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18 de ago. de 2010

boas conversas

a assistente editorial cindy leopoldo é colaboradora no jornal eletrônico publishnews, que trata do mundo do livro. ela mantém uma coluna quinzenal muito interessante, onde mostra por dentro as várias etapas que compõem o processo de produção de um livro, até ficar pronto para o leitor.


conversamos bastante sobre tradução editorial e também sobre esse lamentável problema dos plágios de tradução. a primeira parte da conversa está aqui: investir em tradução.

Investir em tradução para economizar depois (1/2)

17/08/2010
 
A ordem das minhas colunas talvez pareça caótica para os leitores, mas, usando uma boa resposta de autor, posso afirmar que ela tem uma lógica muito clara – para mim –, que é a seguinte: estou seguindo o trabalho do editorial descrito na coluna de 06/07/2010 com algumas pausas para comentar as reações ao que escrevo.
 
A coluna de hoje é mais uma “de sequência”, falaremos sobre a tradução. Sim, “falaremos”, no plural, porque jamais traduzi e por isso resolvi pedir ajuda a tradutores experientes para que eles pudessem expor sem intermediários as questões de sua área. E hoje teremos aqui Denise Bottmann, do corajoso Não gosto de plágio, que terá sua entrevista dividida em duas partes.
 
Bem, aqui na coluna o centro é o departamento editorial, então tudo é visto em relação a ele. E, para o editorial, a tradução define sozinha grande parte da qualidade de um livro. Mesmo considerando que teremos depois dela ao menos um copidesque, uma revisão técnica e duas revisões tipográficas, sabemos bem que se a tradução for ruim dificilmente teremos um bom livro no final.
 
Vamos lá:
 
Quantos trabalhos em média você faz ao ano?
Depende do tamanho do livro e da complexidade da obra. Levo de 45 a 60 dias para traduzir um livro médio (300 páginas, i.e., cerca de 400 laudas de 2100 toques com espaço) de complexidade média. Em casos excepcionais, atendo a alguma solicitação de urgência da editora, e aí, eventualmente, a coisa vai mais rápido. Assim, em média, dá uns seis, sete livros por ano.
 
O que faz com que você diga “não” a um trabalho?
Basicamente, três ou quatro razões: quando não tenho domínio ou pelo menos um pouco de familiaridade com o assunto da obra; quando os prazos são demasiado estreitos; quando minha “agenda”, por assim dizer, está muito lotada; e eventualmente quando alguma editora meio desatualizada quanto às faixas de remuneração faz propostas de pagamento um tanto inusitadas.
 
E quais são as faixas de remuneração?
Olha, não sei dizer. Curiosamente, parece até ser uma espécie de segredo de estado que o setor gosta de guardar ciosamente. Na verdade, e não é má-vontade, é verdade verdadeira, só sei o que eu recebo. Mas, pelo que posso depreender de algum comentário aqui e ali nos fóruns de tradutores na internet, cheguei a ter notícia de propostas a R$ 20,00 a lauda, e uns dois anos atrás já me ofereceram traduções que iam de R$ 18,00 a 25,00 a lauda. Aí não tem como. Por outro lado, sei de vários tradutores e algumas editoras que trabalham com um X de remuneração mais um percentual Y sobre as vendas. Tradutores muito consagrados e/ou de línguas menos usuais, ao que sei, também têm faixas diferenciadas. Então, pelo que entendo, há um espaço razoável de negociação. Na verdade, na resposta anterior eu me expressei mal: então reformulo – “quando alguma editora apresenta propostas de pagamento um tanto defasadas em relação às faixas de remuneração com que eu pessoalmente trabalho”.
 
Você calcula o prazo necessário de acordo com laudas por dia?
Geralmente a editora, ao oferecer aquela proposta de tradução, já dá uma base dos prazos, que costumam ser mais do que suficientes. Mas pode acontecer que a complexidade do texto seja maior do que eu imaginava, e aí, para ter margem de segurança, aviso a editora e peço que estipulem um prazo mais dilatado. Acho fundamental estabelecer de partida, ou logo no começo, os prazos que atendam à necessidade da editora.
 
Leio em seu blog diversas denúncias de plágio de tradução. Na maior parte das editoras, esse seria um problema a ser detectado e corrigido em seus departamentos editoriais, já que geralmente é ele que contrata e avalia a tradução. Considerando que o editorial costuma ter muito pouco tempo para cada livro e que o processo de fusão ou compra de editoras é bastante frequente (isto é, há editoras que compraram todo o catálogo de outras e não participaram da produção daqueles livros), qual método você considera mais prático para a detecção dessa fraude? Qual o seu método?
Vixe, daria um tratado! Vamos lá: em primeiro lugar, nesses dois anos e meio de pesquisa, cheguei à conclusão de que são relativamente poucas as editoras que lançam mão da “apropriação indébita”, digamos assim, de traduções. E essas poucas aparentam recorrer com certa frequência a tais práticas. Algumas dessas que lançam ou lançavam mão de plágios ou apropriações de traduções alheias até nem existem mais, fecharam, mudaram de razão social ou foram adquiridas por outras editoras. Outras editoras, mediante contato e diálogo, tiveram por bem tirar de circulação e catálogo as edições com problemas, afiançando que poriam fim a tal prática. Digo isso pelo seguinte: minha impressão não é que algum tradutor delinquente esteja ou estivesse impingindo uma fraude à editora. Minha impressão é que, nestes casos, trata-se ou tratava-se de uma opção editorial consciente.
 
Portanto, dificilmente seria “um problema a ser detectado e corrigido em seus departamentos editoriais, já que geralmente é ele que contrata e avalia a tradução”, pois, como disse, tenho a impressão de que seriam casos de políticas empresariais dentro dessas poucas editoras, que evidentemente, portanto, não teriam chegado a contratar qualquer tradução para tais obras. De modo geral, nos contatos que tenho mantido com essas editoras, a explicação que ouvi em vários casos é que a responsabilidade coubera a algum coordenador editorial, supostamente sem o conhecimento do proprietário, e que, atualmente, esse editor nem estaria mais na empresa.
 
Quanto ao método que utilizo, veja uma coisa interessante: a esmagadora maioria dessas obras fraudadas corresponde a obras clássicas, de referência praticamente obrigatória na área de literatura, filosofia e ciências humanas (e, assim, com baixa qualidade gráfica, papel de não muito boa qualidade e a preços populares – mesmo porque o item editorial mais expressivo no custo de um livro é a tradução, até onde sei, e sendo traduções “roubadas” também criam concorrência desleal, ao eliminar um dos principais custos, barateando fraudulentamente suas edições e aumentando suas margens de lucro – atendem a uma enorme demanda que se criou principalmente nas faculdades após 1998, com a proibição da fotocópia pela atual lei de direito autoral).
 
Por um lado, como gosto muito de ler, tenho a sorte de dispor de uma biblioteca razoável em casa, que fomos, meu marido e eu, montando ao longo dos anos. Então, em vários casos, bastava-me comprar o título que me parecia bizarro e consultar edições antigas que tenho em casa. Foi como iniciei meus cotejos. Com o desenvolver das pesquisas de outros títulos, naturalmente tive que começar a procurar edições que não havia em nossa biblioteca. E aí, veja você, quanto à Biblioteca Nacional: que coisa! Muito infelizmente, nem todas as editoras atendem ao que dispõe a Lei do Livro e nem todas enviam exemplares de suas edições para o devido depósito legal e a constante atualização de nosso acervo bibliográfico nacional. Por outro lado, o site da Biblioteca Nacional é bastante eficiente e as consultas eletrônicas fornecem muitos dados do que ela tem em acervo. De modo que as fontes mais completas, digamos assim, para localizar edições antigas são os sites dos sebos ou da própria Estante Virtual.
 
Da mesma maneira como são poucas editoras que lançam mão dessas práticas ilegais e são relativamente poucos os nomes dos falsos tradutores que se repetem em incontáveis obras, também acontece que, como primeiro filtro, são relativamente poucas as editoras saqueadas com mais assiduidade, digamos assim. Por exemplo, entre três ou quatro traduções legítimas de uma mesma obra, que também tenha sido publicada em edição um tanto suspeita, é muito mais provável que, se de fato ocorreu um plágio, tenha sido em cima de uma edição mais antiga ou de uma editora que já encerrou suas atividades do que de uma editora viçosa e expressiva no cenário contemporâneo (embora isso também tenha ocorrido num ou noutro caso).
 
