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25 de out. de 2010

entrevista de jorio dauster

ótima entrevista de jorio dauster a lucas deschains, do meia palavra. AQUI.

22 de set. de 2010

imperdível

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jorio dauster, que há décadas admiro como tradutor e que tenho como um de meus modelos de praticante do ofício de tradução, numa bela entrevista a petê rissatti em "conversas entre tradutores".

imagem: liology
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28 de fev. de 2010

jorio dauster - eu não daria a menor bola...


TRADUZINDO

Acho uma bobagem a obediência irrestrita e mecânica ao texto original, mas isso não significa que se possa tomar liberdades gratuitas com a obra a ser traduzida.

Quando se trata de um autor tão complexo quanto Nabokov, verdadeiro ourives literário, acredito que se exige do tradutor uma relação de verdadeira devoção, pois, se ele estiver buscando apenas uma fonte de renda, faria melhor indo vender sanduíches naturais na praia.

Se me sobrarem tempo e neurônios, pretendo traduzir toda a obra de ficção do Nabokov.

A norma tem de ser respeito com inteligência, sem perder de vista que a tradução não é apenas uma ponte entre idiomas, mas entre culturas. Daí que eu não daria a menor bola se Nabokov não gostasse de minhas traduções.

Para fazer justiça a uma boa obra de ficção, o tradutor tem de conhecer muito bem a língua de origem e ainda melhor a de chegada.

Levo tempo convivendo com a obra, recebendo no fundo da noite, de algum canto do cérebro, a tradução de uma palavra que ficara mal posta na primeira passagem pelo texto.

Para um tradutor - ou pelo menos para este tradutor - uma nota de pé de página é o pior que pode acontecer, pois comprova que ele foi incapaz de encontrar uma solução vernacular satisfatória.

Apenas pratico o ofício de tradutor, não tenho a menor capacitação para fazer crítica literária. E eis um fato que certamente me condenará ao inferno onde ardem os párias intelectuais: jamais consegui passar do primeiro capítulo de Ulisses!

O trabalho de tradução só faz bem, só estimula a produção de endorfinas, quando a gente o faz por amor, sem pressa, revendo e re-revendo.

Com a alegria de viver, a confiança no seu taco e uma boa dose de espírito lúdico, coisas que por sorte nunca me faltaram, não há nada complicado demais na face do planeta.

JORIO DAUSTER

21 de fev. de 2010

jorio dauster - minha alma, minha lama

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        Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
       Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.
       Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial. Num principado à beira-mar. Quando foi isso? Cerca de tantos anos antes de Lolita haver nascido quantos eu tinha naquele verão. Ninguém melhor do que um assassino para exibir um estilo floreado.
       Senhoras e senhores membros do júri, o item número um da acusação é aquilo que invejavam os serafins - os desinformados e simplórios serafins de nobres asas. Vejam esse emaranhado de espinhos.

OS PORQUÊS DE LOLITA

Não há lista minimamente séria dos melhores romances do século XX em que Lolita não apareça nas cabeceiras, muitas vezes na primeira posição. Difícil imaginar carreira tão brilhante para um livro que, recusado por quatro editoras norte-americanas, teve de ir ao prelo numa pequena casa parisiense que publicava até mesmo obras pornográficas. Mas o fato é que, nesses quase cinquenta anos que transcorreram desde seu nascimento problemático, a obra-prima de Vladimir Nabokov (1899-1977) gerou uma verdadeira indústria, inspirando milhares de artigos, dezenas de teses de doutorado, um punhado de livros de análise literária e dois filmes. Mais ainda, preenchendo estranha lacuna vocabular, legou a várias línguas duas palavras que servem para designar aquelas adolescentes iluminadas por uma sensualidade diabólica: “ninfeta” e o próprio nome da personagem principal.

Como explicar esse fenômeno? Como entender o espaço que o livro passou a ocupar no imaginário mundial?

O primeiro motivo, cumpre admitir, tem a ver com o tema, a paixão desenfreada de um quarentão por uma menina de doze anos. Assunto sempre delicadíssimo, mas simplesmente chocante na longínqua década de 1950, ainda fortemente marcada pelo que hoje chamaríamos de caretice. Outros elementos da história só serviam para fortalecer as reações de pudor das alminhas mais sensíveis: o pedófilo escrevia as recordações na prisão, onde cumpria pena por haver matado outro amante de meia-idade de sua jovem companheira; ele era um professor europeu, ela, uma jovem americana que, na realidade, já perdera a virgindade e toma a iniciativa na primeira relação carnal entre eles; a mãe da menina, uma viúva com quem o professor se casa a fim de ter acesso a sua presa, morre num acidente ao saber das reais intenções do marido... Dose pesada, até mesmo segundo os padrões liberais dos dias de hoje.

Daí que muitos - mas certamente apenas os que nunca se deram ao trabalho de ler o livro - imaginaram tratar-se de uma obra pornográfica; ou, ao ver que ela não tinha propósitos obscenos, num giro de cento e oitenta graus buscaram imputar ao autor propósitos moralistas e até mesmo a ideia de que, como escritor russo chegado poucos anos antes aos Estados Unidos para fugir da guerra na Europa, Nabokov queria mostrar o Velho Mundo sendo corrompido pelo Novo. Quanta bobagem, quando dirigida a um autor que sempre rechaçou qualquer tentativa de misturar a produção literária, vista como arte, com “mensagens” de qualquer tipo.

Além de surgir incidentalmente num ou noutro conto da fase em que escrevia em russo, a ideia central de Lolita já havia recebido um tratamento mais longo e menos bem sucedido num romance curto intitulado O mago. Sem dúvida, o tema atraía Nabokov por se tratar de uma situação-limite, pouco explorada na literatura séria e, por isso mesmo, com um grande potencial em termos da criação de novos tipos e interações humanas. Aliás, não é por outra razão que, entre suas grandes obras, consta a história de um pederasta louco que imaginava ser um rei exilado (Fogo Pálido) e um casal de irmãos que mantém uma relação incestuosa durante toda a vida (Ada). Em todos esses casos, a circunstância de lidar com figuras excêntricas e eventos insólitos não é usada para chocar o leitor, mas, pelo contrário, o convida a abrir seu compasso mental, a considerar sem preconceitos fenômenos que em princípio poderiam repugná-lo e até assustá-lo. Para que isso ocorra, é de todo necessário que os personagens, por sua densidade existencial, sejam capazes de merecer a atenção e, idealmente, a empatia de quem vai conhecê-los pelas mãos do autor.

É assim que Humbert Humbert, embora reconheça a crueldade e a vileza de suas ações como pedófilo, aparece diante de nossos olhos como um ser complexo, com uma trajetória pessoal em que está incrustada, lá atrás em sua juventude na França, uma precursora da menina da Nova Inglaterra. E também como um intelectual que, sem buscar justificar seu comportamento, não deixa de denunciar uma certa hipocrisia com que são tratadas as relações entre adultos e adolescentes no tempo e no espaço – lembrando, por exemplo, que a Beatriz de Dante tinha nove anos quando o poeta se apaixonou por ela, e que Laura conquistou Petrarca antes de completar seus treze aninhos. Entretanto, é esse homem torturado que, ao deparar-se após longa procura com uma Lolita grávida e precocemente envelhecida, supera enfim sua enfermidade e se oferece para casar com ela, tentando em vão lhe devolver a vida que ajudara a destruir.

A segunda razão pela qual a obra teve tamanho impacto é bem mais simples de explicar, e bem mais importante: o livro é muitíssimo bom!

Como em todos os escritos de Nabokov, cada palavra é escolhida sem afetação, mas com o esmero de um ourives selecionando as pedras preciosas que farão parte de uma coroa real. As descrições, ricas em símiles e metáforas, muitas vezes nos fazem ver as coisas mais banais de uma forma surpreendentemente nova. Malgrado as mudanças de ritmo da narrativa, a trama prende a atenção do começo ao fim, tendo um quê deliberado de romance policial. Enfim, nas palavras do próprio Nabokov ao definir a razão de ser de uma obra de ficção, o que Lolita nos proporciona é a “volúpia estética, um estado de espírito ligado, não sei como nem onde, a outros estados de espírito em que a arte (curiosidade, ternura, bondade, êxtase) constitui a norma”.

Por isso, se alguém conseguir ler o livro sem dar ao menos uma boa risada ou sem verter ao menos uma lágrima, é ruim da cabeça... ou deve voltar à primeira página e começar tudo de novo.

Jorio Dauster

imagem: lolita

7 de fev. de 2010

jorio dauster - lolita


A LOLITA DE NABOKOV, OU O DESEJO COMO OBSESSÃO


Na sua vasta obra de ficção escrita em três línguas - centenas de poemas, dezoito romances, sessenta e cinco contos -, Vladimir Nabokov jamais descreveu um único ato sexual, mas nem por isso deixou de tratar do desejo sob todas as formas com que a libido subjuga os pobres mortais. No entanto, talvez só tenha ficado realmente famoso devido ao romance em que investigou o desejo como obsessão, o desejo como tara.

O roteiro central é bem conhecido, inclusive graças aos dois filmes que foram feitos com base no livro: Humbert Humbert, um professor francês de 37 anos, se apaixona por Lolita, menina americana de 12 anos e cópia perfeita do primeiro amor que vivera um quarto de século antes na Riviera. Para assegurar o acesso à filha, HH casa-se com a mãe dela, que morre atropelada por um carro pouco depois de ler o diário onde o marido registrara sua monstruosa atração por Lolita. Fazendo-se passar por pai e filha, os dois circulam por todos os Estados Unidos e se instalam por alguns meses numa pequena cidade, até que a menina foge com outro pedófilo. Três anos depois HH recebe uma carta de Lolita em que ela lhe pede ajuda, pois estava grávida e vivendo na pobreza com um jovem mecânico. Num encontro patético, a ex-ninfeta se recusa a voltar para a companhia dele e confessa a identidade do homem com quem havia escapado, o qual é posteriormente assassinado por HH.

É óbvio que este resumo faz tanta justiça ao livro quanto a visão de um bloco de mármore pode sugerir a forma que lhe será dada pelo cinzel do escultor. Como em toda a obra de Nabokov, o que importa é a combinação mágica de imagens e cores, seu cuidado de ourives na busca de cada palavra, sua capacidade de tomar uma fatia de vida e, mediante um jogo de espelhos, transmudá-la de forma até mesmo grotesca para chegar aos limites da experiência humana.

