19 de nov de 2009

um pesadelo

sobre a editora germinal: há vários artigos na imprensa denunciando seus plágios de tradução desde 2004. aqui mostramos mais outras obras em que a referida editora lançou mão dessa prática pouco louvável. para o histórico dos cotejos, consulte o arquivo em "germinal".

como disse no post anterior, josé laurênio de mello é o autor da tradução o homem que foi quinta-feira (um pesadelo), de g. k. chesterton, que foi publicada pela editora agir em 1957 com algumas reedições pelo menos até 1967, e depois pelo círculo do livro até 1975.

em 2004 a editora germinal publica uma cópia praticamente igual da tradução de josé laurênio de mello. no entanto traz no frontispício da obra: "tradução: vera lúcia rodrigues".

vera lúcia rodrigues, até onde consegui entender, era a sócia do falecido advogado, sociólogo e jornalista wilson hilário borges na editora germinal. após a morte do sócio, manteve a editora sob sua responsabilidade. neste caso de o homem que foi quinta-feira, creio que será mais difícil a sra. vera lúcia rodrigues lançar mão das mesmas evasivas que usou em relação aos outros plágios, em suas entrevistas à imprensa: afinal a tradução está assinada por ela, que é também a responsável pela editora.

transcrevo abaixo o primeiro e os dois últimos parágrafos da obra.

1. josé laurênio de mello (agir):
Para as bandas do poente de Londres refulgia, como o vermelho esfarrapado de uma nuvem ao entardecer, o subúrbio de Saffron Park. Totalmente edificado com ladrilho brilhante, ostentava uma fantástica linha de telhados e uma extravagante linha de calçadas. Fora obra de um construtor especulativo, mirão em assuntos de arte, que identificava sua arquitetura algumas vezes com o estilo Rainha Elizabeth e outras vezes com o estilo Rainha Ana, sob a visível impressão de que as duas soberanas eram uma só. Com alguma justiça, Saffron Park passava por colônia de artistas, embora nunca houvesse produzido razoavelmente qualquer gênero de arte. Mas, se suas pretensões a núcleo intelectual eram um tanto descabidas, suas pretensões a recanto aprazível eram realmente incontestáveis. O visitante, que pela primeira vez contemplasse aquelas esdrúxulas casas vermelhas, seria levado a cogitar desde logo na singularidade que devia marcar o feitio mental das pessoas que as habitavam. E quando encontrasse tais pessoas não ficaria desapontado. O local era não só aprazível, mas perfeito, desde que não fosse tido em conta de miragem, mas de sonho. Ainda que os habitantes nada tivessem de "artistas", tudo ali era artístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessariamente um poeta, mas era irrefutavelmente um poema. Aquele cavalheiro idoso, de barba branca e enxovalhada e de chapéu também branco e enxovalhado, um pândego venerável, não havia de ser obrigatoriamente um filósofo, mas, no mínimo, devia fornecer motivos à filosofia alheia. Aquele cavalheiro científico, calvo como um ovo, de pescoço pelado como o de uma ave, não fazia jus aos ares de cientista que alardeava. Não descobrira novidades em biologia; mas poderia, por acaso, ter descoberto um espécime biológico mais raro do que sua pessoa? Por isso, e somente por isso, o lugar merecia estudos pertinentes e demorados; tinha de ser examinado menos como uma oficina de artista do que como uma delicada, posto que consumada, obra de arte. O estranho que chegasse a participar de sua atmosfera social teria a sensação de estar participando da representação de uma comédia.

2. vera lúcia rodrigues (germinal):
Para as bandas do poente de Londres refulgia, como o vermelho esfarrapado de uma nuvem ao entardecer, o subúrbio de Saffron Park. Totalmente edificado com ladrilho brilhante, ostentava uma fantástica linha de telhados e uma extravagante linha de calçadas. Fora obra de um construtor especulativo, apreciador de assuntos de arte, que identificava sua arquitetura algumas vezes com o estilo Rainha Elizabeth e outras vezes com o estilo Rainha Ana, sob a visível impressão de que as duas soberanas eram uma só. Com alguma justiça, Saffron Park passava por colônia de artistas, embora nunca houvesse produzido razoavelmente qualquer gênero de arte. Mas, se suas pretensões a núcleo intelectual eram um tanto descabidas, suas pretensões a recanto aprazível eram realmente incontestáveis. O visitante, que pela primeira vez contemplasse aquelas esdrúxulas casas vermelhas, seria levado a cogitar desde logo a singularidade que devia marcar o feitio mental das pessoas que as habitavam. E quando encontrasse tais pessoas não ficaria desapontado. O local era não só aprazível, mas perfeito, desde que não fosse tido em conta de miragem, mas de sonho. Ainda que os habitantes nada tivessem de "artistas", tudo ali era artístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessariamente um poeta, mas era irrefutavelmente um poema. Aquele cavalheiro idoso, de barba branca e enxovalhada e de chapéu também branco e enxovalhado, um pândego venerável, não havia de ser obrigatoriamente um filósofo, mas, no mínimo, devia fornecer motivos à filosofia alheia. Aquele cavalheiro científico, calvo como um ovo, de pescoço pelado como o de uma ave, não fazia jus aos ares de cientista que alardeava. Não descobrira novidades em biologia; mas poderia, por acaso, ter descoberto um espécime biológico mais raro do que sua pessoa? Por isso, e somente por isso, o lugar merecia estudos pertinentes e demorados; tinha de ser examinado menos como uma oficina de artista do que como uma delicada, posto que consumada, obra de arte. O estranho que chegasse a participar de sua atmosfera social teria a sensação de estar participando da representação de uma comédia.

