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13 de set. de 2011

jane eyre, o cotejo II

sodré viana:

"Sangram-me os pés. E sinto-me cansada.
A estrada é longa e os montes são agrestes.
Breve, uma noite fúnebre, sem luar,
Virá tingir a estrada da orfãzinha.

Por que me exilam, tão distante e só,
Nos fundos tremedais, nas rochas tristes?
Homens maus... A doçura dos arcanjos
Vela pela jornada da orfãzinha.

Agora, longe e branda, a aragem sopra.
O céu está limpo e tem estrelas meigas.
A bondade de Deus unge de amparo
E conforto e esperança a orfãzinha.

Que eu tombe atravessando a ponte em ruínas,
Que os pirilampos me arremessem aos charcos:
Meu Pai, ciciando bênçãos e promessas,
Há de acolher em Si a orfãzinha.

Idéia cuja força me conforta,
Sensação de carinho e de amizade:
O céu é um lar onde terei descanso,
Porque Deus é amigo da orfãzinha."

waldemar rodrigues de oliveira:

"Sangram-me os pés. E sinto-me cansada.
A estrada é longa e os montes são agrestes.
Breve, uma noite fúnebre, sem luar,
Virá tingir a estrada da orfãzinha.

Por que me exilam, tão distante e só,
Nos fundos tremedais, nas rochas tristes?
Homens maus... A doçura dos arcanjos
Vela pela jornada da orfãzinha.

Agora, longe e branda, a aragem sopra.
O céu está limpo e tem estrelas meigas.
A bondade de Deus unge de amparo
E conforto e esperança a orfãzinha.

Que eu tombe atravessando a ponte em ruínas,
Que os pirilampos me arremessem aos charcos:
Meu Pai, ciciando bênçãos e promessas,
Há de acolher em Si a orfãzinha.
Idéia cuja força me conforta,
Sensação de carinho e de amizade:
O céu é um lar onde terei descanso,
Porque Deus é amigo da orfãzinha."

original:


“My feet they are sore, and my limbs they are weary;
   Long is the way, and the mountains are wild;
Soon will the twilight close moonless and dreary
   Over the path of the poor orphan child.
Why did they send me so far and so lonely,
   Up where the moors spread and grey rocks are piled?
Men are hard-hearted, and kind angels only
   Watch o’er the steps of a poor orphan child.
Yet distant and soft the night breeze is blowing,
   Clouds there are none, and clear stars beam mild,
God, in His mercy, protection is showing,
   Comfort and hope to the poor orphan child.
Ev’n should I fall o’er the broken bridge passing,
   Or stray in the marshes, by false lights beguiled,
Still will my Father, with promise and blessing,
   Take to His bosom the poor orphan child.
There is a thought that for strength should avail me,
   Though both of shelter and kindred despoiled;
Heaven is a home, and a rest will not fail me;
   God is a friend to the poor orphan child.”

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atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



jane eyre, um cotejo

hoje, por fim, chegou meu exemplar de jane eyre na tradução de sodré viana. já tinha recebido na semana passada a edição da itatiaia, com tradução em nome de um certo "waldemar rodrigues de oliveira".

veja a introdução ao tema aqui, em "leitora alerta"ou na linha de assuntos "itatiaia", aqui.

transcrevo abaixo alguns parágrafos das "duas" traduções. como a leitora vanessa já tinha transcrito o parágrafo inicial, sigo um pouco adiante.

sodré viana:

Capítulo I
      [...] Isto me alegrava; não gostava de caminhadas longas, principalmente em tardes frias. Temia a volta, os dedos e os artelhos torturados, o coração confrangido pelos carões de Bessie, a governante, e humilhada na consciência da minha inferioridade física diante de Lisa, de John e de Georgiana Reed.
      Agora, na sala de visitas, Elisa, John e Georgiana rodeavam a mamãe deles. E ela, reclinada no sofá, ao pé do fogo, com os seus queridos em torno (no momento não estavam rusgando nem gritando) tinha um olhar fundamente feliz. Quanto a mim, vivia banida do grupo. A senhora Reed declarara "lamentar muito ter de conservar a distância". E que: "enquanto não ouvisse de Bessie, e não pudesse ela mesma constatar que eu me esforçava sinceramente por adquirir um comportamento mais sociável e mais próprio a uma menina, um modo atraente, e jovial - qualquer coisa de mais dúctil, mais franco e mais espontâneo - via-se na obrigação de me excluir dos privilégios devidos somente às criancinhas bem procedidas e alegres".