A característica mais notável de Lolita é que, lidando com um tema tão sensível, Nabokov sequer tangencia o pornográfico e, muito pelo contrário, constrói sem pieguice uma fábula claramente moralista. Mas o faz a seu modo: cabe à garota, que perdera a virgindade na colônia de férias onde HH vai buscá-la após a morte de sua mãe, a iniciativa da primeira relação sexual; é o próprio HH que, escrevendo na prisão, mais duramente condena a bestialidade de seus atos, as torturas que sua inesgotável lascívia haviam infligido à menina, embora não deixe de assinalar que, em outros tempos e outras culturas, a ligação entre eles nada teria de anormal; e é através do assassinato de seu “duplo” que ele se desfaz do passado.

Mas, acima de tudo, a verdadeira redenção de HH está em que o desejo lúbrico pela ninfeta Lolita se transfigura num amor sem limites pela mulher Lolita. E só mesmo nas palavras do autor se pode entender com que força explode essa paixão.

“De trás do barraco de Bill, o rádio de alguém que voltara do trabalho levou até nós uma música que falava de loucura e destino, e lá estava ela com sua beleza destroçada, as veias saltadas nas mãos estreitas de adulta, a pele arrepiada nos braços brancos, as orelhas sem viço, as axilas descuidadas, lá estava ela (minha Lolita!) irremediavelmente gasta aos dezessete anos, com aquela criança que dentro de seu ventre já sonhava em ser um sujeito importante e se aposentar no ano 2020 – e fiquei olhando para ela, sabendo, tão lucidamente como sei que vou morrer um dia, que eu a amava mais do que tudo o que jamais vi ou imaginei neste mundo, ou que possa esperar em qualquer outro. Ela era apenas um traço fugaz de perfume, o eco de uma folha morta, quando comparada à ninfeta sobre a qual eu rolara outrora gemendo de prazer; um eco à beira de uma ravina acobreada, com uma floresta longínqua sob o céu lívido, folhas marrons sufocando o riacho, um derradeiro grilo nas ervas ressequidas... mas, graças a Deus, não era apenas esse eco que eu venerava. Aquilo que eu costumava acariciar entre as vinhas emaranhadas de meu coração, mon grand péché radieux, estava reduzido a sua essência: todo o resto, o vício estéril e egoísta, fora abolido, amaldiçoado. Podem zombar de mim, ameaçar de evacuar o tribunal, mas até que eu seja amordaçado e semi-asfixiado continuarei a proclamar aos brados minha pobre verdade. Insisto em que o mundo saiba o quanto amei minha Lolita, esta Lolita, pálida e poluída, carregando o filho de outro homem, mas ainda com os mesmos olhos cinzentos, os mesmos cílios cor de fuligem, os mesmo tons de castanho e amêndoa, a mesma Carmencita, ainda e sempre minha! Changeons de vie, ma Carmen, allons vivre quelque part où nous ne serons jamais séparés. Ohio? Os ermos de Massachusetts? Não importa, mesmo que teus olhos fiquem embaciados como os de um peixe míope, mesmo que teus mamilos inchem e se rachem, mesmo que se macule e rasgue teu jovem e adorável delta, tão delicadamente aveludado... mesmo então eu enlouqueceria de ternura à simples vista de teu rosto amado e lúrido, ao simples som de tua voz rouquenha, minha Lolita.”

JORIO DAUSTER
imagem: lolita

1 de fev. de 2010

salinger

conversa na globonews com jorio dauster e silviano santiago: http://tinyurl.com/yelkafx

31 de jan. de 2010

jorio dauster - o cosmopolita galopavão


Afinal de contas, me perguntei outro dia, por que o popular Meleagris gallopavo, aquela ave de carúncula avermelhada originária da América do Norte, tem o nome de um país latino-americano em português e de um país do Oriente Próximo em inglês? Aposto que você também já foi assaltado por tal indagação, mas muito provavelmente nada fez para respondê-la, não é mesmo?

Pois saiba (como acabo de aprender no Houaiss) que o nosso peru vem do fato de que, no Portugal do século XVI, todos achavam que a apetitosa ave provinha da terra dos incas, a qual, por sua fama, passara mesmo a significar toda a América espanhola. Já o prato de resistência dos almoços de Thanksgiving nos Estados Unidos tem o nome de turkey porque a ave em causa foi confundida (certamente por linguistas ingleses que jamais a haviam visto) com a galinha-d’angola, a qual, por sua vez, imaginavam ser originária da Turquia. O que só faz acrescentar mais um complicador geográfico a este verdadeiro samba do crioulo doido, pois a referida representante da família dos numidídeos também é conhecida em português como galinha-da-guiné e, compreensivelmente, atende hoje em inglês pela alcunha de guinea fowl. Mas a coisa se complica ao vermos que o peru gaulês, o dindon, deve seu nome à fêmea da espécie, a dinde, assim chamada carinhosamente para designar a poule d’Inde. E, como já percorremos alguns continentes, vou ficando por aqui, feliz por não ter um dicionário de javanês em minhas estantes.

JORIO DAUSTER

24 de jan. de 2010

jorio dauster - um achado

O SALINGER QUE (QUASE) NINGUÉM LEU

Entre 1940 e 1965, J. . Salinger publicou um total de 36 contos e um romance. Daqueles, treze foram reunidos em três volumes bem conhecidos: Nove Estórias; Franny e Zooey; e Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação. Os vinte e dois restantes há muito permanecem enterrados, e em larga medida ignorados (exceto por alguns poucos fãs), nas revistas em que apareceram. Esses vinte e dois contos estão reproduzidos nestes dois volumes. Alguns imaturos, outros excelentes, são talvez a chave mestra para entender o tema religioso de Salinger em sua permanente evolução, desde os primeiros conflitos sociais dos adolescentes de classe média, passando pelas frustrações do intelectual nos tempos de guerra, até chegar à figura místico-literária do próprio Seymour, o ápice da caminhada de Salinger em busca de seu eu mais profundo.

livraria

Por incrível que pareça, essas poucas - e instrutivas - linhas constituem o prefácio de uma edição pirata de tudo aquilo que Salinger se recusara a publicar sob a forma de livro antes de mergulhar na reclusão e no mais absoluto silêncio autoral. Entre as vinte e duas peças, lá está a última vinda a público há exatos trinta e sete anos, Hapworth 16, 1924, e que talvez ainda possa ser lançada entre capas duras para gáudio das hostes salingerianas em todo o mundo.

Quando saiu O apanhador no campo de centeio, em 1951, Salinger já publicara 27 contos em diversas revistas, tais como Collier´s, The Saturday Evening Post, Cosmopolitan, Story, Mademoiselle, Cosmopolitan e The New Yorker. Seis deles foram integrar o volume das Nove estórias, publicada em 1953, mas a partir daí começaram a rarear as aparições de Salinger em pessoa e também em letra de forma: Franny e Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira só apareceram em 1955, Zooey em 1957, Seymour, uma apresentação em 1959, até o derradeiro Hapworth 16, 1924 em junho de 1965.

Enquanto isso, crescia de forma estupenda a fama do autor, já então objeto de verdadeiro culto, transformado em guru de todos os adolescentes que se identificavam com Holden Caufield na sua rejeição das falsidades da vida adulta. Quando ficou claro que os contos não incluídos na coletânea jamais veriam a luz do dia com o beneplácito do autor, estabeleceu-se uma verdadeira caçada às revistas que os haviam abrigado originalmente. Para os jovens fãs incapazes de disputar os cobiçados exemplares com colecionadores mais abonados, o instrumento de eleição era a gilete e o campo de ação as bibliotecas públicas e universitárias: nestas últimas, diz-se que não resta incólume um único dos números visados.

E foi então, se não me engano no início dos 70, que recebi de um colega diplomata lotado no exterior um artigo do Herald Tribune sobre Salinger. Sabedor de que eu co-traduzira o Apanhador no campo de centeio e Nove estórias (o primeiro com Álvaro Alencar e Antônio Rocha, o segundo apenas com Álvaro), mandava-me a matéria por imaginar que eu gostaria de conhecer a luta do autor para coibir uma edição fantasma que, certamente se valendo dos esforços daqueles bravos cirurgiões de revistas, continha os vinte e dois contos que ele condenara ao esquecimento. Segundo a matéria jornalística, não havia muito o que a polícia pudesse fazer: os vendedores piratas ofereciam os exemplares de livraria em livraria, cobrando em espécie e desaparecendo a seguir; os livreiros, por sua vez, escondiam os volumes em algum canto bem seguro da loja e, auferindo um belo lucro, só os ofereciam a clientes de confiança. Para mim, labutando no Planalto Central, ficava a certeza de que não teria nem mesmo a chance de cometer o pecadilho de comprar a obra pirata.

Eis-me, alguns anos depois, caminhando pelas ruas de Paris, para onde havia sido levado por uma reunião de cunho econômico. Nem me recordo por que, naquele dia, me afastara tanto do tradicional roteiro hotel-local da conferência-embaixada-hotel que costumava palmilhar. Por força do hábito, dou uma breve paradinha diante da vitrina de modesta livraria, passo os olhos a galope pelos títulos franceses e... Estranha dupla de volumes: capas brancas com o desenho de uma mulher e uma menina, vestidas nos trinques e empoleiradas na beira de uma cama com dossel e volumosos travesseiros, conversando com um soldado sentado diante delas numa poltrona; na parte superior, em letras vermelhas sobre fundo rosa no melhor estilo belle époque, o nome do autor; mais abaixo, March 1940 (mês em que foi publicado o primeiro conto, Young Folks); na parte inferior, os títulos dos contos (17 no primeiro volume, 5 no segundo) e, num retângulo rosa-pálido, as palavras que me deixaram atônito: Featuring The Complete Uncollected Short Stories!

Confesso que entrei disparado na livraria, perseguido pela idéia insana de que lá dentro já estaria alguém finalizando a compra daquele pequeno tesouro. Evidentemente, a loja estava às moscas, a senhora que me atendeu sem dúvida jamais ouvira falar em J. D. Salinger, e pelo jeito ficou muito feliz quando me declarei disposto a levar não só a dupla da vitrina mas também as duas outras que dormitavam numa prateleira mal iluminada (e com as quais presenteei meus co-tradutores).

Na época, sem pensar muito sobre o assunto, achei que aqueles volumes eram parte da operação iniciada no outro lado do Atlântico, quem sabe as sobras que tiveram de buscar outros mercados fugindo à repressão policial. Agora, porém, ao escrever estas notas, olhei com mais cuidado as publicações, que obviamente não trazem nenhuma indicação bibliográfica, e convenci-me de que não parecem ser um produto norte-americano. Contribuem para isso o rebuscado da capa e alguns erros de impressão no prefácio (“skelton key”, “tracable” e “adolesents”), denunciando uma provável origem gaulesa. Mas a melhor pista, que consistia em saber se o artigo do Herald Tribune falava ou não de dois volumes, havia se perdido nas brumas do passado.

