássaros). Então, nada mais natural do que interpretar a história do desaparecimento como uma variação do velho tema da repressão vitoriana que explode à luz do dia: a professora de matemática, a frígida Miss McCraw, descreve o nascimento do rochedo como o produto da lava fundente que é "empurrada de baixo [...] expulsa num estado altamente viscoso": mais uma descrição do despertar lento dos hormônios nas recalcadas garotas púberes do que de um fenômeno natural, uma protuberância vulcânica proveniente das profundezas da Terra. Assim, é óbvio que rochedo representa [] a paixão irreprimível da vida desde há muito controlada pelos costumes sociais e que finalmente explode... (p. 103-4)


    em sobre remakes, aqui, fiz uma apresentação bastante didática sobre as inelimináveis e irredutíveis singularidades individuais de um trabalho de tradução, utilizando o excerto abaixo.

    luís leitão (orfeu negro)
    É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura destes livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: regra geral, Durband tenta formular directamete, na locução do quotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em qualquer coisa como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo matar-me ou não?" E a minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente qualquer coisa como Hitchocock Made Easy: embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do realizador, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões acerca do toque único de Hitchcock, e coisas do género, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere aos seus filmes um carácter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 157)


    isa tavares (boitempo)
    É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, no inglês arcaico original na página da esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura desses livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: em regra [], Durband tenta formular diretamete, na locução do cotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em algo como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo me matar ou não?" Minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente algo como Hitchocock Made Easy. Embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do diretor, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões sobre o toque único de Hitchcock, e coisas do gênero, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere a seus filmes um caráter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 79)

    sobre remakes

    sem especificar as razões de meu pedido, eu tinha solicitado a alguns colegas tradutores a gentileza de traduzir um trechinho que enviava em anexo. agradeço-lhes a disposição e a boa vontade. segue-se o resultado.


    In any large American bookstore, it is possible to purchase some volumes of the unique series Shakespeare Made Easy, edited by John Durband and published by Barron's: a "bilingual" edition of Shakespeare's plays, with the original archaic English on the left page and the translation into common contemporary English on the right page. The obscene satisfaction provided by reading these volumes resides in how what purports to be a mere translation into contemporary English turns out to be much more: as a rule, Durband tries to formulate directly, in everyday locution, (what he considers to be) the thought expressed in Shakespeare's metaphoric idiom - say, "To be or not to be, that is the question" becomes something like: "What's bothering me now is: Shall I kill myself or not?" And my idea is, of course, that the standard remakes of Hitchcock's films are precisely something like Hitchcock Made Easy: although the narrative is the same, the "substance," the flair that accounts for Hitchcock's uniqueness evaporates. Here, however, one should avoid the jargon-laden talk on Hitchcock's unique touch, etc., and approach the difficult task of specifying what gives Hitchcock's films their unique flair. ("Is There a Proper Way to Remake a Hitchcock Film?")
    Em qualquer grande livraria norte-americana, é possível comprar alguns volumes da incomparável série Shakespeare Made Easy [Shakespeare Simplificado], editada por John Durband, e publicada pela editora Barron's. Trata-se de uma edição "bilíngue" das peças de Shakespeare, com o texto original em inglês arcaico, na página esquerda, e a tradução em inglês contemporâneo e comum, na página direita. A satisfação obscena oferecida pela leitura destes livros está no fato de que aquilo que aparenta ser uma simples tradução para o inglês contemporâneo resulta em muito mais: via de regra, Durband tenta formular diretamente, em linguagem cotidiana, (o que supõe ser) o pensamento expresso nas metáforas de Shakespeare – por exemplo, "Ser ou não ser: eis a questão" se torna algo como: "O que está me incomodando agora é: me mato ou não?". Sem dúvida, a minha ideia é que os remakes habituais dos filmes de Hitchcock são justamente uma espécie de Hitchcock Simplificado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o estilo responsável pelo caráter único de Hitchcock, evapora. No entanto, devemos evitar aquelas palestras cheias de jargões sobre o toque único de Hitchcock, etc., e partir para a difícil tarefa de determinar o que dá a seus filmes seu estilo único. ("Existe um modo certo de refilmar Hitchcock?")

