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19 de out. de 2015

a mulher de trinta anos, edições publicadas no brasil

la femme de trente ans, de balzac, até onde consegui apurar, teve as seguintes edições entre nós, aqui arroladas pela data da primeira edição:

- h. garnier, anônima, 1914
- livraria garnier, anônima, 1922
- civilização brasileira, anônima, 1931
- civilização brasileira (companhia editora nacional), anônima, 1937
- irmãos pongetti, anônima, revista por marques rebelo, 1943
- brand, licenciamento da pongetti, trad. anônima, revista por marques rebelo, 1945
- globo, trad. casimiro fernandes e wilson lousada, 1946
- clube do livro, anônima, 1947
- josé olympio, trad. rachel de queiroz, 1948
- novo mundo, anônima, c. 1954
- tecnoprint, série ouro, trad. [atribuída a] marques rebelo, c. 1965
- bruguera, trad. casimiro fernandes e wilson lousada, c.1970
- círculo do livro, trad. casimiro fernandes e wilson lousada, 1973
- melhoramentos, trad. casimiro fernandes e wilson lousada, 1973
- ed. três, anônima, 1974
- artenova, trad. casimiro fernandes e wilson lousada, 1976
- edibolso, trad. casimiro fernandes e wilson lousada, 1977
- l&pm, trad. paulo neves, 1984
- ediouro, trad. [atribuída a] marques rebelo, 1985
- abril cultural, trad. casimiro fernandes e wilson lousada, 1986
- clube do livro, trad. [atribuída a] josé maria machado, 1988
- nova cultural, trad. [atribuída a] enrico corvisieri, 1995; ver aqui
- martin claret, trad. [atribuída a] pietro nassetti, 1998; ver aqui
- estação liberdade, trad. marina appenzeller, 2000
- nova cultural, trad. [atribuída a] gisele donat soares, 2003; ver aqui
- saraiva de bolso, trad. [atribuída a] marques rebelo, 2013
- martin claret, trad. herculano villas-boas, 2013
- biblioteca azul (globo), trad. casimiro fernandes e wilson lousada, 2013
- companhia/penguin, trad. rosa freire d'aguiar, 2015

n.b.: as duas edições da garnier e as duas edições do clube do livro trazem o título de mulher de trinta anos, sem o artigo. as demais trazem o título de a mulher de trinta anos.

assim, temos ao todo seis traduções brasileiras de a mulher de trinta anos, sendo três no Novecentos e três a partir de 2000. quanto às anônimas, revistas por marques rebelo, atribuídas diretamente a ele e atribuídas a josé maria machado, enrico corvisieri, pietro nassetti e gisele donat soares, foram objeto de outras postagens, reunidas no marcador "la femme de trente ans".


18 de out. de 2015

mulher de trinta anos, uma hipótese promissora

um dos casos mais interessantes e engraçados em nossa história tradutória é, provavelmente, o percurso centenário d'a mulher de trinta anos, de balzac.

aqui exponho o que por ora é apenas uma hipótese de trabalho, qual seja, a tradução de luiz cardoso, publicada em 1906 pela guimarães de lisboa, teria sido usada no brasil pelas seguintes casas editoriais:
1. h. garnier em sua edição de 1914; reedição em 1922 pela livraria garnier, anônima 
2. civilização brasileira em 1931; reedição em 1937 em sua collecção S.I.P., idem
3. irmãos pongetti em 1943, como "tradução revista por marques rebelo"
4. brand com licenciamento da pongetti em 1945, idem
5. clube do livro em 1947, anônima
6. novo mundo em c.1954, idem
7. edições de ouro desde os anos 1960, chegando à atual ediouro, agora atribuindo-a diretamente a marques rebelo
8. clube do livro em 1988, agora atribuindo-a a josé maria machado
9. nova cultural na coleção imortais da literatura em 1995, atribuindo-a a "enrico corvisieri"*
10. nova cultural na coleção obras-primas em 2003, atribuindo-a a "gisele donat soares"*
11. saraiva de  bolso em 2013, atribuindo-a diretamente a marques rebelo
* nomes fictícios






para as relações de proximidade entre garnier, clube do livro e nova cultural (em suas duas edições com atribuições distintas), já disponho de alguns elementos interessantes. encomendei hoje um exemplar da guimarães, um da civilização e um da pongetti.

tenho já uma sub-hipótese à primeira vista quase escalafobética, mas com alguma plausibilidade, sobre o tipo das possíveis relações entre a edição da guimarães e a da garnier e até sobre a identidade do responsável por tais relações. mas vou preferir reunir dados mais concretos antes de aprofundá-la.

apenas para encerrar, vale lembrar que a martin claret, numa de suas costumeiras imposturas, preferiu garfar a tradução d'a mulher de trinta anos feita por casimiro fernandes e wilson lousada (bem como as notas e trechos do prefácio de paulo rónai), atribuindo-a ao indefectível pietro nassetti - vide aqui.

