saiu no mais recente número da revista luso-brasileira InComunidade um artigo meu sobre berenice xavier (aliás, irmã de lívio xavier), responsável por belas e importantes contribuições para a tradução no brasil. disponível aqui.
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17 de nov. de 2017
12 de ago. de 2015
berenice xavier
Berenice Barreto Xavier nasceu em 20 de fevereiro de 1899, em Granja, no Ceará, filha de Elisa Barreto Xavier e do "coronel" Ignácio Xavier, a segunda entre treze filhos. Muda-se para o Rio de Janeiro em 1932, onde já se encontrava seu irmão Lívio Xavier. Além de tradutora, trabalhou na agência de notícias Reuters, no Instituto Nacional do Livro e na Biblioteca Nacional. Lá permanece até 1969, quando retorna ao Ceará, radicando-se em Fortaleza até sua morte, em 12 de julho de 1986. (Embora a foto acima apresente Berenice Xavier como militante trotskista, afirmam fontes de sua família que ela nunca chegou a ingressar formalmente na Liga Comunista Internacionalista, de que seu irmão fora um dos fundadores. Neste caso, talvez o mais adequado seja qualificá-la de simpatizante trotskista.)
Berenice inicia suas atividades de tradutora profissional em 1936, na Athena Editora, de propriedade de Pasquale Petraccone, importante líder antifascista entre as colônias italianas no Brasil e simpático ao movimento trotskista. Como Lívio Xavier já traduzia para a Athena, provavelmente pode ter sido por meio dele que Berenice passou a traduzir para a casa. É ela a responsável pela primeira tradução brasileira de The Taming of the Shrew, de Shakespeare, inaugurando a coleção Bibliotheca Theatral da casa. O título escolhido para a obra é A megera domada, e como tal acabou se consagrando.
Suas traduções seguintes também são para a Athena:
- À Megera, segue-se em 1937 outra peça de Shakespeare, O mercador de Veneza, como terceiro volume da referida Bibliotheca Theatral.
- Ainda em 1937, é lançada sua tradução d' As histórias de Públio Cornélio Tácito, em dois volumes, pela coleção Biblioteca Classica.
- Em 1939 temos sua tradução de Laurence Sterne, Viagem sentimental [na França e na Itália], também pela Biblioteca Classica da Athena, vol. XXIX.
Em 1938, com a intensa perseguição da ditadura estadonovista, Pasquale Petraccone é preso e obrigado a interromper suas atividades editoriais, que retomará posteriormente em São Paulo, transferindo sua editora para lá em 1939. Aqui cessam as colaborações de Berenice com a Athena.
Passam-se alguns anos sem novas traduções. Seu retorno à atividade parece ter-se dado a partir de um trabalho de circunstância para a José Olympio. Digo "de circunstância" porque a José Olympio publicava Pequena história do mundo, de H.G. Wells, em tradução de Gustavo Barroso, desde 1937. Em 1944, a editora lança a terceira edição da obra, mas agora ampliada, com três novos capítulos. A tradução desses capítulos adicionais ficou a cargo de Berenice. A partir dessa data, ela volta a traduzir com bastante frequência e, até o final dos anos 1950, sobretudo para a José Olympio, com várias reedições e licenciamentos para outras editoras. Nesses dois decênios, temos:
- H. G. Wells, Pequena história do mundo. 3ª. ed. ampliada, tradução de Gustavo Barroso, agora com os três novos capítulos trad. Berenice. José Olympio, 1944
- Gwen Bristow, Um romance do sul. José Olympio, 1944
- Katherine Brush, "Night Club", in Os norte-americanos: antigos e modernos. Leitura, 1945.
- Charles Dickens, Uma história em duas cidades. Coleção Fogos Cruzados. José Olympio, 1946.
- Kropotkine, Em torno de uma vida - memórias de um revolucionário. Coleção Memórias, Diários, Confissões, v. 19. José Olympio, 1946 (tradução em parceria com Lívio Xavier)
- Arthur Koestler, Cruzada sem cruz. Instituto Progresso Editorial, 1948
Segundo um alerta feito aqui, essa tradução de Koestler feita por Berenice teria sido indevidamente apropriada pela editora Germinal, em 2000, apresentando-a em nome de "Juliana Borges".
