Mostrando postagens com marcador elias davidovich. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador elias davidovich. Mostrar todas as postagens

7 de set. de 2017

artigo sobre crime e castigo

americana, 1930 - capa de di cavalcanti


neste último número dos cadernos de tradução da ufsc, saiu meu artigo sobre as bizarras circunvoluções em que, durante mais de oitenta anos, esteve metido o pobre do "crime e castigo" de dostoiévski no brasil. disponível aqui.


25 de jun. de 2016

quantos crimes não desvendados!

a chegada de crime e castigo de dostoiévski ao brasil é um mistério.

brito broca, em sua introdução a crime e castigo na famosa tradução de rosário fusco (1949), cita lá que a primeira tradução da obra havia saído pela livraria castilho no começo dos anos 1920. a tradução, diz broca, era de fernão neves (pseudônimo de fernando nery, o mesmo que traduzira recordações da casa dos mortos, lançado em 1917 pela mesma castilho).

acontece que essa afirmação de brito broca é a única, unicíssima referência a tal tradução que encontrei em todos esses anos. estou quase desanimando e começando a achar que broca, passadas quase três décadas, foi é traído por sua memória.

aí, em 1930 sai crime e castigo - esse sai mesmo, comprovadamente - pela editora americana com tradução em nome de um improvável "ivan petrovitch", com projeto gráfico da capa feito por di cavalcanti.



bom, a americana é aquela mesma que publicou um irmãos karamazov em tradução de outro igualmente improvável "raul rizinsky", que veio a se revelar depois como pseudônimo que a editora impingiu ao tradutor, ninguém menos que leôncio basbaum. veja aqui.

em vista disso, não me parece absurdo supor que aquele tal "ivan petrovitch" fosse também mera invenção da casa para dar uma aura russificada à tradução. agora, quem seria, não faço ideia (imagino que não basbaum, porque sua primeira tradução para a americana - o irmãos de "rizinsky" - saiu em 1931, enquanto o crime de "petrovitch" sai em 1930).

anúncio em o correio da manhã, 29/10/1930

bom, que seja. pelo menos é fato comprovado que em 1930 sai essa tradução de crime e castigo, que não sabemos quem fez, pois é difícil acreditar nesse "ivan petrovitch".

ainda em 1931, a americana encerra a parte de literatura e seu catálogo literário é adquirido pela waissman, reis & cia., a qual por sua vez, a partir de 1934, passa a responder pelo nome de guanabara (ou guanabara koogan). com a aquisição do catálogo, ela passa a relançar títulos anteriores da americana, que agora são seus. crime e castigo sai em 1936, sem "petrovitch" nenhum e constando apenas "tradução revista por elias davidovich".

aí, também em 1936, a pongetti lança um crime e castigo com tradução em nome de um "j. jobinsky", revista por aurélio pinheiro. isso é meio esquisito. a pongetti e a guanabara tinham uma rivalidade meio bizarra, em que a pongetti vivia correndo atrás de publicar as mesmas coisas que a guanabara e inclusive garfando várias traduções dela, e esse seu lançamento me parece muita coincidência. bom, em 38 ou 39 aurélio pinheiro morre; em 1939, a pongetti lança uma segunda edição desse crime e castigo de jobinsky/pinheiro.

aí, em 1943 a mesma pongetti lança mais uma edição, mas agora - e com destaque na capa - como "tradução revista por marques rebelo". some qualquer referência a um tradutor qualquer que seja, inventado ou não, e a obra tem lá suas reedições durante uns bons anos, "revista por marques rebelo".

então, em 1960 sai mais uma edição da mesma pongetti, agora como "tradução revista por luiz cláudio de castro".

depois a pongetti fecha, seu catálogo vai para a ediouro, que relança crime e castigo nessa dita tradução revista e com um dito cotejo com o original russo de luiz cláudio de castro, e lá a obra permanece até hoje.

mas, quando a coleção biblioteca da folha publica uma edição dessa obra, em 1998, luiz cláudio de castro passa a constar na capa como se fosse o autor da tradução.

e assim ficamos sem saber, nessa sucessão de nomes arrussados e traduções revistas, quem terá sido de fato o tradutor "ivan petrovitch" que lançou aquela que me sinto propensa a considerar - em que pese a afirmação de brito broca - a primeira tradução de crime e castigo no brasil.

atualização: ah, santa ingenuidade! que tradução de "jobinsky" que nada! cópia pura e simples da tradução lusitana de câmara lima, de 1901.

veja aqui.

