retomando as metamorfoses de kafka,* celso donizete cruz desvenda uma daquelas infelizes brasilices na história das traduções em nossa terra.
a primeira metamorfose no brasil saiu em tradução de brenno silveira, em 1956, pela civilização brasileira. na edição consta devidamente o nome do texto de partida: tradução da edição americana metamorphosis. em 1963, a mesma tradução sai numa pequena edição popular pela bup, efêmera editora também de ênio silveira. desta feita a imprenta traz apenas o título do original em alemão, die verwandlung, sem qualquer referência à fonte usada para a tradução. o mesmo se repete em reedições d'a metamorfose pela civilização nas décadas seguintes. já não é um tipo de procedimento muito desejável, pela ampla margem de ambiguidade, dando o título do original, mas não o título da fonte para a tradução - de qualquer modo, porém, omissão de dados é uma coisa e falsificação de dados é outra.
acontece que, conforme levantou celso cruz, a fonte americana da tradução de brenno silveira, de uma hora para outra, adquiriu cidadania germânica. assim é que, na edição da civilização de 1997, "a ficha catalográfica não deixa dúvidas, ao anotar: 'tradução de: Die Verwandlung'" (p. 194). bom, aí complica. há várias reedições até 1999, todas esgotadas. a record comprou a civilização em 2000 e nunca mais reeditou essa tradução. segundo a valiosa constatação de celso cruz, desde 1997 a civilização passou a falsificar as informações em seus exemplares, e dificilmente alguém vai corrigi-las. leitores e pesquisadores vão sempre tropeçar nessas incongruências, e a história da tradução no brasil fica com mais essa nodoazinha de negligência ou má fé.
* celso donizete cruz, metamorfoses de kafka. são paulo, annablume, 2007.
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