3 de jun. de 2012

balzac: sugestão para um tcc

prossigamos com essa difícil arqueologia da tradução no brasil.



em 1943, sai pela irmãos pongetti uma "tradução revista por marques rebelo", porém sem os créditos de autoria. esse lançamento da pongetti teve várias reedições (aqui, a imagem é da edição de 1945).

décadas depois, a ediouro publica a mulher de trinta anos dando marques rebelo como autor da tradução.










em vista do histórico da pongetti com suas "traduções revistas" por marques rebelo, como alertou elias davidovitch aqui, considero que, se algum docente propusesse como tema de trabalho a seus alunos não só compulsar as duas edições acima apresentadas, mas também cotejá-las com a tradução de 1914, pela garnier, e sobretudo com a de 1937, pela civilização brasileira, teríamos um bom serviço prestado à nossa memória tradutória.



ainda a propósito d' a mulher de trinta anos, vejam-se também os cotejos das traduções espúrias da nova cultural (aqui) e da martin claret (aqui).

6 de nov. de 2011

a mulher de trinta anos

alguém me consulta sobre as traduções válidas, digamos assim, de a mulher de trinta anos, de balzac. esse breve romance tem sofrido bastante no brasil, no quesito de tradução.




a primeira tradução publicada no brasil, até onde sei, saiu pela h. garnier em 1914, reed. pela livraria garnier em 1922, contendo também a vendetta e um principe da bohemia: não consta o nome do autor da tradução.










em 1937, sai uma edição pela civilização brasileira: tampouco aqui consta o nome do tradutor.


em 1943, sai pela irmãos pongetti uma tradução anônima revista por marques rebelo, com várias reedições (aqui, a imagem é da ed. 1945).

quando essa tradução vai para o catálogo da ediouro, curiosamente marques rebelo passa a constar na fbn como autor da tradução.







em 1946 sai a monumental comédia humana pela globo, em três volumes.
a mulher de trinta anos, em tradução de casimiro fernandes e wilson lousada, está no vol. III (aqui, imagem da ed. 1948)











em 1947, pelo clube do livro, sai mais uma tradução anônima.











em 1948, sai a tradução de rachel de queiroz, pela josé olympio.












em 1973, o círculo do livro publica a tradução de casimiro fernandes e wilson lousada.











em 1984, a l&pm publica a tradução de paulo neves, com várias reedições até o presente.




em 1988, o clube do livro relança sua tradução, agora atribuindo-a a "josé maria machado", que hoje em dia tenho considerado uma espécie de ancestral de "pietro nassetti" no referido clube do livro.










em 1995, a nova cultural lança pelo círculo do livro uma tradução em nome de "enrico corvisieri", cópia atamancada da tradução em nome de "josé maria machado" (clube do livro, 1988).










em 1998, a editora martin claret lança uma tradução em nome de "pietro nassetti", cópia atamancada da tradução de casimiro fernandes e wilson lousada. aqui numa rara capa de época, depois substituída pela capa de estilo "evanescente" em suas sucessivas reedições até hoje.









em 2000, sai a tradução de marina appenzeller pela editora estação liberdade.







em 2003, a nova cultural lança mais uma vez sua tradução espúria, agora na coleção "obras-primas", modificando os créditos em nome de "enrico corvisieri" para "gisele donat soares".





assim eu responderia que, entre as traduções atualmente em circulação, eu ficaria apenas com duas: a de paulo neves, pela l&pm, e a de marina appenzeller, pela estação liberdade, abaixo em suas capas atuais:


e

A mulher de trinta anos

a título de curiosidade, seria interessante descobrir a verdadeira autoria das traduções atribuídas a josé maria machado e, a partir dos anos 80, a marques rebelo. sobre os casos da editora martin claret e da editora nova cultural, veja os cotejos: "pietro nassetti", aqui; "enrico corvisieri" e "gisele donat soares", aqui.
.