29 de jan. de 2016

leituras V: a confusão dos sentimentos

zoran ninitch, excêntrica figura sobre a qual devo a mim mesma um artigo, fez em 1934 uma bela tradução (a primeira) de a confusão dos sentimentos, de stefan zweig, interessante novela psicológica sobre a homossexualidade.



elias davidovich, muito importante na área tradutória e com sólido trabalho de divulgação das obras de freud e zweig no brasil, fez outra tradução de a confusão dos sentimentos. sua primeira edição não traz data, mas calculo que seja não muito posterior (c.1937-38; será reeditada em 1942). devo dizer que fiquei bastante decepcionada.



surpreendeu-me o paradoxo: um pobre expatriado com visíveis problemas psicológicos como ninitch, por vezes cortejando ou mesmo adotando práticas próprias de um vigarista, que certamente deu e levou várias trombadas em e de davidovich, figura séria e de respeitável relevo em nossa história editorial, supera-o em muito em termos de capacidade e qualidade tradutória, pelo menos neste caso em pauta.

16 de jan. de 2016

"charlotte von orloff"

apenas para não esquecer: alguma hora valeria a pena tentar elucidar quem é "charlotte von orloff", a meu ver nome retumbando sonoramente a pseudônimo. com exíguo histórico tradutório, "charlotte von orloff" assina as seguintes traduções: karl may, na região dos bandoleiros, globo, 1933; thomas mann, tonio kröger, guanabara, 1934; e stefan zweig, leporella (novellas) [contém, além de "leporella", "a collecção invisivel", "episodio no lago de genebra" e "buchmendel"], guanabara, 1935.

 





se eu tivesse de apostar minhas fichas, eu arriscaria o nome de elias davidovich ou alguém muito próximo a ele.


3 de jan. de 2016

zweig, ninitch e medeiros e albuquerque


gosto do formato de crônica ou de estudo de caso bem condensado ("micro-história", diriam alguns) porque certos episódios históricos parecem constituir nós ou entrelaçamentos resultantes de convergências muito singulares. e gosto desse trabalho de destrinçamento dos fios que, reunindo-se intempestivamente ou inesperadamente, formaram aquela ocorrência histórica (aquele "acontecimento", diriam alguns).

o nó que atualmente ando querendo destrinçar parece quase apenas um fait divers, um pequeno fato avulso, pertencente ao capítulo das curiosas insignificâncias. e é o seguinte: medeiros e albuquerque assinou com seu nome algumas traduções de stefan zweig feitas por zoran ninitch.

este é o "fato". mas, se pararmos para pensar e tentarmos entender essa bizarrice, veremos que o pano de fundo é complicado, são muitas as perguntas e muitos os fatores envolvidos nessa simples ocorrência.

quem são os agentes ativos e passivos envolvidos nisso? medeiros e albuquerque e zoran ninitch, evidentemente, mas também stefan zweig, abraão koogan e a editora guanabara, e, conforme avançamos, também elias davidovich, gastão pereira da silva, odilon gallotti, freud, aurélio pinheiro, flores & mano, atlântida, unitas, calvino, pongetti. por que medeiros? por que ninitch? desde quando? a partir de que condições? com que finalidade? quais as consequências?

resumindo: por que traduções de zweig feitas por ninitch são publicadas como da lavra de ninguém menos que o grande defensor dos direitos autorais no brasil, que deu seu nome à primeira lei referente ao tema, contemplando especificamente também as obras de tradução, qual seja, a "Lei Medeiros e Albuquerque"? o que leva um insigne membro da academia brasileira de letras, importante parlamentar, autor expressivo, a participar desse embuste? o que aconteceu, em suma?

e quanto mais tento entender, mais intrincado parece ser este nó, mais interesses parecem estar envolvidos, mais atritos e conflitos parecem se enfrentar, mais circunstâncias pessoais, econômicas e ideológicas parecem se entrecruzar.


24 de ago. de 2015

elias davidovich, I

Traduções de Elias Davidovich (1909-1998)

M. Maryan, A prima Esther. Collecção Feminina, Azevedo, 1929

I. 1930-1939

Pitigrilli (pseud. de Dino Segre), Ultraje ao pudor. Arturo Vecchi & Freitas Bastos, 1930

aqui na capa de sua sexta edição

Dyvonne, Casamento Secreto.  Coleção Biblioteca Feminina. Americana, 1930

M. Delly, O infiel.  Livraria Azevedo, 1930

Pierre Louÿs, Afrodite - romance de costumes antigos, Americana, 1931



Guy de Maupassant, Uma Vida. Americana, 1931

Ivan Tourgueneff, Roudine. Collecção Benjamin Costallat. Flores e Mano, 1932. Provavelmente foi ela que deu origem a mais uma das habituais garfadas da Pongetti, em 1942, lançando a "tradução revista por Marques Rebelo"