Fica o mistério policial, passível de ser resolvido por algum fã mais bem informado do que eu. Mas restará para sempre o mistério maior, a tessitura inconsútil que transformou um devotado tradutor de Salinger em cúmplice confesso (embora impenitente) de um doce atentado à propriedade intelectual do ermitão de New Hampshire.

JORIO DAUSTER

17 de jan. de 2010

jorio dauster - o apanhador


DE QUE VALE UM TÍTULO?

“... fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

Ninguém que tenha lido a obra-prima de J. D. Salinger poderá se esquecer da cena em que Holden, tarde da noite, resolve visitar a irmã, entrando sorrateiramente no apartamento para que seus pais não o vejam. Por sorte, eles haviam saído e Holden tem uma longa conversa com Phoebe, que não demora a descobrir que ele havia sido expulso da escola, reprovado em todas as matérias com exceção de inglês. Com a sensatez imbatível das meninas de dez anos de idade, a irmã o acusa de não gostar de nada e, tendo Holden a duras penas conseguido dizer que gostava do Allie (um irmão já morto) e de estar ali conversando com ela, Phoebe exige que ele diga o que gostaria de ser quando crescesse.

A resposta reproduzida acima, além de típica do estilo coloquial empregado com tanto êxito por Salinger para caracterizar o rapazote de dezesseis anos, sintetiza os dois traços centrais do personagem: sua recusa em aceitar o jogo dos adultos, representada pela escolha estapafúrdia do que faria ao crescer, e o amor ao próximo, aqui simbolizado pela preocupação em evitar que as crianças caiam no abismo (mas também presente mesmo no último parágrafo do livro, quando Holden diz sentir saudades até das pessoas que lhe fizeram mal). Nesse sentido, nada mais justo que Salinger retirasse de tal passagem o título de seu livro.

Muito justo, sem dúvida, mas se ponha na pele de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e eu, já lá vão quarenta anos, tentando passar para o português The Catcher in the Rye. Apanhador, palavra horrorosa que, segundo os dicionários, se aplicaria a quem colhe os grãos de café ou extrai o látex da seringueira, embora no linguajar corriqueiro só seja usada para designar um gandula. Centeio, quando muito, lembrava um tipo de pão àquela época pouco consumido por estas bandas; mas quem jamais teria visto um campo da tal gramínea? Não, intitular um livro Apanhador no campo de centeio seria como dar algum nome esdrúxulo a uma bela criança, seria condená-lo à mais absoluta rejeição.

É verdade que o título também não fazia muito sentido mesmo no idioma do autor. Para todos os efeitos práticos, a palavra catcher em inglês se refere àquele jogador de beisebol cujo rosto está sempre coberto por uma máscara e que, agachado atrás do batedor, fica pegando as bolas atiradas pelo lançador (ocupando assim, aparentemente, a posição mais besta de qualquer esporte se ao “apanhador” não coubesse também a responsabilidade crucial de indicar onde a bola deve ser lançada com base nas características do batedor). A segunda parte do título só é explicada na própria conversa de Holden com Phoebe, quando ele lhe pergunta se conhece a cantiga “Se alguém agarra alguém atravessando um campo de centeio”. Phoebe o corrige, dizendo que o certo é “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”, e ainda acrescenta que é baseada num poema de Robert Burns. De fato, trata-se de uma conhecida cantiga de crianças, mas, até mesmo devido ao “erro” de Holden ao trocar os verbos, jamais encontrei uma única pessoa nascida nos Estados Unidos que tenha feito de estalo a ponte mental entre a musiquinha e o título.

Voltando ao nosso drama linguístico, fizemos longas listas de títulos alternativos até encontrarmos A sentinela do abismo, em que respeitávamos tanto o contexto quanto o conceito. Eureca! Que nada, a alegria durou pouco. Da agente literária de Salinger veio a ordem ríspida: ou se vertia o título literalmente ou era suspensa a venda dos direitos de tradução. Ordens do autor. Em vão tentei explicar por carta que a expressão era virtualmente ininteligível no vernáculo. Aproveitando uma ida a Nova York, obtive a graça de uma entrevista com a agente, pois já então era de todo impossível comunicar-se com o próprio eremita de New Hampshire. Nenhuma chance de revisão da sentença, porém ao menos fiquei sabendo que Salinger entrara em órbita ao tomar conhecimento de certas versões dadas ao título que lhe devera ter custado imensas dores de parto.

Com base em três delas que vim a conhecer mais tarde, passei a dar toda a razão ao autor. Senão vejamos.

Em espanhol, saíram-se com El cazador oculto, obviamente por conta da menção a um campo e ao fato de que o Holden adulto nele estaria escondido para não comprometer a espontaneidade das crianças ao brincarem. Mas que extraordinário exemplo de insensibilidade do tradutor ao não perceber o quanto a idéia de caçada e de morte era antagônica à mensagem que o título buscava transmitir!

O francês nos brindou com L’attrape-coeurs, que corresponderia em português a um abominável Pega-corações. No entanto, quando a língua de Racine já tem consagradas as expressões attrape-mouches (pega-moscas) e attrape-nigaud (prima-irmã de nossa “pegadinha”), dá para questionar a qualidade da versão gaulesa independentemente de sua dose excessiva de açúcar.

E, por fim, a mais notável, inclusive por demonstrar a desistência do tradutor português – recurso ao menos rechaçado pelos coleguinhas de Espanha e França – de extrair o título da rica contextura em que o original o situara. Pois bem, o ilustre sr. João Palma-Ferreira tascou Uma agulha no palheiro (na melhor tradição do conterrâneo que batizou o Psycho hitchcockiano de “O filho que era a mãe”)! Todavia, desconfiando de que não havia mesmo nenhuma relação entre o fundilho das calças e o orifício por elas protegido, ofereceu à posteridade uma Advertência cujo sabor só pode ser apreciado mediante sua reprodução integral: “O título português do romance de J.D.Salinger Uma Agulha no Palheiro foi especialmente escolhido tendo em atenção a singularidade expressiva desta frase comum portuguesa (sic) e não corresponde à nem pretende ser a tradução do título original norte-americano: The Catcher in the Rye, para o qual foi sempre difícil encontrar uma forma suficientemente alusiva e gramaticalmente correcta em todas as que ocorreram ao tradutor. Supõe-se, pois, que, sem fugir ao que o escritor pretendeu (sic), o título da edição portuguesa marcará incisivamente o espírito deste livro admirável.” *

* Há outras coisas imperdíveis nessa tradução lusa. Quando o Edgar Marsalla quase manda pelos ares o teto da capela onde os alunos eram obrigados a ouvir o discurso do agente funerário e grande benfeitor do colégio, seu “peido infernal” (terrific fart) se metamorfoseia num “tremendo arroto”. Quando Holden se enfurece com os palavrões que vê escritos nas paredes da escola da irmã e do museu, os muitos “Foda-se” se transformam em pálidos “Vai à merda”. Graves problemas de sinonímia ou de anatomia?

Seja como for, ao fim e ao cabo a edição brasileira estampou a tradução literal, ainda que amenizada por breve nota onde se lia: “Os três jovens diplomatas brasileiros que fizeram a presente tradução escolheram o título A Sentinela do Abismo. O Autor preferiu, entretanto, o título O Apanhador no Campo de Centeio.” O que, pelo jeito, não atrapalhou em nada, se é que não serviu para tornar ainda mais indelével a marca do livro na memória do leitor. As vendas continuam firmes, ano após ano, mesmo depois que o tresloucado assassino de John Lennon foi apanhado com um exemplar da obra. Que aqui no Brasil passou a ser carinhosamente chamada de Apanhador.

E você, já leu o Apanhador?

JORIO DAUSTER

2 de nov. de 2009

proposta para a reforma da lda

esta é uma proposta simples para permitir que a sociedade possa voltar a ter acesso, em formato de livro, a tantas obras de tradução esgotadas que têm sido objeto de plágio.

a sugestão, em forma de carta aberta, será apresentada por ocasião do III Congresso do Direito de Autor, a se realizar nos dias 09 e 10 de novembro, quando se inaugura o prazo de consulta pública do governo para a revisão da atual lei do direito autoral. os temas em discussão estão arquivados neste blog em fnda e em direito autoral. consulte também documentação relevante em "documentos", na coluna da direita.

LICENCIAMENTO DE OBRAS DE TRADUÇÃO ESGOTADAS

Os plágios de tradução de grandes obras da literatura e do pensamento universal constituem uma negra mancha na história do livro no Brasil. O recurso a tal prática teve um grande impulso sobretudo a partir de 1998. A principal característica comum à grande maioria de tais ilícitos é o uso fraudado de traduções antigas, geralmente esgotadas e que ainda não entraram em domínio público.

Por um lado, uma grande e necessária retificação da atual lei 9.610/98 seria a autorização para o licenciamento em curto prazo de obras esgotadas para reprodução sem fins comerciais, sob a forma de reprografia e digitalização para uso privado, para o ensino e para os acervos de bibliotecas públicas.

Por outro lado, cremos que, além desta flexibilização que atende ao premente direito social de acesso a obras esgotadas e abandonadas, seria da máxima importância prever igualmente um dispositivo legal autorizando a livre reprodução dessas obras de tradução também em formato de livro, sempre respeitados os direitos inalienáveis de seus autores e a cadeia dos direitos prévios eventualmente vigentes.

Assim, sugerimos que, decorridos 20 (vinte) anos após a última edição da obra, ela possa ser novamente disponibilizada à sociedade como livro impresso, pelos circuitos tradicionais de publicação e distribuição.

Tal proposta não fere as regras dos tratados internacionais sobre propriedade intelectual e está em consonância com as condições previstas no Anexo da Convenção de Berna, pois se trata de caso especial, que não conflita com a exploração normal e tampouco prejudica os interesses legítimos do titular.

Cremos que todos terão a ganhar: os cidadãos leitores que poderão dispor de obras até então esgotadas, seus autores assim resgatados do esquecimento, os editores que poderão publicar tais obras e os livreiros que poderão fazê-las chegar aos leitores.