16 de fev. de 2009

balzac na claret

a mulher de trinta anos nas edições da nova cultural tinha um duplo plágio:
1. enrico corvisieri na coleção imortais da literatura, 1995
2. gisele donat soares na coleção obras-primas, 2003
ambos são cópia atamancada da tradução de josé maria maria machado, pelo clube do livro.



a mulher de trinta anos na edição claretiana, com plágio em nome de pietro nassetti, preferiu garfar a globo, com tradução de casimiro fernandes e wilson lousada, além de prefácio e notas de paulo rónai (aqui cit. na edição de 1948).

a.
A magnífica parada comandada pelo imperador devia ser a última daquelas que por tanto tempo exaltaram a admiração dos parisienses e dos estrangeiros. A velha guarda ia executar, pela última vez, as sábias manobras cuja pompa e precisão espantaram algumas vezes até o próprio gigante, que se preparava então para o seu duelo com a Europa. Um triste sentimento levava às Tulherias uma brilhante e curiosa população. Cada um parecia adivinhar o futuro, e pressentia talvez que mais de uma vez a imaginação teria que retraçar o quadro daquela cena, quando os tempos heróicos da França adquirissem, como hoje, tintas quase fabulosas. (fernandes/lousada, p. 515)

b.
A magnífica parada comandada pelo imperador devia ser a última daquelas que por tanto tempo exaltaram a admiração dos parisienses e dos estrangeiros. A velha guarda ia executar, pela última vez, as sábias manobras cuja pompa e precisão espantaram algumas vezes até o próprio gigante, que se preparava então para o seu duelo com a Europa. Um triste sentimento levava às Tulherias uma brilhante e curiosa população. Todos pareciam adivinhar o futuro, e pressentiam talvez que, mais de uma vez, a imaginação teria que retraçar o quadro daquela cena, quando os tempos heróicos da França adquirissem, como hoje, cores quase fabulosas. (nassetti, p. 19)

a.
Uma mulher moça, célebre em Paris por sua graça, por sua beleza e por seus dotes de espírito, e cuja posição social e fortuna estavam em harmonia com a sua celebridade, veio, com grande espanto do vilarejo situado a cerca de uma milha de Saint-Lange, estabelecer-se ali em fins do anos de 1820.39 Desde tempos imemoriais que os rendeiros e camponeses não viam os donos do castelo. Se bem que de uma produção considerável, as terras estavam abandonadas aos cuidados de um administrador e guardadas por velhos serviçais. Por isso, a viagem da senhora marquesa causou uma certa sensação na região. Muitas pessoas tinham-se agrupado na entrada da vila, no pátio de um albergue situado no entroncamento das estradas de Nemours e Moret, para verem passar uma caleça que avançava lentamente, pois a marquesa viera de Paris com os seus cavalos. No assento dianteiro, a criada de quarto fazia companhia a uma menina mais tristonha do que risonha. A mão vinha no fundo da carruagem, imóvel como um moribundo que os médicos tivessem enviado para o campo. (fernandes/lousada, p. 570)

39. 1820. Esta data parece errada; deveria ser substituída por 1823, pois a morte de Artur ocorreu nesse ano. Cf. também a nota seguinte. [obs.: a nota é de paulo rónai]

b.
Uma mulher moça, célebre em Paris por sua graça, por sua beleza e por seus dotes de espírito, e cuja posição social e fortuna estavam em harmonia com a sua celebridade, veio, para grande espanto do vilarejo situado a cerca de uma milha de Saint-Lange, estabelecer-se ali em fins do anos de 1820.1 Desde tempos imemoriais que os rendeiros e camponeses não viam os donos do castelo. Apesar de ter um rendimento considerável, as terras estavam abandonadas aos cuidados de um administrador e guardadas por velhos serviçais. Por isso, a viagem da senhora marquesa causou uma certa sensação na região.
Muitas pessoas tinham-se agrupado na entrada da vila, no pátio de um albergue situado no entroncamento das estradas de Nemours e Moret, para verem passar a carruagem, que avançava lentamente, pois a marquesa viera de Paris com os seus cavalos. No assento dianteiro, a criada de quarto fazia companhia a uma menina mais tristonha que risonha. A mão vinha no fundo, imóvel como um moribundo que os médicos tivessem enviado para o campo. (nassetti, pp. 73-74)

1. 1820. Esta data parece errada; deveria ser substituída por 1823, ano em que ocorreu a morte de Artur.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: migas-bdc.blogger.com.br

30 de set. de 2008

a mulher de trinta anos, duplo plágio

Honoré de Balzac, Mulher de trinta anos (trad. José Maria Machado,* Clube do Livro)

3. Aos trinta anos (p. 129):
Desde esse momento, penetraram nos céus do amor. O céu e o inferno são dois grandes poemas que formulam os dois únicos pontos sobre os quais gira nossa existência: a alegria ou a dor. O céu não será sempre uma imagem do infinito dos nossos sentimentos, que só se poderá pintar nos seus detalhes, porque a felicidade é uma só, e o inferno não representa as infinitas torturas das nossas dores, de que podemos fazer uma obra de poesia, porque são todas dessemelhantes?

Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos ("trad." Enrico Corvisieri, Nova Cultural - 1995)

3. Aos trinta anos (p. 95):
Desde esse momento, penetraram nos céus do amor. O céu e o inferno são dois grandes poemas que formulam os dois únicos pontos sobre os quais gira a nossa existência: a alegria ou a dor. O céu não será sempre uma imagem do infinito dos nossos sentimentos, que só se poderá pintar nos seus detalhes, porque a felicidade é uma só? E o inferno não representa as infinitas torturas das nossas dores, de que podemos fazer uma obra de poesia, porque são todas dessemelhantes?

Honoré de Balzac, Mulher de trinta anos (trad. José Maria Machado, Clube do Livro)

3. Aos trinta anos (pp. 130-1):
Inclinaram-se ao mesmo tempo para verem uma dessas majestosas paisagens cobertas de neve, de geleiras, de sombras pardacentas que tingem as faldas de montanhas fantásticas; um desses belos quadros cheios de bruscas oposições entre os tons negros e vermelhos que o firmamento apresenta antes que o sol se esconda de vez. Nesse momento, os cabelos de Júlia tocaram no rosto de Vandenesse: ela sentiu este ligeiro contato, estremeceu violentamente; e ele ainda mais; porque ambos tinham chegado gradualmente a uma dessas crises inexplicáveis em que a alma comunica aos sentimentos uma tão fina percepção que o mais fraco choque faz verter lágrimas, se o coração está entregue à tristeza, ou lhe dá prazeres inefáveis, se está perdido nas vertigens do amor. Júlia apertou quase involuntariamente a mão do seu amigo. Essa pressão persuasiva deu coragem à timidez do amante. As alegrias do momento e as esperanças do futuro, tudo se fundiu numa comoção, a da primeira carícia, do casto e modesto beijo que a senhora d'Aiglemont deixou depor-lhe na face. Quanto mais insignificante é o favor, mais forte e perigoso se torna. Para desgraça de ambos, não havia aí nem dissimulação nem falsidade. Foi a concordância de duas belas almas, separadas por tudo o que é lei, reunidas por tudo o que é sedução na natureza. Nesse momento, entrou o general d'Aiglemont.

Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos ("trad." Enrico Corvisieri, Nova Cultural - 1995)

3. Aos trinta anos (pp. 95-6):
Inclinaram-se ao mesmo tempo para verem uma dessas majestosas paisagens cobertas de neve, de geleiras de sombras pardacentas que tingem as faldas de montanhas fantásticas. Um desses belos quadros cheios de bruscas oposições entre os tons negros e vermelhos que o firmamento apresenta antes que o sol se esconda de vez. Neste momento, os cabelos de Júlia tocaram no rosto de Vandenesse: ela sentiu este ligeiro contato, estremeceu violentamente, e ele ainda mais, porque ambos tinham chegado gradualmente a uma dessas crises inexplicáveis em que a alma comunica aos sentimentos uma tão fina percepção, que o mais fraco choque faz verter lágrimas se o coração está entregue à tristeza, ou lhe dá prazeres inefáveis se está perdido nas vertigens do amor. Júlia apertou quase involuntariamente a mão do seu amigo. Essa pressão persuasiva deu coragem à timidez do amante. As alegrias do momento e as esperanças do futuro, tudo se fundiu numa comoção, a da primeira carícia, do casto e modesto beijo que a senhora d'Aiglemont deixou depositar-lhe na face. Quanto mais insignificante é o favor, mais forte e perigoso se torna. Para desgraça de ambos, não havia aí nem dissimulação nem falsidade. Foi a concordância de duas belas almas, separadas por tudo que é lei, reunidas por tudo que é sedução na natureza. Neste momento, entrou o general d'Aiglemont.


Curiosamente, dentro da própria Nova Cultural, a mesma "tradução" que fora apropriada de José Maria Machado e atribuída a Enrico Corvisieri em 1995 foi reeditada na íntegra em 2003, com o crédito da "tradução" em nome de Gisele Donat Soares. A saber:

3. Aos trinta anos (p. 94):
Desde esse momento, penetraram nos céus do amor. O céu e o inferno são dois grandes poemas que formulam os dois únicos pontos sobre os quais gira a nossa existência: a alegria ou a dor. O céu não será sempre uma imagem do infinito dos nossos sentimentos, que só se poderá pintar nos seus detalhes, porque a felicidade é uma só? E o inferno não representa as infinitas torturas das nossas dores, de que podemos fazer uma obra de poesia, porque são todas dessemelhantes?