Pitigrilli (pseud. de Dino Segre), Os Vegetarianos do Amor. Arturo Vecchi & Freitas Bastos, 1932

aqui em sua quarta edição


Fiódor Dostoievski, Os pobres diabos. Rio de Janeiro, Flores e Mano, 1932



Goethe, Werther, seguido de Estudo de Sainte-Beuve. Collecção Benjamin Costallat, Guanabara, 1932



Jules Michelet, O amor. J. Leite, 1932



Fiódor Dostoiévski, O tyrano. Americana (Calvino Filho), 1933



Maurice Dekobra, A gondola das chimeras. Arturo Vecchi e Freitas Bastos, 1933

Nicholas [sic] Machiavel, O principe. Calvino Filho, 1933



Sigmund Freud, Psychopathologia da vida quotidiana. Guanabara, 1933



Leonidas Andreief, O diário de Satanás. Renascença, 1933



Abade Prévost, Manon. Collecção Benjamim Costallat, 1933 [1934]

Emile Zola, Accuso! Calvino Filho, 1934



Oto Rank, O traumatismo do nascimento. Livraria Marisa, 1934

Wilhelm Liepmann, A tragédia sexual da juventude. Atlântida, 1934

Sigmund Freud, Introdução à psicanálise, 1934

Sigmund Freud, Observações clínicas. Atlântida, 1934



Jean Schaffer, Terapeutica das enfermidades cutaneas e venereas. Waissman-Koogan, 1934

Jacques Forestier, Tratamento dos reumatismos crônicos. Guanabara, 1935

J. Crépieux - Jarmin, Grafologia: a Escrita e o Carácter. Flores & Mano Editores, 1935 [1936]

Stefan Zweig, Freud. Coleção Últimas Novidades Literárias. Guanabara, 1936



Thomas de Quincey, Confissões de um comedor de ópio. Pongetti, c.1935. Note-se que o prefácio é de J.P. Porto-Carrero, indicando o interesse psicanalítico pela obra.



Fiódor Dostoiévski, Crime e castigo. Trad. revista por Elias Davidovich. Guanabara, 1936. Aqui não duvido que se tratasse do Crime e castigo traduzido por um misterioso "Ivan Petrovich" e publicado pela Americana em 1930, tanto mais porque a Guanabara (Waissman Koogan) adquiriu o catálogo literário da Americana em 1934 e relançou vários de seus títulos.


Stefan Zweig, O medo. Pref. de Romain Rolland. Guanabara, 1936

Pasteur Valéry-Radot, Os grandes problemas da medicina contemporânea. Vecchi, 1937

Pierre Benoit, Alberta. Vecchi, 1938

Stefan Zweig, Fernão de Magalhães: história da primeira circunavegação. Guanabara, 1938



Lucio D’Ambra. Ofício de marido, v. 1 da trilogia “Os Romances da Vida a Dois”. Coleção Romances. Vecchi, 1939

André Maurois, A máquina de ler pensamentos. Vecchi, 1939




25 de mai. de 2014

pierre louÿs no brasil

aphrodite foi a primeira obra de pierre louÿs a ser publicada no brasil, em tradução de elias davidovich - tradutor de tão grande importância em nossa história bibliográfico-cultural e o amiguinho de leôncio basbaum que o levou às sendas tradutórias, como comentávamos há pouco, aqui.

o romance saiu pela editora americana em 1931:


a tradução de davidovich será reeditada pela vecchi em 1945 e pela ediouro a partir dos anos 1990, com o subtítulo de romance de costumes antigos.


elias davidovich II

segue uma listagem (incompleta) das traduções de elias davidovich, disponível na wiki, aqui (fiz alguns acréscimos entre colchetes, assinalando db):


Traduções[editar | editar código-fonte]