Toda a sociedade poderá assim ter garantias de preservar ativamente sua memória cultural, permitindo a sobrevivência íntegra de importantes obras de tradução que compõem nossa história. *

* atualização feita em 05/11, ver justificativa em acréscimos

Abílio Guerra
Adriana Lisboa
Adriana Zavaglia
Adriane Veras
Agenor Soares dos Santos
Alberto Parahya Quartim de Moraes
Aldo Dinucci
Alessandra Allegri
Alessandro Martins
Alexandre Soares Carneiro
Alfredo Monte
Alice Xavier
Allison Roberto
Ana Resende
Ana Miriam Wuensch
Ana Paula Alves Ribeiro
Andityas Soares de Moura
André Malta
André Medina Carone
André da Silveira Gonçalves
Ângela Xavier de Brito
Anita Di Marco
Anna Magdalena Machado Bracher
Antonio F. Hermida
Aurora Bernardini
Beatriz Caldas
Beatriz Medina
Beatriz Viégas-Faria
Bruno Andrade Pedrassani
Bruno Casotti
Carlos Daghlian
Carlos Teixeira
Carlos Alberto Fonseca
Carlos José Baboni
Carlos Nelson Coutinho
Carmem Cacciacarro
Cássio Arantes Leite
Cecília Silva Furquim Marinho
Celina Portocarrero
Claudia Berliner
Cláudia Drucker
Claudio Marcondes
Claudio Willer
Cristina Carneiro Rodrigues
Daniel Aço
Daniel Argolo Estill
Daniel Pellizzari
Davi Arrigucci Jr.
Denise G. Bottmann
Desidério Murcho
Dilma Machado
Doralice Lima
Dorival Santos Scaliante
Duda Machado
Ebréia de Castro Alves
Edla Van Steen
Edson Cruz
Eduardo Sterzi
Eleonora G. Bottmann
Elizabeth Thompson
Eugênio Vinci de Moraes
Euler de França Belém
Everardo Norões
Fábio Fernandes
Fátima Vasco
Fátima Aparecida de Oliveira Abbate
Federico Carotti
Fernando Santoro
Flávia Nascimento
Francisco Foot Hardman
Francisco César Manhães Monteiro
Gabriel Perissé
Geraldo Holanda Cavalcanti
Gonzalo Armijos
Haroldo Cantanhede
Heloísa Gonçalves Barbosa
Heloísa Jahn
Iara Fino Silva
Ivo Barroso
Ivone C. Benedetti
James Emanuel de Albuquerque
Janaína Amado
Janaína Castilho Marcoantonio
Janaína Pietroluongo
Jean Cristtus Portela
Joana Canêdo
João Carlos Brum Torres
João Ubaldo Ribeiro
Joice Elias Costa
Jorge Coli
Jorge Machado
Jorio Dauster
José Lira
José Eduardo S. Lohner
José Veríssimo Teixeira da Matta
Josely Vianna Baptista
Juliana Saul
Juliano Olímpio dos Anjos
Julieta Sueldo Boedo
Julio Jeha
Lenita M. Rimoli Esteves
Leonardo Fróes
Letícia Braun
Lia Levy
Lina Cerejo
Lucas Angioni
Luciano Codato
Luís Dolhnikoff
Luiz Cardoso
Luiz Marques
Malu Campos
Mamede Jarouche
Marcelo Backes
Marcelo Cipolla
Márcio Suzuki
Marco Aurélio Werle
Marco Túlio de Barros e Castro
Marcos Siscar
Marcus Mazzari
Margarete de Toledo Ressurreição
Maria Augusta da Costa Vieira
Maria Clara Castellões
Maria Constança Pires Pissarra
Maria Cristina Pires Pereira
Maria de Lourdes Sette
Maria Helena Nery Garcez
Maria Rita Drumond Viana
Maria Teresa H. Fornaciari
Mariarosaria Fabris
Mário Miranda Filho
Mário Luiz Frungillo
Marion L. Pfeffer
Mauri Furlan
Maurício Ayer
Maurício Mendonça Cardozo
Maurício Santana Dias
Mauro Castelo Branco Moura
Mauro Pinheiro
Milton Genésio de Brito
Mônica Saddy Martins
Mônica Cristina Corrêa
Myriam Campello
Nancy Rozenchan
Olivia Niemeyer Santos
Osvaldo Pessoa Jr.
Otacílio Nunes
Pablo Ortellado
Patrícia Reuillard
Patrizia Collina Bastianetto
Paula Glenadel
Paula Aryana de Sena
Paulo Bezerra
Paulo Henriques Britto
Paulo Oliveira
Paulo Wengorski
Paulo Mariano Lopes
Pedro Dubois
Pedro Maciel
Pedro Maia Soares
Peterso Rissatti
Raquel Sallaberry Brião
Rejane Janowitzer
Renata C. Bottino
Renato Aguiar
Renato Janine Ribeiro
Ricardo Ferreira
Ricardo Terra
Roberto Gomes Camacho
Roberto Grey
Roberto Romano
Rogerio A. de Mello Basali
Rosa Freire d'Aguiar
Saulo Von Randow Jr.
Sebastião Carlos Leite Gonçalves
Selvino José Assmann
Sergio de Carvalho Pachá
Sérgio de Castro Pinto
Sergio J. Flaksman
Sheila Kurc
Silvia Oselka
Simone Revolti
Suzana Guimarães Castilho
Telma Miranda
Vera Ribeiro
Virna Teixeira
William Cassemiro

Com o apoio da ABRATES - Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes, e do SINTRA - Sindicato Nacional dos Tradutores

se concordar com o teor da proposta, por favor deixe seu comentário abaixo com nome e sobrenome, ou escreva para dbottmann@uol.com.br. obrigada.

obs.: o texto a ser distribuído aos participantes do III congresso apresenta a lista de assinantes que deram seu apoio até as 14 horas de 06/11, num total de 175 nomes. adesões posteriores serão incluídas normalmente aqui no blog.

12 de jun. de 2009

fala o combatente de primeira hora


Entrevista: Jorio Dauster, tradutor

Zero Hora — Denúncias de editoras que publicaram como suas traduções antigas com pequenas alterações cosméticas parecem ter se intensificado nos últimos anos. Para o senhor, episódios como esse mostram que a tradução ainda é pouco valorizada por uma fatia do mercado editorial?

Jorio Dauster — Considero uma vergonha o assalto sistemático que várias editoras fizeram e ainda fazem ao trabalho honesto de dezenas de tradutores, inclusive agindo como verdadeiros ladrões de sepulturas ao se apropriarem do trabalho de intelectuais já mortos. Esses prostíbulos editoriais não só transvestem versões antigas, em muitos casos copiam de cabo a rabo os textos de outrem, atribuindo-os a pessoas cujos nomes inventam com total descaramento. Tenho participado ativamente do movimento de protesto. Recomendo que os amantes da literatura consultem o site http://naogostodeplagio.blogspot.com para conhecer melhor a extensão desses assaltos e assim poder expulsar de suas estantes as traduções bastardas.

29 de jan. de 2009

jardim dos livros

reproduzo aqui as providências anunciadas pelo sr. luiz fernando emediato, responsável editorial do grupo geração, a respeito de a arte da guerra e o essencial do alcorão, títulos do selo jardim dos livros, do referido grupo.

Alertados pela fraude das traduções de livros da Jardim - e agora pelo renomado Jorio Dauster, que sempre admirei - mandamos avaliar as traduções.

Já identificamos os problemas e tomamos a decisão (já anunciada para a senhora) de determinar a nossos sócios que:

1. Retirem do mercado os livros "contaminados".
2. Providenciem novas traduções para os livros que valem a pena manter à disposição dos leitores.

Luiz Fernando Emediato

pedi ao sr. luiz fernando emediato uma estimativa de prazo. (isso porque, por exemplo, a martin claret sempre dizia que ia retirar de circulação seus plágios, e no fim acabava nunca tirando.) são casos muito diferentes, naturalmente, e a gente sempre torce pelo melhor.

26 de jan. de 2009

mais claro impossível

Denise,

Excelente sua resposta, clara e objetiva. Não resta dúvida de que, ao adquirir a Jardim dos Livros e continuar a publicar as obras que passaram a seu controle no bojo dessa operação, a Editora Geração passou a ser responsável pela distribuição do plágio da Arte da Guerra. Caso seus dirigentes não soubessem que a tradução era um miserável embuste, basta que reconheçam esse fato, suspendam imediatamente a venda da obra conspurcada e encomendem novo texto em português junto a um dos muitos bons tradutores que estão por aí – sem prejuízo de buscar reparação judicial junto aos que lhe venderam um produto tóxico.

Jorio Dauster

PS – Você está autorizada a publicar essa mensagem no blog.

1 de jan. de 2009

não gosto de plágio


quem mais não gosta de plágio:

abílio guerra
adriana lisboa
agenor soares dos santos
alba olmi
alberto da costa e silva
aldo dinucci
alessandra allegri
alexandre barbosa de souza
alice xavier
allison roberto
ana resende
ana rüsche
ana suzuki
ana carolina cunha lima
ana lúcia brandão
ana maria ramiro
ana miriam wuensch
ana paula alves ribeiro
anderson braga horta
andré gazola
andré medina carone
andré ripari
andrei soares
angela xavier de brito
anita di marco
ann charlotte barbosa
anna magdalena machado bracher
antivan mendes
artur neves teixeira
aurora bernardini
beatriz viégas-faria
bruno costa
bruno drago
carla hilst
carla kurrle
carlos angelo
carlos daghlian
carlos nelson coutinho
carmen zink bolognini
caroline chang
cássio de arantes leite
cecília campello
celina portocarrero
celso mauro paciornik
chrys chrystello
claudia martinelli gama (in memoriam)
cláudia berliner
cláudio daniel
cláudio murilo leal
cláudio willer
clicio barroso filho
cristian fernandes
daniel aço
danilo augusto
davi arrigucci jr.
desidério murcho
dilma machado
doralice lima
ebréia de castro alves
eduardo rivail ribeiro
eduardo sterzi
eide sandra azevedo abreu
eleonora guimarães bottmann
elyzabeth thompson
emiliano unzer macedo
erick ramalho
ernando cabral
etelmiro castilho
eugênio vinci de moraes
euler frança belém
everardo norões
fábio fernandes
fal azevedo
fátima vasco
fátima aparecida de oliveira abbate
federico carotti
felipe melo rezende
flávia nascimento
flavio deny steffen
francis h. aubert
francisco araújo da costa
francisco césar manhães monteiro
francisco foot hardman
galeno amorim
gabriel perissé
geraldo holanda cavalcanti
giovani iemini
guilherme solari
haroldo cantanhede
helena londres
heloísa gonçalves barbosa
heloísa jahn
heloísa mafra ferdinandt
heloísa velloso
hélio de mello filho
ivan cortez
ivo barroso
ivone c. benedetti
jacqueline prates rocha
james emanuel albuquerque
janaína castilho marcoantonio
janaína pietroluongo
jean cristtus portela
joana canêdo
joão esteves alves
joão roque dias
joão paulo monteiro
joão tomaz parreira
joão ângelo oliva neto
joice elias costa
jorge coli
jorge furtado
jorio dauster
josé lira
josé antônio arantes
josé augusto drummond
josé roberto balestra
josé veríssimo teixeira da matta
josely vianna baptista
julián fuks
juliana saul
julieta sueldo boedo
jussara simões
lai pereira
laura barreto
leda tenório da motta
lenita rimoli esteves
leo gonçalves
leonardo fróes
letícia braun
letícia rodrigues
lina cerejo
lívia gomes
lívio oliveira
lucas petry bender
lucia singer
luciano codato
luis dolhnikoff
luiz costa lima
luma rosa
lylian coltrinari
mamede jarouche
marcelle warth
marcelo backes
marcelo villela gusmão
marcelo jacques de moraes
marco haurélio
marco lucchesi
marco aurélio antunes gondim
marco túlio de barros e castro
marcos siscar
marcus mazzari
maria betânia amoroso
maria constança pires pissarra
maria cristina pires pereira
maria de lourdes sette
maria helena nery garcez
mário luiz frungillo
marion luiza pfeffer
martha gouveia da cruz
mauri furlan
mauro gama
mauro pinheiro
maurício ayer
maurício mendonça cardozo
maurício santana dias
milton ribeiro
moacyr scliar
myriam campello
natalício barroso
nelson goro
nythamar fernandes de oliveira
olívia niemeyer
oséias silas ferraz
pablo vilela
patrícia reuillard
paula aryana de sena
paulo bezerra
paulo henriques britto
paulo wengorski
pedro du bois
pedro maciel
pedro reis
peterso rissatti
priscila manhães
priscila santos
rafael cavalcanti
rafael mantovani
raimundo moura
raquel sallaberry
rejane janowitzer
renata bottino
renata faria
renato aguiar
renato pontual
ricardo ferreira
ricardo terra
rico s. correa
robert ewing finnegan
roberto gomes
roberto rangel
rogério bettoni
rosa freire d'aguiar
salma tannus muchail
sandra biondo
sarah rebecca kersley
saulo von randow jr.
sávio resende
sérgio bath
sergio flaksman
sérgio freire
sérgio pachá
sheyla barretto de carvalho
solange ribeiro de oliveira
suellen pareico
tatiana miranda
thereza christina motta
thiago cardoso
tiago pavan
vera pereira
vera ribeiro
virna teixeira
wellington vinnícius fochetto jr.
wladir dupont
ygor goulart
zahidé lupinacci muzart