- William Faulkner, Luz de agosto. Coleção Nobel. Globo, 1948
- Honoré de Balzac, Comédia humana. Globo, 1948-. No empreendimento coordenado por Paulo Rónai, Berenice Xavier traduziu vários dos estudos introdutórios que acompanhavam cada volume. Citem-se: Georg Brandes, "Balzac"; Theodore de Banville, "Honoré de Balzac"; Émile Zola, "Chaudes-Aigues e Balzac"; Henry James, "Balzac"; Marcel Proust, "O caso Lemoine num romance de Balzac"; Anatole France, "Balzac"; Fernand Baldensperger, "Balzac, escritor universal"; Paul Bourget, "Balzac e o primo Pons"
- Herman Melville, Moby Dick. José Olympio, 1950
capa da edição de 1956
A propósito, comenta Mário Luiz Frungillo, aqui:
Sobre a tradução de Berenice Xavier, uma curiosidade: Na primeira edição, de 1950, faltavam as epígrafes sobre as baleias [...]. A falta foi notada por Augusto Meyer, em artigo sobre o centenário do romance (depois recolhido em Preto & Branco). Nas edições seguintes, a José Olympio reintroduziu as epígrafes, em tradução de Olívia Krähenbühl, e aproveitou também para incluir a "epígrafe que escapou" a Hermann Melville, encontrada por Meyer na Descrição da Ilha de Itaparica, do Frei Manuel de Santa Maria Itaparica.
- Frank Yerby, Turbilhão. José Olympio, 1952
- Theodore Harnberger, Os Estados Unidos através de sua literatura. Os Cadernos de Cultura, vol. 53. MES, Serviço de Documentação, 1953
- Frank Yerby, O tesouro do Vale Aprazível. José Olympio, 1956
- A.J. Cronin, Sob a luz das estrelas. José Olympio, 1957. Aqui é um caso interessante: a JO vinha publicando essa obra em tradução de Rubem Braga desde 1939, e já estava em sua sétima edição. Por alguma razão que ignoro, a editora resolveu contratar nova tradução, agora de Berenice, para sua oitava e subsequentes edições:
Como se vê, até essa data a editora para a qual Berenice traduz com maior frequência é a José Olympio. Em janeiro de 1959, o crítico e também tradutor Otto Schneider comenta em uma breve nota em sua coluna "Vida Literária", da revista mensal Vida Doméstica:
Berenice Xavier está traduzindo Absalão, Absalão, romance de William Faulkner, programado por José Olympio.Curiosamente, essa tradução - se é que chegou a ser concluída - nunca veio à luz; na verdade, teremos Absalão, Absalão no Brasil somente em 1981, pela Nova Fronteira, em tradução de Sônia Régis. Não sei o que pode ter ocorrido: algum impedimento por razão de saúde, algum desentendimento com a casa, talvez; o que sei é que Berenice deixou de fazer traduções para a José Olympio.
Nos anos 1960, suas traduções se tornam mais esporádicas, concentrando-se na Civilização Brasileira. Antes de vermos quais são, detenhamo-nos numa ocorrência que não consegui esclarecer, que exponho a seguir.
Berenice traduziu o conto "William Wilson", de Edgar Allan Poe. Encontro algumas referências (e eu mesma a citei alguns anos atrás em meu blogue dedicado a Poe no Brasil) dando essa sua tradução como integrante de uma antologia chamada Contos fantásticos, pela Nova Aguilar, em 1965. No checamento dos dados, porém, não consigo encontrar nenhum volume lançado pela Nova Aguilar com esse título. Ademais, em 1965 a Nova Aguilar já lançara a tradução de Milton Amado e Oscar Mendes de toda a prosa completa, poemas e ensaios de Poe, que a Globo publicara desde 1944. Não sei em que fonte se basearam os que citam um volume de Contos fantásticos pela NA em 1965, mas sinto-me tentada a crer que talvez se trate de um equívoco. De todo modo, o seguro é que "William Wilson" em tradução de Berenice Xavier consta no volume Histórias extraordinárias da Civilização Brasileira, de 1970.