  • Afrodite (Aphrodite), de Pierre Louÿs, Ediouro, 1991. [na verdade, sai com o título aphrodite em 1931, pela editora americana - db]
  • Uma Vida, Guy de Maupassant, Coleção Clássicos de Bolso, Ediouro Publicações. idem, americana, 1931 - db]
  • Fernão de Magalhães: história da primeira circumnavegação, Stefan Zweig. Editora Guanabara, 1938/ Editora Delta, 1956 (Obras completas de Stefan Zweig, volume 11, tomo XI)
  • Freud e Tolstoi, Stefan Zweig. Editora Guanabara Koogan, 1935.
  • Obras completas de Sigmund Freud, Editora Delta [como coordenador da coleção - db; são vários tradutores]
  • Galeria Delta de Pintura Universal, Marco Valsecchi (diretor). Rio de Janeiro: Editora Delta, 1974,
  • August Forel: Memórias. Biografia. Porto Alegre: Globo, 1985.
  • Rudin (Rudin), Ivan Turgueniev [Flores e Mano, 1932 - db]
  • A Luta pela paz, Golda Meir. Editora Delta, 1965.
  • Manon, Abade Prévost. Rio: Coleção Benjamim Costallat, 1934. [1933 - db]
  • Três paixões, Stefan Zweig; tradução de Odilon Gallotti & Elias Davidovich. Porto: Livraria Civilização. Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 5, tomo XVI) [Guanabara, 1942, db]
  • Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Trad. revista por Elias Davidovich. Rio de Janeiro, Guanabara, 1936 [tradução portuguesa - db]
  • Ensaio sobre o burguês, de Fiódor Dostoiévski. Rio de Janeiro, Pongetti, s/d.
  • Os pobres diabos, de Fiódor Dostoievski. Rio de Janeiro, Flores e Mano, 1932.*
  • O tyrano, de Fiódor Dostoiévski. Ed. Americana (Calvino Filho), 1933. Reeditado como "O Vilarejo". São Paulo: Global Editora, 1984, Coleção Magias.
  • Caleidoscópio, Stefan Zweig. Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 6, tomo VI)
  • O Momento Supremo, Stefan Zweig. (Trad. de Medeiros e Albuquerque, Odilon Gallotti e Elias Davidovich). Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 13, tomo XIII)
  • Jeremias, Stefan Zweig. Editora Delta (Obras completas de Stefan Zweig, volume 16, tomo XX)
  • O Talmud essencial, Adin Steinsaltz, Editora A. Koogan, 1989
  • Os Vegetarianos do Amor (I vegetariani dell'amore), Dino Segri Pitigrilli. Rio de Janeiro: Arturo Vecchi & Freitas Bastos, 1932.
  • A casa de Rothschild, Egon Conte Corti. Rio de Janeiro: Editôra Vecchi, 1948, Coleção Vidas Extraordinárias.
  • Ultraje ao pudor (Oltraggio al pudore), Dino Segri Pitigrilli. Rio de Janeiro: Arturo Vecchi & Freitas Bastos, 1930.
  • Ofício de marido (Il mestiere di marito), Lúcio D’Ambra. Rio de Janeiro: Editora Vecchi, 1939. Coleção Romances, trilogia “Os Romances da Vida a Dois”, nº 1.
  • Profissão de Esposa (La professione di moglie), Lúcio D’Ambra. Rio de Janeiro: Editora Vecchi, 1940. Coleção Romances, trilogia “Os Romances da Vida a Dois”, nº 2.
  • Accuso! (J’accuse), Emile Zola. Calvino Filho, editor. 1934.
  • Casamento Secreto, Dyvonne, Editora Americana, 1930, Coleção Biblioteca Feminina.
  • A Sarracena (La Sarrasine), de Germaine Acremant, volume 161 da Coleção Biblioteca das Moças, da Companhia Editora Nacional. Apenas uma edição, em 1956 .
  • Diagnóstico fisico (Physical diagnosis), Richard Clarke Cabot & F. Denette Adams. Guanabara, 1943.
  • Penicilinoterapia (Penicillin therapy), John Albert Kolmer. Gertum Carneiro, 1945. Pref. Raymundo Moniz de Aragio.
  • Novas confissões de um médico de senhoras (The bond between us; the third component), Frederic Morris Loomis. Editora Globo, 1944.
  • Minha vida e meus amores (My life and loves), Frank Harris. Meridiano, 1943.
  • Duplo assassinato na Rua Morgue, Edgar Allan Poe. Guanabara, s.d.
* aqui é dada como tradução feita diretamente do russo, mas duvido. ele mesmo declarava desconhecer o russo.

acrescentem-se :
a luta contra o câncer, de enrico giupponi, pela vecchi, 1941
roudine, de tourgueneff, pela vecchi e freitas bastos, 1932
werther, de goethe, collecção bejamin costallat, 1932
a gondola das chimeras, maurice dekobra, vecchi e freitas bastos, 1933
a machina de ler pensamentos, de andré maurois, pela vecchi, 1939
o amor, de michelet, pela j. leite, 1932
o principe, de nicholas [sic] machiavel, calvino filho, 1933
os grandes problemas da medicina contemporânea, de pasteur valéry-radot, pela vecchi, 1937
alberta, de pierre benoit, pela vecchi, 1938
o traumatismo do nascimento, de otto rank, pela livraria marisa, 1934
graphologia, de crépieux-jarmin, pela flores e mano, 1936
a visão do propheta (Jeremias). guanabara, s/d


a título de curiosidade, uma resenha bastante negativa de mário de andrade sobre um livro de contos escritos por davidovich, uns homens que eram deuses, de 1939, aqui


veja também um interessantíssimo depoimento de elias davidovich aqui.


