1 de nov de 2009

ivo barroso - itinerários I



Um caderno escolar com três escoteiros na capa, o do meio empunhando uma colossal bandeira do Brasil, me assegura que já em 1947 eu andava às voltas com a tradução de versos: Amado Nervo, Emile Lante, Siegfried Sassoon, o Anônimo Espanhol (“No me mueve, mi Dios, para quererte"), Baudelaire (“L´homme et la mer”) e... Shakespeare (nada menos que o soneto XXIX, When in disgrace with fortune and men´s eyes). Mas outras recolhas indicam que antes mesmo, em 1944-46, ousara encarar os célebres sonetos de Lupercio Leonardo de Argensola e de Manuel González Prada; e, fora do espanhol, houve uma curiosa "adaptação" das Feuilles Mortes, do então e hoje desconhecido poeta suíço Henry Spiess, e uma transposição do espanhol para o inglês, o poema Lazarus, do colombiano José Asunción Silva. O curto poema, cujo original espanhol só agora consigo recuperar, dizia assim:

Vem, Lázaro! – gritóle
el Salvador. Y del sepulcro negro
el cadáver alzóse entre el sudario,
ensayó caminar, a pasos trémulos,
olió, palpó, miró, sintió, dio um grito
y lloró de contento.
Cuatro lunas más tarde, entre las sombras
del crepúsculo escuro, en el silencio
del lugar y la hora, entre las tumbas
del antiguo cementerio,
Lázaro estaba sollozando a solas
Y envidiando a los muertos.

Recordo-me que fiz a versão para o inglês como trabalho de casa quando estudava na Cultura Inglesa com o professor Mullholand. Sem ainda ter lido Ezra Pound, andei operando uns cortes no original:

“Come, Lazarus, come with me”,
said the Master. And the dead body
arouse up and began to walk
with shaking steps.
Looked, touched, smelt, felt,
and cried for happiness.
Four moons later, in the shadows
of the night, in the silence
of the old cemetery,
among the graves,
Lazarus was alone, sobbing,
fully envious of the dead.

Mullholand elogiou o trabalho e corrigiu duas frases:
Em inglês não se dizia “cried of happiness”, mas “cried for happiness”; e também não era “fully of envy of the dead” e sim “fully envious of the dead”.

Não conto essas coisas para me gabar nem exibir precocidade tradutória. Rimbaud aos 16 anos fazia versos em latim e há referências assustadoras e dissuasórias de feitos literários realizados em idades imaturas. Quero apenas imaginar que existe um certo pendor, uma inclinação para o traduzir que se manifesta desde cedo. Conheço pessoas, é verdade, que começaram a traduzir muito tarde, depois mesmo de terem realizado sua obra original. Mas o fizeram como uma espécie de hobby, de suplemento ao ócio, e não por aquela necessidade compulsória que move o tradutor orgânico. Nessa idade, o traduzir era um ato impulsivo.

Creio que cheguei à tradução como consequência lógica de minha abundante produção poética. Não me contentava em fazer três ou quatro sonetos e, quando a inspiração faltava, recorria aos versos alheios para supri-la. Era também a época ginasiana em que me encantava com o estudo das línguas e encontrava um fascínio na descoberta das palavras. Minha formação poética fora irregular e acronológica. Até os anos '40, vivi no interior, onde não havia biblioteca, e me satisfazia com os livros que encontrava, geralmente coleções compradas para enfeitar estantes. Em duas delas - Machado de Assis e Humberto de Campos, da Editora Jackson - desbravei os dois primeiros livros de poesia que li. Achei Humberto de Campos um poeta cultíssimo, íntimo dos deuses mitológicos e das passagens bíblicas. Fiz vários poemas sobre Ícaro, Galileu, Atalarico e outras personagens que ficara conhecendo de segunda mão. Meu primeiro soneto, O Pássaro Cego, publicado na Gazeta de Viçosa, em Minas, trazia uma epígrafe de H. de Campos, aliás inspiradora do poema. Mas tarde descobri Augusto dos Anjos e passei a pertencer à escola naturalista sem saber ainda o que era uma escola. Lembro-me de um professor meu “impressionado” com o soneto Vida, que ousei mostrar-lhe depois da aula, Vida, cujo começo era assim: "A Vida é o resultante grau da orgânica / Evolução da célula. É Energia que mais se apura dia para dia / Desde os tempos remotos da Era Oceânica”... Em seguida viriam outras fases: Bilac, Raul de Leôni, Menotti Del Picchia... Poesias “filosóficas” e amargamente amorosas, típicas da minha falta de experiência em ambas as lides.

Essa desordenada ânsia de leitura poética, que se extravasou de maneira igualmente desordenada para os poetas estrangeiros, é que coloco no cerne de meu anseio de traduzir. Digo anseio sem medo de crítica nem de pagar exagero. A satisfação de traduzir supria todos os outros interesses - sociais ou esportivos - que eu pudesse ter à época. Acordava cedo e ia para a Biblioteca Nacional ler e copiar poemas estrangeiros, pois não tinha respaldo econômico para adquirir os livros. Mas um - não me esqueço - comprei-o com o dinheiro de meu primeiro salário, em 1945: A Rosa do Povo, que li perplexo. Essa preciosidade, essa primeira edição “histórica”, perdi-a por ter emprestado o livro a alguém. Lição número um: nunca empreste livros.
Ivo Barroso

 

8 comentários:

  1. Denise,
    que maravilha de coluna será essa! E que início, com o senhor Ivo Barroso.

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  2. Everardo Norões12.11.09

    Denise,
    Você foi feliz em abrir esta coluna com um texto tão bonito do Ivo Barroso. Deu até vontade de reler Humberto de Campos..
    Everardo Norões

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  3. Flávia Nascimento12.11.09

    denise, o naogosto estah uma delicia!

    parabéns,

    abçs


    flavia

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  4. Wladir Dupont12.11.09

    Denise: bela idéia a da coluna dominical de tradução! Um abraço.

    Wladir

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  5. Cynthia21.11.09

    Belo texto!

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  6. José Lira30.11.09

    Caro Ivo,

    Cheguei atrasado à sua primeira coluna, depois de já ter lido outras. Mas quero lhe dar os parabéns pela iniciativa, e este marco inicial é o lugar certo. Siga em frente com mais esta valiosa contribuição para a tradução literária em nosso país!

    José Lira

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  7. Anônimo15.5.10

    IvoBarroso foi o Paraninfo da minha turma, em Ervália.
    Abraços

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  8. escritoresbrasileiros@gmail.com19.12.10

    Pediria o endereço de Ivo Barroso pois desejaria remeter um livro com traduções dos 154 sonetos de Shakespeare, que editei, tradutor José Arantes Junior. Gratos
    Real Academia de Letras - Mário Scherer - escritoresbrasileiros@gmail.com

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