veja outras mensagens em pela memória e pela história.

imagem: matisse, vigne, maglm fr, flickr

20 de dez. de 2008

20/12

imagem: calder, dtarpennation, flickr


hoje faz um ano que foi criado o assinado-tradutores. por razões que não vêm ao caso, afastei-me dele uns três meses atrás, e há cerca de dois meses ele fechou seu acesso ao público.

mas hoje não é disso que quero falar. acho bonito e importante lembrar as coisas: enquanto elas existem, a gente trabalha, cuida, vai fazendo, vai acompanhando - isso com tudo na vida, a meu ver. quando elas deixam de existir, não podem ser esquecidas.

então quero registrar aqui meu respeito pelo trabalho, atenção e cuidado que tantas pessoas dedicaram à luta contra o plágio naquele fórum. desde os quase 560 signatários do abaixo-assinado contra as fraudes editoriais, as centenas de apoios recebidos, o administrador fábio said, até as várias pessoas que se envolveram no trabalho concreto e diário na defesa de nosso patrimônio literário e cultural: saulo randow jr., ivo barroso, robert finnegan, mônica martins, jorio dauster, federico carotti, mauro gama e outros mais, pesquisando, cotejando, divulgando, amarrando contatos, angariando apoios, ligando, escrevendo, dando depoimentos na imprensa, correndo atrás das coisas.

foi de fato um trabalho coletivo num blog coletivo em prol de uma causa coletiva.

e foi digno enquanto durou, que é o que importa!

29 de out. de 2008

é, então...

quem não gosta de plágio talvez se interesse em saber a quantas anda a posição da suzano celulose e de sua ong, instituto ecofuturo.

como todos devem saber, aquela famosa delinquência da nova cultural, editora de propriedade do sr. richard civita, que foi executada sob a coordenação editorial da sra. janice florido, a tal coleção obras-primas 2002-2003, foi feita em parceria com a tal ong da suzano.

foi o maior perequetê na época, janice da nova cultural para cá, christine fontelles da ecofuturo para lá, todos alardeando que coisa maravilhosa era aquela tal coleção para a cultura nacional e a democratização do livro, e que 1% do faturamento das vendas da coleção iria para a campanha "ler é preciso" da tal ong e assim por diante. a maior autopropaganda, mas até aí tudo bem.

faz cerca de um mês, liguei para o ecofuturo e falei, "mas, ué, gente, a suzano é uma potência, fica pegando o dinheiro dessas fraudes da coleção obras-primas para a ong de vocês, vocês não precisam desse dinheiro escuso, o josé mindlin que é padrinho dessa iniciativa deu seu apoio à campanha contra os plágios, até que ponto vai a transparência de vocês, como é que fica tudo isso?".

me passaram para um, me passaram para outro, bom, afinal dei meu recado.

e aí pediram um tempinho "de silêncio" [sic] para ver como é que ficava.

bom, passado um mês ou quase, achei que já era tempinho suficiente. e aí volto à carga: "mas e aí, dona fulana de tal, afinal a ecofuturo e a suzano já tomaram posição? como é que vai ficar?", aquela coisa toda.

me disseram (repito, me disseram, não sei se é verdade, estou apenas repassando o que tive como resposta) que afinal demoraram um pouco, porque o ecofuturo tem uma equipe pequena para projetos nacionais grandes etc., e só nesses dias é que conseguiram ver o assunto, e que o jurídico deles já tinha uma posição e que iriam informar a direção lá deles e que eu ficasse tranqüila porque me manteriam a par. (!!!)

bom, tirando o ar um tanto condescendente da dona christine fontelles, se a gente levar em conta que a suzano celulose está envolvida até o pescoço nessas irregularidades da nova cultural, quero crer que quem sabe o instituto ecofuturo vai dar uma olhadinha melhor nessas verbas suspeitas que andou botando no bolso, nesses montes de "prêmios" que andou distribuindo brasil afora em seus concursos de redação na rede pública de ensino, a saber, toda aquela mixórdia envolvendo um monte de obras fraudadas, plagiadas, aquela saga medonha do livro no brasil em plena barbárie de "violação de sepulcros", como disse jorio dauster.

pois é, dona ecofuturo, ponha a mão na consciência direitinho, e diga lá se é bonito isso o que a sra. andou fazendo.

então vamos defender a cultura, e nós - eu, denise bottmann, em meu nome pessoal como humilde cidadã brasileira, e mais muita gente de bem que não gosta de plágio nem de falcatrua - esperamos que a suzano venha a público (tal como veio a público se pavonear uns anos atrás), mas agora para reconhecer ou que estava ciente e concordou com o sr. richard civita em meter a mão no bolso do consumidor brasileiro, e ainda por cima quis posar de boazinha, ou que entrou numa fria e vai tomar as devidas providências em relação à nova cultural e vai proceder à limpa desse lixo incultural que ela e a nova cultural espalharam pelo país afora.

30 de set. de 2008

o globo: "muito em comum"

com a gentil autorização do jornal o globo, transcrevo a matéria publicada em 19/04/2008 no caderno prosa & verso, de autoria de miguel conde.

Muito em comum
Tradutores brasileiros denunciam plágios em série e organizam movimento de protesto
Miguel Conde

O que leva uma editora a plagiar traduções que ela mesma já havia publicado, substituindo em seus livros o nome de tradutores famosos pelo de pessoas desconhecidas, que além de não servirem como chamariz para os leitores em alguns casos parecem nem mesmo existir? É difícil de entender, mas é o que fez repetidas vezes nos últimos anos a editora paulista Nova Cultural.

De 1995 a 2002, a empresa publicou 22 títulos que, na opinião de especialistas, são plágios de traduções que integravam o catálogo da Abril Cultural, do qual a Nova Cultural é herdeira. Em 2002, eles foram reunidos na popular coleção Obras Primas, impressos em tiragens iniciais de 60 mil exemplares, bem acima da média nacional, e vendidos em bancas de jornal.

A primeira denúncia de plágio num livro da coleção (“Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand) foi feita em 2002 por Ivo Barroso. No ano passado, surgiram novos casos: o tradutor Saulo von Randow Júnior afirmou que a tradução de “Ivanhoé”, de Walter Scott, era plagiada, e o jornal “Folha de S. Paulo” denunciou as traduções dos “Contos”, de Voltaire, e de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert. Mas uma série de cotejos feitos nos últimos meses por Denise Bottmann — tradutora de clássicos como “Comunidades imaginadas” (Companhia das Letras), de Benedict Anderson e “Piero de La Francesca” (Cosacnaify), de Roberto Longhi — e um grupo de profissionais da área indica que a extensão das fraudes é muito maior, a ponto de fazer deste o maior caso conhecido de plágios de traduções na indústria editorial brasileira. Ela chama a troca de créditos de “escárnio”:

— A Nova Cultural está tripudiando uma herança construída pelo esforço de toda uma geração, está adulterando a história do país. É um grande escárnio, uma grande fraude.

Divulgando a história no blog http://assinado-tradutores.blogspot.com/, Denise organizou um abaixo-assinado em repúdio a plágios e pela valorização do ofício de tradutor no Brasil, que já recebeu adesão de mais de 300 profissionais, entre eles Lia Wyler, Ivo Barroso, Jorio Dauster, Paulo Franchetti e Geraldo Holanda Cavalcanti.

Procurada em fevereiro, a Nova Cultural disse que a apuração do episódio seria concluída em um mês. Na quinta-feira, num fax assinado pelo assessor da diretoria Shozi Ikeda, a editora afirmou: “Em setembro de 2007, um Editor da Nova Cultural ao consultar algumas das obras da coleção Obras Primas, notou diferenças na coleção feita em 2002 contra a obra publicada em 1978. Quando colocado o problema para a Diretoria, esta, de imediato, instruiu que fosse feita uma averiguação minuciosa”.

A Nova Cultural afirmou que está tratando o problema com os detentores de direitos das traduções (nos anos 1970, a Abril Cultural fez acordos para publicar traduções lançadas originalmente por outras empresas), e que “determinou a retirada de circulação e venda” de todas obras sobre as quais houvesse suspeita. A editora disse ainda que a equipe responsável pela coleção Obras Primas não trabalha mais lá, e por isso “não existe forma de determinar quais as falhas” que provocaram os problemas.