dostoiévski e seu misterioso tradutor "raul rizinsky": uma hipótese

há um artigo muito interessante de dennys silva-reis sobre  "O romance hugoano L'homme qui rit: estudo crítico, tradução e retradução para o português brasileiro", disponível aqui.

chamou-me a atenção um trecho, transcrito no artigo, das memórias de leôncio basbaum:


já aqui eu comentava: "diga-se de passagem que aquele 'raul rizinsky' d'os irmãos karamazoff, pela americana, edição de bolso em papel jornal que saiu em 1931, parece irmão gêmeo do 'ivan petrovitch' da mesma americana, em 1930!" o trecho acima parece indicar que, de fato, aquele implausibilíssimo "raul rizinsky" seria um pseudônimo usado por ele, em sua primeira tradução para a editora americana.




visto que não se encontra nenhuma notícia de alguma edição de os irmãos karamazov publicada diretamente pela guanabara, sinto-me fortemente tentada a crer que a discrepância na referência ao nome da editora (americana, e não guanabara) se deve ao fato de que o catálogo literário da editora americana passou, em 1931, para a waissman, reis & cia., a qual por sua vez, a partir de 1934, passa a responder pelo nome de guanabara (e também guanabara koogan). essa hipótese é reforçada também pelo fato de que elias davidovich, o amigo e companheiro citado por leôncio basbaum, desde 1930 fazia traduções para a americana, bem como para a posterior guanabara. em resumo, suponho que leôncio basbaum, em suas memórias, referiu-se à americana pelo nome que, entre uma e outra fusão editorial, ela veio a adotar poucos anos depois e que mantém até a data de hoje.

devo a imagem da página de rosto à gentileza de alex quintas de souza.

26 de dez. de 2013

maquiavel entre trotskistas e militares

o primeiro maquiavel entre nós é  o príncipe, lançado no mesmo ano de 1933 por duas editoras, ambas de importante papel na história da esquerda brasileira.
pela calvino filho, em tradução de elias davidovich, da qual não restou muita memória:

pela unitas, em tradução de lívio xavier, a qual se tornou a mais amplamente difundida e constantemente reeditada até a data de hoje:


a athena, outra importante editora de esquerda dos anos 30 aos anos 50, a partir de c.1938 relançou o príncipe na tradução de lívio xavier em várias reedições; em 1940, também em tradução de lívio, publicou  escritos políticos de maquiavel.

em curioso contraste, a arte da guerra de maquiavel é lançada pela primeira vez no brasil em 1944, na coleção "biblioteca clássica de cultura militar", a cargo do coronel j.b. magalhães, da editorial peixoto, em tradução do também coronel renato b. nunes:



sobre maquiavel, em especial o príncipe, no brasil, ver aqui.

18 de ago. de 2013

mais uma sugestão de pesquisa

na seção de leitores do jornal opção, alguns meses atrás, eu tinha deixado um comentário sobre a matéria do jornal sobre o lançamento de rudin, aqui.

na edição desta semana, o jornal transcreveu o comentário em sua seção de cartas. de fato, creio que um levantamento e estudo sistemático da contribuição de imigrantes, refugiados e exilados ao desenvolvimento da tradução no brasil nos anos 1930 resultaria num rico painel.


Denise Bottmann
Muito bom o artigo “Editora lança notável romance de Tur­guêniev” (Jornal Opção 1960) e essa forma de resgatar a memória das traduções anteriores.

Elias Davidovich traduzia basicamente do espanhol e do francês. Sua tradução de Rudin saiu inicialmente em 1932, pela coleção Benjamin Costallata, pela carioca Flores & Mano. Trazia o título, aliás, bem à francesa: “Roudine”.

A tradução de Ivan Emiliano­vitch (de origens russas) é uma das primeiras no Brasil a ter sido feita diretamente do original. “Pais e Filhos” saiu inicialmente pela Edi­tora Cultura Brasileira, em 1935 (co­mo “Paes e Filhos”, pré-reforma ortográfica). A partir de 1941, pas­sou a ser publicada pela Livraria Martins.