3. Aos trinta anos (pp. 95-6):
Inclinaram-se ao mesmo tempo para verem uma dessas majestosas paisagens cobertas de neve, de geleiras de sombras pardacentas que tingem as faldas de montanhas fantásticas. Um desses belos quadros cheios de bruscas oposições entre os tons negros e vermelhos que o firmamento apresenta antes que o sol se esconda de vez. Neste momento, os cabelos de Júlia tocaram no rosto de Vandenesse: ela sentiu este ligeiro contato, estremeceu violentamente, e ele ainda mais, porque ambos tinham chegado gradualmente a uma dessas crises inexplicáveis em que a alma comunica aos sentimentos uma tão fina percepção, que o mais fraco choque faz verter lágrimas se o coração está entregue à tristeza, ou lhe dá prazeres inefáveis se está perdido nas vertigens do amor. Júlia apertou quase involuntariamente a mão do seu amigo. Essa pressão persuasiva deu coragem à timidez do amante. As alegrias do momento e as esperanças do futuro, tudo se fundiu numa comoção, a da primeira carícia, do casto e modesto beijo que a senhora d'Aiglemont deixou depositar-lhe na face. Quanto mais insignificante é o favor, mais forte e perigoso se torna. Para desgraça de ambos, não havia aí nem dissimulação nem falsidade. Foi a concordância de duas belas almas, separadas por tudo que é lei, reunidas por tudo que é sedução na natureza. Neste momento, entrou o general d'Aiglemont.

* como se não bastasse, josé maria machado costumava aparecer como o responsável pelas chamadas "traduções especiais" do clube do livro, geralmente traduções portuguesas anteriores, apenas adaptadas ao português brasileiro. na verdade, essa tradução em nome de josé maria machado é cópia da tradução anônima lançada pela h.garnier em 1914 e depois pela civilização brasileira em 1937.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagem: www.alixnorth.com

25 de set. de 2008

a mulher de trinta anos nassettiana


a martin claret resolveu atacar a sra. balzaquiana indo de casimiro fernandes e wilson lousada, na famosésima edição coordenada por paulo rónai, para a editora globo, nos idos dos anos 1940.

a vontade de chorar já começa no "perfil" que a claret apresenta em algumas páginas, à guisa de introdução.

lá pelas tantas diz o texto do "perfil": "A Mulher de Trinta Anos faz parte do volume III de A Comédia Humana. Sobre esse romance o tradutor, entre outros, faz o seguinte comentário introdutório" (p. 14).

e segue-se uma enfiada de citações de vários parágrafos - ora, de quem? de paulo rónai, o coordenador e anotador da edição, que por um passe de mágica virou o tradutor da balzaquiana.

é de pasmar: o editor não dá a fonte nem a edição, não dá o nome do prefaciador, confunde o prefaciador com os tradutores, copia enormes trechos do prefácio de rónai e, não satisfeito, pega a mulher de trinta anos de wilson lousada e casimiro fernandes, troca meia-dúzia de palavras que deve ter achado muito difíceis ou desusadas (borzeguins, por exemplo) e publica a cópia atamancada em nome de (desculpem o repeteco, pas ma faute) pietro nassetti, uma vez mais.

outro dado importante: todas as notas que guarnecem a comédia humana na edição brasileira são de autoria de paulo rónai. as referentes a a mulher de trinta anos foram meticulosamente copiadas na edição da claret, claro que sem fonte. o leitor imagina que haverão de ser de pietro nassetti ou de martin claret.

devidamente registrada essa edição espúria na fundação biblioteca nacional, com o isbn 85-7232-278-7, especificado na página de créditos “Copyright desta tradução: Martin Claret, 2004”, o editor claret e os herdeiros de pietro nassetti abocanharam para si 70 anos de exclusividade nos direitos de exploração comercial do roubo disfarçado de tradução.

alô, alô, dona globo, alô, alô, herdeiros de paulo rónai, alô, alô, sucessores de wilson lousada e casimiro fernandes, vão deixar passar em branco?

e a abdr, cujo logotipo vem estampado em tamanho gigantesco na primeira página do livro de sua querida afiliada martin claret?

e o snel, que defende a abdr, ambos posando de bonzinhos e defensores do direito autoral?

e o pobre do leitor, e o pobre do consumidor lesado em sua boa-fé, e o patrimônio imaterial saqueado deste país?

imagem: emoticon, weeping