Na maioria, são de fato obras esgotadas há décadas, abandonadas, largadas, que ainda não entraram em domínio público. Assim, selecionando num primeiro filtro essas traduções semiesquecidas de antigas editoras, encomendo os livros e recebo em casa, onde procedo aos cotejos, aí sim, claro, comparando um a um (imagine a fortuna que já gastei e a quantidade de traduções das mesmas obras que tenho em casa!). Mas nem sempre localizo a fonte exata, e aquele livro que me desperta alguma desconfiança fica de lado, para retomar adiante. Foi até curioso, porque entre a semana retrasada e a passada, meio por acaso, localizei três traduções antigas de edições espúrias que fazia uns dois anos que eu não conseguia localizar! Encomendei tudo, as edições antigas já chegaram, comecei a analisar, e, concluindo, passo a publicar no blog. Também costumo fazer um levantamento da presença desses títulos espúrios usados em teses, artigos, programas de curso, editais e licitações públicas para aquisição do governo etc., e publico esses
 
Nos concentrando agora nas boas práticas editoriais, quais deveriam ser incentivadas? Cito como exemplo a inserção do minicurrículo dos tradutores, que acho importante e simples de ser feito pelas editoras.
Mas essa sua ideia de inserção de minicurrículo dos tradutores me parece muito boa: a editora Hedra tem esse hábito, e recentemente a Civilização Brasileira lançou uma edição assim, Papéis inesperados, de Julio Cortázar, em tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Até saudei a iniciativa em meu blog. Aliás, parece que a antiga José Olympio tinha esse hábito em sua coleção Fogos Cruzados, dos anos 40 e 50. Pelo menos é o que vejo em alguns exemplares que tenho em casa, e poucos dias atrás publiquei no blog a página referente a Costa Neves, em sua tradução de Um jogador (cuja primeira edição saiu em 1948, se não me engano, e foi “surripiada” por uma editora atual).
 
E algumas editoras, como a Cosac, a Cia. das Letras, a Martins, mantêm um perfil de seus colaboradores em seus respectivos sites, o que também me parece muito legal. Outra boa coisa seria que os sites das livrarias também incluíssem os nomes dos responsáveis pelas traduções nos livros à venda. Quando tive contato com algumas delas, disseram que não colocavam porque nos releasesenviados pelas editoras, que usavam para cadastrar os dados dos livros, não costumavam constar os créditos de tradução. Se isso for verdade, creio que seria legal se todas as editoras pudessem adotar sistematicamente o hábito de dar os devidos créditos. O mesmo em relação a seus próprios sites: quantas editoras não incluem um dado tão fundamental quanto o nome do tradutor! Aliás, por lei, seria obrigatório, até onde consigo entender.
 
Outro aspecto que me preocupa: os livros lacrados em livrarias, bancas etc. Não tenho dúvidas: quando vou comprar algum livro traduzido e ele está lacrado e não consta o nome do tradutor na capa ou na contracapa, peço para abrirem para eu poder saber o que estou comprando. Aliás, acho que este é um ponto que alguma das entidades de tradutores poderia tomar a si, e lutar para que se cumpra a lei.
 
Pessoalmente, estou insistindo com a ABNT para que retifique a norma referente às referências bibliográficas: hoje em dia, o nome do tradutor é classificado na 6023 e na 6029 como dado complementar opcional. Por lei, é dado obrigatório e teria de ser normalizado como essencial.
 
E os contratos de cessão de direitos autorais? O que mudaria neles de acordo com a atual revisão da lei dos direitos autorais?
Os contratos variam de editora para editora, e sempre é possível negociar caso a caso. Tenho acompanhado bastante o debate para a modernização de alguns pontos da atual LDA 9610/98, sobretudo no aspecto do acesso a obras órfãs e esgotadas. Pois o que ficou muito evidente nesse trabalho de pesquisa de plágios de tradução foi que, na imensa maioria dos casos, as traduções copiadas e atribuídas a outrem eram justamente de edições esgotadas há décadas, mas que ainda não ingressaram em domínio público. Então são traduções dos anos 30, 40, 50 das quais ninguém mais se lembra, não estão em DP, e acabam abastecendo espuriamente catálogos de algumas editoras.
 
Além do problema da concorrência desleal que certamente deve afetar as editoras íntegras, vejo isso como uma dilapidação de nosso patrimônio lítero-tradutório (como diz Jorio Dauster, é como violar sepulcros). São traduções esgotadíssimas, antigas, que ficam no que chamo de “limbo editorial” e, em alguns casos, de “baú mofado das editoras”, que infelizmente acabam sendo saqueadas. Até por isso também sou muito favorável a que haja uma redução do período de proteção das obras para que ingressem em domínio público, adotando o recomendado pela Convenção de Berna: no Brasil, atualmente é de 70 anos após a morte do autor (tradutor), sendo que a convenção internacional adotada no Brasil prevê o prazo mínimo de 50 anos post mortem.
 
Quanto a alterações especificas nos contratos de cessão, não observei nenhuma alteração de grande monta. O que vi é que, nesta atual proposta, ficaria claramente especificado no capítulo sobre os contratos de edição que ele se aplica também a tradutores, ilustradores etc. Na prática, para mim não altera muito, ou nada, pois me parece ser uma especificação para os casos de editoras que não fazem contratos de direitos autorais, e sim de prestação de serviços. Não sei quais seriam as editoras com esse tipo de procedimento, mas já ouvi falar sim de um ou outro tradutor que se vê obrigado a emitir nota fiscal ou recibo de prestação de serviços para a editora que encomendou a tradução. Então imagino que este acréscimo na atual LDA visa a esclarecer melhor este aspecto: a obra de tradução tem direitos de autor, e a forma contratual de negociar direitos de autor é por CDA, e não por NF ou RPA, o que me parece bastante evidente.
 
O que também está sendo proposto, e que sinceramente ainda não entendi muito bem, é a recriação da figura da “obra sob encomenda”, que existia na lei de 1973 e foi eliminada na de 1998. Creio que vem bastante vinculada a essa inclusão de um parágrafo explícito com tradutores, ilustradores, repórteres fotográficos, no capítulo dos contratos de edição, e remetendo ao fato de serem obras criadas a partir de uma encomenda: para não recair na ambiguidade de prestação de serviços, empresa de tradução ou CDA, entendo que nesse capítulo da obra sob encomenda fica ali explícito que se trata de um contrato de cessão, junto com um contrato de edição.
 
Acho que pode ser interessante, pois, como disse, conheço casos de tradutores que recebem suas remunerações com descontos de ISS e INSS, que de fato não se aplicariam a um CDA (onde se retém apenas a alíquota de IRPF). Mas ainda não tenho plena clareza se entendi bem e quero ver se antes do prazo final da consulta pública (que vai até dia 31 de agosto) consigo formar uma opinião mais definida.
 
Denise Bottmann, curitibana, 55 anos, historiadora, pesquisadora e tradutora na área de humanidades. Blog: http://naogostodeplagio.blogspot.com


outras duas matérias recentes e superlegais sobre o ofício de tradução são: a entrevista de alison entrekin à revista época e a longa matéria na revista piauí, com depoimentos de paulo bezerra, rubens figueiredo, boris schnaiderman e bruno gomide.

25 de jul. de 2010

leituras

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admiro muito ivo barroso, e retomo aqui alguns trechos já publicados no nãogosto.




A tradução tem muito de malabarismo, ou melhor, de caminhar na corda bamba. Você se arrisca a escorregar e cair a cada passo e, mesmo que tenha conseguido chegar quase ao extremo da corda (ou do texto), o escorregão é sempre um desastre, a queda uma escoriação no seu ego. ...
 
O leitor interessado pode encontrar uma boa lista de palavras traiçoeiras no livrinho A Arte de Traduzir, de Brenno Silveira, o beabá do tradutor iniciante, que li com profunda veneração quando comecei a decifrar hieróglifos e buscava alguma base teórica em que pudesse me apoiar. Com ele aprendi o grande princípio do apostolado da tradução: a fidelidade ao texto. Mas meu propósito é outro. O que estou tentando dizer é que irremediavelmente o tradutor está sujeito a um escorregão dessa natureza e será miraculoso malabarista aquele que nunca resvalar.
 
Ler sempre com atenção, não deixar passar nunca uma palavra cujo sentido não conheça ou que não tenha checado, desconfiar de situações esdrúxulas, de frases incompreensíveis, de palavras sem sentido. Assim seu erro eventual pode se transformar nesse aparelho imprescindível ao tradutor: o desconfiômetro.

Ivo Barroso

diga-se de passagem: teve uma vez que traduzi um livro inteiro usando "oficial" para officer. peço desculpas a todos os leitores. jesus do céu! [db]

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28 de fev. de 2010

jorio dauster - eu não daria a menor bola...


TRADUZINDO

Acho uma bobagem a obediência irrestrita e mecânica ao texto original, mas isso não significa que se possa tomar liberdades gratuitas com a obra a ser traduzida.

Quando se trata de um autor tão complexo quanto Nabokov, verdadeiro ourives literário, acredito que se exige do tradutor uma relação de verdadeira devoção, pois, se ele estiver buscando apenas uma fonte de renda, faria melhor indo vender sanduíches naturais na praia.

Se me sobrarem tempo e neurônios, pretendo traduzir toda a obra de ficção do Nabokov.

A norma tem de ser respeito com inteligência, sem perder de vista que a tradução não é apenas uma ponte entre idiomas, mas entre culturas. Daí que eu não daria a menor bola se Nabokov não gostasse de minhas traduções.

Para fazer justiça a uma boa obra de ficção, o tradutor tem de conhecer muito bem a língua de origem e ainda melhor a de chegada.