waldemar rodrigues de oliveira:

Capítulo I
      [...] Isto me alegrava; não gostava de caminhadas longas, principalmente em tardes frias. Temia a volta, os dedos e os artelhos torturados, o coração confrangido pelas censuras de Bessie, a governante, e humilhada na consciência da minha inferioridade física diante de Lisa, de John e de Georgiana Reed.
      Agora, na sala de visitas, Elisa, John e Georgiana rodeavam a mamãe deles. E ela, reclinada no sofá, ao pé do fogo, com os seus queridos em torno (no momento não estavam rusgando nem gritando) tinha um olhar fundamente feliz. Quanto a mim, vivia banida do grupo. A senhora Reed declarara "lamentar muito ter de conservar a distância". E que: "enquanto não ouvisse de Bessie, e não pudesse ela mesma constatar que eu me esforçava sinceramente por adquirir um comportamento mais sociável e mais próprio a uma menina, um modo atraente, e jovial - qualquer coisa de mais dócil, mais franco e mais espontâneo - via-se na obrigação de me excluir dos privilégios devidos somente às criancinhas bem procedidas e alegres".

original:

      I was glad of it: I never liked long walks, especially on chilly afternoons: dreadful to me was the coming home in the raw twilight, with nipped fingers and toes, and a heart saddened by the chidings of Bessie, the nurse, and humbled by the consciousness of my physical inferiority to Eliza, John, and Georgiana Reed.
     The said Eliza, John, and Georgiana were now clustered round their mama in the drawing-room: she lay reclined on a sofa by the fireside, and with her darlings about her (for the time neither quarrelling nor crying) looked perfectly happy.  Me, she had dispensed from joining the group; saying, “She regretted to be under the necessity of keeping me at a distance; but that until she heard from Bessie, and could discover by her own observation, that I was endeavouring in good earnest to acquire a more sociable and childlike disposition, a more attractive and sprightly manner—something lighter, franker, more natural, as it were—she really must exclude me from privileges intended only for contented, happy, little children.”

posso assegurar que todo o restante do livro segue nessa mesma toada da pura cópia, nem mesmo fazendo outras trocas ao estilo de "carão" por "censura" ou de "dúctil" por "dócil".

a tradução de sodré viana talvez não seja propriamente um primor de correção, estilo ou fluência, mas é ele o seu autor, e como tal deve ser tratado. agora, quem é esse "waldemar rodrigues de oliveira" - um nome inventado, um ser de carne e osso que se apropriou da tradução de sodré viana ou que emprestou o seu nome à itatiaia para que a editora se apropriasse dela - não sei dizer. o que me parece cristalino e irrefutável é o fato concreto, material, objetivo da apropriação indevida.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

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6 de set. de 2011

leitora alerta

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foi vanessa d'amato quem forneceu os elementos que me parecem justificar um cotejo entre a tradução de sodré viana (pongetti, 1942) e a tradução em nome de "waldemar rodrigues de oliveira" (itatiaia, 2008).

transcrevo aqui, com sua autorização, alguns trechos muito lúcidos e perspicazes de um gentil e-mail que vanessa me enviou há poucos dias:

... encontrei num sebo uma tradução de Jane Eyre, numa edição da Ediouro, da coleção "Clássicos de Bolso". A tradução, segundo consta da capa e da folha de rosto, é de Sodré Viana (pelo que pesquisei, uma tradução dos anos 1940, originalmente para a Pongetti Irmãos Editora). 
Pois bem. Dia desses, eu estava na Livraria Cultura e fui procurar uma edição de Jane Eyre para presentear uma amiga. Encontrei a da Editora Itatiaia, de 2008, que eu nunca havia visto até então. Resolvi folhear para ver o que achava da tradução. Logo nas primeiras frases do primeiro capítulo, levei um susto: eram idênticas, ou praticamente idênticas, às da tradução que li, da edição da Ediouro. Logo pensei: "ah, com certeza esta é a tradução do Sodré Viana". Mas ao olhar a folha de rosto, vi que o nome que constava como tradutor era outro: Waldemar Rodrigues de Oliveira. Não sendo do ramo, não conheço este tradutor. Mas continuei folheando o livro, e a primeira impressão foi se confirmando. Na verdade, eu conheço várias passagens de tradução do Viana de cor, pois a reli inúmeras vezes (pelo menos dez). E reconheci muitas delas na edição da Itatiaia. Como, por exemplo, as frases iniciais do livro, que já mencionei. O seguinte trecho (o primeiro parágrafo do livro) é uma transcrição da edição de Ediouro, que tenho diante de mim agora. E posso jurar pela minha vida que está idêntico (com exceção de talvez uma palavra ou duas, não mais que isso) ao trecho correspondente que li na edição da Itatiaia. 
"Naquele dia não fora possível um passeio. É verdade que pela manhã, durante uma hora, tínhamos brincado sob o arvoredo nu. Mas, desde o almoço (quando a senhora Reed estava sem hóspedes almoçava muito cedo) o vento do inverno trouxera nuvens tão carregadas e uma chuva tão penetrante que o ar livre havia sido posto fora de cogitações." 
E o mesmo trecho no original: 
"There was no possibility of taking a walk that day.  We had been wandering, indeed, in the leafless shrubbery an hour in the morning; but since dinner (Mrs. Reed, when there was no company, dined early) the cold winter wind had brought with it clouds so sombre, and a rain so penetrating, that further out-door exercise was now out of the question."
Pelo menos na minha opinião, as soluções trazidas pela tradução acima não são tão óbvias, não é? Não justifica as traduções serem idênticas. 
Uma outra frase me chamou muito a atenção. Lembro-me que ao lê-la na edição da Ediouro, antes mesmo de ter tido qualquer contato com o romance no original, ela já me soou muito "esquisita". É uma frase dita pelo sr. Rochester no capítulo XV,  quando Jane joga água em sua cama para acordá-lo e salvá-lo das chamas. No original, lê-se: 
“Is there a flood?” he cried.
Na tradução de Sodré Viana, essa frase ficou assim: 
"- Isto é lagoa? - gritou." 
É o tipo da frase que, mesmo para os meus ouvidos de leiga completa (e mesmo sem que eu soubesse como era essa passagem no original), soou um pouco estranha, quando li o livro pela primeira vez. Antiquada, talvez. Enfim, no mínimo, uma maneira incomum de se traduzir a frase original. Procurei a mesma passagem na edição da Itatiaia, como uma forma de "tirar a prova", pois, apesar de não ter pretensões de ser entendida no assunto, confesso que não vejo como dois tradutores, por conta própria, pudessem chegar a essa mesmíssima solução diante dessa frase. E adivinhe só? Estava idêntica à tradução acima.  
Não percebi semelhança somente nessas duas passagens que menciono, é claro, mas também em inúmeras outras. [...] A única dúvida que tenho é se há possibilidade de a tradução do Sodré Viana já ser de domínio público. Seria isso possível? As regras de copyright de traduções são as mesmas do copyright de obras originais? Pensei também na hipótese de a a editora detentora dos direitos da tradução do Viana tê-los cedido à Itatiaia, mas, se assim for, não entendo por que fizeram constar Waldemar Rodrigues de Oliveira como tradutor na edição da Itatiaia. 
agora é esperar chegarem os exemplares que encomendei e avaliar a extensão da coisa. por ora, como leitora, tradutora e apreciadora de nossa memória cultural, deixo aqui meu agradecimento à vanessa pelo alerta.