1. josé laurênio de mello (agir):
Quando, nos livros, os homens despertam de uma visão, encontram-se geralmente em algum lugar em que podiam ter adormecido; bocejam, se estão numa cadeira, ou se levantam com os membros doídos, se estão deitados no campo. A experiência de Syme foi, psicologicamente, muito mais estranha, visto que houve realmente, no sentido físico, algo de irreal nas coisas que lhe tinham acontecido. Pois, conquanto mais tarde lhe fosse sempre possível recordar que desfalecera ante o rosto de Domingo, não podia lembrar-se do instante em que voltara a si. Só podia lembrar-se de que pouco a pouco e com toda a naturalidade tivera consciência de estar passeando por uma azinhaga ao lado de um companheiro agradável e palrador. Esse companheiro fora parte de seu drama recente; era Gregory, o poeta dos cabelos vermelhos. Caminhavam juntos como velhos amigos e estavam entretidos com alguma banalidade. Mas Syme sentia no corpo uma vivacidade sobrenatural e no espírito uma simplicidade cristalina que pareciam superiores a tudo que dizia ou fazia. Sentia que estava na posse de uma inefável boa nova e que ela fazia de tudo uma trivialidade, mas uma adorável trivialidade.

2. vera lúcia rodrigues (germinal):
Quando, nos livros, os homens despertam de uma visão, encontram-se geralmente em algum lugar em que podiam ter adormecido; bocejam, se estão numa cadeira, ou se levantam com os membros doídos se estão deitados no campo. A experiência de Syme foi, psicologicamente, muito mais estranha, visto que houve realmente, no sentido físico, algo de irreal nas coisas que lhe tinham acontecido. Pois, conquanto mais tarde lhe fosse sempre possível recordar que desfalecera ante o rosto de Domingo, não podia lembrar-se do instante em que voltara a si. Só podia lembrar-se de que pouco a pouco e com toda a naturalidade tivera consciência de estar passeando por uma azinhaga ao lado de um companheiro agradável e palrador. Esse companheiro fora parte de seu drama recente; era Gregory, o poeta dos cabelos vermelhos. Caminhavam juntos como velhos amigos e estavam entretidos com alguma banalidade. Mas Syme sentia no corpo uma vivacidade sobrenatural e no espírito uma simplicidade cristalina que pareciam superiores a tudo que dizia ou fazia. Sentia que estava na posse de uma inefável boa nova e que ela fazia de tudo uma trivialidade, mas uma adorável trivialidade.

1. josé laurênio de mello (agir):
Rompia a aurora, revestindo tudo de cores claras e tímidas, como se a natureza fizesse uma primeira tentativa em amarelo e uma primeira tentativa em rosa. Soprava uma brisa tão límpida e suave que se podia até imaginar que ela não provinha do céu, mas filtrava-se através de uma frincha rasgada no céu. Syme maravilhou-se um pouco de ver em ambos os lados do caminho os vermelhos e irregulares edifícios de Saffron Park. Não sabia que andava tão perto de Londres. Instintivamente tomou por uma estrada branca, onde os pássaros madrugadores gorjeavam saltitantes, e achou-se defronte do gradil de um jardim. Ali viu a irmã de Gregory, a moça dos cabelos vermelhos e dourados, colhendo lilases antes do café, com a gravidade inconsciente e magnífica das moças.

2. vera lúcia rodrigues (germinal):
Rompia a aurora, revestindo tudo de cores claras e tímidas, como se a natureza fizesse uma primeira tentativa em amarelo e uma primeira tentativa em rosa. Soprava uma brisa tão límpida e suave que se podia até imaginar que ela não provinha do céu, mas filtrava-se através de uma frincha rasgada no céu. Syme maravilhou-se um pouco de ver em ambos os lados do caminho os vermelhos e irregulares edifícios de Saffron Park. Não sabia que andava tão perto de Londres. Instintivamente tomou por uma estrada branca, onde os pássaros madrugadores gorjeavam saltitantes, e achou-se defronte do gradil de um jardim. Ali viu a irmã de Gregory, a moça dos cabelos vermelhos e dourados, colhendo lilases antes do café, com a gravidade inconsciente e magnífica das moças.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



Um comentário:

  1. Agora, são os próprios donos que assinam os plágios? Foi-se a última camada de verniz...

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