Continua nas páginas 2 e 3

Caderno: Prosa & Verso

OBRAS SOB SUSPEITA
“A DIVINA COMÉDIA”, Dante: Tradução de Fábio Alberti seria de Hernâni Donato.
“CRIME E CASTIGO”, Dostoiévski: Trad. sem crédito seria de Natália Nunes.
“CYRANO DE BERGERAC”, Edmond Rostand: Trad. de F. Alberti seria de Porto Carreiro.
“O VERMELHO E O NEGRO”, Stendhal: Trad. de Mª da Silva seria de Luiz Costa Lima.
“MADAME BOVARY”, Flaubert: Trad. de Enrico Corvisieri seria de Araújo Nabuco.
“ANA KARÊNINA”, de Tolstói: Trad. de Mirtes Coscodai seria de João Gaspar Simões.
“O LEOPARDO”, de Lampedusa: Trad. de Leonardo Codignoto seria de Rui Cabeçadas.
“FAUSTO” E “WERTHER”, Goethe: Trads. de Alberto Maximiliano seriam de Silvio Meira e Galeão Coutinho.
“CONTOS”, Voltaire: Trad. de Roberto Domenico Proença seria de Mário Quintana.
“O MORRO DOS VENTOS UIVANTES”, Emily Brontë: Trad. de Silvana Laplace seria de Oscar Mendes.
“O FALECIDO MATTIA PASCAL” E “SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR”, Pirandello: Trads. de Fernando Corrêa Fonseca seriam de Mário da Silva, Brutus Pedreira e Elvira Ricci.
“TOM JONES”, Fielding: Trad. de Jorge Pádua Conceição seria de Octavio Cajado.
“NANÁ”, Zola: Trad. de Roberto Valeriano seria de Eugênio Vieira.
“O RETRADO DE DORIAN GRAY”, Wilde: Trad. de E. Corvisieri seria de Oscar Mendes.
“A MULHER DE 30ANOS”, Balzac: Trad. de Gisele Soares seria de José Maria Machado.
“OS TRÊS MOSQUETEIROS”, Dumas: Trad. de M. Coscodai seria de Octavio Cajado.
“LORD JIM”, Conrad: Trad. de Carmen Lomonaco seria de Mário Quintana.
“UMA VIDA”, Maupassant: Trad. de Roberto Proença seria de Ascendino Leite.
“SUAVE É A NOITE”, Scott Fitzgerald: Trad. de E. Corvisieri seria de Lígia Junqueira.
“IVANHOÉ”, Walter Scott: Trad. de Roberto Whitaker seria de Brenno Silveira.


Livros têm páginas idênticas e mesmos erros

Para especialistas, fraude é única explicação possível; nomes de supostos tradutores podem ter sido inventados
A coordenadora editorial da coleção Obras Primas era Janice Florido, hoje na Ediouro. Ela diz que não se lembra quem era o encarregado de negociar os direitos de tradução. O editor da coleção, Eliel Silveira Cunha, hoje na Miro Editorial, diz que nunca lidou com isso, nem sabia quem era o responsável. A outra editora, Fernanda Cardoso, não foi localizada pelo GLOBO.

No entanto, e apesar do que sugere a resposta da Nova Cultural, as trocas nos créditos das traduções são anteriores à coleção, afirma Denise Bottmann. Começaram a acontecer em 1995, sete anos antes de ela ser lançada. Na época, a Abril Cultural já tinha deixado de existir e os livros eram editados pela Nova Cultural, parte do grupo CLC, controlado por Richard Civita (ele e seu irmão, Roberto, dividiram a herança editorial deixada pelo pai dos dois, Victor).

Os primeiros títulos afetados, apontam as comparações, foram “Suave é a noite”, de F. Scott Fitzgerald; “A mulher de trinta anos”, de Balzac; “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde; “Ana Karênina”, de Tolstói; e “Os irmãos Karamazóvi”, de Dostoiévski. Como nas outras trocas de crédito, nomes de intelectuais importantes foram substituídos pelos de pessoas desconhecidas: Lígia Junqueira por Enrico Corvisieri; José Maria Machado pelo mesmo Enrico Corvisieri, depois substituído em 2002 por Gisele Donat Soares; Oscar Mendes por Maria Cristina F. da Silva; João Gaspar Simões por Mirtes Ugeda Coscodai; Natália Nunes e Oscar Mendes por (mais uma vez) Enrico Corvisieri.

Pequenas alterações em alguns trechos
Em alguns casos, como em “O retrato de Dorian Gray”, até os erros das traduções anteriores são reproduzidos. “Suit of armor”, ou “um jogo completo de armadura”, foi traduzido por Oscar Mendes por “coleção de armaduras”. Em outro exemplo, “exquisite life” vira “vida estranha”, quando o correto seria bela, maravilhosa, refinada. Ambos equívocos, entre outros, são repetidos na tradução atribuída a Maria Cristina F. da Silva.

— O que foi feito é uma apropriação indébita, é quase o equivalente a roubar uma sepultura. O mais chocante é que não foi uma coisa ocasional, era uma política editorial — diz Jorio Dauster, tradutor de Vladimir Nabokov e J.D. Salinger, entre outros.

Os cotejos mostram páginas e páginas com textos idênticos, às vezes com troca de algumas palavras por sinônimos, como é o caso do trecho de “A mulher de trinta anos”, de Balzac, reproduzido na primeira página deste caderno. A possibilidade de que tradutores diferentes cheguem a soluções idênticas com tanta freqüência é descartada por profissionais da área como Ivo Barroso:

— São casos incontestáveis, com repetições extensas demais para serem coincidências. Na poesia isso é especialmente claro, porque há questões como a escolha do adjetivo, da colocação do verbo, do ritmo, da sinonímia, que já tornam difícil que dois tradutores traduzam dois versos seguidos da mesma forma. Quando você encontra então 160 versos iguais, não tem como não ter certeza. O que fizeram é insuportável: apagaram os nomes de tradutores com uma história, uma identidade tradutória, para botar no lugar os de uns quaisquer.

Pessoas desconhecidas no meio literário, Enrico Corvisieri, Leonardo Codignoto, Vera M. Renoldi, Fábio M. Alberti e outros supostos autores das traduções da Nova Cultural são elogiados em páginas da internet pela qualidade do seu trabalho. Quem quiser transmitir os cumprimentos diretamente a eles, porém, terá dificuldades. Buscas na internet mostram apenas referências às traduções, e os nomes não constam da lista telefônica.

Ainda mais intrigante é a identidade por trás de Calvin Carruthers, creditado como tradutor de “A metamorfose”, de Franz Kafka. Calvin Carruthers é o nome de um personagem representado por Vic Tayback no filme “Horror, blood and lace”. O último filme em que Tayback atuou foi “Horseplayer”, de Kurt Voss, no qual ele representou um personagem chamado Gregor Samsa — nome do protagonista de “A metamorfose”. Não há nenhum cotejo, porém, que indique se essa tradução é um plágio, ou se Carruthers foi apenas um pseudônimo escolhido por um tradutor real.

Nos últimos anos, a editora Martin Claret também foi alvo de denúncias de plágio. Seu catálogo, composto principalmente por obras em domínio público, atribui a Pietro Nassetti traduções de Marx, Descartes, Rousseau, Nietzsche, Weber, Shakespeare, Kafka, Platão, Maupassant, Doistoiévski, Goethe, Baudelaire, Sun-Tzu, Aristóteles, Durkheim, Schopenhauer, Ovídio, Maquiavel, Eurípides, Esopo e Voltaire, entre outros. A Objetiva está negociando a compra de parte da editora.

NOS TEXTOS, A ABERTURA DO BRASIL PARA O MUNDO

Heloisa Gonçalves Barbosa

As primeiras traduções efetuadas no Brasil, como se poderia esperar, foram de textos religiosos vertidos pelos jesuítas, do português ou do latim, para a língua mais falada na época pelos índios na costa do Brasil, o tupi, ou sua versão adaptada pelos padres, a língua geral. Com a proibição do uso desse idioma pelo Marquês de Pombal em 1759, a expulsão dos jesuítas e a imposição do uso do português como língua de instrução no Brasil, declina e cessa a produção textual em língua geral.

Mas, devido à proibição de qualquer manufatura, ou seja, da existência e operação de qualquer maquinário no Brasil colônia, nada era produzido aqui, inclusive o papel e, conseqüentemente, o livro. Existiram, porém, traduções “piratas”, feitas por intelectuais brasileiros, muitas vezes reproduzidas manualmente, que circulavam às escondidas, como ocorreu com os textos que influenciaram a Inconfidência Mineira. Houve, no século XVIII, um projeto de tradução e publicação de obras científicas e técnicas, bem como foram traduzidos, em iniciativas isoladas, tratados religiosos, morais e filosóficos, assim como algumas biografias.

É com a chegada da família real ao Brasil em 1808 e a fundação da Imprensa Régia que verdadeiramente se inicia a produção de traduções das grandes obras literárias no Brasil. Como é consenso entre pesquisadores e historiadores na área de tradução, as nações em formação traduzem e traduzem muito. Essas traduções importam gêneros inexistentes na literatura que os recebe, de preencher lacunas. À infante literatura brasileira faltava praticamente tudo. E foi por meio das traduções que se realizou sua aproximação com a cultura ocidental.

No entanto, num primeiro momento, as traduções publicadas pela Imprensa Régia não tinham como objeto ainda as grandes obras literárias, mas visavam preencher lacunas mais básicas, ou seja, fundamentar os conhecimentos técnicos necessários para construir o país em formação. Desta forma, os primeiros livros impressos foram traduções de textos de matemática e engenharia que viriam a auxiliar nesse propósito. A primeira obra literária traduzida e publicada pela companhia foi o “Essay on Criticism” (Ensaio sobre a crítica) do pensador e poeta inglês Alexander Pope.

No século XIX, porém, o custo do papel, no Brasil, era elevadíssimo, o que fazia com que os editores brasileiros precisassem importar e mesmo contrabandear esse insumo. Uma conseqüência dessa situação, pouco conhecida dos brasileiros, é que a maioria dos autores nacionais do período, entre eles Machado de Assis e José de Alencar, teve seus livros impressos primeiro em Portugal, Inglaterra ou França, depois enviados ao Brasil. O mesmo ocorria com as traduções de obras literárias, que eram produzidas em Paris para serem despachadas para o Brasil.

Essas traduções eram, na maioria, o que se convencionou chamar “traduções indiretas”: não eram feitas a partir do texto no idioma original, mas de uma versão para um idioma mais conhecido no Brasil, principalmente o francês, ou mesmo cotejando-se várias traduções para as línguas latinas, mais acessíveis para nós. É o caso das traduções do alemão, por exemplo, “A metamorfose”, de Kafka, ou de vários autores russos, como Dostoiévski, Tolstói, Gogol.

Foi somente após a Primeira Guerra que casas editoriais foram inauguradas em grande número no Brasil. Na década de 1930, Getúlio Vargas incentivou essas empresas, o que as fez quase dobrar em quantidade. Na era pós-Vargas, porém, esse tipo de empreendimento entra em declínio novamente. Grandes editoras sobreviveram, no entanto, podendo-se nomear, por exemplo, a Editora Globo, a José Olympio e a Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato. Em seguida, associações com o capital estrangeiro possibilitaram a abertura e a sobrevivência de muitas outras empresas do ramo livreiro no Brasil.