Passemos agora a suas demais traduções:
- Ernest Hemingway, O sol também se levanta. Biblioteca do Leitor Moderno, v. 73. Civilização Brasileira, 1966
- Henry James, A herdeira. BUP, 1967 (a BUP pertencia também a Ênio Silveira, proprietário da Civilização)
- Isaac Babel, A cavalaria vermelha. Civilização Brasileira, 1969
- Shakespeare, Contos de Shakespeare. Adaptação de Charles e Mary Lamb. Contém: A tempestade; Sonho de uma noite de verão; Conto de inverno; Muito barulho por nada; Como quiseres; Dois fidalgos de Verona; O mercador de Veneza; Cimbelino; O rei Lear; Macbeth; Tudo é bom quando acaba bem; A megera domada, A comédia dos erros; Medida por medida; A Noite dos Reis, ou o que quiseres; Timos de Atenas; Romeu e Julieta; Hamlet, príncipe da Dinamarca; Otelo; Péricles, Príncipe de Tiro. Civilização Brasileira, 1970
Não deixa de haver uma certa justiça poética no fato de que Berenice encerre sua carreira tradutória por onde começou: em que pese serem adaptações, aqui retornam A megera domada e O mercador de Veneza, com que estreara na Athena em 1936 e 1937.
Para concluir, eis duas quadrinhas do poema "Ao sol da praia", de Carlos Drummond de Andrade, que saiu em jornal em 1957, depois apanhado em Versiprosa (1967):
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.
É tradução de Berenice
Xavier, sabes? portanto boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.
Agradeço a Berenice Xavier, sobrinha homônima, que muito gentilmente forneceu os dados biográficos de apresentação.
9 de ago. de 2015
de grão em grão
estou eu às voltas para montar um breve perfil biobibliográfico de berenice xavier, e creio que já consegui levantar todas as suas traduções.
então encontro uma nota do crítico e também tradutor otto schneider, em sua página "vida literária", na revista mensal vida doméstica, de janeiro de 1959, dizendo:
encontrei um poeminha do drummond, de 1957 ("o livrão de mário palmério", depois apanhado no volume versiprosa, de 1967), que diz lá a certa altura:
então encontro uma nota do crítico e também tradutor otto schneider, em sua página "vida literária", na revista mensal vida doméstica, de janeiro de 1959, dizendo:
Berenice Xavier está traduzindo "Absalão, Absalão", romance de William Faulkner, programado por José Olympio.seu absalão jamais saiu, porém. o que terá acontecido? (aliás, o primeiro absalão, absalão aparecerá no brasil em tradução de sônia régis, pela nova fronteira, apenas em 1981!)
encontrei um poeminha do drummond, de 1957 ("o livrão de mário palmério", depois apanhado no volume versiprosa, de 1967), que diz lá a certa altura:
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.
É tradução de Berenice
Xavier, sabes? portanto boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.
8 de ago. de 2015
acréscimo
em meu levantamento da bibliografia russa traduzida no brasil entre 1900 e 1950, concentrei-me em obras de literatura. mas creio que valeria a pena ter incluído as memórias de kropótkin, em torno de uma vida - memórias de um revolucionário. saiu em 1946, em tradução dos irmãos berenice e lívio xavier, pela josé olympio. fica o registro.
o mercador de berenice
comentei antes que berenice xavier está entre os primeiros tradutores de shakespeare no brasil, pela athena editora. depois d'a megera domada em 1936 - veja aqui -, temos o mercador de veneza, em 1937:
devo as imagens da página de rosto e verso à gentileza de márcia peixoto martins, da puc-rio.
2 de jul. de 2015
o shakespeare de berenice
creio que esta é uma das traduções brasileiras menos conhecidas e raramente citadas d'a megera domada - a primeira, aliás. foi feita por berenice xavier e publicada pela editora athena em 1936.
berenice xavier também traduziu o mercador de veneza para a athena, em 1937 (contribuição esta igualmente pouco lembrada na fortuna shakespeariana brasileira).
berenice xavier também traduziu o mercador de veneza para a athena, em 1937 (contribuição esta igualmente pouco lembrada na fortuna shakespeariana brasileira).