imagem: plagiarius
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as edições

sodré viana, pongetti, aqui na edição de 1946

waldemar rodrigues de oliveira, itatiaia, 2008

no post anterior, apresentei uma lista de traduções feitas por sodré viana, basicamente nos anos 40. quanto a waldemar rodrigues de oliveira, não encontrei nenhuma referência.
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5 de set. de 2011

jane eyre

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Ficheiro:Jane Eyre title page.jpg

se fôssemos julgar pela quantidade de traduções de jane eyre no brasil, concluiríamos que charlotte brontë é um tremendo sucesso entre nós, superando largamente sua irmã emily brontë com wuthering heights e até mesmo a grande dama do romance clássico inglês, jane austen: são nada menos de sete traduções entre nós, além de uma adaptação.

a primeira delas saiu pela vozes, com o nome de joanna eyre: não sei em que ano, mas em 1926 constava como segunda edição. não descobri ainda o nome do tradutor. veja atualização aqui.

em 1942, veio a tradução de sodré viana pela pongetti, com dezenas de reedições até 1960 (mais tarde reeditada pela ediouro, e ainda em catálogo).

em 1945, ver atualizações, abaixo.

em 1971, a ediouro lançou a adaptação feita  por miécio tati.

em 1983, saiu a de marcos santarrita, pela francisco alves (disponível para download aqui).

em 1996, a tradução de lenita esteves e almiro piseta saiu pela paz & terra.

em 2008, a itatiaia lança uma tradução em nome de waldemar rodrigues de oliveira.

em 2010, sai pela landmark a tradução de doris goettems.

em 2011, é lançada a tradução de heloísa seixas pela bestbolso.

por uma valiosa indicação de uma apreciadora de charlotte brontë, o nãogostodeplágio vai iniciar uma pesquisa comparativa entre a tradução de sodré viana e a tradução lançada pela itatiaia, em nome de waldemar rodrigues de oliveira.

atualização em 07/09: consta no catálogo antigo da fbn uma edição de 1945 pela edições e publicações do brasil s/a, com o título jane eyre (a mulher sublime). ainda não localizei o nome do tradutor.

atualização em 08/09: um livreiro me informa que essa edição de 1945 é uma tradução de virgínia silva lefèvre. legal. então, oito traduções diferentes de jane eyre.
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28 de dez. de 2010

a febre de voltaire

o caso do voltaire ressurreto na coleção "sacode a poeira" da folha me levou a procurar outras traduções dos anos 1930-1950. encontrei coisas interessantes, e minha listinha ficou assim:

1. cândido, ou o otimista, na já citada tradução de jorge silva, pela editora athena, 1938;
2. cândido ou o otimismo, tradução de lívio teixeira, pela livraria martins, no volume o pensamento vivo de voltaire, 1940;

3. cândido, ou o otimista, tradução de galeão coutinho, pela livraria martins, 1943;

4. cândido, tradução de mario quintana, pela editora globo, num volume chamado contos e novelas, 1951;

5. cândido ou o otimismo, tradução de lívio teixeira, num volume pela difel com o título romances e contos, 1959.

quatro traduções do cândido entre 1938 e 1951! devia estar uma febre danada de voltaire naqueles anos.

1.










2.











3.











4.












5.








interessou-me bastante a edição rosadinha da martins, em sua coleção excelsior. já há o caso muito bizarro do zadig de voltaire, envolvendo galeão coutinho e mario quintana, ambos assinando traduções absolutamente idênticas, fato que atribuí a algum lapso da editora itatiaia. veja aqui. por outro lado, é interessante que um livro chamado candide, ou le optimisme encontre duas traduções diferentes com o título cândido, ou o otimista. como essa tradução do cândido pela atena parece ser filha única de mãe viúva, como diziam antigamente, do tal "jorge silva", quero dar uma checada. vai que é algum pseudônimo do galeão?

obs.: romances e contos da martins aparece na ilustr. 2 na edição de 1951.
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2 de dez. de 2010

desmemórias desmioladas

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entre minhas pesquisas vêm aparecendo algumas ocorrências esdrúxulas: são obras de tradutores bastante conhecidos, mas que algumas editoras publicam em nome de outros tradutores também bastante conhecidos.