Essas casas preocuparam-se em trazer para o leitor brasileiro desde as grandes obras da literatura universal, ou detentores do prêmio Nobel, até histórias de detetives e romances de aventura. Para realizar as traduções, foram contratados intelectuais e autores de peso, dentre eles Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Monteiro Lobato, Mário Quintana, Sérgio Milliet e Clarice Lispector.

A partir da segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, porém, a principal influência cultural no Brasil, que era francesa, passa a ser americana e o fenômeno observado é a intensa tradução do best-seller americano, ao lado dos livros de auto-ajuda e das biografias dos famosos. A própria coleção de obras-primas da literatura, da Nova Cultural, mostra um peso maior dos textos traduzidos do inglês. Compõem boa parte da coleção traduções feitas ainda no período em que eram escritores e críticos literários os convidados a produzir traduções, algumas delas excelentes, feitas, muitas vezes, a custa de enormes esforços pessoais. A importância desse tipo de empreendimento, para um país como o nosso, às margens da cultura ocidental é, naturalmente, o de reunir e trazer ao público brasileiro esse acervo cultural da humanidade.

Para cumprir essa missão, uma vez vencida a questão material, do custo do papel, as empresas do ramo livreiro no Brasil ainda precisam vencer outros problemas nacionais que dificultam o acesso da população ao livro. O principal deles é a distribuição: como fazer o livro chegar ao público e chegar a ele com preços acessíveis? Em um país onde há cidades com várias farmácias, mas sem nenhuma livraria, o livro precisa ser levado ao leitor pelo supermercado, pelo jornaleiro. E em edições mais baratas, em formatos semelhantes ao livro de bolso americano. É essa necessidade que favorece a reedição de velhas traduções de textos antigos, já no domínio público: o fato de ser desnecessário o pagamento de direitos autorais barateia o produto.

Hoje, porém, busca-se uma aproximação maior do original. Há uma profissionalização do tradutor, em escolas de formação em nível de graduação e pós-graduação, bem como há intensa pesquisa na área no país. Isso permite que sejam feitas “re-traduções” das obras canônicas, aquelas que freqüentam as listas de livros que todos devem ler, responsáveis pela formação do gosto literário no mundo ocidental, agora diretamente do texto original completo, as traduções chamadas “diretas”. Um exemplo importante são as traduções dos grandes romances russos, cujos re-tradutores são literatos, acadêmicos e pesquisadores tais como Paulo Bezerra e Boris Schneiderman.

Atualmente, como bem se sabe, 80% do que é publicado no Brasil são traduções. Apesar disso, é difícil ter uma exata dimensão da verdadeira contribuição da tradução para a literatura brasileira. Desde o século XIX, tão avassaladora é a invasão de textos traduzidos que o próprio Machado de Assis se preocupava com a influência dos romances-folhetim franceses, tal como “Os três mosqueteiros” (1844), de Alexandre Dumas, pai, e “A dama das camélias” (1848), de Alexandre Dumas Filho, cuja influência se faz sentir, por exemplo, nos romances “Lucíola” e “Senhora”, de José de Alencar.

Vários teóricos da tradução acreditam que a evolução da literatura mundial se deve à tradução e que, logicamente, não pode haver literatura comparada sem traduções — e sem tradutores, cujos nomes devem ser mencionados na obra publicada por força de lei, a Lei dos Direitos Autorais.

HELOISA GONÇALVES BARBOSA é tradutora e Ph.D. em teoria da tradução pela Universidade de Warwick, Inglaterra; professora da Faculdade de Letras da UFRJ e ex-presidente do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA)

Em blogs e e-mails, a classe em pé de guerra

Tradutores reagem a plágios, cobram menção de créditos, e em alguns casos querem receber direitos autorais
Notícias de plágios de tradução na Nova Cultural e na editora Martin Claret fizeram com que os tradutores iniciassem uma campanha de valorização da profissão. Bem à moda dos tempos atuais, é uma militância que tem sido exercida por meio de blogs e e-mails. Além de fazerem cotejos de traduções em páginas da internet, eles organizaram um abaixo-assinado com mais de 300 adesões e têm enviado mensagens a suplementos culturais reclamando sempre que uma reportagem ou artigo deixa de mencionar o nome do tradutor de um livro. O movimento se articula em torno do blog http://assinado-tradutores.blogspot.com/.

Nos momentos de maior arroubo das conversas virtuais, há quem sugira que a inclusão do nome do tradutor nas capas dos livros deveria ser obrigatória. Outros defendem que o tradutor, como o autor, tenha uma participação nas vendas do livro. Até agora, porém, a luta não saiu do plano virtual. A tradutora Denise Bottmann, uma das organizadoras desse movimento, diz que falta dinheiro para levar a causa aos tribunais.

— Estamos esperando que algum escritório de advocacia se interesse e encampe essa luta contra os plágios — diz ela, sem endossar as reivindicações mais extremas. — Essa é nossa luta principal. Como ação correlata, temos uma série de pessoas enviando mensagens à imprensa e a editoras universitárias pedindo que em toda menção a um livro traduzido seja incluído o nome do tradutor.

Editor elogia iniciativa, mas vê exageros

Paulo Franchetti, que foi tradutor e hoje dirige a editora da Unicamp, diz que a campanha contra os plágios é uma questão de justiça intelectual, mas afirma que no bojo da discussão têm ocorrido exageros.
— Surgiu uma campanha pelo destaque absoluto do nome do tradutor, o que também não é o caso. O que tem que ter é a garantia de um registro explícito, como também devem ter o capista, o autor do projeto gráfico, os revisores. Um livro é uma produção coletiva — diz.

O crítico Luiz Costa Lima, cuja tradução de “O vermelho e o negro”, de Stendhal, está entre as que teriam sido plagiadas pela Nova Cultural, diz que a mobilização dos tradutores foi o resultado mais importante do caso até agora.
— O que me parece importante não é simplesmente o caso em si, mas a situação extremamente precária da tradução neste país — afirma.

Um tradutor ocasional, que se dedica ao ofício movido pelo interesse por obras específicas, Costa Lima reclama da remuneração recebida pelos tradutores brasileiros.
— Num país em que encontrar um bom leitor da própria língua, o português, já não é fácil, a tradução assume uma importância fundamental. Apesar disso, ela continua sendo entre nós uma atividade extremamente mal paga. Se nós temos traduções de qualidade, não é porque as editoras paguem bem, mas porque há tradutores que se interessam especialmente por determinados livros — diz.

O Sindicato Nacional de Tradutores (Sintra) estabelece um piso de R$24 por lauda traduzida, mas a própria diretora da entidade, Elyzabeth Thompson, admite que muitas editoras pagam menos do que isso. Embora poucas empresas respeitem a tabela, o pagamento pode aumentar em função da reputação do tradutor, da dificuldade do trabalho, ou da língua de origem da obra.

Um dos principais especialistas em tradução financeira no Brasil, Danilo Nogueira acredita que o resultado da baixa remuneração é que os melhores profissionais acabam desistindo de traduzir livros.
— Eu não traduzo livros porque não dá dinheiro, é muito difícil viver do que pagam as editoras. As pessoas que trabalham com livro são jornalistas, escritores, professores que traduzem nas horas vagas. O Antonio Houaiss traduziu o “Ulisses” de Joyce recebendo um salário mínimo por mês. É um esporte, não é uma profissão. Em outras áreas da tradução, por contraste, as pessoas são muito bem pagas. A diferença chega a dez para um — afirma.

Para Modesto Carone, situação tem melhorado

O pagamento de direitos autorais a tradutores é defendido por alguns profissionais como uma forma de aumentar a remuneração e, em conseqüência, garantir que os trabalhos possam ser feitos com mais tempo (e, espera-se, qualidade). Sergio Flaksman, tradutor de Truman Capote e George Orwell, entre outros, diz que as editoras têm se mostrado mais receptivas a esse tipo de acordo:
— A baixa remuneração faz com que a média da tradução no Brasil hoje não seja satisfatória. Isso obriga as editoras a investir muito em controle de qualidade, às vezes com até três revisões da tradução. Seria não apenas melhor, mas também mais justo, que o tradutor recebesse uma parcela de direitos autorais. Afinal, é um trabalho que em boa medida é de criação, e que deveria ser contemplado de acordo.

O presidente do Sindicado Nacional dos Editores de Livros (Snel), Paulo Rocco, discorda das críticas dos tradutores, e questiona a idéia de pagamento de direitos autorais.
— Hoje temos traduções muito boas no Brasil, uma situação muito melhor do que a de décadas atrás. Os tradutores estão sendo mais valorizados. Agora, o pagamento de percentual sobre as vendas do livro é injusto. Às vezes o tradutor tem um trabalhão com um livro enorme que não vende nada, e às vezes um outro faz um livro fácil, pequeno, que vende à beça.

Apesar da discordância quanto aos direitos autorais, Flaksman concorda que os editores têm valorizado o trabalho de tradução, o que para ele se percebe no aumento do número de traduções feitas diretamente da língua de origem. Modesto Carone, maior tradutor de Kafka no Brasil, também acha que a situação tem melhorado:
— Há uma consciência maior da importância de um bom trabalho. Antes, nem se tomava conhecimento de quem tinha feito a tradução. Esse não é mais o caso.


UMBERTO ECO E A TAREFA DE INTERPRETAR CONTEXTOS

Autor analisa as dificuldades da tradução

Quase a mesma coisa, de Umberto Eco. Tradução de Eliana Aguiar. Revisão técnica de Raffaella de Fillipis Quental. Editora Record, 458 pgs. R$50

Daniel Estill

O tradutor Danilo Nogueira, especializado na área financeira, costuma dizer que “traduzir é fácil, difícil é traduzir direito”. Partindo de pressuposto semelhante, Umberto Eco, no primeiro capítulo de seu “Quase a mesma coisa”, amplo livro sobre as dificuldades da tradução, fala sobre essa suposta facilidade ao analisar as traduções feitas pelo Altavista. Ele submete o sistema automático de tradução gratuito disponível pela internet a uma tarefa cruel: a tradução do trecho inicial do Gênesis, retirado da versão inglesa da Bíblia de King James.

Eco tortura a máquina de traduzir obrigando-a a passar o trecho do inglês para o espanhol e para o alemão, e depois de volta ao inglês. Os resultados são todos altamente discutíveis, mas o fato é que o programa traduz e um leitor minimamente informado reconhecerá aquilo como o Gênesis.

