8 de nov de 2009

ivo barroso - itinerários II



Para voltar ao mencionado caderno do escoteiro, datado de 1947, dali copio a primeira versão do Soneto XXIX, de William Shakespeare, tentada em alexandrinos:

Quando, longe da vista humana e da fortuna,
Choro, triste e sozinho, ao ver-me desterrado,
E o surdo céu meu pranto inútil importuna,
Eu olho para mim a maldizer meu fado,

Querendo ser alguém mais rico de esperança,
Parecer com esse alguém, ter amigos serenos,
Desejando-lhe a sorte, os intentos que alcança,
E, do que mais aspiro, estar contente, ao menos;

Ainda, nesse pensar, quase me desprezando,
Recordo-me de vós, retorna-me a alegria
E ponho-me feliz, como a calhandra, entoando

Hinos ao claro céu, cá da terra sombria;
Pois só de em vós pensar, tão rico me fazeis
Que o meu destino, então, não dou pelo de reis.

Vali-me de uma ou outra solução dessa antiga ousadia para reelaborar o soneto em decassílabos:

Se, órfão do olhar humano e da fortuna,
Choro na solidão meu pobre estado
E o céu meu pranto inútil importuna,
Eu entro em mim a maldizer meu fado;

Sonho-me alguém mais rico de esperança,
Quero feições e amigos mais amenos,
Deste o pendor, a meta que outro alcança,
Do que mais amo contentado o menos.

Mas, se nesse pensar, que me magoa,
De ti me lembro acaso – o meu destino,
Qual cotovia na alvorada entoa

Da negra terra aos longes céus um hino.
E na riqueza desse amor que evoco,
Já minha sorte com a dos reis não troco.

Nos anos '50 já devia ter uns quatro ou cinco prontos, com os quais obtive uma espécie de passe livre nas páginas do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, sob a égide de Mário Faustino e Reynaldo Jardim. Entre esses quatro, recordo-me que estava o LXXI ("Não lamentes por mim quando eu morrer"), que me granjeou a simpatia de Manuel Bandeira.

A fase de trabalhos sistemáticos, no sentido de traduzir um considerável número de sonetos, só ocorreu na Holanda, nos anos 1968/70, onde me deparei, pela primeira vez, com a coleção completa dos 154, numa edição bilíngüe (inglês/neerlandês), traduzidos por W. van Elden, que a minha timidez não me impediu no entanto de conhecer. Foi com a tradução de seu prefácio que passei a ter consciência das dificuldades a que se expunha, em qualquer língua, quem intentasse traduzir os sonetos shakespearianos querendo manter-lhes o ritmo, os jogos de palavras, as polissemias e duplos sentidos, o vocabulário ora erudito ora popular, a riqueza de ambientes, cores, tons, sem falar nas metáforas peculiares e nos recursos formais que funcionam como elementos gestálticos. Diz van Elden: “Shakespeare conseguiu extrair da forma soneto tudo o que ela poderia dar. Por meio de infinitas variações métricas e do uso de todos os recursos poéticos, como aliteração, rimas internas, antíteses, repetições e trocadilhos, logrou um resultado quase inatingível. E tudo isso com tal facilidade e naturalidade que os recursos técnicos podem até passar despercebidos a quem não procurá-los expressamente”. O clima neerlandês terá certamente contribuído para a obsessão de “trabalhar” a tradução dos sonetos até conseguir preservar a maior parte possível de seus elementos, a manutenção da ordem das proposições, os recursos estilísticos, sem abrir mão de seu trânsito poético pelo território da língua portuguesa. Outro caderno, já dessa época, na verdade um bloco de notas (100 vel prima houtvrij schrijfpapier met lijnen), atesta a quantidade absurda de tentativas de transposição de um único verso, como o inicial do soneto I (From the fairest creatures we desire increase) com suas duas aliterações sucessivas (em fr e em cre) até chegar ao equivalente "Dos seres ímpares ansiamos prole" (se/si e pa/pro), pois ora se obtinha a aliteração mas havia a discrepância da rima, ora aquela não se encaixava na métrica, sem falar na recusa permanente aos circunlóquios ou transposições.

Da Holanda trouxe 24 sonetos que, revistos, foram editados pela Nova Fronteira num livro de luxo destinado a bibliófilos, em 1973. Numa segunda estadia na Europa, dessa vez com passagem pela Inglaterra, a obsessão continuou, acrescida então de bom número de instrumentos críticos, com o intento de se elevar o número de peças traduzidas para 30 com vistas a uma edição comercial que veio à luz em 1991. A essa altura, já havia o convívio com edições integrais de renome, como a Oxford (ed. W. J. Craig) e a Pelican (ed. Douglas Bush) e a frequentação de autores fundamentais como Stephan Booth, W. G. Ingram e Theodore Redpath, John Dover Wilson, Kenneth Muir, Robert Giroux e A. L. Rowse, com suas notas e comentários elucidativos, além de estabelecimentos de texto. O precioso livrinho Shakespeare´s Wordplay, de M. M. Manhood, mostrava as intenções ocultas e as sutilezas verbais que certamente escapariam sem a sua ajuda. E da joia rara, aquela cujas notas representavam uma espécie de bíblia-guia dos Sonetos – procurada em todos os grandes alfarrabistas de livros raros por onde andei – A New Variorum Edition – e que só fui conseguir em cópia xerográfica na Biblioteca Real de Estocolmo nos fins dos anos '80. Houve também a obsessão de examinar o maior número possível de traduções, principalmente as francesas, a partir da de François Victor Hugo, que já conhecia desde o Brasil. Mas a França me reservou uma grande decepção na pessoa de Henri Meschonnic, incensado professor da Sorbonne, com seu livro Poétique du traduire (Verdier, 1999), em que arrola e critica impiedosamente oito traduções francesas do soneto XXVII ("Weare with toil, I haste me to my bed"), num período que vai de 1887 a 1992. Depois de detonar todos os seus antecessores, Meschonnic apresenta a sua versão, que, longe de ser perfeita, nada tem de poética, além de passar voando por sobre o magnífico jogo de palavras do 4° verso, em que Shakespeare brinca com as nuances de work como verbo e como substantivo (To work my mind, when body´s work expired). Nem sempre o conhecimento teórico assegura a realização poética...

Ivo Barroso


3 comentários:

  1. Será que acho esses 24 sonetos da Nova Fronteira (divagando na madrugada...)

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  2. José Lira30.11.09

    Caro Ivo,

    Desculpe a observação perfunctória, mas os dois sonetos têm erros de transcrição:

    1 - está "importa" e não "importuna" no terceiro verso; 2 - está "me" em lugar de "meu" no segundo verso.

    Achei interessante a formatação à italiana no seu "caderno". Haveria alguma razão especial para essa opção? Não tenho à mão seus "30 Sonetos", mas, se bem me lembro, neles você usou a forma inglesa tradicional.

    José Lira

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  3. caro josé, obg pelos reparos, já devidamente corrigidos!

    abraço
    denise

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