20 de jan de 2010

mario quintana, plagiador?

o jornalista, romancista, contista e tradutor salisbury galeão coutinho (pseudônimo: joão sem terra) nasceu em curral d'el rey (belo horizonte) em 1897 e morreu tragicamente num acidente de avião em 1951.

nos anos 30 galeão coutinho criou uma efêmera editora, chamada cultura brasileira. com mário de andrade, sergio milliet e mais uma turminha de primeira, foi um dos fundadores da sociedade brasileira dos escritores (1942), futura UBE, e seu quarto presidente. autor de memórias de simão o caolho, vovô morungaba, a vida apertada de eunápio cachimbo, confidências de dona marcolina, semeador de pecados.

entre suas traduções incluem-se o paraíso norte-americano de egon erwin kisch, a vida maravilhosa de sarah bernhardt de louis verneuil, os sofrimentos do jovem werther de goethe, são julião hospitaleiro, herodíades, um coração simples, bouvard e pécuchet e dicionário das ideias feitas (estes dois últimos com augusto meyer) de flaubert, cândido ou o otimismo e os ouvidos do conde de chesterfield de voltaire. estes dois contos de voltaire foram publicados pela livraria martins, como volume 21 da coleção excelsior, em 1944.

não conheço nenhuma referência em sebos, bibliotecas e centros de estudo do país a qualquer tradução de zadig feita por galeão coutinho - a não ser uma publicação recente, de 2004, pela editora itatiaia, como sétimo volume de uma coleção também chamada "excelsior", a partir da indicação dada por mayra guedes.

o poeta e tradutor mario quintana praticamente dispensa apresentações. traduziu muitas dezenas de obras, dizem que mais de uma centena, entre elas uma coletânea de contos e novelas de voltaire. o volume foi publicado pela editora globo em 1951, e tem sido constantemente reeditado, até a data de hoje. a coletânea, pelo menos em minha edição da abril cultural de 1972, aliás começa com zadig.

a tradução de zadig publicada pela editora itatiaia, atribuindo-a a galeão coutinho, é absolutamente idêntica à tradução de mario quintana. parece-me uma sandice imaginar que quintana tenha plagiado galeão coutinho. e o inverso não só seria igual sandice, mas constituiria uma impossibilidade física, visto que galeão, como disse acima, morreu em 1951, quando a tradução de mario quintana mal tinha - se é que tinha - chegado à praça. resta, pois, a hipótese de que a editora itatiaia tenha decidido, sabe-se lá por qual insondável razão, transferir a titularidade da tradução de um para outro.

de um lado, espero que as guardiãs dos direitos de mario quintana e de galeão coutinho, respectivamente a sra. elena quintana e a sra. regina galante, deem ao problema a atenção que ele indubitavelmente merece.

por outro lado, espero que a editora itatiaia saia de seu obstinado silêncio, dê satisfações quanto a essa esdrúxula atribuição e perceba que, enquanto não apresenta qualquer referência concreta mostrando que a tradução circulante de zadig é efetivamente de autoria de galeão coutinho, ela está jogando na lama a reputação de mario quintana e lançando suspeitas sobre sua idoneidade.

por outro lado ainda, fica um vigoroso alerta a leitores, estudantes e pesquisadores: antes de julgarem que quintana foi mero copista de coutinho, avaliem bem as fontes impressas que dariam azo a essa estrambótica conclusão.

Um comentário:

  1. Anônimo21.1.10

    Denise,

    Obrigada pelo post. Já coloquei na minha tese.
    gde abraço

    mayra

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