Levo tempo convivendo com a obra, recebendo no fundo da noite, de algum canto do cérebro, a tradução de uma palavra que ficara mal posta na primeira passagem pelo texto.

Para um tradutor - ou pelo menos para este tradutor - uma nota de pé de página é o pior que pode acontecer, pois comprova que ele foi incapaz de encontrar uma solução vernacular satisfatória.

Apenas pratico o ofício de tradutor, não tenho a menor capacitação para fazer crítica literária. E eis um fato que certamente me condenará ao inferno onde ardem os párias intelectuais: jamais consegui passar do primeiro capítulo de Ulisses!

O trabalho de tradução só faz bem, só estimula a produção de endorfinas, quando a gente o faz por amor, sem pressa, revendo e re-revendo.

Com a alegria de viver, a confiança no seu taco e uma boa dose de espírito lúdico, coisas que por sorte nunca me faltaram, não há nada complicado demais na face do planeta.

JORIO DAUSTER

21 de fev. de 2010

jorio dauster - minha alma, minha lama

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        Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
       Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.
       Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial. Num principado à beira-mar. Quando foi isso? Cerca de tantos anos antes de Lolita haver nascido quantos eu tinha naquele verão. Ninguém melhor do que um assassino para exibir um estilo floreado.
       Senhoras e senhores membros do júri, o item número um da acusação é aquilo que invejavam os serafins - os desinformados e simplórios serafins de nobres asas. Vejam esse emaranhado de espinhos.

OS PORQUÊS DE LOLITA

Não há lista minimamente séria dos melhores romances do século XX em que Lolita não apareça nas cabeceiras, muitas vezes na primeira posição. Difícil imaginar carreira tão brilhante para um livro que, recusado por quatro editoras norte-americanas, teve de ir ao prelo numa pequena casa parisiense que publicava até mesmo obras pornográficas. Mas o fato é que, nesses quase cinquenta anos que transcorreram desde seu nascimento problemático, a obra-prima de Vladimir Nabokov (1899-1977) gerou uma verdadeira indústria, inspirando milhares de artigos, dezenas de teses de doutorado, um punhado de livros de análise literária e dois filmes. Mais ainda, preenchendo estranha lacuna vocabular, legou a várias línguas duas palavras que servem para designar aquelas adolescentes iluminadas por uma sensualidade diabólica: “ninfeta” e o próprio nome da personagem principal.

Como explicar esse fenômeno? Como entender o espaço que o livro passou a ocupar no imaginário mundial?

O primeiro motivo, cumpre admitir, tem a ver com o tema, a paixão desenfreada de um quarentão por uma menina de doze anos. Assunto sempre delicadíssimo, mas simplesmente chocante na longínqua década de 1950, ainda fortemente marcada pelo que hoje chamaríamos de caretice. Outros elementos da história só serviam para fortalecer as reações de pudor das alminhas mais sensíveis: o pedófilo escrevia as recordações na prisão, onde cumpria pena por haver matado outro amante de meia-idade de sua jovem companheira; ele era um professor europeu, ela, uma jovem americana que, na realidade, já perdera a virgindade e toma a iniciativa na primeira relação carnal entre eles; a mãe da menina, uma viúva com quem o professor se casa a fim de ter acesso a sua presa, morre num acidente ao saber das reais intenções do marido... Dose pesada, até mesmo segundo os padrões liberais dos dias de hoje.

Daí que muitos - mas certamente apenas os que nunca se deram ao trabalho de ler o livro - imaginaram tratar-se de uma obra pornográfica; ou, ao ver que ela não tinha propósitos obscenos, num giro de cento e oitenta graus buscaram imputar ao autor propósitos moralistas e até mesmo a ideia de que, como escritor russo chegado poucos anos antes aos Estados Unidos para fugir da guerra na Europa, Nabokov queria mostrar o Velho Mundo sendo corrompido pelo Novo. Quanta bobagem, quando dirigida a um autor que sempre rechaçou qualquer tentativa de misturar a produção literária, vista como arte, com “mensagens” de qualquer tipo.

Além de surgir incidentalmente num ou noutro conto da fase em que escrevia em russo, a ideia central de Lolita já havia recebido um tratamento mais longo e menos bem sucedido num romance curto intitulado O mago. Sem dúvida, o tema atraía Nabokov por se tratar de uma situação-limite, pouco explorada na literatura séria e, por isso mesmo, com um grande potencial em termos da criação de novos tipos e interações humanas. Aliás, não é por outra razão que, entre suas grandes obras, consta a história de um pederasta louco que imaginava ser um rei exilado (Fogo Pálido) e um casal de irmãos que mantém uma relação incestuosa durante toda a vida (Ada). Em todos esses casos, a circunstância de lidar com figuras excêntricas e eventos insólitos não é usada para chocar o leitor, mas, pelo contrário, o convida a abrir seu compasso mental, a considerar sem preconceitos fenômenos que em princípio poderiam repugná-lo e até assustá-lo. Para que isso ocorra, é de todo necessário que os personagens, por sua densidade existencial, sejam capazes de merecer a atenção e, idealmente, a empatia de quem vai conhecê-los pelas mãos do autor.

É assim que Humbert Humbert, embora reconheça a crueldade e a vileza de suas ações como pedófilo, aparece diante de nossos olhos como um ser complexo, com uma trajetória pessoal em que está incrustada, lá atrás em sua juventude na França, uma precursora da menina da Nova Inglaterra. E também como um intelectual que, sem buscar justificar seu comportamento, não deixa de denunciar uma certa hipocrisia com que são tratadas as relações entre adultos e adolescentes no tempo e no espaço – lembrando, por exemplo, que a Beatriz de Dante tinha nove anos quando o poeta se apaixonou por ela, e que Laura conquistou Petrarca antes de completar seus treze aninhos. Entretanto, é esse homem torturado que, ao deparar-se após longa procura com uma Lolita grávida e precocemente envelhecida, supera enfim sua enfermidade e se oferece para casar com ela, tentando em vão lhe devolver a vida que ajudara a destruir.

A segunda razão pela qual a obra teve tamanho impacto é bem mais simples de explicar, e bem mais importante: o livro é muitíssimo bom!

Como em todos os escritos de Nabokov, cada palavra é escolhida sem afetação, mas com o esmero de um ourives selecionando as pedras preciosas que farão parte de uma coroa real. As descrições, ricas em símiles e metáforas, muitas vezes nos fazem ver as coisas mais banais de uma forma surpreendentemente nova. Malgrado as mudanças de ritmo da narrativa, a trama prende a atenção do começo ao fim, tendo um quê deliberado de romance policial. Enfim, nas palavras do próprio Nabokov ao definir a razão de ser de uma obra de ficção, o que Lolita nos proporciona é a “volúpia estética, um estado de espírito ligado, não sei como nem onde, a outros estados de espírito em que a arte (curiosidade, ternura, bondade, êxtase) constitui a norma”.

Por isso, se alguém conseguir ler o livro sem dar ao menos uma boa risada ou sem verter ao menos uma lágrima, é ruim da cabeça... ou deve voltar à primeira página e começar tudo de novo.

Jorio Dauster

imagem: lolita

7 de fev. de 2010

jorio dauster - lolita


A LOLITA DE NABOKOV, OU O DESEJO COMO OBSESSÃO


Na sua vasta obra de ficção escrita em três línguas - centenas de poemas, dezoito romances, sessenta e cinco contos -, Vladimir Nabokov jamais descreveu um único ato sexual, mas nem por isso deixou de tratar do desejo sob todas as formas com que a libido subjuga os pobres mortais. No entanto, talvez só tenha ficado realmente famoso devido ao romance em que investigou o desejo como obsessão, o desejo como tara.

O roteiro central é bem conhecido, inclusive graças aos dois filmes que foram feitos com base no livro: Humbert Humbert, um professor francês de 37 anos, se apaixona por Lolita, menina americana de 12 anos e cópia perfeita do primeiro amor que vivera um quarto de século antes na Riviera. Para assegurar o acesso à filha, HH casa-se com a mãe dela, que morre atropelada por um carro pouco depois de ler o diário onde o marido registrara sua monstruosa atração por Lolita. Fazendo-se passar por pai e filha, os dois circulam por todos os Estados Unidos e se instalam por alguns meses numa pequena cidade, até que a menina foge com outro pedófilo. Três anos depois HH recebe uma carta de Lolita em que ela lhe pede ajuda, pois estava grávida e vivendo na pobreza com um jovem mecânico. Num encontro patético, a ex-ninfeta se recusa a voltar para a companhia dele e confessa a identidade do homem com quem havia escapado, o qual é posteriormente assassinado por HH.

É óbvio que este resumo faz tanta justiça ao livro quanto a visão de um bloco de mármore pode sugerir a forma que lhe será dada pelo cinzel do escultor. Como em toda a obra de Nabokov, o que importa é a combinação mágica de imagens e cores, seu cuidado de ourives na busca de cada palavra, sua capacidade de tomar uma fatia de vida e, mediante um jogo de espelhos, transmudá-la de forma até mesmo grotesca para chegar aos limites da experiência humana.

