29 de nov de 2009

ivo barroso - itinerários V



A SEGUNDA DETERMINAÇÃO

Sempre li e colecionei Suplementos literários. Tenho até hoje, em volumes encadernados, os números de “Letras & Artes”, dos anos 1946 a 1951. Mais tarde, em 1957, quando comecei a colaborar no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, guardava cuidadosamente os exemplares, que já faziam uma boa pilha quando uma enchente invadiu a garagem do meu prédio na Lagoa e transformou minha literatura em pasta de papel. Mas houve um suplemento, o do Diário de Notícias, que vim a conhecer muito tempo depois de desaparecido, quando pesquisava na Biblioteca Nacional, em busca da coluna de Agenor Soares de Moura, o grande erudito, famoso por suas críticas de traduções.

Agenor – soube-o mais tarde – era um professor de português radicado na província (Barbacena, MG), que, sem nunca ter saído de sua cidadezinha, dominava perfeitamente uns cinco idiomas e escrevia num português de dar inveja aos literatos de então. Implicava com a má qualidade das traduções que via e resolveu escrever uma carta ao jornal criticando algumas delas, assinadas por escritores de renome. O jornal, ciente da qualidade do trabalho, em vez de simplesmente publicar a carta, propôs ao missivista um rodapé semanal em que pudesse exercer a sua tão útil fiscalização. E nasceu a coluna “À Margem das Traduções”, que persistiu milagrosamente por dois anos (1944/46). Digo milagrosamente porque os editores deixaram de mandar ao jornal os livros traduzidos, certamente com receio das críticas de Agenor, e porque, no fim, já lhe faltassem originais para o cotejo, mesmo tendo ele, em muitas ocasiões, adquirido de seu próprio bolso os livros que se dispunha a analisar. Diga-se que eram críticas construtivas, ou, mais que isto, reconstrutivas, pois ele, além de apontar as impropriedades, sugeria a maneira ou as maneiras corretas ou possíveis de resolver as deficiências apontadas. Para mim, tradutor iniciante, eram verdadeiras lições de como não fazer, de como evitar certas armadilhas e escorregões em que muitos profissionais do gênero incidiam.

Achei imperioso editar em livro aquelas crônicas para fazer justiça a um pioneiro das boas traduções no Brasil. Seria minha segunda determinação. Eu me correspondia com seu sobrinho e xará, Agenor Soares dos Santos, grande lexicógrafo e conhecedor da língua inglesa, autor do imprescindível Guia Prático da Tradução Inglesa (Campus-Elsevier). Por seu intermédio, soube que a viúva de Agenor, Da. Carmen Duarte Siqueira Soares, já bastante idosa, ainda morava em Barbacena; em Juiz de Fora residia o filho, Afonso de Siqueira Soares, que possivelmente teria a coleção dos artigos do pai. Afonso, de fato, guardava com carinho, colados num livrão, os recortes de jornal em que os artigos foram publicados. Ambos louvaram minha disposição de arranjar um editor para o livro, mas a princípio sem grandes esperanças, pois no passado já o prof. Paulo Rónai fizera uma tentativa infrutífera, mencionada por ele num artigo laudatório quando Agenor faleceu em março de 1957.

Mas, antes de arranjar um editor, era preciso organizar os originais. O sobrinho-neto, Andytias Soares de Moura, brilhante tradutor de Rosalía de Castro e de Juan Gelman, incumbiu-se de mandar digitar os originais. Era meio caminho, mas faltava ainda outro meio a percorrer. Muitos dos recortes haviam absorvido marcas de cola e estavam quase ilegíveis. Havia uma quantidade enorme de gralhas devidas ao fato de que as cartas manuscritas (e depois datilografadas) de Agenor eram treslidas pelos tipógrafos. As citações em língua estrangeira apareciam quase sempre deturpadas. As revisões se impunham, numerosas, e nelas tive a ajuda imprescindível do Agenor-sobrinho.

A sorte favoreceu em parte. Eu acabara de fazer para a editora Siciliano a tradução do teatro completo de Eliot dentro do exíguo tempo programado, o que me proporcionou certa possibilidade de diálogo com os editores. Sugeri a publicação dos artigos de Agenor, argumentando ser o conjunto uma obra de grande utilidade não só para os tradutores como para os leitores em geral. E a obra foi logo programada. Com isto as esperanças da família renasceram. Da. Carmen, que estava com problemas de saúde, recuperou-se com a notícia que vinha esperando havia tantos anos. Mas o inesperado aconteceu. Houve um remanejo editorial na Siciliano e as pessoas com as quais eu lidava foram substituídas. A nova editora-chefe me comunicou que o livro saíra de pauta. Não tive coragem de revelar esse novo fracasso à família. Para a Siciliano, escrevi, telefonei, e-mailei, faxei uma dezena de argumentos editoriais, mas para mim, intimamente, o maior deles era que não podíamos decepcionar Da. Carmen, ela que fora a fiel esposa-secretária do marido-professor, que datilografava seus artigos, que os lia com admiração e os colecionava com orgulho. Da. Carmen, com quem eu já mantinha contatos telefônicos, vez por outra perguntava pela data de saída e percebi que ela estava vivendo em função do livro. Não podia jamais saber do impasse. Finalmente, para o bem dos leitores e principalmente dos tradutores brasileiros, o livro saiu em 2003 (pela Arx) e – atenção para os nossos comerciais! - continua à venda em todo o território nacional.

Quando recebeu o primeiro exemplar que pedi à Editora enviasse diretamente a ela, Da. Carmen me telefonou dizendo: “Realizei meu sonho!” (E eu bem que poderia dizer: o “nosso”, Da. Carmen.)

Ivo Barroso

imagem: lasarina

Um comentário:

  1. José Lira30.11.09

    Caro Ivo,

    Feliz é você, que pôde contar com as lições do mestre Agenor e que depois teve a oportunidade de transmiti-las às gerações vindouras, preservando o seu nome do esquecimento. Pudesse eu retribuir assim a contribuição de todos os meus mestres (um dos quais é você) ao meu ofício de tradutor!

    José Lira

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