Aliás, é muito interessante — e pouco conhecida ou estudada, creio eu — a contribuição de vá­rios imigrantes, exilados e refugiados como tradutores para aquele período de grande alavancagem do setor editorial, a partir dos anos 30: temos Elias Da­vi­do­­vich, Ivan Emiliano­vitch, Zo­ran Ninitch, Charlotte von Or­loff, Georges Selzoff, sem contar os posteriores, como Boris Sch­naiderman desde o comecinho dos anos 40 (assinando como Boris Solomonov) e Paulo Rónai.

Mas, de fato, o que me chama mais a atenção são esses tradutores dos anos 30 — creio que, dentre eles, apenas Elias Davidovich veio a se tornar mais conhecido no setor, com um grande trabalho à frente das coleções Delta (obras completas de Freud, projeto que se iniciara nos anos 30, mas apenas nos anos 50 veio a cabo, com Davidovich, justamente), bem como na organização das obras completas (e tradução de algumas delas, mas indireta) de Stefan Zweig.
disponível aqui.



21 de jun. de 2013

nobel no brasil

rodrigo conçole relembrou no facebook a listagem que o pessoal do excelente e extinto meia palavra tinha publicado, a qual felizmente se encontra abrigada, após a extinção do meia, no fórum valinor, aqui.

quanto às edições da delta, quem não lembra ou não conhece as graciosas capinhas brancas com ilustração de picasso? marcaram época! e havia excelentes traduções na coleção, algumas delas licenciadas das editoras que já as haviam publicado antes (talvez o que eu faça alguma hora é rastrear a data original da primeira edição dessas traduções e respectivas editoras).



Títulos publicados pela editora Delta nos anos 1960 (a partir de 1962), reeditados a partir de 1970 pela Opera Mundi (o asterisco indica tradução anterior ou mesma tradução publicada anteriormente):