4 de abr. de 2015
o velho e o mar
um caso interessante foi levantado por andré balaio no facebook, aqui.
trata-se do início d'o velho e o mar, de hemingway, em tradução de fernando de castro ferro, que saiu inicialmente pela civilização brasileira em 1955, teve dezenas de reedições, e em algum ano entre 2000 e 2005 passou para a bertrand, ambas pertencentes ao grupo editorial record.
um leitor pode achar que é o tradutor inventando moda. difícil. à primeira vista, nas duas frases iniciais, até poderíamos pensar que se trata de uma adaptação. mas vê-se na sequência que se trata de tradução mesmo, e de uma mesma tradução, razoavelmente fiel ao texto, o que elimina a hipótese de se tratar de uma adaptação. mas é difícil que essa grande diferença nas frases iniciais se deva à iniciativa de um tradutor, visto que este, imediatamente a seguir, mostra bastante aderência ao original. não faria muito sentido adotar um partido tão "liberal" nas duas ou três primeiras frases e em seguida passar para um partido mais convencional.
o velho e o mar foi, até onde sei, o primeiro livro de hemingway publicado no brasil, por iniciativa de ênio silveira, grande admirador seu - tendo inclusive traduzido, sob o pseudônimo de a. veiga fialho, uma coletânea de contos de hemingway (the fifth column and the first forty-nine stories).
andré balaio argutamente aponta uma ressonância melvilliana no início "O velho chamava-se Santiago". de minha parte, repito, acho muito difícil que uma alteração tão grande do original tenha sido por iniciativa do tradutor, em vista da sequência da tradução. eu tenderia a ver aí um dedinho do próprio ênio silveira, um ímpeto "estilístico-comercial" (cabe lembrar que moby dick saíra não muitos anos antes na tradução de berenice xavier). mas essa minha hipótese só faz sentido se supusermos e pudermos confirmar que desde 1955 foi esta a versão publicada, a mesma que ainda em 1999 estava em circulação.
encontro referências ao outro início, publicado pela bertrand, pelo menos desde 2005. em sendo fundada a hipótese acima aventada, seria plausível supor que foi no momento da transferência dessa tradução de um para outro selo da record, isto é, da civilização para a bertrand, que se procedeu à alteração do início, (re)aproximando-o do original.
sobre fernando [de] castro ferro, veja nosso rastreamento nos comentários do post aqui.
atualização em 05/04/2015: agradeço a allison roberto pelas imagens abaixo. como se vê, é em 2001 que a bertrand que passa a publicar a tradução, com seu novo início:
trata-se do início d'o velho e o mar, de hemingway, em tradução de fernando de castro ferro, que saiu inicialmente pela civilização brasileira em 1955, teve dezenas de reedições, e em algum ano entre 2000 e 2005 passou para a bertrand, ambas pertencentes ao grupo editorial record.
civilização brasileira, 44a. edição, 1999
bertrand, 80a. edição, 2013
um leitor pode achar que é o tradutor inventando moda. difícil. à primeira vista, nas duas frases iniciais, até poderíamos pensar que se trata de uma adaptação. mas vê-se na sequência que se trata de tradução mesmo, e de uma mesma tradução, razoavelmente fiel ao texto, o que elimina a hipótese de se tratar de uma adaptação. mas é difícil que essa grande diferença nas frases iniciais se deva à iniciativa de um tradutor, visto que este, imediatamente a seguir, mostra bastante aderência ao original. não faria muito sentido adotar um partido tão "liberal" nas duas ou três primeiras frases e em seguida passar para um partido mais convencional.
o velho e o mar foi, até onde sei, o primeiro livro de hemingway publicado no brasil, por iniciativa de ênio silveira, grande admirador seu - tendo inclusive traduzido, sob o pseudônimo de a. veiga fialho, uma coletânea de contos de hemingway (the fifth column and the first forty-nine stories).