O exercício, no entanto, não pretende humilhar a máquina ou seus criadores, mas sim exemplificar uma noção corrente, e simplória, de que traduzir significa apenas encontrar o vocábulo equivalente a uma palavra de um determinado idioma em outro. Mas como sabe qualquer estudante das centenas de cursos de tradução que vêm proliferando pelo mundo nas últimas décadas, um tradutor profissional não traduz palavras, mas textos. E ao falarmos em textos, sejam eles de que área for, literários, financeiros, médicos, não há como escapar do conceito maior em que estão inseridos, ou seja, seus contextos. Para um tradutor, o contexto é tudo, mas para uma máquina ele praticamente inexiste.

O livro de Eco analisa os mais variados aspectos da tradução em profundidade. Apesar de sua limitada experiência como tradutor de fato, restrita a “dois livros de grande empenho”, “Exercices de style”, de Queneau, e “Sylvie”, de Gérard de Nerval, o autor argumenta que, ao longo de sua vasta experiência editorial, revisou muitas traduções alheias, além de participar ativamente do processo de tradução de suas obras, em estreita colaboração com os tradutores.

Isso, segundo ele, permite-lhe falar com conhecimento de causa sobre questões-chave da tradução, como a noção de fidelidade ao original ou sobre o seu grande achado: o tradutor como negociador. Uma negociação que implica considerar a situação em que o original foi produzido e sua finalidade, e como manter seu efeito no idioma de destino.

Nessas negociações, há que se considerar aspectos formais (ritmo, registro, vocabulário), época e situação histórica em que o texto foi produzido, os leitores do original e os leitores da tradução. Situações intraduzíveis, que Eco considera como “perdas irremediáveis”, podem ser compensadas em momentos posteriores, graças a um exercício de criatividade do tradutor, adicionando um toque de humor, um trocadilho, a um trecho em que isso não existia.

O livro ajuda a compreender a tradução como um dos fenômenos mais antigos, complexos e essenciais da história da Humanidade. E que hoje ganha cada vez mais visibilidade e importância pelo crescimento e diversificação dos meios de comunicação e interação entre os povos. Para finalizar, vale mencionar a segurança do texto em português da tradutora Eliana Aguiar e da revisora técnica, Raffaella de Fillippis Quental. Principalmente pela pesquisa de traduções em português não incluídas pelo autor, que utiliza exemplos em inglês, alemão, espanhol e italiano, predominantemente. Na ausência de traduções disponíveis, a própria tradutora encarregou-se da tarefa. Um ato de correção e respeito editorial.

DANIEL ESTILL é tradutor, jornalista e mestre em teoria literária pela USP

© 2001 Todos os direitos reservados à Agência O Globo

8 de abr. de 2008

amor à vida, anelo pela morte, desespero no meio-tempo


entre vários livros de absoluta paixão, a volta (ou a outra volta) do parafuso e apanhador em campo de centeio ocupam um lugar de bem razoável destaque.
todavia, implicante como sou, nunca gostei muito dos títulos, chegando ao cúmulo de colocar uma nota de tradutor (a qual foi publicada! - embora, sorry, não lembre onde) dizendo que the turn of the screw estava à espera de um bom título em português.
a Santa Pórcia dos Metidos e Desavisados me poupou desse gesto de arrogância quanto ao meu engasgo com apanhador em campo de centeio, e hoje choveu a chuva da misericórdia sobre o pecador oculto. embora, como menina repreendida que nunca engole bem as razões do certo, ainda mantenha minhas dúvidas sobre a fortíssima conotação de ébrio desespero brutal dos sentidos embutida em "in the rye", dou a mão relutante à palmatória.

obrigada, amigo!


DE QUE VALE UM TÍTULO?“... fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”
Ninguém que tenha lido a obra-prima de J.D.Salinger poderá se esquecer da cena em que Holden, tarde da noite, resolve visitar a irmã, entrando sorrateiramente no apartamento para que seus pais não o vejam. Por sorte, eles haviam saído e Holden tem uma longa conversa com Phoebe, que não demora a descobrir que ele havia sido expulso da escola, reprovado em todas as matérias com exceção de inglês. Com a sensatez imbatível das meninas de dez anos de idade, a irmã o acusa de não gostar de nada e, tendo Holden a duras penas conseguido dizer que gostava do Allie (um irmão já morto) e de estar ali conversando com ela, Phoebe exige que ele diga o que gostaria de ser quando crescesse.

A resposta reproduzida acima, além de típica do estilo coloquial empregado com tanto êxito por Salinger para caracterizar o rapazote de dezesseis anos, sintetiza os dois traços centrais do personagem: sua recusa em aceitar o jogo dos adultos, representada pela escolha estapafúrdia do que faria ao crescer, e o amor ao próximo, aqui simbolizado pela preocupação em evitar que as crianças caiam no abismo (mas também presente mesmo no último parágrafo do livro, quando Holden diz sentir saudades até das pessoas que lhe fizeram mal). Nesse sentido, nada mais justo que Salinger retirasse de tal passagem o título de seu livro.

Muito justo, sem dúvida, mas se ponha na pele de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e eu, já lá vão quarenta anos, tentando passar para o português The Catcher in the Rye. Apanhador, palavra horrorosa que, segundo os dicionários, se aplicaria a quem colhe os grãos de café ou extrai o látex da seringueira, embora no linguajar corriqueiro só seja usada para designar um gandula. Centeio, quando muito, lembrava um tipo de pão àquela época pouco consumido por estas bandas; mas quem jamais teria visto um campo da tal gramínea? Não, intitular um livro Apanhador no campo de centeio seria como dar algum nome esdrúxulo a uma bela criança, seria condená-lo à mais absoluta rejeição.

É verdade que o título também não fazia muito sentido mesmo no idioma do autor. Para todos os efeitos práticos, a palavra catcher em inglês se refere àquele jogador de beisebol cujo rosto está sempre coberto por uma máscara e que, agachado atrás do batedor, fica pegando as bolas atiradas pelo lançador (ocupando assim, aparentemente, a posição mais besta de qualquer esporte se ao “apanhador” não coubesse também a responsabilidade crucial de indicar onde a bola deve ser lançada com base nas características do batedor). A segunda parte do título só é explicada na própria conversa de Holden com Phoebe, quando ele lhe pergunta se conhece a cantiga “Se alguém agarra alguém atravessando um campo de centeio”. Phoebe o corrige, dizendo que o certo é “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”, e ainda acrescenta que é baseada num poema de Robert Burns. De fato, trata-se de uma conhecida cantiga de crianças, mas, até mesmo devido ao “erro” de Holden ao trocar os verbos, jamais encontrei uma única pessoa nascida nos Estados Unidos que tenha feito de estalo a ponte mental entre a musiquinha e o título.

Voltando ao nosso drama lingüístico, fizemos longas listas de títulos alternativos até encontrarmos A sentinela do abismo, em que respeitávamos tanto o contexto quanto o conceito. Heureca! Que nada, a alegria durou pouco. Da agente literária de Salinger veio a ordem ríspida: ou se vertia o título literalmente ou era suspensa a venda dos direitos de tradução. Ordens do autor. Em vão tentei explicar por carta que a expressão era virtualmente ininteligível no vernáculo. Aproveitando uma ida a Nova York, obtive a graça de uma entrevista com a agente, pois já então era de todo impossível comunicar-se com o próprio eremita de New Hampshire. Nenhuma chance de revisão da sentença, porém ao menos fiquei sabendo que Salinger entrara em órbita ao tomar conhecimento de certas versões dadas ao título que lhe devera ter custado imensas dores de parto.

Com base em três delas que vim a conhecer mais tarde, passei a dar toda a razão ao autor. Senão vejamos.

Em espanhol, saíram-se com El cazador oculto, obviamente por conta da menção a um campo e ao fato de que o Holden adulto nele estaria escondido para não comprometer a espontaneidade das crianças ao brincarem. Mas que extraordinário exemplo de insensibilidade do tradutor ao não perceber o quanto a idéia de caçada e de morte era antagônica à mensagem que o título buscava transmitir!

O francês nos brindou com L’attrape-coeurs, que corresponderia em português a um abominável Pega-corações. No entanto, quando a língua de Racine já tem consagradas as expressões attrape-mouches (pega-moscas) e attrape-nigaud (prima-irmã de nossa “pegadinha”), dá para questionar a qualidade da versão gaulesa independentemente de sua dose excessiva de açúcar.

E, por fim, a mais notável, inclusive por demonstrar a desistência do tradutor português – recurso ao menos rechaçado pelos coleguinhas de Espanha e França – de extrair o título da rica contextura em que o original o situara. Pois bem, o ilustre sr. João Palma-Ferreira tascou Uma agulha no palheiro (na melhor tradição do conterrâneo que batizou o “Psycho” hitchcockiano de “O filho que era a mãe”)! Todavia, desconfiando de que não havia mesmo nenhuma relação entre o fundilho das calças e o orifício por elas protegido, ofereceu à posteridade uma Advertência cujo sabor só pode ser apreciado mediante sua reprodução integral: “O título português do romance de J.D.Salinger Uma Agulha no Palheiro foi especialmente escolhido tendo em atenção a singularidade expressiva desta frase comum portuguesa (sic) e não corresponde à nem pretende ser a tradução do título original norte-americano: The Catcher in the Rye, para o qual foi sempre difícil encontrar uma forma suficientemente alusiva e gramaticalmente correcta em todas as que ocorreram ao tradutor. Supõe-se, pois, que, sem fugir ao que o escritor pretendeu (sic), o título da edição portuguesa marcará incisivamente o espírito deste livro admirável.” *

* Há outras coisas imperdíveis nessa tradução lusa. Quando o Edgar Marsalla quase manda pelos ares o teto da capela onde os alunos eram obrigados a ouvir o discurso do agente funerário e grande benfeitor do colégio, seu “peido infernal” (terrific fart) se metamorfoseia num “tremendo arroto”. Quando Holden se enfurece com os palavrões que vê escritos nas paredes da escola da irmã e do museu, os muitos “Foda-se” se transformam em pálidos “Vai à merda”. Graves problemas de sinonímia ou de anatomia?

Seja como for, ao fim e ao cabo a edição brasileira estampou a tradução literal, ainda que amenizada por breve nota onde se lia: “Os três jovens diplomatas brasileiros que fizeram a presente tradução escolheram o título A Sentinela do Abismo. O Autor preferiu, entretanto, o título O Apanhador no Campo de Centeio.” O que, pelo jeito, não atrapalhou em nada, se é que não serviu para tornar ainda mais indelével a marca do livro na memória do leitor. As vendas continuam firmes, ano após ano, mesmo depois que o tresloucado assassino de John Lennon foi apanhado com um exemplar da obra. Que aqui no Brasil passou a ser carinhosamente chamada de Apanhador.

E você, já leu o Apanhador?

Jorio Dauster
crédito da imagem: ginko fine art