1. Alfred Nobel - O homem e seus prêmios - livro de introdução – trad. Elias Davidovich
2. 1901 - Sully Prudhomme - Diário íntimo e pensamentos – trad. e notas de Mello Nóbrega
3. 1902 - Theodor Mommsen - História de Roma (excertos) – trad. Antônio Olinto
4. 1903 - Bjørnstjerne Bjørnson - Além das forças / Duas peças – trad. Guilherme Figueiredo
5. 1904 - Fredéric Mistral - Miréia – trad. Manuel Bandeira (1962)
6. 1904 - José Echegaray - Mancha que limpa e A morte nos lábios – trad. R. Magalhães Jr.
7. 1905 - Henryk Sienkiewicz - O faroleiro e outros contos – trad. Lúcia Benedetti
8. 1906 - Giosuè Carducci - Poesias escolhidas – trad. Jamil Almansur Haddad
9. 1907 - Rudyard Kipling - A luz que se apagou – trad. João Távora *
10. 1908 - Rudolf Eucken - O sentido e o valor da vida – trad. João Távora
11. 1909 - Selma Lagerlöf - De saga em saga – trad. Mário Teles
12. 1910 - Paul Heyse - Três novelas – trad. Herbert Caro
13. 1911 - Maurice Maeterlinck - O pássaro azul – trad. Carlos Drummond de Andrade
14. 1912 - Gerhart Hauptmann - O herege de Soana – trad. Augusto Meyer; e Michael Kramer - trad.                  Herbert Caro
15. 1913 - Rabindranath Tagore - Çaturanga – apresentação e trad. Cecília Meirelles
16. 1915 - Romain Rolland - Colas Breugnon – trad. Ivo Barroso
17. 1916 - Verner von Heidenstam - Os Carolinos: crônica de Carlos XII – trad. Rachel de Queiroz
18. 1917 - Karl Gjellerup - Minna – trad. Othon Moacyr Garcia
19. 1917 - Henrik Pontoppidan - O urso-polar e outras histórias – trad. Osman Lins
20. 1919 - Carl Spitteler - Prometeu e Epimeteu – trad. Manuel Bandeira
21. 1920 - Knut Hamsun - Fome – trad. Carlos Drummond de Andrade*
22. 1921 - Anatole France - O crime de Sylvestre Bonnard – trad. Álvaro Moreyra
23. 1922 - Jacinto Benavente - Os interesses criados / Rosas de outono – trad. R. Magalhães Jr.
24. 1923 - William Butler Yeats - Teatro – trad. Paulo Mendes Campos
25. 1924 - Wladyslaw Stanislaw Reymont - A lei do Cnute e outros contos – trad. Valdemar                                  Cavalcanti
26. 1925 - George Bernard Shaw - Santa Joana / Pigmalião – trad. Dinah Silveira de Queiroz, Miroel                  Silveira e Fausto Cunha*
27. 1926 - Grazia Deledda - Caniços ao vento – trad. Mario de Murtas
28. 1927 - Henri Bergson - A evolução criadora – trad. Adolfo Casais Monteiro
29. 1928 - Sigrid Undset - Primavera – trad. Juvenal Jacinto
30. 1929 - Thomas Mann - A morte em Veneza / Tristão / Gladius Dei – trad. Herbert Caro *
31. 1930 - Sinclair Lewis - Babbit – trad. Leonel Vallandro *
32. 1931 - Erik Axel Karlfeldt - Poesias – trad. Ivo Barroso
33. 1932 - John Galsworthy - O proprietário – trad. Rachel de Queiroz *
34. 1933 - Ivan Bunin - O amor de Mítia / O processo do tenente Ieláguin – trad. Boris Schnaiderman
35. 1934 - Luigi Pirandello - O finado Matias Pascal – trad. Helena Parente Cunha
36. 1936 - Eugene O'Neill - Quatro peças – trad. Luiz Drummond Navarro *
37. 1937 - Roger Martin du Gard - O drama de Jean Barois – trad. Vidal de Oliveira*
38. 1938 - Pearl S. Buck - A exilada – trad. Rachel de Queiroz *
39. 1939 - Frans Eemil Sillanpää - Santa miséria – trad. Bella Jozef
40. 1944 - Johannes Vilhelm Jensen - Histórias do Himmerland – trad. Guttorm Hanssen
41. 1945 - Gabriela Mistral - Poesias escolhidas – trad. Henriqueta Lisboa
42. 1946 - Hermann Hesse - Sidarta: um poema indiano - trad. Herbert Caro
43. 1947 - André Gide - O imoralista – trad. Theodomiro Tostes *
44. 1948 - T. S. Eliot - Crime na catedral / Quatro quartetos – trad. Maria da Saudade Cortesão e                          Oswaldino Marques
45. 1949 - William Faulkner - Paga de soldado – trad. Luiz Drummond Navarro
46. 1950 - Bertrand Russell - Ensaios céticos – trad. Wilson Velloso *
47. 1951 - Pär Lagerkvist - Barrabás – trad. Guttorm Hanssen *
48. 1952 - François Mauriac - O deserto do amor – trad. Rachel de Queiroz *
49. 1953 - Winston Churchill - Sangue suor e lágrimas vol. 1 – trad. Lya Cavalcanti *
50. 1953 - Winston Churchill - Sangue suor e lágrimas vol. 2 – trad. Lya Cavalcanti *
51. 1954 - Ernest Hemingway - Adeus às armas – trad. Monteiro Lobato *
52. 1955 - Halldór Laxness - A estação atômica – trad. Maria Jacintha
53. 1956 - Juan Ramón Jiménez - Platero e eu – trad. Athos Damasceno *
54. 1957 - Albert Camus - A peste – trad. Graciliano Ramos *
55. 1958 - Boris Pasternak - Ensaio de autobiografia – trad. Helena Parente Cunha
56. 1959 - Salvatore Quasimodo - Poesias escolhidas – trad. Sílvio Castro
57. 1960 - Saint-John Perse - Poesias - trad. Darcy Damasceno
58. 1961 - Ivo Andritch - O pátio maldito e outros contos – trad. Juvenal Jacinto
59. 1962 - John Steinbeck - Boêmios errantes – trad. Edison Carneiro
60. 1963 - Giorgos Seferis - Poemas – trad. Darcy Damasceno

Só pela Opera Mundi:
61. 1965 - Mikail Cholokov - Don silencioso vol. 1 – trad. Lígia Junqueira; parte poética Agnaldo                        Junqueira Filho *
62. 1965 - Mikail Cholokov - Don silencioso vol. 2 – trad. Lígia Junqueira; parte poética Agnaldo                        Junqueira Filho *
63. 1966 - Samuel Agnon - Noivado e outros contos – trad. Rachel de Queiroz
64. 1966 - Nelly Sachs - Poesias - trad. Paulo Quintela
65. 1967 - Miguel Ángel Asturias - O senhor presidente – trad. Antonieta Dias de Morais *
66. 1968 - Yasunari Kawabata - Nuvem de pássaros brancos – trad. Paulo Hecker Filho *
67. 1969 - Samuel Beckett - Malone Morre / Dias Felizes – trad. Roberto Ballalai
68. 1970 - Aleksandr Isaevic Solzenicyn - O pavilhão de cancerosos – trad. Áurea Weissenberg


20 de jun. de 2013

russos no brasil (1900-1950), IV

Aleksandr Kúprin, 1870-1938 (Alexander, Kouprine)

Vera. Ignoro demais referências, 1931 (cit. in Diário Carioca, 7/7/31).

