15 de nov de 2009

ivo barroso - itinerários III

ESCORREGÕES

A tradução tem muito de malabarismo, ou melhor, de caminhar na corda bamba. Você se arrisca a escorregar e cair a cada passo e, mesmo que tenha conseguido chegar quase ao extremo da corda (ou do texto), o escorregão é sempre um desastre, a queda uma escoriação no seu ego. Talvez seja por isso que os tradutores temem, em especial, os falsos amigos - essas palavras que nos parecem familiares, iguaizinhas às nossas, mas que, na verdade, constituem uma tremenda casca de banana no caminho do escorregão.

Só para citar algumas muito manjadas: você vê a palavra “oso” em espanhol e – zás! – escreve “osso” em português, quando na verdade devia escrever “urso” (não se trata de um exemplo aleatório: encontrei esta na tradução de um poema feita por notório conhecedor da literatura hispano-americana); aparece em inglês “casualty”, pedindo para você traduzir por “casualidade”, mas – ledo engano! – a palavra ali tem o sentido de “vítima”, “baixa”, “morte” etc. Recentemente vi numa tradução do francês que as pessoas estavam sentadas de “tailleur”, e estranhei, pois não havia mulheres em cena; mas logo atinei com o sentido: o original devia ser “assis en tailleur”, uma expressão idiomática que significa “sentados de pernas cruzadas” (à maneira oriental – a cena se passava no Japão). Poderia continuar citando os faux amis (como as chamam em francês), ou deceptive cognates (em inglês) que abundam igualmente no italiano, língua em que você pode pensar que “un uomo sbigottito” seja um cara sem bigode, ao passo que ele está apenas assustado. O leitor interessado pode encontrar uma boa lista dessas palavras traiçoeiras no livrinho A Arte de Traduzir, de Brenno Silveira, o beabá do tradutor iniciante, que li com profunda veneração quando comecei a decifrar hieróglifos e buscava alguma base teórica em que pudesse me apoiar. Com ele aprendi o grande princípio do apostolado da tradução: a fidelidade ao texto. Mas meu propósito é outro. O que estou tentando dizer é que irremediavelmente o tradutor está sujeito a um escorregão dessa natureza e será miraculoso malabarista aquele que nunca resvalar. O grande Agenor Soares de Moura, em seu livro À Margem das Traduções, mostrou que mesmo escritores consagrados estão sujeitos a uma bobeira num momento do traduzir. Mas isto não ocorre só entre nós. Wyatt Mason, scholar norte-americano, especialista em Rimbaud, de quem traduziu a obra completa, deslizou feio num trecho das cartas do poeta de Charleville. A frase em francês era a seguinte: “Entrer à Geldessey à 10 ½. Les porteurs se mettent au courant, et il n´y a plus à souffrir qu´à la descente de Ballaoua”. Para bom entendimento, é necessário esclarecer que se trata de uma anotação feita pelo poeta, com a perna gangrenada, ao ser transportado para um distante hospital numa liteira por dezesseis carregadores que não conheciam bem o caminho. A tradução seria aproximadamente: “Chegada a Geldessey às 10 ½. Os carregadores vão se inteirar das dificuldades: não são maiores que as da descida de Ballaua”. Hyatt deu o passo em falso e traduziu: “Enter Gueldessey at 10:30. Bearers begin to run, and no suffering until the descent from Ballaoua”. Leu “se mettent au courant” (põem-se ao corrente) por “se mettent à courir” (põem-se a correr). Pobre Rimbaud, inválido e ainda vendo os seus carregadores abandonando o cargo (ou a carga)...

Eis a minha escorregadela histórica. Tive a satisfação de trabalhar com um grande, excepcional tradutor, Dr. Elias Davidovitch (que me confessou também haver alguma vez escorregado e me citava Quandoque bonus dormitat Homerus). Ele dirigia uma enciclopédia judaica e me dava verbetes para traduzir do inglês. Num deles havia um rabino tão pobre que tinha de pedir emprestado o relógio aos seus vizinhos para ir à sinagoga. Imaginei que fosse um despertador, acordando o rabino de madrugada para sua função religiosa. Dr. Elias se divertiu bastante com a minha tradução e aconselhou-me a colocá-la num quadro. “Assim você nunca mais se esquecerá!” Na verdade, o que os vizinhos emprestavam ao rabino era um casaco para abrigá-lo do frio, pois sendo muito pobre nem agasalho tinha. Eu lera “clock” em vez de “cloak”.


Arrisco-me a soar um tanto professoral, ou pior ainda, paternal. Mas estas palavras vão para aqueles tradutores primitivos, que estão à cata de seus primeiros trabalhos, mas que acham – como eu na época – que já dominam o métier. O tradutor precisa não de um casaco emprestado como o do rabino, mas exatamente de um relógio, de um mecanismo de advertência. Ler sempre com atenção, não deixar passar nunca uma palavra cujo sentido não conheça ou que não tenha checado, desconfiar de situações esdrúxulas, de frases incompreensíveis, de palavras sem sentido. Assim seu erro eventual pode se transformar nesse aparelho imprescindível ao tradutor: o desconfiômetro.#

Ivo Barroso

2 comentários:

  1. Tuca Abbate15.11.09

    Denise, boa noite.

    Como sempre, o blog é no mínimo o MÁXIMO!

    Obrigada!

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  2. Denise,
    eu tenho que comprar um desconfiômetro para parar de comprar livros... Acabei de comprar A Arte de Traduzir e À Margem das Traduções... Lendo e comprando na internet. Maldita inclusão digital!

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