13 de nov de 2009

kafka em espanhol

recapitulando: a história da difusão de kafka no brasil se depara há décadas com um ponto pouco claro. torrieri guimarães, nos idos dos anos 60, e por incumbência da extinta livraria exposição do livro (posterior hemus), verteu para o português uma grande parte da obra de kafka, por tradução indireta. nunca ficou muito claro qual teria sido a língua de interposição.

a partir de uma pista sugerida por celso donizete cruz, em relação a a metamorfose, apresentei como hipótese plausível que a língua utilizada na origem teria sido o espanhol, e que ademais não se trataria de alguma obscura edição, e sim da famosa tradução atribuída a jorge luís borges.

como assinalei em kafka borgiano, acontece que, no final das contas, nem foi borges quem a fez. o pesquisador fernando sorrentino, que em 1974 obtivera essa revelação de borges, afirma que naquela época estava interessado apenas em confirmar sua intuição de que borges não havia feito aquela tradução, e não em desvendar seu verdadeiro autor. apenas em 1997 sorrentino veio a pesquisar a origem da tradução que borges não havia feito. afinal tratava-se de uma tradução espanhola anônima, publicada em duas partes no periódico trimestral dirigido por ortega y gasset, a famosa revista de occidente, no segundo e no terceiro números de 1925 - idêntica, sem tirar nem pôr, à que passou a ser publicada pela losada argentina, atribuindo-a a jorge luis borges, desde 1938 até a data de hoje.*

* interessante notar que a alianza editorial, da espanha, publica essa mesma tradução anônima até hoje, sem jamais tê-la atribuído a jorge luis borges.

para concluir o tema do kafka supostamente borgiano, cabe lembrar que, além d'a metamorfose, tampouco um artista da fome e um artista do trapézio em espanhol foram traduzidos por borges. sorrentino estabeleceu definitivamente as origens dessas traduções:

1) “La metamorfosis”, de Franz Kafka (1ª parte), Revista de Occidente, tomo viii, abril-maio-junho de 1925, nº xxiv, pp. 273-306.

2) “La metamorfosis”, de Franz Kafka (2ª parte), Revista de Occidente, tomo ix, julho-agosto-setembro de 1925, nº xxv, pp. 33-79.

3) “Un artista del hambre”, de Franz Kafka, Revista de Occidente, tomo xvi, abril-maio-junho de 1927, nº xlvii, pp. 204-219.

4) “Un artista del trapecio”, de Franz Kafka, Revista de Occidente, tomo xxxviii, outubro-novembro-dezembro de 1932, nº cxiii, pp. 209-213.


já a identidade do verdadeiro tradutor para o espanhol continua indeterminada. uma das hipóteses, aventada pelo filho de ortega y gasset e seu sucessor na direção da revista de occidente, é que a tradução poderia ter sido feita por margarita nelken. o certo é que, "Con estas precisiones, tan fáciles de verificar, ya no será razonable seguir diciendo que Borges tradujo al español Die Verwandlung, Ein Hungerkünstler y Erstes Leid, afirmación errónea que se repite, con inmerecido éxito, desde 1938 hasta el día de hoy" (idem, ibidem).

imagem: presentimento

Um comentário:

  1. Denise,
    adorei a história do Kafka que não era de Borges!

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