    Em qualquer das grandes livrarias americanas pode-se comprar exemplares da série especial Shakespeare Facilitado, editada por John Durband e publicada pela Barron’s: uma edição “bilíngue” das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução em inglês corrente contemporâneo, na direita. A satisfação obscena que se tem ao ler esses livros advém de como o que pretende ser uma mera tradução para o inglês contemporâneo acaba sendo muito mais do que isso: de modo geral, Durband procura formular diretamente, no modo de falar comum, (o que considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare ─ digamos, “Ser ou não ser, eis a questão” se torna algo como: “o que me aflige agora é: devo me matar ou não?” E a noção que tenho é, evidentemente, que os remakes comuns dos filmes de Hitchcock são exatamente algo como Hitchcock Facilitado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o jeito que confere a Hitckcock sua singularidade some. Aqui, no entanto, devemos evitar o discurso cheio de jargão sobre o toque indistinguível de Hitchcock, etc., e enfrentar a difícil tarefa de especificar o que dá aos filmes de Hitchcok a sua alma própria. ("Existe uma maneira certa de refazer um filme de Hitcocock?") 
    Em qualquer grande livraria americana, é possível comprar alguns volumes da série original   Shakespeare Made Easy [Shakespeare Mastigado, numa versão livre, ainda sem tradução em português], editado por John Durband e publicado pela editora Barron: uma edição "bilíngue" das peças de Shakespeare, com o original em inglês arcaico na página esquerda e a tradução em inglês contemporâneo laico na direita. A abjeta satisfação fornecida pela leitura desses volumes reside no fato de que uma pretensa e mera tradução para o inglês contemporâneo acaba por se tornar em algo muito maior : via de regra, Durband tenta exprimir, através de linguagem coloquial, (o que ele considera ser) o pensamento de Shakespeare expresso em linguagem metafórica - por exemplo : "Ser ou não ser, eis a questão" torna-se algo como:  "O que me perturba no momento é: devo me matar ou não?" E minha conclusão lógica é que os remakes dos filmes de Hitchcock são, precisamente, algo como Hitchcock Made Easy: embora a narrativa seja a mesma, a "substância", o estilo que representa a singularidade de Hitchcock se evapora. Não obstante, deve-se evitar, nesse momento, o clichê já gasto sobre o toque único de Hitchcock, etc., e enfrentar a difícil tarefa de especificar o que dá aos de filmes de Hitchcock a sua singularidade. ("Há uma forma correta de se fazer um remake dos filmes de Hitchcock?")
    Em qualquer grande livraria norte-americana é possível comprar alguns volumes da peculiar série Shakespeare simplificado, editada por John Durband e publicada pela Barron’s: uma edição “bilíngue” das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original à esquerda e a tradução para o inglês contemporâneo comum na página à direita. A obscena satisfação proporcionada pela leitura desses volumes reside na maneira como aquilo que pretende ser uma mera tradução para o inglês contemporâneo se revela como muito mais que isso: via de regra, Durband tenta formular diretamente, em locuções corriqueiras, (aquilo que ele considera ser) o pensamento expresso na linguagem metafórica de Shakespeare – por exemplo, “Ser ou não ser, eis a questão” se transforma em algo como “O que me preocupa agora: devo matar-me ou não?” E minha opinião é a de que, evidentemente, as refilmagens de Hitchcock são justamente algo como um Hitchcock simplificado: embora a narrativa seja a mesma, a “substância”, o estilo responsável pela singularidade de Hitchcock se evapora. Aqui, no entanto, deve-se evitar o jargão do discurso sobre o toque singular de Hitchcock etc., e abordar a difícil tarefa de especificar aquilo que confere aos filmes de Hitchcock seu estilo único. ("Há uma maneira apropriada de refilmar uma obra de Hitchcock?")
    trata-se do parágrafo inicial do artigo de slavoj zizek, "is there a proper way to remake a hitchcock film?", disponível aqui e incluído no volume lacrimae rerum, publicado tanto pela portuguesa orfeu negro (2008) quanto pela brasileira boitempo (2009). creio que este mostruário acima é mais do que suficiente para indicar como parece remota a probabilidade de que os dois textos abaixo sejam de dois tradutores diferentes:


    lacrimae
    luís leitão (orfeu negro, 2008)
    É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, com o inglês arcaico original na página esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura destes livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: regra geral, Durband tenta formular directamente, na locução do quotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em qualquer coisa como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo matar-me ou não?" E a minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente qualquer coisa como Hitchcock Made Easy: embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do realizador, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões acerca do toque único de Hitchcock, e coisas do género, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere aos seus filmes um carácter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 157)



    isa tavares (boitempo, 2009)
    É possível comprar, em qualquer grande livraria americana, alguns volumes da série ímpar Shakespeare Made Easy [Shakespeare ao alcance de todos], organizado por John Durband e publicado pela Barron's, uma edição bilíngue das peças de Shakespeare, no inglês arcaico original na página da esquerda e a tradução para o inglês comum contemporâneo na página da direita. A satisfação obscena obtida com a leitura desses livros reside no modo como aquilo que parece ser uma mera tradução para inglês contemporâneo se transforma em muito mais do que isso: em regra, Durband tenta formular diretamente, na locução do cotidiano, (o que ele considera ser) o pensamento expresso no idioma metafórico de Shakespeare. Por exemplo, "Ser ou não ser, eis a questão" transforma-se em algo como "O que me preocupa agora é o seguinte: devo me matar ou não?" Minha opinião é que, evidentemente, os remakes clássicos dos filmes de Hitchcock são precisamente algo como Hitchcock Made Easy. Embora a história seja a mesma, a "substância", o sabor responsável pela singularidade do diretor, evapora-se. Contudo, é preciso evitar aqui o discurso carregado de jargões sobre o toque único de Hitchcock, e coisas do gênero, e abordar a difícil tarefa de especificar o que confere a seus filmes um caráter singular. ("Alfred Hitchcock ou Haverá uma maneira certa de fazer o remake de um filme?", p. 79)


    sobre isa tavares na boitempo editorial, ver também you kiddin', rite?, aqui.

    28 de jul. de 2012

    you kiddin', rite? - parte III

    andré carone levantou uma questão pertinente sobre a garfada de minha tradução: a boitempo menciona a existência de uma tradução anterior à que ela publicou como sendo de "isa tavares"?


    em seu site, na página dedicada ao livro, aqui, há a seguinte menção: "A reedição destes dois importantes ensaios, a [sic] muito esgotados no Brasil, reunidos em um único volume, é parte do esforço da Boitempo de disponibilizar no Brasil a obra completa de grandes nomes do pensamento crítico". 


    lembrando: essa tradução fui eu que fiz, em 1984, para a brasiliense. jamais fui consultada, jamais autorizei o uso e muito menos jamais autorizei ter meu nome substituído pelo de isa tavares. o fato de estar esgotada não autoriza ninguém a pegá-la, tascar-lhe outro nome e incorporá-la a seu catálogo - e tudo isso coroado com um discurso de autoengrandecimento que fica parecendo até meio cínico.



    (aliás, uma coincidência que nem vem muito ao caso, mas achei divertida: o revisor técnico de minha tradução na brasiliense foi emir sader, o mesmo que assina agora a introdução ao volume da boitempo.)


    acompanhe o caso aqui.


    imagem: aqui