A característica mais notável de Lolita é que, lidando com um tema tão sensível, Nabokov sequer tangencia o pornográfico e, muito pelo contrário, constrói sem pieguice uma fábula claramente moralista. Mas o faz a seu modo: cabe à garota, que perdera a virgindade na colônia de férias onde HH vai buscá-la após a morte de sua mãe, a iniciativa da primeira relação sexual; é o próprio HH que, escrevendo na prisão, mais duramente condena a bestialidade de seus atos, as torturas que sua inesgotável lascívia haviam infligido à menina, embora não deixe de assinalar que, em outros tempos e outras culturas, a ligação entre eles nada teria de anormal; e é através do assassinato de seu “duplo” que ele se desfaz do passado.

Mas, acima de tudo, a verdadeira redenção de HH está em que o desejo lúbrico pela ninfeta Lolita se transfigura num amor sem limites pela mulher Lolita. E só mesmo nas palavras do autor se pode entender com que força explode essa paixão.

“De trás do barraco de Bill, o rádio de alguém que voltara do trabalho levou até nós uma música que falava de loucura e destino, e lá estava ela com sua beleza destroçada, as veias saltadas nas mãos estreitas de adulta, a pele arrepiada nos braços brancos, as orelhas sem viço, as axilas descuidadas, lá estava ela (minha Lolita!) irremediavelmente gasta aos dezessete anos, com aquela criança que dentro de seu ventre já sonhava em ser um sujeito importante e se aposentar no ano 2020 – e fiquei olhando para ela, sabendo, tão lucidamente como sei que vou morrer um dia, que eu a amava mais do que tudo o que jamais vi ou imaginei neste mundo, ou que possa esperar em qualquer outro. Ela era apenas um traço fugaz de perfume, o eco de uma folha morta, quando comparada à ninfeta sobre a qual eu rolara outrora gemendo de prazer; um eco à beira de uma ravina acobreada, com uma floresta longínqua sob o céu lívido, folhas marrons sufocando o riacho, um derradeiro grilo nas ervas ressequidas... mas, graças a Deus, não era apenas esse eco que eu venerava. Aquilo que eu costumava acariciar entre as vinhas emaranhadas de meu coração, mon grand péché radieux, estava reduzido a sua essência: todo o resto, o vício estéril e egoísta, fora abolido, amaldiçoado. Podem zombar de mim, ameaçar de evacuar o tribunal, mas até que eu seja amordaçado e semi-asfixiado continuarei a proclamar aos brados minha pobre verdade. Insisto em que o mundo saiba o quanto amei minha Lolita, esta Lolita, pálida e poluída, carregando o filho de outro homem, mas ainda com os mesmos olhos cinzentos, os mesmos cílios cor de fuligem, os mesmo tons de castanho e amêndoa, a mesma Carmencita, ainda e sempre minha! Changeons de vie, ma Carmen, allons vivre quelque part où nous ne serons jamais séparés. Ohio? Os ermos de Massachusetts? Não importa, mesmo que teus olhos fiquem embaciados como os de um peixe míope, mesmo que teus mamilos inchem e se rachem, mesmo que se macule e rasgue teu jovem e adorável delta, tão delicadamente aveludado... mesmo então eu enlouqueceria de ternura à simples vista de teu rosto amado e lúrido, ao simples som de tua voz rouquenha, minha Lolita.”

JORIO DAUSTER
imagem: lolita

31 de jan. de 2010

jorio dauster - o cosmopolita galopavão


Afinal de contas, me perguntei outro dia, por que o popular Meleagris gallopavo, aquela ave de carúncula avermelhada originária da América do Norte, tem o nome de um país latino-americano em português e de um país do Oriente Próximo em inglês? Aposto que você também já foi assaltado por tal indagação, mas muito provavelmente nada fez para respondê-la, não é mesmo?

Pois saiba (como acabo de aprender no Houaiss) que o nosso peru vem do fato de que, no Portugal do século XVI, todos achavam que a apetitosa ave provinha da terra dos incas, a qual, por sua fama, passara mesmo a significar toda a América espanhola. Já o prato de resistência dos almoços de Thanksgiving nos Estados Unidos tem o nome de turkey porque a ave em causa foi confundida (certamente por linguistas ingleses que jamais a haviam visto) com a galinha-d’angola, a qual, por sua vez, imaginavam ser originária da Turquia. O que só faz acrescentar mais um complicador geográfico a este verdadeiro samba do crioulo doido, pois a referida representante da família dos numidídeos também é conhecida em português como galinha-da-guiné e, compreensivelmente, atende hoje em inglês pela alcunha de guinea fowl. Mas a coisa se complica ao vermos que o peru gaulês, o dindon, deve seu nome à fêmea da espécie, a dinde, assim chamada carinhosamente para designar a poule d’Inde. E, como já percorremos alguns continentes, vou ficando por aqui, feliz por não ter um dicionário de javanês em minhas estantes.

JORIO DAUSTER

24 de jan. de 2010

jorio dauster - um achado

O SALINGER QUE (QUASE) NINGUÉM LEU

Entre 1940 e 1965, J. . Salinger publicou um total de 36 contos e um romance. Daqueles, treze foram reunidos em três volumes bem conhecidos: Nove Estórias; Franny e Zooey; e Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação. Os vinte e dois restantes há muito permanecem enterrados, e em larga medida ignorados (exceto por alguns poucos fãs), nas revistas em que apareceram. Esses vinte e dois contos estão reproduzidos nestes dois volumes. Alguns imaturos, outros excelentes, são talvez a chave mestra para entender o tema religioso de Salinger em sua permanente evolução, desde os primeiros conflitos sociais dos adolescentes de classe média, passando pelas frustrações do intelectual nos tempos de guerra, até chegar à figura místico-literária do próprio Seymour, o ápice da caminhada de Salinger em busca de seu eu mais profundo.

livraria

Por incrível que pareça, essas poucas - e instrutivas - linhas constituem o prefácio de uma edição pirata de tudo aquilo que Salinger se recusara a publicar sob a forma de livro antes de mergulhar na reclusão e no mais absoluto silêncio autoral. Entre as vinte e duas peças, lá está a última vinda a público há exatos trinta e sete anos, Hapworth 16, 1924, e que talvez ainda possa ser lançada entre capas duras para gáudio das hostes salingerianas em todo o mundo.

Quando saiu O apanhador no campo de centeio, em 1951, Salinger já publicara 27 contos em diversas revistas, tais como Collier´s, The Saturday Evening Post, Cosmopolitan, Story, Mademoiselle, Cosmopolitan e The New Yorker. Seis deles foram integrar o volume das Nove estórias, publicada em 1953, mas a partir daí começaram a rarear as aparições de Salinger em pessoa e também em letra de forma: Franny e Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira só apareceram em 1955, Zooey em 1957, Seymour, uma apresentação em 1959, até o derradeiro Hapworth 16, 1924 em junho de 1965.

Enquanto isso, crescia de forma estupenda a fama do autor, já então objeto de verdadeiro culto, transformado em guru de todos os adolescentes que se identificavam com Holden Caufield na sua rejeição das falsidades da vida adulta. Quando ficou claro que os contos não incluídos na coletânea jamais veriam a luz do dia com o beneplácito do autor, estabeleceu-se uma verdadeira caçada às revistas que os haviam abrigado originalmente. Para os jovens fãs incapazes de disputar os cobiçados exemplares com colecionadores mais abonados, o instrumento de eleição era a gilete e o campo de ação as bibliotecas públicas e universitárias: nestas últimas, diz-se que não resta incólume um único dos números visados.

E foi então, se não me engano no início dos 70, que recebi de um colega diplomata lotado no exterior um artigo do Herald Tribune sobre Salinger. Sabedor de que eu co-traduzira o Apanhador no campo de centeio e Nove estórias (o primeiro com Álvaro Alencar e Antônio Rocha, o segundo apenas com Álvaro), mandava-me a matéria por imaginar que eu gostaria de conhecer a luta do autor para coibir uma edição fantasma que, certamente se valendo dos esforços daqueles bravos cirurgiões de revistas, continha os vinte e dois contos que ele condenara ao esquecimento. Segundo a matéria jornalística, não havia muito o que a polícia pudesse fazer: os vendedores piratas ofereciam os exemplares de livraria em livraria, cobrando em espécie e desaparecendo a seguir; os livreiros, por sua vez, escondiam os volumes em algum canto bem seguro da loja e, auferindo um belo lucro, só os ofereciam a clientes de confiança. Para mim, labutando no Planalto Central, ficava a certeza de que não teria nem mesmo a chance de cometer o pecadilho de comprar a obra pirata.

Eis-me, alguns anos depois, caminhando pelas ruas de Paris, para onde havia sido levado por uma reunião de cunho econômico. Nem me recordo por que, naquele dia, me afastara tanto do tradicional roteiro hotel-local da conferência-embaixada-hotel que costumava palmilhar. Por força do hábito, dou uma breve paradinha diante da vitrina de modesta livraria, passo os olhos a galope pelos títulos franceses e... Estranha dupla de volumes: capas brancas com o desenho de uma mulher e uma menina, vestidas nos trinques e empoleiradas na beira de uma cama com dossel e volumosos travesseiros, conversando com um soldado sentado diante delas numa poltrona; na parte superior, em letras vermelhas sobre fundo rosa no melhor estilo belle époque, o nome do autor; mais abaixo, March 1940 (mês em que foi publicado o primeiro conto, Young Folks); na parte inferior, os títulos dos contos (17 no primeiro volume, 5 no segundo) e, num retângulo rosa-pálido, as palavras que me deixaram atônito: Featuring The Complete Uncollected Short Stories!