O duelo. Trad. Paulo Correa Lopes. Porto Alegre: Globo, 1933.
Yama (o bordel). Trad. Elias Davidovich. Rio de Janeiro: Guanabara, c.1935.
"A defesa do acusado". A Novela, n. 1, outubro de 1936. Porto Alegre: Globo, 1936.
A fossa. Trad. Boris Solomonov (pseud. de Boris Schnaiderman). Rio de Janeiro: Panamericana, 1944.



Autor:Kuprin, Aleksandr Ivanovich, 1870 - 1938.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Yama (O bordel)
Imprenta:Rio, Editora Guanabara, [1935?] 
Descrição física:399 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Davieovich, Elias, 1908 - trad.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 
Classificação Dewey:
Edição:
891.73 


as duas imagens acima foram extraídas de entrevista de boris schnaiderman a gutemberg de medeiros, aqui

acompanhe as postagens da pesquisa "russos no brasil (1900-1950)" aqui.

russos no brasil (1900-1950), III

Ivan Turguêniev, 1818-1883 (Ivã, Turgenev, Turgenov, Turguenev, Turguenieff etc.)

Águas da primavera. Trad. Brito Broca e Georges Selzoff. Coleção “Bibliotheca de Auctores Russos”. São Paulo: Cultura, 1932.
Ninho de fidalgos. Trad. Elsie Lessa e Georges Selzoff. Coleção “Bibliotheca de Auctores Russos”. São Paulo: Cultura, 1932.
Um búlgaro. Trad.? Rio de Janeiro: Universal, 1933.
Roudine. Trad. Elias Davidovich. Collecção “Benjamin Costallat”. Rio de Janeiro: Flores e Mano, 1932.
Ássia. Trad. São Paulo: Unitas, c.1934.
Paes e filhos. Trad. Ivan Emilianovich. São Paulo: Cultura Brasileira, 1935. (Reed. Martins, 1941.)
Pais e filhos. Trad. anôn. São Paulo: Clube do Livro, 1943 (provavelmente retomando alguma anterior).
Rudine. Trad. revista por Marques Rebelo. Rio de Janeiro: Pongetti, 1943 (provavelmente retomando a de Davidovich, 1932).
“Ássia”, in Contos russos. Trad. ? Coleção “Colete”, vol. 7. São Paulo: Bolsa do Livro, 1944.
Terra virgem. Trad. Jorge Moreira Nunes. Rio de Janeiro: Panamericana, 1944.
Fumaça. Trad. Jorge Moreira Nunes. Rio de Janeiro: Pongetti, 1945.
Primeiro Amor e Assia. Trad. Edy Maria Dutra da Costa. São Paulo: Assunção, 1946.
Sinaida. Trad. anôn. Coleção Azul. Rio: Aurora, c.1946.
Rudine. Trad. anôn. São Paulo: Clube do Livro, 1947 (provavelmente retomando alguma anterior).
O primeiro amor, O medo, Birouck. Trad. Brito Broca. São Paulo: José Olympio, 1949.









acompanhe as postagens da pesquisa "russos no brasil (1900-1950)" aqui.

2 de jun. de 2013

zoran ninitch, V, e uma sugestão de pesquisa

zoran ninitch, nosso amigo tradutor iugoslavo de que já falamos algumas vezes (veja aqui), traduziu várias coisas de stefan zweig no começo dos anos 1930.

hoje quero comentar uma "coincidência" envolvendo duas delas: uma noite fantastica, pela editora pallas (c.1932), e ocaso de um coração, pela machado & ninitch (1934).



ninitch tinha um colaborador em sua microeditora machado & ninitch: o tradutor aurélio pinheiro.

por outro lado, a editora pongetti, nos anos 1940, era relativamente useira e vezeira em pegar traduções publicadas por outras editoras, como fez algumas vezes com traduções de elias davidovich publicadas pela guanabara(veja aqui).

assim, quando vejo um volume contendo ocaso de um coração e uma noite fantastica, publicado pela pongetti em 1941, dando como tradutor aurélio pinheiro - aliás, falecido em 1938 -, começo a sentir aquela insuportável coceira que apenas um batalhão de pulgas atrás da orelha consegue provocar.

infelizmente não localizei imagem de capa dessa edição da pongetti (aliás reeditada em 1950), mas encontra-se facilmente em sebos, no google books e em nossa biblioteca nacional.

atualização em 05/08/2015 - localizei uma imagem de capa da referida edição da pongetti: