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3 de set. de 2010

saco CIP de gatos, parte 2

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dando continuidade à confusão em torno da mente cativa de czeslaw milosz, pela editora novo século.


como se não bastasse a enganosa montagem da ficha CIP desse livro, e a julgar pelas reações de luiz eduardo soares no twitter, infelicissimamente a tradução parece apresentar alguns problemas:
@luizeduardosoar: Chato criticar trabalho alheio, mas é 1 desastre total a tradução do belo livro Mente Cativa (ed. Novo Século), do prêmio Nobel Czeslaw Milosz. 11:13 AM Jun 16th via web
@luizeduardosoar: O desastre da tradução é tal q tive ímpetos de recorrer ao Procon. Como é q se comercializa 1 coisa dessas? E o livro de Milosz é importante. 11:15 AM Jun 16th via web
ou na folha online:
Walter Scafutto em 28/07 às 13h45 - Infelizmente, muitas editoras brasileiras ainda tratam suas traduções com bastante desleixo. O livro "Mente Cativa", da editora Novo Século, por exemplo, é simplesmente incompreensível.
ontem mostrei a ficha CIP do livro. a página completa é esta:


e aí vem a batata quente: na novo século, uma moça muito gentil e atenciosa chamada sílvia disse que quem montou a ficha foi a cbl. a bibliotecária teresa, da cbl, declarou que a ficha foi montada de acordo com as informações enviadas pela novo século. o fato é que a ficha está uma piada.

até o rascunho, um dos melhores jornais literários do país, na seção de críticas e resenhas, também se fiou e caiu nessa:
O SILÊNCIO DOS INTELECTUAIS
Mente cativa, de Czeslaw Milosz, revela um autor que, contrário ao consenso, prezou as divergências
Fabio Silvestre Cardoso • São Paulo - SP

Mente cativa
Czeslaw Milosz
Trad.: Jane Zielonko
Novo Século
248 págs.
em todo caso, ontem mesmo a editora enviou um e-mail comunicando:
Segue o nosso posicionamento sobre a CIP do livro Mente Cativa. Enviaremos um comunicado à CBL para que seja incluído na catalogação a seguinte informação: Traduzido do inglês por Dante Nery. E aos leitores que nos questionarem a respeito, comunicaremos que numa possível reedição da obra, esta informação já estará alterada. 
podia ser melhor, podia ser pior. diga-se de passagem, fui informada de que:
  • o livro mente cativa está sendo inteiramente revisto, na tentativa de sanar problemas detetados após o lançamento;
  • o livro boleros em havanasegundo raquel cozer (da coluna babel do estadão) eivado de incorreções, foi recolhido e está sendo feita uma nova tradução.
lamento o ocorrido com a novo século, pois sempre é um desgaste. mas, se for de algum consolo, pior seria deixar perpetuar a fama. agora, resta o problema para os leitores que já compraram essas obras.

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2 de set. de 2010

saco CIP de gatos, parte 1

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livro é uma coisa complicada, regulamentadíssima. não os que costumo mostrar aqui no nãogosto, que esses, em sua grande maioria, são pura piratice, pior que óculos prada e bolsa chanel da santa ifigênia em são paulo. falo livro-livro.

para estar na praça, livro que é livro tem que ter carteira de identidade e cpf. já falei bastante disso a propósito do isbn, luxo a que o livro não-livro nem sempre se dá. o outro registro que livro-livro tem que ter é a ficha CIP, outro luxo ainda maior do qual livro não-livro nem passa perto.

CIP = Cataloging-In-Place, catalogação na publicação, catalogação na fonte, catalogação pré-natal: normalmente quem presta esse serviço de montar a ficha CIP para as editoras são equipes especializadas da cbl (para sp, sc e rs) e do snel (demais estados).

são aqueles dados que vêm dentro de um retângulo, geralmente no verso da página de rosto do livro-livro. em livro muito sofisticado, com muita produção gráfica, de arte, coisas assim, pode vir lá no fim, na penúltima ou última página.

aquilo é normalizado a um ponto que a gente não faz ideia. depois entro no assunto: é fascinante. mas o que importa é que a ficha CIP traz todos os dados essenciais do livro, e até sua classificação dewey, que também é um troço maravilhoso, aquele número de biblioteca, como a gente diz.

pois bem: você olha a ficha CIP, e estão lá, em ordem:
  • o nome do autor
  • o título da obra em português
  • de novo o nome do autor
  • o nome do tradutor
  • o local de publicação
  • a editora
  • o ano de edição
  • o título da obra no original
  • o número de isbn
  • os temas da obra
  • o número dewey (CDD)
  • o índice para catálogo sistemático.

maravilha. tudo o que você quer saber, e alguma coisa mais.

a pessoa folheia o livro, dá uma olhada nas informações da ficha CIP e compra o exemplar. foi o que fez um leitor aqui do blog, que escreveu contando:
Escrevo para tentar ilustrar e entender melhor o caso da ficha CIP. Comprei um livro de ensaios do poeta polonês Czeslaw Milosz pensando que o mesmo havia sido traduzido do original. Ao folheá-lo na livraria, vi na ficha de catalogação o título em português, Mente Cativa, seguido do nome do autor e "traduzido do polonês" por Jane Zielonko. Estranhei que, dentro do mesmo retângulo da ficha, estava escrito "Título original: The captive mind".
Ora, um poeta cosmopolita poderia muito bem intitular a sua obra em outro idioma que não o seu. Mas, de todo modo, achei estranho. Em casa, examinando o livro com mais cuidado, percebi logo que fora traduzido do inglês. O nome do tradutor da versão em inglês, Dante Nery, estava misturado a outros dados, fora da ficha. Claro, há obras que sofrem traduções indiretas e isso faz parte da circulação dos livros. Mas fui levado a crer que havia comprado um livro traduzido do original!
Vi, ainda, que o título em polonês, Zniewolony Umsyl, vinha solto, no começo da página - tudo confuso como o diabo! Ou seja, acho que a ficha da Novo Século Editora induz ao erro. Ou, com um pouco mais de condescendência, acaba sendo um trabalho amador e mal acabado.


e você, diante dessa ficha, o que pensaria? 

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7 de ago. de 2010

quando se soma o insulto à injúria

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todo livro deve seguir certas normas obrigatórias. uma delas é a ficha CIP (cataloging-in-publication), estabelecida desde 1976 e obrigatória pela lei do livro de 2003, cap. III, art. 6.

a ficha cip geralmente vem no verso da página de rosto, e traz título da obra, nome do autor, nome do tradutor (em caso de obra de tradução), título original (quando é tradução), editora, ano de publicação, número de páginas e de ilustrações (quando as há), número de isbn, assunto, bem como o índice para catálogo sistemático.

por exemplo:


assim como temos RG e CPF e empresas têm CNPJ e IE, um livro tem seu ISBN e sua ficha CIP: são seus documentos de identidade, por assim dizer.

acho um espanto que, além do recurso a plágios e contrafações, desrespeitando os mais básicos direitos de autor, os direitos do leitor/consumidor e a ética do mundo empresarial, a editora martin claret não respeite essa exigência básica de catalogação na publicação. entre as centenas de títulos dessa editora que tenho em casa, creio que apenas cinco ou seis, e apenas em data recentíssima, trazem ficha cip. a grandíssima esmagadora maioria de suas edições traz apenas uma página "caseira" ou informal de créditos (aliás, muitos falsificados, como já demonstrei inúmeras vezes):


diga-se de passagem que tampouco a editora escala parece respeitar a determinação do artigo 6 da lei do livro. tenho três livros publicados pela escala: maquiavel, a arte da guerra (s/d); cícero, os deveres (2008); erasmo, elogio da loucura (2a. ed., 2008), integrantes da coleção "grandes obras do pensamento universal". nenhum deles tem ficha cip.



quando está em curso um processo de consulta pública para a revisão e modernização de nossa lei de direito autoral, fico perplexa que alguns setores do mundo do livro quase arranquem os cabelos quando se fala em retomar um dispositivo da lei anterior, permitindo a cópia xerox de capítulos de livros para finalidades de ensino e uso privado, e em momento algum esses mesmos setores - imbuídos de um corporativismo quase doentio - demonstram qualquer preocupação com a delinquência que grassa entre suas fileiras.

sou da opinião que a proposta de revisão da lda deveria incluir algum dispositivo que oferecesse aos usuários em geral, leitores, bibliotecas, acervos etc. alguma garantia contra essas flagrantes lesões ao direito.

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