Confesso que entrei disparado na livraria, perseguido pela idéia insana de que lá dentro já estaria alguém finalizando a compra daquele pequeno tesouro. Evidentemente, a loja estava às moscas, a senhora que me atendeu sem dúvida jamais ouvira falar em J. D. Salinger, e pelo jeito ficou muito feliz quando me declarei disposto a levar não só a dupla da vitrina mas também as duas outras que dormitavam numa prateleira mal iluminada (e com as quais presenteei meus co-tradutores).

Na época, sem pensar muito sobre o assunto, achei que aqueles volumes eram parte da operação iniciada no outro lado do Atlântico, quem sabe as sobras que tiveram de buscar outros mercados fugindo à repressão policial. Agora, porém, ao escrever estas notas, olhei com mais cuidado as publicações, que obviamente não trazem nenhuma indicação bibliográfica, e convenci-me de que não parecem ser um produto norte-americano. Contribuem para isso o rebuscado da capa e alguns erros de impressão no prefácio (“skelton key”, “tracable” e “adolesents”), denunciando uma provável origem gaulesa. Mas a melhor pista, que consistia em saber se o artigo do Herald Tribune falava ou não de dois volumes, havia se perdido nas brumas do passado.

Fica o mistério policial, passível de ser resolvido por algum fã mais bem informado do que eu. Mas restará para sempre o mistério maior, a tessitura inconsútil que transformou um devotado tradutor de Salinger em cúmplice confesso (embora impenitente) de um doce atentado à propriedade intelectual do ermitão de New Hampshire.

JORIO DAUSTER

17 de jan. de 2010

jorio dauster - o apanhador


DE QUE VALE UM TÍTULO?

“... fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

Ninguém que tenha lido a obra-prima de J. D. Salinger poderá se esquecer da cena em que Holden, tarde da noite, resolve visitar a irmã, entrando sorrateiramente no apartamento para que seus pais não o vejam. Por sorte, eles haviam saído e Holden tem uma longa conversa com Phoebe, que não demora a descobrir que ele havia sido expulso da escola, reprovado em todas as matérias com exceção de inglês. Com a sensatez imbatível das meninas de dez anos de idade, a irmã o acusa de não gostar de nada e, tendo Holden a duras penas conseguido dizer que gostava do Allie (um irmão já morto) e de estar ali conversando com ela, Phoebe exige que ele diga o que gostaria de ser quando crescesse.

A resposta reproduzida acima, além de típica do estilo coloquial empregado com tanto êxito por Salinger para caracterizar o rapazote de dezesseis anos, sintetiza os dois traços centrais do personagem: sua recusa em aceitar o jogo dos adultos, representada pela escolha estapafúrdia do que faria ao crescer, e o amor ao próximo, aqui simbolizado pela preocupação em evitar que as crianças caiam no abismo (mas também presente mesmo no último parágrafo do livro, quando Holden diz sentir saudades até das pessoas que lhe fizeram mal). Nesse sentido, nada mais justo que Salinger retirasse de tal passagem o título de seu livro.

Muito justo, sem dúvida, mas se ponha na pele de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e eu, já lá vão quarenta anos, tentando passar para o português The Catcher in the Rye. Apanhador, palavra horrorosa que, segundo os dicionários, se aplicaria a quem colhe os grãos de café ou extrai o látex da seringueira, embora no linguajar corriqueiro só seja usada para designar um gandula. Centeio, quando muito, lembrava um tipo de pão àquela época pouco consumido por estas bandas; mas quem jamais teria visto um campo da tal gramínea? Não, intitular um livro Apanhador no campo de centeio seria como dar algum nome esdrúxulo a uma bela criança, seria condená-lo à mais absoluta rejeição.

É verdade que o título também não fazia muito sentido mesmo no idioma do autor. Para todos os efeitos práticos, a palavra catcher em inglês se refere àquele jogador de beisebol cujo rosto está sempre coberto por uma máscara e que, agachado atrás do batedor, fica pegando as bolas atiradas pelo lançador (ocupando assim, aparentemente, a posição mais besta de qualquer esporte se ao “apanhador” não coubesse também a responsabilidade crucial de indicar onde a bola deve ser lançada com base nas características do batedor). A segunda parte do título só é explicada na própria conversa de Holden com Phoebe, quando ele lhe pergunta se conhece a cantiga “Se alguém agarra alguém atravessando um campo de centeio”. Phoebe o corrige, dizendo que o certo é “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”, e ainda acrescenta que é baseada num poema de Robert Burns. De fato, trata-se de uma conhecida cantiga de crianças, mas, até mesmo devido ao “erro” de Holden ao trocar os verbos, jamais encontrei uma única pessoa nascida nos Estados Unidos que tenha feito de estalo a ponte mental entre a musiquinha e o título.

Voltando ao nosso drama linguístico, fizemos longas listas de títulos alternativos até encontrarmos A sentinela do abismo, em que respeitávamos tanto o contexto quanto o conceito. Eureca! Que nada, a alegria durou pouco. Da agente literária de Salinger veio a ordem ríspida: ou se vertia o título literalmente ou era suspensa a venda dos direitos de tradução. Ordens do autor. Em vão tentei explicar por carta que a expressão era virtualmente ininteligível no vernáculo. Aproveitando uma ida a Nova York, obtive a graça de uma entrevista com a agente, pois já então era de todo impossível comunicar-se com o próprio eremita de New Hampshire. Nenhuma chance de revisão da sentença, porém ao menos fiquei sabendo que Salinger entrara em órbita ao tomar conhecimento de certas versões dadas ao título que lhe devera ter custado imensas dores de parto.

Com base em três delas que vim a conhecer mais tarde, passei a dar toda a razão ao autor. Senão vejamos.

Em espanhol, saíram-se com El cazador oculto, obviamente por conta da menção a um campo e ao fato de que o Holden adulto nele estaria escondido para não comprometer a espontaneidade das crianças ao brincarem. Mas que extraordinário exemplo de insensibilidade do tradutor ao não perceber o quanto a idéia de caçada e de morte era antagônica à mensagem que o título buscava transmitir!

O francês nos brindou com L’attrape-coeurs, que corresponderia em português a um abominável Pega-corações. No entanto, quando a língua de Racine já tem consagradas as expressões attrape-mouches (pega-moscas) e attrape-nigaud (prima-irmã de nossa “pegadinha”), dá para questionar a qualidade da versão gaulesa independentemente de sua dose excessiva de açúcar.

E, por fim, a mais notável, inclusive por demonstrar a desistência do tradutor português – recurso ao menos rechaçado pelos coleguinhas de Espanha e França – de extrair o título da rica contextura em que o original o situara. Pois bem, o ilustre sr. João Palma-Ferreira tascou Uma agulha no palheiro (na melhor tradição do conterrâneo que batizou o Psycho hitchcockiano de “O filho que era a mãe”)! Todavia, desconfiando de que não havia mesmo nenhuma relação entre o fundilho das calças e o orifício por elas protegido, ofereceu à posteridade uma Advertência cujo sabor só pode ser apreciado mediante sua reprodução integral: “O título português do romance de J.D.Salinger Uma Agulha no Palheiro foi especialmente escolhido tendo em atenção a singularidade expressiva desta frase comum portuguesa (sic) e não corresponde à nem pretende ser a tradução do título original norte-americano: The Catcher in the Rye, para o qual foi sempre difícil encontrar uma forma suficientemente alusiva e gramaticalmente correcta em todas as que ocorreram ao tradutor. Supõe-se, pois, que, sem fugir ao que o escritor pretendeu (sic), o título da edição portuguesa marcará incisivamente o espírito deste livro admirável.” *

* Há outras coisas imperdíveis nessa tradução lusa. Quando o Edgar Marsalla quase manda pelos ares o teto da capela onde os alunos eram obrigados a ouvir o discurso do agente funerário e grande benfeitor do colégio, seu “peido infernal” (terrific fart) se metamorfoseia num “tremendo arroto”. Quando Holden se enfurece com os palavrões que vê escritos nas paredes da escola da irmã e do museu, os muitos “Foda-se” se transformam em pálidos “Vai à merda”. Graves problemas de sinonímia ou de anatomia?

Seja como for, ao fim e ao cabo a edição brasileira estampou a tradução literal, ainda que amenizada por breve nota onde se lia: “Os três jovens diplomatas brasileiros que fizeram a presente tradução escolheram o título A Sentinela do Abismo. O Autor preferiu, entretanto, o título O Apanhador no Campo de Centeio.” O que, pelo jeito, não atrapalhou em nada, se é que não serviu para tornar ainda mais indelével a marca do livro na memória do leitor. As vendas continuam firmes, ano após ano, mesmo depois que o tresloucado assassino de John Lennon foi apanhado com um exemplar da obra. Que aqui no Brasil passou a ser carinhosamente chamada de Apanhador.