as notícias sobre essas surpreendentes trocas de nomes estão dispersas no blog. reúno-as aqui, com os links para seus respectivos posts. são elas:

- tradução feita por mário quintana e atribuída a galeão coutinho: zadig, de voltaire, pela itatiaia - link e link
- tradução feita por berenice xavier e atribuída a brenno silveira: william wilson, de edgar allan poe, pela bestbolso (grupo record) - link
- tradução feita por oscar mendes e milton amado e atribuída a brenno silveira: nunca aposte sua cabeça com o diabo, de edgar allan poe, pela civilização brasileira e pela bestbolso (ambas do grupo record) - link
- tradução feita por ruth guimarães e atribuída a isa silveira leal: o subsolo, a árvore de natal na casa de cristo, mujique marei, de dostoievski, pela martin claret - link e link

não são casos de plágio de tradução - seria inconcebível e nem faria sentido -, e sim atribuições grotescamente errôneas. entendo que as editoras estão pecando por irresponsabilidade, criando confusão e dando motivos para que algum leitor, em algum momento, seja levado a considerar mário quintana, brenno silveira e isa silveira leal como meros copistas de traduções alheias. fica aqui o alerta.

imagem: espirais
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1 de out. de 2010

perplexidades III

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retomo o caso de dostoiévski, no volume noites brancas e outras histórias, com tradução estranhamente atribuída a isa silveira leal, porque ele tem uma peculiaridade. ocorreu algo parecido na editora itatiaia, que publicou a tradução de MARIO QUINTANA de zadig de voltaire, atribuindo-a porém a GALEÃO COUTINHO.


ora, aí não se trata de mero plágio ou contrafação, de uma editora que toma uma obra X e atribui sua autoria a um fantasma qualquer, a algum amigo ou funcionário da casa. trata-se de algo ainda pior, em meu entender: toma-se uma obra de um intelectual conhecido, vivo ou morto, troca-se o título, elimina-se o nome do autor e pespega-se no lugar o nome de outro intelectual também famoso, este, se não necessariamente, pelo menos preferencialmente já morto.

veja os posts relacionados:

e assim, por obra e graça de contrafações e motivos empresariais pouco claros, o autor morto aparece como plagiador póstumo, ou o autor vivo parece um plagiador em vida.

pois é evidente que os livros têm uma vida útil bastante longa, e mais cedo ou mais tarde algum leitor, algum historiador da tradução literária brasileira, algum amante de dostoiévski, vai se dar conta de que as traduções são idênticas. e ficará a dúvida: quem plagiou quem? dificilmente lhe passará pela cabeça a rede de artimanhas editoriais utilizadas sabe-se lá para quais finalidades.

imagem: rede 
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19 de mar. de 2010

susto


quase desmaiei com isso: 
 
A cigarra e a formiga 6

Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
“No verão em que lidavas?”
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: “Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
— Oh! Bravo! — torna a formiga —
Cantavas? Pois dança agora!”

6. LA FONTAINE, Jean de. Fábulas de La Fontaine. Tradução de Milton Amado e Eugênio Amado. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989, Tomo 1, p.25.
tal é a referência que consta na tese de mestrado uma definição de leitura pela teoria dos blocos semânticos, Anexo C, p. 88, além de extensa análise às pp. 66-69.

qualquer criança (pelo menos de antigamente) sabe que esta é a classicíssima tradução de bocage para a fábula de la fontaine, mas aqui amputada da quarta quadra (que é justo a hora em que a cigarra pede ajuda à formiga: - "Amiga", diz a cigarra, / - "Prometo, à fé d'animal, / Pagar-vos antes d'agosto / Os juros e o principal.").

até onde tenho conhecimento, a cigarra e a formiga que consta na edição da itatiaia é outra, aliás um tanto tosca (posta ao lado do primoroso lavor em a raposa e as uvas, no mesmo livro, pode-se ter um indicador bastante razoável das diferenças entre os dois tradutores, respectivamente eugênio e milton).