andré balaio argutamente aponta uma ressonância melvilliana no início "O velho chamava-se Santiago". de minha parte, repito, acho muito difícil que uma alteração tão grande do original tenha sido por iniciativa do tradutor, em vista da sequência da tradução. eu tenderia a ver aí um dedinho do próprio ênio silveira, um ímpeto "estilístico-comercial" (cabe lembrar que moby dick saíra não muitos anos antes na tradução de berenice xavier). mas essa minha hipótese só faz sentido se supusermos e pudermos confirmar que desde 1955 foi esta a versão publicada, a mesma que ainda em 1999 estava em circulação.
encontro referências ao outro início, publicado pela bertrand, pelo menos desde 2005. em sendo fundada a hipótese acima aventada, seria plausível supor que foi no momento da transferência dessa tradução de um para outro selo da record, isto é, da civilização para a bertrand, que se procedeu à alteração do início, (re)aproximando-o do original.
sobre fernando [de] castro ferro, veja nosso rastreamento nos comentários do post aqui.
atualização em 05/04/2015: agradeço a allison roberto pelas imagens abaixo. como se vê, é em 2001 que a bertrand que passa a publicar a tradução, com seu novo início:
18 de jun. de 2014
mais um alerta contra as ervas daninhas da germinal
sebastião ramos osias avisa aqui, na caixa de comentários, que cruzada sem cruz, a tradução de berenice xavier do livro arrival and departure, de arthur koestler, que saiu pelo instituto progresso editorial (i.p.e.) em 1948, teria sido plagiada por "uma tal de juliana borges", em edição publicada pela germinal em 2000, com o título de chegada e partida.
não cheguei a cotejar esses dois títulos, mas não me surpreenderia muito. já denunciei aqui vários casos da infeliz germinal, que utiliza os nomes de wilson hilário borges, juliana borges, felipe padula borges e vera lúcia rodrigues, respectivamente o dono (agora finado) da editora, sua filha, seu sobrinho e sua companheira, em traduções que não passam dos mais vulgares plágios escancarados de antigas traduções.
o catálogo da germinal cadastrado na fbn consta de 33 títulos, entre eles quinze obras traduzidas. são elas, com os respectivos nomes que assinam as traduções:
arthur koestler, ladrões na noite (juliana borges)
arthur koestler, o iogue e o comissário (não descobri)
arthur koestler, chegada e partida (juliana borges)
saul bellow, a vítima (juliana borges)
james agee, morte na família (juliana borges)
isaac b. singer, o escravo (juliana borges)
gustave glotz, história econômica da grécia (vera lúcia rodrigues)
ivan goncharov, oblomov (juliana borges)
ignazio silone, a semente sob a neve (wilson hilário borges)
sinclair lewis, o nobre senhor kingsblood (juliana borges)
hermann broch, os sonâmbulos (wilson hilário borges)
g. k. chesterton, o homem que foi quinta-feira (vera lúcia rodrigues)
d. h. lawrence, mulheres apaixonadas (felipe padula borges)
fenimore cooper, o último dos moicanos (vera lúcia rodrigues)
gustave flaubert, salambô (não descobri)
luigi pirandello, a excluída (wilson hilário borges)
após a morte de wilson hilário borges, vera lúcia rodrigues assumiu o controle da editora e doze desses títulos traduzidos continuam a constar no catálogo da casa, aqui.
o crítico literário alfredo monte, aliás, desde 2004 denunciou os plágios de mulheres apaixonadas, de d.h. lawrence, e d'os sonâmbulos, de hermann broch, em memorial do caso germinal. veja aqui.
também em 2004, euler da frança belém, do jornal opção de goiânia, denunciou o plágio de oblomov na mesma editora. veja aqui.
suélen bortolo, por sua vez, em 2012 avisou que a semente sob a neve, de ignazio silone (germinal, 2001), com tradução em nome de wilson hilário borges, é praticamente idêntica à edição que saiu pela brasiliense em 1947, em tradução de eglantina santi.
encaminhei ao ministério público um pedido de representação contra a editora em 2010, com um vasto dossiê demonstrando as fraudes. o mp determinou a instauração de um inquérito policial para apurar os fatos.