E você, já leu o Apanhador?

JORIO DAUSTER

14 de jan. de 2010

avulsas

traduzir é divertido, e todo mundo que traduz sempre acumula um enorme arsenal de anedotas, pequenos orgulhos e satisfações, algumas raivas, vergonhas dos mais variados tamanhos. vou passar a comentar de vez em quando lembranças avulsas da minha experiência pessoal.

começo por uma que foi inesquecível. é antiga, aconteceu lá por volta de 1988/89. eu tinha entregado uma tradução, já fazia meses, e fui à editora por qualquer razão que não lembro agora. na saída, vem o editor e me pergunta: "denise, você sabe o que é loathe?" - surpresa,  respondo: "ué, claro, detestar, abominar".

aí o editor me estende o livro que eu tinha traduzido, mostra uma página com a citação de um poema no original e a tradução em pé de página, e diz: "então por que você pôs 'amar'?"

imagem: myspace

20 de dez. de 2009

ivo barroso - biobibliografia



Ivo Nascimento Barroso, nascido em Ervália, MG em 25/12/1929, e radicado no Rio de Janeiro. Formado em Direito e Letras, tradutor, poeta, ensaísta e crítico literário.

Obra de tradução:

André Breton, Nadja
André Gide, A volta do filho pródigo, precedido de cinco outros tratados
André Malraux, A condição humana (e prefácio)
Annalisa Cima, Hipóteses de amor (com Alexandre Eulálio)
Arthur Rimbaud, Correspondência (com notas e comentários)
Arthur Rimbaud, Poesia completa (com notas e comentários)
Arthur Rimbaud, Prosa poética: Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a sotaina, Os desertos do amor, Prosas evangélicas (com notas e comentários)
August Strindberg, Inferno (com notas)
Erik-Axel Karlfeldt, Poesias
Eugenio Montale, Diário Póstumo (com introdução e notas)
Georges Perec, A coleção particular
Georges Perec, A vida – modo de usar
Hermann Hesse, Demian (e prefácio)
Hermann Hesse, O lobo da estepe (e prefácio)
Italo Calvino, As cosmicômicas
Italo Calvino, O castelo dos destinos cruzados
Italo Calvino, Palomar
Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio
Italo Calvino, Todas as cosmicômicas
Italo Svevo, A consciência de Zeno
Italo Svevo, A novela do bom velho e da bela mocinha (com introdução e notas biográficas)
Italo Svevo, Senilidade
Jane Austen, Emma
Jane Austen, Razão e Sentimento
Marguerite Yourcenar, Denário do sonho
Marguerite Yourcenar, Golpe de Misericórdia
Marguerite Yourcenar, O tempo, esse grande escultor
Nikos Kazantzakis, Ascese
Oscar Wilde, Salomé (com introdução e notas)
Peter Newell, O livro do foguete
Romain Rolland, Colas Breugnon
Shel Silverstein, Uma girafa e tanto
T. S. Eliot, O livro dos gatos
T.S. Eliot, Os gatos
T. S. Eliot, Teatro completo 
Umberto Eco, O pêndulo de Foucault
William Blake, O casamento do céu e do inferno (com introdução e notas)
William Shakespeare, 30 sonetos (e prefácio)
William Shakespeare, 42 sonetos (e prefácio)

Organização:
Agenor Soares de Moura, À margem das traduções
Charles Baudelaire, Poesia e prosa
Edgar Allan Poe, O Corvo e suas traduções
Vários autores, O torso e o gato (antologia de poemas traduzidos)

Obra própria:
A caça virtual e outros poemas
Caixinha de música
Nau dos náufragos
Poesia ensinada aos jovens
Visitações de Alcipe

Entrevistas:
Entrevista de Ivo Barroso a Rodrigo de Souza Leão
Ivo Barroso, um tradutor de obras completas
Ivo Barroso
A mais completa tradução
Dobras do corpo, dobras do tempo: Jornal Poesia Viva, n. 12

foto: via cosac

13 de dez. de 2009

ivo barroso - itinerários VII



UM CASAMENTO ENCRUADO

Para encerrar definitivamente a história dos cadernos, tiro do fundo da gaveta um esmaecido 16x11 “De Luxe” Nº 15 – Pautado, adquirido na antiga Casa Cruz do Rio de Janeiro em 1948, cuja primeira página me faz sorrir ante a pretensiosa inscrição: Cahier de Voyage. Explico: meu pai achava que meu curso de Neo-latinas (na então chamada Faculdade de Filosofia) era incompatível com as esperanças que a cidade nutria em relação à sua descendência; donde ele, farmacêutico, querer um filho médico, advogado ou militar. Os militares estavam em alta (inclusive em termos salariais) e, para atender aos desígnios paternos, me inscrevi naquele ano nos vestibulares das Escolas Militar, Naval e da Aeronáutica. Uma oportuna (?) miopia salvou-me dos quartéis, dos conveses ou das asas fabianas – reprovando-me no exame médico das três. Até o novo ano letivo, lá estavam as sonhadas, as benditas férias no interior de Minas, onde meu pai continuava a manter sua farmácia apostolar, vocacional, beneficente. Parti, levando o caderninho.

Nele encontro, com data de Rio, 8 [1949]: "Em grandes preparativos para embarcar. Vence o prazo do livro de Blake e tenho de copiar aqui seus provérbios para terminar sua tradução em Minas”. Seguem-se, numa letrinha caprichosa, que fui perdendo ao longo do tempo, os 70 “Provérbios do Inferno”, parte capital de The Marriage of Heaven and Hell, de William Blake. Como cheguei a esse livro? Por essa época, havia descoberto Gide (Trozos escogidos, em espanhol) e comecei a ler tudo dele numa edição de luxo, feita na Suíça, e existente na Biblioteca Nacional. Lá pelas tantas, Gide fala em Blake como sendo a quarta estrela de uma constelação composta por Nietzsche, Dostoiévski e Browning, e cuja leitura o levou a traduzir Le Marriage du Ciel et de l´Enfer, em 1922. Fui atrás do original, que encontrei na Biblioteca do IPASE (excelente à época, tinha todos os livros da Modern Library) e levei de empréstimo para casa, reformando o pedido várias vezes, pois meti-me na cabeça que o devia traduzir. Comecei a tentar com um ou outro dos provérbios, sem avançar muito, mas, como ia de férias, o recurso foi copiá-los para acabar a tradução em Minas.


Eis minha primeira tentativa de traduzir um livro completo; já havia conseguido traduzir sonetos e até pequenos poemas, do espanhol e do francês, mas nunca um livro inteiro, tarefa que me parecia impossível. E foi, no caso de Blake, pois ficou apenas no caderno de viagem. De volta das férias, voltei também a Gide, encantei-me com o Retour de l´Enfant Prodigue, e igualmente cismei de traduzi-lo. Logo no início, a expressão “comme un donnateur au coin du tableau” me botou nocaute durante muito tempo, até que recorri a Otto Maria Carpeaux (li numa entrevista que ele respondia a todas as cartas, escrevi-lhe), que me esclareceu sobre os mecenas medievais que, por devoção, pediam aos pintores que os colocassem ajoelhados a um ângulo do quadro. Também este foi um projeto arrastado, produtor de rascunhos hieroglíficos, abandonado e retomado várias vezes, que só se realizou em 1984, ao ser editado pela Nova Fronteira.

O Casamento ficou por muito tempo no namoro. Em fases sucessivas, fui tocando os provérbios até traduzi-los todos. Mas não conseguia vencer a barreira das “visões memoráveis” e o projeto adormeceu na comodidade dos rascunhos. Em 1956, apareceu a tradução de Oswaldino Marques, e achei que Blake tinha caído no “domínio do público” e não valia mais a pena ser tratado como “a quarta estrela” gideana. Ao longo do tempo foram aparecendo As Núpcias, O Matrimônio, o Enlace, a Aliança, a União e até – em Portugal, é claro – A Conjunção (do Céu e do Inferno), o que me dava a impressão de que a prosa direta e visionária de Blake estava passando por processos de retocagem gongórica, sofrendo um empolamento bombástico capaz de fazê-la perder seu impacto subversivo e contestador. Good-bye, Blake!

