26 de nov de 2009

flávio josefo, flavius josephus I

em flávio josefo, seleções e em flávio josefo, história dos hebreus apresentei dados preliminares para o cotejo entre a edição da edameris (1974), na tradução erudita de vicente pedroso, e a edição da madras (2005), com uma pretensa nova tradução.*
* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação.

julgo de uma imoralidade única que se pratiquem tais coisas.* octogenário, pe. vicente pedroso escrevia em sua "advertência" à obra:

"Nada mais me resta a acrescentar; como estes dois volumes compreendem toda a antiga história sagrada, desejo que não sejam lidos apenas por divertimento e por curiosidade, mas que se procure aproveitar, pelas considerações úteis de que fornecem tanta matéria. Foi esse o motivo que me levou a empreender esta tradução; do contrário, ela ter-me-ia, aos oitenta anos, feito empregar em vão muito tempo e dar-me muito trabalho numa idade na qual só devemos pensar em nos preparar para a morte. # O tradutor"

a edição da madras, além de pouco idônea, é indizivelmente ruim e confusa, e tenho até dificuldade em expor os insensatos emaranhados do livro. mas tentarei.

em antiguidades judaicas, josefo escreveu um curto prefácio, de cerca de duas páginas. na seleta da edameris, ele foi reproduzido e, em seguida, os editores explicaram num bloco em itálico:

"por motivos óbvios, deixamos de considerar os dez primeiros livros das 'antiguidades judaicas', que se sobrepõem ao relato bíblico da antiga história judaica. o período que se inicia com as conquistas de alexandre, o grande, e termina com o reinado de nero, aparece na segunda metade das 'antiguidades', de onde extraímos o texto destas seleções".

ótimo, mais claro impossível. assim, a organização da seleta prossegue a partir do livro XI (o final dele) até o livro XVIII, encerrando com o chamado "testemunho de cristo" e a apresentação de joão batista. são 76 páginas, com prefácio e trechos de vários capítulos dos livros XI ao XVIII, e pronto.

na edição da madras, toda essa seleta se chama simplesmente "prefácio", com 63 páginas. ou melhor, o que a madras chama de "prefácio" é, na verdade, uma cópia completa das antiguidades judaicas da seleta da edameris. mas a surpresa é que, após o excerto sobre joão batista que encerra a seleta da edameris e o "prefácio" da madras, esta resolve acrescentar outros trechos, e é nessas horas que sinto a força da expressão "pior a emenda do que o soneto".

pois, como disse acima, a edameris desconsiderou os dez primeiros livros e seguiu do final do livro XI das antiguidades - precisando melhor, partiu do oitavo e último capítulo do livro XI -, até o livro XVIII. embora a suposta tradutora ou o anônimo organizador da seleta da madras também alerte que "deixei de considerar os dez primeiros livros das 'antiguidades judaicas'" etc., mesmo assim ela/ele decide incluir após o livro XVIII (isto é, após o final de seu "prefácio") capítulos integrais e parciais dos livros VII, VIII e XI.

nessa sarabanda maluca, em que davi ordena a salomão que construa o templo após a derrota de herodes, surge outra novidade madrasiana. os excertos, até então, vinham vindo, estranhos, sem nome, sem identificação, como se fossem ainda o bendito prefácio de josefo, mas vinham vindo. de repente, nesse carrossel desgovernado agora surgem capítulos inteiros com parágrafos numerados, começando pelo 304 e indo ininterruptamente até o 351, dando um salto inexplicado para o 419 e então seguindo até o 445. são 60 páginas de capítulos integrais, sem excerto, sem seleção, sem pausa, alguns salteados e com o pulo do quarto para o sétimo capítulo do livro oitavo. por fim, com neemias, terminam as inominadas antiguidades judaicas das seleções de flavius josephus da editora madras.

* obs.: posso adiantar que essa edição da madras não passa de um evidente plágio da tradução do pe. vicente pedroso. como essa montagem feita pela madras se pretende muito ishperta, preferi antes dar o quadro geral ao longo destes três últimos posts, e em seguida apresentar os comparativos contra o pano de fundo mais completo. 

imagens: flavio josefo, carrossel

Um comentário:

  1. Anônimo7.12.14

    Recentemente, traduzi um trecho de Josefo como fragmento de Quérilo de Samos, um poeta épico grego contemporâneo de Heródoto; tendo terminado (é um trecho curto), procurei cotejar o que fizera com alguma outra edição -- e me lembrei da tradução de Pedroso. Tenho o volume único da CPAD (8a. ed., 2004), e devo dizer que fiquei decepcionado. O trecho corresponde ao penúltimo parágrafo da p.1445. Além de chamar Quérilo, por algum motivo obscuro, de Choerilio (em vez de traduzir, de transliterar o grego [Khoirílos], ou de usar a forma latina [Choerilus]), Pedroso ainda ignorou parte substancial do texto, incluindo os cinco versos hexâmetros intercalados, justamente o fragmento épico. Obviamente, em um título dessa dimensão impressionante, lapsos, gralhas e erros ocasionais são esperados, mesmo que não desejados. Mas aqui fiquei com a desagradável impressão de que a omissão era intencional, uma forma de evitar uma dificuldade, digamos, desnecessária (por que perder tempo com um autor pagão em uma obra sobre o "povo de Deus"?). Além disso, a tradução pouco rigorosa de outros nomes próprios (como "Cadmo Müller", na p.1430) faz com que o livro pareça pouco confiável a um leitor mais atento -- mesmo que não saiba grego. Você mencionou as revisões levadas a cabo pela CPAD; seria preciso cotejar essa edição com as mais antigas, para ter certeza se o erro é de Pedroso ou de revisores posteriores. Mas fica a observação.

    José Leonardo Sousa Buzelli (jlsbuzelli@hotmail.com).

    P.S.: Traduzi um pequeno conto de Jerome K. Jerome, recentemente publicado na Revista Morus. Se tiver interesse em ler, comentários e críticas são bem-vindos! < http://www.revistamorus.com.br/index.php/morus/article/view/205 >

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