em 2011, fui ouvida na delegacia aqui em registro, confirmei nomes, fatos e provas, e o inquérito seguiu seu andamento. ainda tentei acompanhar o andamento por algum tempo, para saber se o ministério decidiria ingressar com ação contra a editora. infelizmente, não sei dizer em que pé se encontra hoje em dia.
de todo modo, fica reiterado o alerta contra tais edições inescrupulosas.
não cheguei a cotejar esses dois títulos, mas não me surpreenderia muito. já denunciei aqui vários casos da infeliz germinal, que utiliza os nomes de wilson hilário borges, juliana borges, felipe padula borges e vera lúcia rodrigues, respectivamente o dono (agora finado) da editora, sua filha, seu sobrinho e sua companheira, em traduções que não passam dos mais vulgares plágios escancarados de antigas traduções.
o catálogo da germinal cadastrado na fbn consta de 33 títulos, entre eles quinze obras traduzidas. são elas, com os respectivos nomes que assinam as traduções:
arthur koestler, ladrões na noite (juliana borges)
arthur koestler, o iogue e o comissário (não descobri)
arthur koestler, chegada e partida (juliana borges)
saul bellow, a vítima (juliana borges)
james agee, morte na família (juliana borges)
isaac b. singer, o escravo (juliana borges)
gustave glotz, história econômica da grécia (vera lúcia rodrigues)
ivan goncharov, oblomov (juliana borges)
ignazio silone, a semente sob a neve (wilson hilário borges)
sinclair lewis, o nobre senhor kingsblood (juliana borges)
hermann broch, os sonâmbulos (wilson hilário borges)
g. k. chesterton, o homem que foi quinta-feira (vera lúcia rodrigues)
d. h. lawrence, mulheres apaixonadas (felipe padula borges)
fenimore cooper, o último dos moicanos (vera lúcia rodrigues)
gustave flaubert, salambô (não descobri)
luigi pirandello, a excluída (wilson hilário borges)
após a morte de wilson hilário borges, vera lúcia rodrigues assumiu o controle da editora e doze desses títulos traduzidos continuam a constar no catálogo da casa, aqui.
o crítico literário alfredo monte, aliás, desde 2004 denunciou os plágios de mulheres apaixonadas, de d.h. lawrence, e d'os sonâmbulos, de hermann broch, em memorial do caso germinal. veja aqui.
também em 2004, euler da frança belém, do jornal opção de goiânia, denunciou o plágio de oblomov na mesma editora. veja aqui.
suélen bortolo, por sua vez, em 2012 avisou que a semente sob a neve, de ignazio silone (germinal, 2001), com tradução em nome de wilson hilário borges, é praticamente idêntica à edição que saiu pela brasiliense em 1947, em tradução de eglantina santi.
- para o caso de oblomov, de goncharov, veja-se aqui;
- para o caso de d. h. lawrence, com mulheres apaixonadas, aqui;
- para hermann broch, com os sonâmbulos, aqui;
- para o homem que foi quinta-feira, de chesterton, aqui;
- para isaac b. singer e o escravo, aqui.
encaminhei ao ministério público um pedido de representação contra a editora em 2010, com um vasto dossiê demonstrando as fraudes. o mp determinou a instauração de um inquérito policial para apurar os fatos.
em 2011, fui ouvida na delegacia aqui em registro, confirmei nomes, fatos e provas, e o inquérito seguiu seu andamento. ainda tentei acompanhar o andamento por algum tempo, para saber se o ministério decidiria ingressar com ação contra a editora. infelizmente, não sei dizer em que pé se encontra hoje em dia.
de todo modo, fica reiterado o alerta contra tais edições inescrupulosas.