No ano passado, recebi um convite da Editora Hedra (leia-se Bruno Costa), de S. Paulo, para traduzir o Jerusalém, de William Blake. Desculpei-me, dizendo que, com o 3º volume da Obra Completa de Rimbaud (Correspondência), eu dava por encerrada minha “carreira” de tradutor e ia tratar de fazer um segundo livrinho de versos meus (o primeiro, A Caça Virtual e outros poemas, havia aparecido em 2001). Como alternativa, aceitei fazer o prefácio para Sagas, uma coleção de contos de Strindberg, autor da minha mais franca predileção. Mas o convívio com a Editora, que esperava ainda lançar uma tradução minha, fez com que, de pura brincadeira, eu lhes propusesse casamento. Sim, seria, desta vez, o Casamento sem rebuços, sem berloques, sem firulas. Blake restituído à sua prosa agressiva, contestatória, modernamente poética. Teríamos o fechar de um ciclo: o primeiro livro que sonhei traduzir seria o último a ser traduzido por mim. E assim foi. # FIM #

IVO BARROSO

6 de dez. de 2009

ivo barroso - itinerários VI


DE ESPADA EM PUNHO

Como em Dumas, meus três tradutores-mosqueteiros eram quatro: Mílton Amado, Agenor Soares de Moura, Onestaldo de Pennafort e Carlos Porto Carreiro. Os dois primeiros eu havia conseguido homenagear com livros; os dois últimos o seriam com longos artigos. Mas, para chegar a tanto, tive que enfrentar desagradáveis frustrações.
A admiração que sempre tive pelas traduções de Onestaldo de Pennafort, principalmente pelas suas “encarnadas” versões dos poemas de Verlaine, sempre me fizera prometer a mim mesmo escrever algo a seu respeito, já que seu nome parecia desconhecido entre as novas gerações. Ele foi o mais perfeito intérprete do poeta francês em língua portuguesa, a ponto de suas Festas galantes se tornarem um livro de poesias de nossa literatura. Stefan Zweig, que se refugiara no Brasil em 1940, assim se dirige ao tradutor: “Ainda não falo o português, mas leio-o, e ainda mais facilmente numa tradução de poesias que sei de cor. O senhor gostará de saber que possuo o manuscrito original das Fêtes galantes [...] Que alegria ao ler Verlaine na língua de seu tradutor e captar-lhe ainda assim a música!” Além de Verlaine, Onestaldo havia conseguido dar ao Romeu e Julieta, de Shakespeare, a jovialidade, a leveza, a graça da obra original. E, no extremo oposto, toda a coloração sombria da tragédia cruel vivida por um Otelo transtornado de ciúmes. Além disso, havia suas obras originais, de grande versatilidade e de sutil leveza.

Compus um longo ensaio que ficou guardado por uns tempos à espera do veículo adequado para divulgá-lo. Houve época em que fui um dos redatores da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, e julguei que estaria ali o espaço ideal para estampar o artigo. Mas por várias circunstâncias a matéria não saiu. Só em março de 2007, já de todo afastado da Poesia Sempre, encontrei guarida na Revista do Livro, órgão de divulgação cultural da mesma entidade, dirigida pelo prof. Elmer Barbosa. Estampada no nº 48, Ano 15, de março de 2007, esperei em vão por um exemplar da revista para ter a certeza de que a homenagem se efetivara. Depois de quase um ano, vim a saber que o tal número, dedicado quase inteiramente à literatura italiana, teve toda a sua tiragem distribuída num salão do livro que homenageava o Brasil na... Itália. Aqui, não restou disponível nenhum exemplar da revista. Foi graças à gentileza da Dra. Célia Portella que consegui ter em mãos a revista e constatar que de fato o artigo saíra (e estava sendo lido (?)... na Itália). Para compensar o extravio, estou cogitando de imprimir uma plaquete que, desde já, ofereço a todos os que se interessarem pelo assunto.
Embora, cronologicamente, Porto Carreiro tenha sido a minha predileção mais antiga, meu inesquecível D´Artagnan, até hoje não consegui lhe fazer a devida vênia, tirando-lhe o chapéu no gesto largo de arrastar pelo chão a pluma da Gasconha.

Sua tradução do Cyrano de Bergerac, que eu sabia quase toda de cor, de tanto lê-la, que abriu para mim as portas da conquista amorosa, sempre mereceu meu preito e minha gratidão. Que poderia fazer para divulgar seu nome, proclamar a excelência de sua façanha tradutória? Em 1997, centenário da primeira representação da peça, graças ao meu editor José Mário Pereira, íamos lançar uma cuidada edição bilíngue da peça, escoimada de alguns erros constantes das edições anteriores. Escrevi uma extensa apresentação em que falava não só do autor Edmond Rostand, mas igualmente de seu imortal intérprete Coquelin, de Sarah Bernard e do verdadeiro Cyrano, terminando por comentar os poucos dados biográficos que havia sobre o tradutor, mas ressaltando-lhe a genialidade da transposição. Professor de direito no Recife, Porto Carreiro apaixonou-se pela peça e traduziu-a tão logo foi representada. Dizem que ia de bonde para a Faculdade e não raro saltava a meio caminho para anotar algum verso que lhe ocorrera no trajeto. Desse extraordinário feito tradutório (considero-o a maior tradução de teatro em versos que conheço em língua portuguesa), disse, à época, o ferrenho crítico José Veríssimo, que considerava “em alguns pontos a tradução melhor que o original”. Esse tipo de frase tem sido modernamente criticado: Pode uma tradução ser melhor que o original? Claro que não, mas acredito que, num verso ou noutro, isto possa ocorrer em poesia: o tradutor encontrar uma expressão, um torneio de frase, uma palavra perfeita que faça o verso mais expressivo em sua língua do que o era no original. Para tanto é necessária uma integração, uma “encarnação” absoluta do tradutor na obra que traduz. França Pereira, contemporâneo de Porto Carreiro, assim o evoca: “Lembro-me bem do fulgor de seu olhar febricitante, do riso que lhe brincava nos lábios e do tremor que lhe agitava as mãos, ao falar-me do seu Cyrano, como se ele quisesse reviver ante meus olhos deslumbrados o velho galrão da Gasconha num outro poema dramatizado. O que o desanimava, dizia-me, era a suspeita de se frustrarem seus esforços neste 'meio' onde o galardoariam talvez com esta frase esmagadora: -- Ora! Uma tradução! – E mais nada.” E até hoje há quem, ligado às letras, tenha um conceito inferiorizante sobre tradução. Digo que uma tradução pode ser o “equivalente” da obra original em outra língua. Porto Carreiro criou um Cirano em português, assim como Onestaldo criaria suas Festas galantes. Duas obras geniais francesas vivendo seu momento literário no idioma português.

Mas, encurtando: como queríamos fazer uma edição de luxo, em papel de qualidade, possivelmente com ilustrações, o projeto gorou dentro do tempo previsto. Passou o centenário e a minha homenagem, por insignificante que fosse, não chegou a realizar-se. E – frustração das frustrações – em 2002 encontro na minha banca de jornais uma edição de bolso, capa preta com uma gravura dourada do narizão cirenaico, que ainda não constava de minha coleção e que podia ser adquirida a preço módico. Quem seria o destemido tradutor que, sabendo da existência da façanha de Carreiro, ousava enfrentar as dificuldades do Cirano? Abro a capa e leio o nome do “herói”: Fábio M. Alberti, mas – pasmo! – logo aos primeiros versos ao constatar que eram os mesmos de Porto Carreiro, amados versos que eu sabia de cor e nem precisava ir a casa cotejar. Um plágio desconcertante. O “herói”, no caso, não passava de um deslavado farsante. Precisava denunciá-lo. Escrevi imediatamente um artigo, Cyrano em “tradução clonada”, que saiu no Idéias do JB em 21.09.2002 e foi logo transcrito em outros jornais do Nordeste e no prestigioso blog de Soares Feitosa. A Editora Nova Cultural, para a qual mandei uma cópia do artigo, telefonou-me passado algum tempo dizendo que tinha havido um engano e que o nome de Porto Carreiro seria restaurado nas próximas edições (o que não ocorreu até hoje). Pouco tempo depois, dou com outro roubo descarado, das Flores do Mal, de Charles Baudelaire, cuja antiga tradução de Jamil Almansur Haddad aparecia na edição da Martin Claret com o nome de Pietro Nassetti (?). Meu artigo Flores roubadas do jardim alheio saiu no Rascunho de maio de 2003. Revoltado com tais descaramentos, eu mal sabia que estava simplesmente tocando a crista do iceberg.

Em 2007, voltei à carga junto ao meu editor: vamos lançar o livro no 110º aniversário da estréia da peça! é sempre uma efeméride, e os editores e leitores gostam dessas datas redondas. Acrescentei novos dados ao prefácio, citei as atuais edições francesas, a recente encenação da Comédie Française, os vídeos que surgiram, as traduções italianas e alemãs. Mas, de novo, o dinheiro foi curto e a obra não saiu. Mas como Cirano, no último ato da peça, junto à arvore frondosa, embora ferido por causa das minhas frustrações, empunho a espada das determinações e digo para mim: Eu me bato! Eu me bato! Eu me bato! #

IVO BARROSO

imagem: coquelin como cyrano, google images

29 de nov. de 2009

ivo barroso - itinerários V



A SEGUNDA DETERMINAÇÃO

Sempre li e colecionei Suplementos literários. Tenho até hoje, em volumes encadernados, os números de “Letras & Artes”, dos anos 1946 a 1951. Mais tarde, em 1957, quando comecei a colaborar no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, guardava cuidadosamente os exemplares, que já faziam uma boa pilha quando uma enchente invadiu a garagem do meu prédio na Lagoa e transformou minha literatura em pasta de papel. Mas houve um suplemento, o do Diário de Notícias, que vim a conhecer muito tempo depois de desaparecido, quando pesquisava na Biblioteca Nacional, em busca da coluna de Agenor Soares de Moura, o grande erudito, famoso por suas críticas de traduções.