A CIGARRA E A FORMIGA

A cigarra, sem pensar
em guardar,
a cantar passou o verão.
Eis que chega o inverno, e então,
sem provisão na despensa,
como saída, ela pensa
em recorrer a uma amiga:
sua vizinha, a formiga,
pedindo a ela, emprestado,
algum grão, qualquer bocado,
até o bom tempo voltar.
"Antes de agosto chegar,
pode estar certa a senhora:
pago com juros, sem mora."
Obsequiosa, certamente,
a formiga não seria.
"Que fizeste até outro dia?"
perguntou à imprevidente.
"Eu cantava, sim, Senhora,
noite e dia, sem tristeza."
"Tu cantavas? Que beleza!
Muito bem: pois dança agora..."

LA FONTAINE, J. de. 1992. Fábulas de La Fontaine. Belo Horizonte, Itatiaia.
seja lá o que tenha acontecido, o que não se pode é lançar gratuita suspeição sobre nenhum dos dois tradutores. o caso adquire feições ainda mais surreais no caso do pai, milton amado, um dos grandes tradutores brasileiros de poesia: ivo barroso, por exemplo, considera sua tradução d'o corvo de poe inigualável, a melhor existente em língua portuguesa [veja aqui]. e quanto a suspeições, já basta a editora itatiaia querer manchar o nome de mario quintana como reles copista de galeão coutinho, no caso de zadig.

espero que o autor da tese tenha ocasião de esclarecer essa minha dúvida ou de dar uma checada adicional em suas referências. afinal, seu estudo está depositado no acervo de domínio público do mec, e uma afirmação séria como esta precisa ser muito bem fundamentada ou imediatamente corrigida.

ilustração: grandville

17 de mar. de 2010

inaugurando a DDI/Minc

finalmente inaugurei meu contato com a diretoria de direitos intelectuais do minc.

encaminhei à ddi um dossiê expondo o caso muito mal explicado de mario quintana, o qual, a se crer na editora itatiaia e em sua edição de zadig de voltaire, não passaria de reles plagiador de galeão coutinho.

em primeiro lugar, espero que a ddi julgue a questão relevante e tome as providências que julgar pertinentes. em segundo lugar, espero que a itatiaia entenda que sua responsabilidade editorial não cessa na hora em que vende o livro, e pronto, acabou.

acompanhe aqui o caso:

imagem: o quê?!

26 de jan. de 2010

galeão coutinho plagiado

como vimos, galeão coutinho, a crer nos dados fornecidos pela editora itatiaia, teria tido sua tradução de zadig, de voltaire, despudoradamente copiada de fio a pavio por mario quintana. veja "mario quintana, plagiador?".

comentei que isso me parece uma sandice, e que a editora itatiaia, em minha opinião, está mostrando certa irresponsabilidade perante a situação em que tem colocado mario quintana desde 2004.

por outro lado, galeão coutinho foi plagiado, sim. sua tradução de werther de goethe, publicada pela livraria martins nos anos 40, foi copiada recentemente por duas editoras:

- pela editora martin claret, que atribuiu a pretensa tradução publicada em 2001 em sua coleção A Obra-Prima de Cada Autor ao assíduo pietro nassetti. veja "carlota tropical".

- pela editora nova cultural com patrocínio da suzano celulose, em 2002, que atribuiu a pretensa tradução publicada em sua coleção Obras-Primas a um fantasmagórico "alberto maximiliano". veja "goethe, werther".

torço vivamente para que a guardiã dos direitos e da memória de galeão coutinho tome as necessárias providências para proteger seu nome e sua obra. e que, diante do caso da itatiaia, ajude a deslindar a bizarria: se eventualmente dispuser de algum manuscrito ou qualquer indício sobre algum zadig traduzido por galeão coutinho, por favor traga a público.

imagem: traça

22 de jan. de 2010

galeão quintana e mario coutinho


itatiaia (galeão) e globo (quintana)
clique nas imagens para ampliar









para o histórico da questão,

20 de jan. de 2010

mario quintana, plagiador?

o jornalista, romancista, contista e tradutor salisbury galeão coutinho (pseudônimo: joão sem terra) nasceu em curral d'el rey (belo horizonte) em 1897 e morreu tragicamente num acidente de avião em 1951.

nos anos 30 galeão coutinho criou uma efêmera editora, chamada cultura brasileira. com mário de andrade, sergio milliet e mais uma turminha de primeira, foi um dos fundadores da sociedade brasileira dos escritores (1942), futura UBE, e seu quarto presidente. autor de memórias de simão o caolho, vovô morungaba, a vida apertada de eunápio cachimbo, confidências de dona marcolina, semeador de pecados.

entre suas traduções incluem-se o paraíso norte-americano de egon erwin kisch, a vida maravilhosa de sarah bernhardt de louis verneuil, os sofrimentos do jovem werther de goethe, são julião hospitaleiro, herodíades, um coração simples, bouvard e pécuchet e dicionário das ideias feitas (estes dois últimos com augusto meyer) de flaubert, cândido ou o otimismo e os ouvidos do conde de chesterfield de voltaire. estes dois contos de voltaire foram publicados pela livraria martins, como volume 21 da coleção excelsior, em 1944.

não conheço nenhuma referência em sebos, bibliotecas e centros de estudo do país a qualquer tradução de zadig feita por galeão coutinho - a não ser uma publicação recente, de 2004, pela editora itatiaia, como sétimo volume de uma coleção também chamada "excelsior", a partir da indicação dada por mayra guedes.

o poeta e tradutor mario quintana praticamente dispensa apresentações. traduziu muitas dezenas de obras, dizem que mais de uma centena, entre elas uma coletânea de contos e novelas de voltaire. o volume foi publicado pela editora globo em 1951, e tem sido constantemente reeditado, até a data de hoje. a coletânea, pelo menos em minha edição da abril cultural de 1972, aliás começa com zadig.

a tradução de zadig publicada pela editora itatiaia, atribuindo-a a galeão coutinho, é absolutamente idêntica à tradução de mario quintana. parece-me uma sandice imaginar que quintana tenha plagiado galeão coutinho. e o inverso não só seria igual sandice, mas constituiria uma impossibilidade física, visto que galeão, como disse acima, morreu em 1951, quando a tradução de mario quintana mal tinha - se é que tinha - chegado à praça. resta, pois, a hipótese de que a editora itatiaia tenha decidido, sabe-se lá por qual insondável razão, transferir a titularidade da tradução de um para outro.

de um lado, espero que as guardiãs dos direitos de mario quintana e de galeão coutinho, respectivamente a sra. elena quintana e a sra. regina galante, deem ao problema a atenção que ele indubitavelmente merece.

por outro lado, espero que a editora itatiaia saia de seu obstinado silêncio, dê satisfações quanto a essa esdrúxula atribuição e perceba que, enquanto não apresenta qualquer referência concreta mostrando que a tradução circulante de zadig é efetivamente de autoria de galeão coutinho, ela está jogando na lama a reputação de mario quintana e lançando suspeitas sobre sua idoneidade.

por outro lado ainda, fica um vigoroso alerta a leitores, estudantes e pesquisadores: antes de julgarem que quintana foi mero copista de coutinho, avaliem bem as fontes impressas que dariam azo a essa estrambótica conclusão.

19 de jan. de 2010

zadig e seu duplo

em outubro do ano passado, mayra guedes deixou um comentário no post não gosto de plágio, comentando que vira uma tradução de zadig de voltaire em nome de galeão coutinho, idêntica à feita por mario quintana.

a notícia me pareceu estarrecedora.

na época pesquisei um pouco em bibliotecas e acervos, consultei várias pessoas que ficaram tão atônitas e chocadas quanto eu, fui atrás da editora responsável pela edição do zadig em que consta o nome de galeão coutinho. foi meio difícil ser atendida. mas, depois de insistir por alguns dias, conversei com a responsável pela editora, a qual, como sói ser em muitos desses casos, não sabia, não tinha ideia, iria verificar etc. em dezembro liguei de novo, a secretária prometeu retorno. ok, cá estou esperando.

quando eu acordar, posto aqui as "evidências" (aliás, um dos anglicismos falsos amigos em traduções do inglês para o português mais horrorosos que conheço).

imagem: zzz