23 de mai. de 2012
athena editora
chama a atenção o catálogo humanista, quase iluminista, da athena editora, desde a data de sua fundação (agosto de 1935). são dos primeiros aportes de campanella, erasmo, maquiavel, shakespeare, racine, la bruyère, rousseau, voltaire, diderot, musset, hegel, ricardo, darwin, croce, kropótkin, górki... chama a atenção também o perfil de seus colaboradores: lívio e berenice xavier, fúlvio abramo, aristides lobo, evaristo de morais, francisco frola.
laurence hallewell, em seu amplo levantamento da história d' o livro no brasil, faz apenas uma brevíssima menção à editora, desproporcional à sua importância e não efêmera existência. ao tratar dos efeitos da profunda crise mundial a partir de 1929, entre elas a brutal queda do volume de livros importados para menos de um terço, chegando ao pico de baixa em 1936, quando a importação da frança estava 94% abaixo dos patamares de 1928. é nesse contexto econômico que o livro brasileiro e a ficção traduzida no brasil têm um arranque inédito, iniciado pela livraria do globo - "outras logo a acompanharam, a athena editora, do rio, por exemplo, fundada em 1935". é esta a única menção de hallewell à athena.
sergio miceli, em intelectuais à brasileira, cita também rapidamente a athena, apesar de classificá-la entre as editoras de médio porte: apenas menciona a cifra de 70 mil exemplares atingida em 1937.
o diário oficial da união determina o registro da athena editora em sua edição de 26 de agosto de 1935, com o termo 36.330. seu proprietário: p. petraccone.
o mesmo miceli menciona petraccone muito por cima, precisamente no contexto econômico apontado por hallewell: "vários comerciantes especializados na importação de livros resolvem ampliar suas atividades no ramo com a abertura de um departamento editorial: pongetti, vecchi, petraccone, garavini, bertaso, zagari etc. foram sensíveis às mudanças que então se operavam e passaram a traduzir para o mercado interno as obras que antes eles mesmos importavam" (p.142).
trata-se de pasquale petraccone, editor do jornal italia libera, integrante destacado da liga antifascista das colônias italianas no brasil, de agitada biografia e intensa participação nos movimentos de esquerda no país, classificado nos arquivos do dops como trotskista. há fartíssimo material sobre suas atividades, mas muito pouco sobre seu trabalho à frente da athena editora.
está aí um tema fecundo para pesquisas sobre as contribuições da militância de esquerda não-stalinista para a história cultural brasileira.
trad. lívio xavier, 1936
laurence hallewell, em seu amplo levantamento da história d' o livro no brasil, faz apenas uma brevíssima menção à editora, desproporcional à sua importância e não efêmera existência. ao tratar dos efeitos da profunda crise mundial a partir de 1929, entre elas a brutal queda do volume de livros importados para menos de um terço, chegando ao pico de baixa em 1936, quando a importação da frança estava 94% abaixo dos patamares de 1928. é nesse contexto econômico que o livro brasileiro e a ficção traduzida no brasil têm um arranque inédito, iniciado pela livraria do globo - "outras logo a acompanharam, a athena editora, do rio, por exemplo, fundada em 1935". é esta a única menção de hallewell à athena.
sergio miceli, em intelectuais à brasileira, cita também rapidamente a athena, apesar de classificá-la entre as editoras de médio porte: apenas menciona a cifra de 70 mil exemplares atingida em 1937.
o diário oficial da união determina o registro da athena editora em sua edição de 26 de agosto de 1935, com o termo 36.330. seu proprietário: p. petraccone.
o mesmo miceli menciona petraccone muito por cima, precisamente no contexto econômico apontado por hallewell: "vários comerciantes especializados na importação de livros resolvem ampliar suas atividades no ramo com a abertura de um departamento editorial: pongetti, vecchi, petraccone, garavini, bertaso, zagari etc. foram sensíveis às mudanças que então se operavam e passaram a traduzir para o mercado interno as obras que antes eles mesmos importavam" (p.142).
trata-se de pasquale petraccone, editor do jornal italia libera, integrante destacado da liga antifascista das colônias italianas no brasil, de agitada biografia e intensa participação nos movimentos de esquerda no país, classificado nos arquivos do dops como trotskista. há fartíssimo material sobre suas atividades, mas muito pouco sobre seu trabalho à frente da athena editora.
está aí um tema fecundo para pesquisas sobre as contribuições da militância de esquerda não-stalinista para a história cultural brasileira.
trad. lívio xavier, 1936
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