Agenor – soube-o mais tarde – era um professor de português radicado na província (Barbacena, MG), que, sem nunca ter saído de sua cidadezinha, dominava perfeitamente uns cinco idiomas e escrevia num português de dar inveja aos literatos de então. Implicava com a má qualidade das traduções que via e resolveu escrever uma carta ao jornal criticando algumas delas, assinadas por escritores de renome. O jornal, ciente da qualidade do trabalho, em vez de simplesmente publicar a carta, propôs ao missivista um rodapé semanal em que pudesse exercer a sua tão útil fiscalização. E nasceu a coluna “À Margem das Traduções”, que persistiu milagrosamente por dois anos (1944/46). Digo milagrosamente porque os editores deixaram de mandar ao jornal os livros traduzidos, certamente com receio das críticas de Agenor, e porque, no fim, já lhe faltassem originais para o cotejo, mesmo tendo ele, em muitas ocasiões, adquirido de seu próprio bolso os livros que se dispunha a analisar. Diga-se que eram críticas construtivas, ou, mais que isto, reconstrutivas, pois ele, além de apontar as impropriedades, sugeria a maneira ou as maneiras corretas ou possíveis de resolver as deficiências apontadas. Para mim, tradutor iniciante, eram verdadeiras lições de como não fazer, de como evitar certas armadilhas e escorregões em que muitos profissionais do gênero incidiam.

Achei imperioso editar em livro aquelas crônicas para fazer justiça a um pioneiro das boas traduções no Brasil. Seria minha segunda determinação. Eu me correspondia com seu sobrinho e xará, Agenor Soares dos Santos, grande lexicógrafo e conhecedor da língua inglesa, autor do imprescindível Guia Prático da Tradução Inglesa (Campus-Elsevier). Por seu intermédio, soube que a viúva de Agenor, Da. Carmen Duarte Siqueira Soares, já bastante idosa, ainda morava em Barbacena; em Juiz de Fora residia o filho, Afonso de Siqueira Soares, que possivelmente teria a coleção dos artigos do pai. Afonso, de fato, guardava com carinho, colados num livrão, os recortes de jornal em que os artigos foram publicados. Ambos louvaram minha disposição de arranjar um editor para o livro, mas a princípio sem grandes esperanças, pois no passado já o prof. Paulo Rónai fizera uma tentativa infrutífera, mencionada por ele num artigo laudatório quando Agenor faleceu em março de 1957.

Mas, antes de arranjar um editor, era preciso organizar os originais. O sobrinho-neto, Andytias Soares de Moura, brilhante tradutor de Rosalía de Castro e de Juan Gelman, incumbiu-se de mandar digitar os originais. Era meio caminho, mas faltava ainda outro meio a percorrer. Muitos dos recortes haviam absorvido marcas de cola e estavam quase ilegíveis. Havia uma quantidade enorme de gralhas devidas ao fato de que as cartas manuscritas (e depois datilografadas) de Agenor eram treslidas pelos tipógrafos. As citações em língua estrangeira apareciam quase sempre deturpadas. As revisões se impunham, numerosas, e nelas tive a ajuda imprescindível do Agenor-sobrinho.

A sorte favoreceu em parte. Eu acabara de fazer para a editora Siciliano a tradução do teatro completo de Eliot dentro do exíguo tempo programado, o que me proporcionou certa possibilidade de diálogo com os editores. Sugeri a publicação dos artigos de Agenor, argumentando ser o conjunto uma obra de grande utilidade não só para os tradutores como para os leitores em geral. E a obra foi logo programada. Com isto as esperanças da família renasceram. Da. Carmen, que estava com problemas de saúde, recuperou-se com a notícia que vinha esperando havia tantos anos. Mas o inesperado aconteceu. Houve um remanejo editorial na Siciliano e as pessoas com as quais eu lidava foram substituídas. A nova editora-chefe me comunicou que o livro saíra de pauta. Não tive coragem de revelar esse novo fracasso à família. Para a Siciliano, escrevi, telefonei, e-mailei, faxei uma dezena de argumentos editoriais, mas para mim, intimamente, o maior deles era que não podíamos decepcionar Da. Carmen, ela que fora a fiel esposa-secretária do marido-professor, que datilografava seus artigos, que os lia com admiração e os colecionava com orgulho. Da. Carmen, com quem eu já mantinha contatos telefônicos, vez por outra perguntava pela data de saída e percebi que ela estava vivendo em função do livro. Não podia jamais saber do impasse. Finalmente, para o bem dos leitores e principalmente dos tradutores brasileiros, o livro saiu em 2003 (pela Arx) e – atenção para os nossos comerciais! - continua à venda em todo o território nacional.

Quando recebeu o primeiro exemplar que pedi à Editora enviasse diretamente a ela, Da. Carmen me telefonou dizendo: “Realizei meu sonho!” (E eu bem que poderia dizer: o “nosso”, Da. Carmen.)

Ivo Barroso

imagem: lasarina

22 de nov. de 2009

ivo barroso - itinerários IV


A PRIMEIRA DETERMINAÇÃO

Havia alguns tradutores injustiçados, que eu simplesmente venerava. Faria o que estivesse a meu alcance para promovê-los, para divulgar suas qualidades ímpares. O primeiro deles seria Mílton Amado, autor de uma tradução inigualável do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe. A primeira vez que a li, sem ainda conhecer o original, senti que estava diante de uma organização poética perfeita: ritmo, linguagem, dramaticidade.

O posterior cotejo com o original veio corroborar minha sensação primitiva: toda a angústia, grandeza, euforia, exaltação que Poe me transmitia em inglês retinia, ecoava, revivia nos versos de Milton. E quem era ele? Um desconhecido e tímido jornalista mineiro que sempre vivera esmagado pela estreiteza intelectual da província; pobre, marginalizado, sem que ninguém lhe reconhecesse o talento. Seu nome sequer constava nas obras de Poe como o tradutor dos versos. O que aparecia em letras grandes era o de Oscar Mendes, tradutor dos contos (aliás de parte dos), da prosa do genial Edgar Allan. O crédito a Milton, quando havia, era em corpo mínimo, escondido, escamoteado. Consegui a informação de que a viúva e seu filho Eugênio (também tradutor) moravam em Belo Horizonte. Procurei-os lá e soube que Milton pegava com Oscar Mendes traduções para fazer e em geral quem levava as honras era este último. Apesar de suas inúmeras traduções, as assinadas apenas com seu nome, Milton Amado, eram o Dom Quixote e as Fábulas de La Fontaine (Milton fez em vida o 1º volume e Eugênio terminou o 2º). Falei-lhes de minha intenção de escrever um pequeno ensaio provando com argumentos críticos que a tradução de O Corvo, feita por Milton, era superior às conhecidas de Machado de Assis e de Fernando Pessoa. Os direitos autorais da 1ª edição reverteriam para a família.

Os direitos autorais da tradução de Milton (as traduções eram vendidas aos editores) pertenciam à Nova Aguilar e foi a ela que propus a publicação de meu ensaio, que saiu em 1ª edição em 1998, com um entusiástico prefácio de Carlos Heitor Cony. Ele não conhecia a tradução de Milton e ficou encantado quando a viu. Escreveu uma crônica na Folha, que despertou a atenção de seus inúmeros leitores. Eu fazia um cotejo da tradução de Milton com a dos outros autores que então conhecia: Machado, Pessoa, Emílio de Meneses, Gondim da Fonseca, Benedito Lopes e Alexei Bueno. Acrescentei as duas famosas francesas, de Baudelaire e de Mallarmé. O livro vendeu bem, a família ficou contente, a editora pensou logo numa 2ª edição. Já a esta altura (2000) haviam chegado muitas informações e colaborações. Foram acrescentadas as de Jorge Wanderley e a de Didier Lamaison (em francês) e mencionadas mais as seguintes: a de Alfredo Ferreira Rodrigues (várias, a mais antiga de 1914), a de João Inácio Padilha, a de Aluísio Mendonça Sampaio, a de Sérgio Duarte, a de Luís Carlos Guimarães, a de Vinícius Alves e a (ótima) de Diego Raphael. Intimei meu amigo Didier Lamaison a dotar sua língua de uma tradução em versos do grande poema; tanto Baudelaire quanto Mallarmé o haviam feito em prosa, o que, na minha opinião, invalidava a possibilidade de transmitir o ritmo, a beleza das rimas tríplices, a grandiloquência declamatória do poema. Não se podia esquecer que Poe, em seus últimos anos, vivia de declamar em público a sua criação magistral. Didier aceitou o repto e reproduziu, em francês, a façanha que Milton Amado conseguira em português. Se, com minhas traduções de escritores gauleses, tenho prestado, ainda que indiretamente, algum serviço cultural à França, ter sido o instigador dessa genial tradução foi para mim o trabalho que seria mais digno de encômio.#

Ivo Barroso