4 de nov de 2009

Satíricon III

Satyricon de Fellini, por Milo ManaraComparando as edições do Satíricon que eu tinha em mãos, pudemos perceber  que o texto da edição da Martin Claret, assinado por Alex Marins, é estranhamente semelhante à tradução de Marcos Santarrita. Vejamos mais alguns exemplos, comparando agora apenas esses dois  textos (em vermelho o que mudou de uma para outra) e o de Cláudio Aquati, para se ter uma referência sobre como traduções podem ser diferentes, bem diferentes! É verdade que o original de Marcos Santarrita é a partir de uma tradução francesa, e o de Cláudio Aquati é direto do latin - o que pode trazer algumas variações curiosas.

Trecho I

Marcos Santarrita (1970, p. 4)

O gênio é filho da frugalidade.
Tu, cujo orgulho aspira à imortalidade,
Deves fugir de lautos banquetes, de luxos pérfidos.
Os vapores de Baco ofuscam a razão,
E a rígida virtude, diante do vício feliz,
Teme inclinar a cabeça.

Ninguém deve te ver sentado num teatro,
Coroado com flores vergonhosas, a misturar
– Aos aplausos de uma multidão idólatra –
clamores indecentes e vazios.

A honra te chama a Nápoles ou a Atenas:
Lá chegando, teu primeiro incenso deve ser para Apolo.
Dedicando-te aos versos,
Deves beber abundantemente na fonte de Homero.
Levado a Sócrates pela sabedoria,
Deves empunhar as armas do altivo Demóstenes.


Alex Marins (2001, p. 18)

O gênio é filho da frugalidade.
Tu, cujo orgulho aspira à imortalidade,
Deves fugir de lautos banquetes, de luxos pérfidos.
Os vapores de Baco ofuscam a razão,
E a rígida virtude, diante do vício feliz,
Teme inclinar a cabeça.

Ninguém deve te ver sentado em um teatro,
Coroado com flores vergonhosas, a misturar
Aos aplausos de uma multidão idólatra
clamores indecentes e vazios.

A honra te chama a Nápoles ou a Atenas.
Lá chegando, teu primeiro incenso deve ser para Apolo.
Dedicando-te aos versos,
Deves beber abundantemente na fonte de Homero.
Levado a Sócrates pela sabedoria,
Deves empunhar as armas do altivo Demóstenes.


Cláudio Aquati (2008, p. 16)

Se alguém deseja realizar a arte com seriedade
E aplica sua mente a causas importantes,
Primeiro, com o maior rigor, habitue-se à moderação
Não aspire a um palácio perverso, embora nobre na fachada;
Não procures, como simples cliente,
Obteres jantares junto aos poderosos;
Não afogue no vinho, entregue a costumes desregrados,
A chama de seu talento;
Nem, pago para aplaudir, sente-se no teatro
Como um apaixonado pela carreira teatral.
Mas, quer a ele sorria a cidadela da guerreira Tritônia,
Quer a terra habitada pelo colono lacedemônio
E a mansão das sereias, (2)
Que ele consagre à poesia os anos de sua juventude
E, de coração afortunado, beba junto à fonte meônia. (3)
Depois, saciado do círculo socrático,
Ponhas-se a caminho, livre,
E maneje as armas no grande Demóstenes.

(2) Cidades do sul da Itália: a guerreira de Tritônia é Túrio; a terra habitada pelo colono lacedemônio é Tarento, a mansão das sereias é Nápoles.
(3) Os poemas homéricos.

Trecho II

Marcos Santarrita (1970, p. 116)
CI
Essas palavras caíram como um raio sobre mim. Senti estremecer-me todos os membros e, apresentando minha garganta descoberta, exclamei:
– Ó Destino, está acabado! Venceste!
Gitão havia desmaiado há algum tempo, e caíra sobre mim. Por fim, quando uma suadeira abundante nos fez retornar aos nossos sentidos, eu me agarrei aos joelhos de Eumolpo, suplicando-lhe:
– Tem piedade de dois agonizantes. Em nome deste garoto, nosso amor comum, livra-nos da vida. A morte está diante de nós e, se não opuseres nenhum obstáculo, nós a receberemos como um benefício dos céus!

Alex Marins (2001, p. 116)
CI
Essas palavras caíram como um raio sobre mim. Senti estremecer-me todos os membros e, apresentando minha garganta descoberta, exclamei:
– Ó Destino, está acabado! Venceste!
Gitão havia desmaiado há algum tempo e caíra sobre mim. Por fim, quando uma suadeira abundante nos fez retornar aos nossos sentidos, eu me agarrei aos joelhos de Eumolpo, suplicando-lhe:
– Tem piedade de dois moribundos. Em nome deste garoto, nosso amor comum, livra-nos da vida. A morte está diante de nós e, se não opuseres nenhum obstáculo, nós a receberemos como um benefício dos céus!

Cláudio Aquati (2008, p. 16)
[101.] Atônito depois desse cataclismo, estremeci e, o pescoço a descoberto, disse:
– Enfim, ó Destino, venceste-me de uma vez por todas!
Gitão, que se aninhara no meu peito, conteve a respiração durante muito tempo. Depois, quando nosso próprio suor nos reanimou, atirei-me aos pés de Eumolpo, dizendo:
– Tenha piedade destes moribundos, e, em nome da mesma inclinação para os estudos que nos une, ponha um fim nisso tudo com tua própria mão. A morte se avizinha: se por teu intermédio ela não for admissível, será contudo para nós uma dádiva.

Trecho III
Marcos Santarrita (1970, p. 11)
Cedi finalmente ao impulso do amor, e eis o que decidimos: Licurgo conservaria Ascilto consigo (seu antigo amor por ele renascera), e eu e e Gitão iríamos com Licas. Ascilto e eu combinamos, por outro lado, que os lucros obtidos por cada um, na ocasião, pertenceriam de direito ao patrimônio comum. Encantado com aquele arranjo, Licas apressou a nossa partida. Despedimo-nos dos amigos e, no mesmo dia, chegamos à sua casa. Ele tomara tão bem suas providências que, durante a viagem, se pôs a meu lado, deixando Trifena em companhia de Gitão.

Alex Marins (2001, p. 23-24)
Cedi finalmente ao impulso do amor, e eis o que decidimos: Licurgo conservaria Ascilto consigo (seu antigo amor por ele renascera), e eu e e Gitão iríamos com Licas. Ascilto e eu combinamos, por outro lado, que os lucros obtidos por cada um, na ocasião, pertenceriam de direito ao patrimônio comum. Encantado com aquele arranjo, Licas apressou a nossa partida. Despedimo-nos dos amigos e, no mesmo dia, chegamos à sua casa. Ele tomara tão bem suas providências que, durante a viagem, se pôs a meu lado, deixando Trifena em companhia de Gitão.

Cláudio Aquati (2008, p. 24)

Opa! Não tem nada. Só um asterisco indicando uma lacuna... Aliás, o capítulo XI da edição da Cosac Naify tem apenas algumas linhas, enquanto o mesmo capítulo XI na edição da Civilização Brasileira (e, consequentemente, da Martin Claret) tem 8 páginas!

O mistério será desvendado no próximo post, no qual se relatará uma fraude renascentista.

Imagem: Bookpalace

Joana Canêdo

Um comentário:

  1. amazing!
    esse despudor da editora martin claret nunca deixa de me embasbacar e de me revoltar. quanta barbaridade... pobre do santarrita, mudando de nome a fórceps depois de uma tão bela carreira no ofício.

    fiquei curiosa com a fraude renascentista!

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