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23 de mar. de 2020

artigo

com várias contribuições inestimáveis, terminei meu artigo com o levantamento bibliográfico das traduções de obras das irmãs brontë, katherine mansfield e virginia woolf no brasil (c.1916-19 a 2019). disponível aqui.

13 de jul. de 2016

"o vento da noite"


o suplemento pernambuco acaba de publicar meu breve artigo sobre o vento da noite, coletânea de poemas de emily brontë traduzidos por lúcio cardoso, lançada em 1944 pela coleção rubaiyát da josé olympio, e relançada agora pela civilização brasileira. o artigo está disponível aqui.

8 de mai. de 2016

Coleção Rubaiyát


A editora José Olympio manteve durante um tempo uma coleçãozinha que era um mimo, a Rubaiyát, em formato in-16, impressa em papel bouffon e belamente ilustrada ou com graciosas vinhetas, em capa dura, com a lombada em couro marroquim se estendendo por três centímetros na frente e no verso da capa, com letras e vinhetas douradas. 

A coleção se estendeu por quase vinte anos (de 1942 a 1961), e lançou 47 títulos num total de 50 volumes, embora de maneira um tanto salteada. Às vezes passavam-se dois ou três anos sem sair nada, depois vinham uns três ou quatro lançamentos; às vezes também apenas relançavam títulos que já tinham saído alguns anos antes pela própria editora ou por outras, e assim por diante.

O catálogo era bem variado, mas com certo predomínio da chamada “poesia oriental”, como, aliás, vem indicado no próprio nome da coleção. Na verdade, a José Olympio já vinha mantendo uma iniciativa um tanto esporádica, chamada “Série de Poemas Orientais”, pela qual saíram sete títulos entre 1938 e 1942. Tenho para mim que a Coleção Rubaiyát foi uma espécie de formalização dessa série como um projeto editorial mais consistente. Nessa linha de perfil mais oriental, ela publicou várias coisas de Tagore, Saadi, Hafiz etc. Outra linha na coleção que também se destacava, em menor escala, baseava-se em textos bíblicos, em particular do Antigo Testamento: Jó, Eclesiastes, livros atribuídos a Salomão etc.

Mas a Coleção Rubaiyát trouxe também várias coisas inéditas - entre elas destaca-se O vento da noite, livro de poemas de Emily Brontë, em tradução de Lúcio Cardoso. Aliás, o time de tradutores da Rubaiyát não deixava nada a desejar: além de Lúcio Cardoso, havia também Manuel Bandeira, Octavio Tarquínio de Souza, Guilherme de Almeida, Lúcia Miguel-Pereira, Abgar Renault, Geir Campos, Aurélio Buarque de Hollanda, Oswaldino Marques, Adalgisa Nery e outros.

Seguem abaixo, por ordem alfabética de autor, os títulos publicados na coleção e várias imagens de capa. Os sete títulos publicados antes na Série de Poemas Orientais trazem esse dado especificado entre colchetes, bem como o ano inicial de sua publicação. São 47 títulos, compondo ao todo 50 volumes.
  1. ·         Aires, Matias. Reflexões sobre a Vaidade dos Homens. 1953
  2. ·         Almeida, Guilherme de. Camoniana. 1956
  3. ·         Amaru. Poemas de Amor. Trad. Aurélio Buarque de Hollanda, 1949
  4. ·         Anônimo. Nalá e Damayanti. Trad. Luís Jardim, 1944
  5. ·         Bandeira, Manuel. Poemas Traduzidos. Traduções de Bandeira de vários autores, 1956 [R.A. Editora, 1945]
  6. ·         Baudelaire, Charles. Flores das “Flores do Mal” de Charles Baudelaire. Trad. Guilherme de Almeida, 1944 [extra-coleção]
  7. ·         Baudelaire, Charles. Pequenos Poemas em Prosa. Trad. Aurélio Buarque de Hollanda, 1950
  8. ·         Brontë, Emily. O Vento da Noite. Trad. Lúcio Cardoso, 1944
  9. ·         Descartes, René. Discurso do Método. Trad. João Cruz Costa, 1960
  10. ·         Eclesiastes, atribuído a Salomão. Trad. Pe. António Pereira de Figueiredo, 1950
  11. ·         Hafiz e Saadi. Vinho, Vida e Amor. Trad. Aurélio Buarque de Hollanda, 1946
  12. ·         Hafiz, Al-Din M. Os Gazéis de Hafiz. Trad. Aurélio Buarque de Hollanda, 1944
  13. ·         Herold, A. Ferdinand. A Grinalda de Afrodite – Epigramas amorosos da antologia grega. Trad. Valdemar Cavalcanti, 1949
  14. ·         Kalidasa, A Ronda das Estações. Trad. Lúcio Cardoso, 1944
  15. ·         Kháyyám, Omar. Rubáiyát. Trad. Octavio Tarquinio de Souza, 1942 [Imprensa Nacional, 1928; passou para a JO em 1935; Série de Poemas Orientais, 1938]
  16. ·         Lousada, Wilson (org.). Cancioneiro do Amor  (Os mais belos versos da poesia brasileira). 2 vols, sendo I. Árcades, Românticos, Parnasianos; II. Simbolistas e Contemporâneos. 1950
  17. ·         Lousada, Wilson (org.). Cancioneiro do Amor  (Os mais belos versos da poesia portuguesa). 1952
  18. ·         Louys, Pierre. O Amor de Bilitis (Algumas Canções). Trad. Guilherme de Almeida, 1943
  19. ·         Marco Aurélio. Meditações. Trad. Lúcia Miguel-Pereira, 1957
  20. ·         Mello, Thiago de. A Lenda da Rosa. 1955
  21. ·         Montaigne, Michel de. Seleta dos Ensaios (3 vols.). Trad. J. M. Toledo Malta, 1961
  22. ·         Nietzsche, Friedrich. Nietzschiana. Trad. Alberto Ramos, 1949
  23. ·         O Cântico dos Cânticos, atribuído a Salomão. Trad. Augusto Frederico Schmidt, 1949. [Série de Poemas Orientais, 1938]
  24. ·         O Livro da Sabedoria [atribuído a Salomão]. Trad. Pe. António Pereira de Figueiredo, 1952
  25. ·         O Livro de Job. Trad. Lúcio Cardoso, 1943
  26. ·         O Livro dos Provérbios, atribuído a Salomão. Trad. Pe. António Pereira de Figueiredo, 1950
  27. ·         Odes Anacreônticas. Trad. Jamil Almansur Haddad, 1952
  28. ·         Petrarca, Francesco. O Cancioneiro de Petrarca. Trad. Jamil Almansur Haddad, 1945
  29. ·         Rilke, Rainer M. Poemas de Rainer Maria Rilke. Trad. Geir Campos, 1953
  30. ·         Salet, Pierre. Palavras do Buddha. Trad. Guilherme de Almeida, 1948
  31. ·         Shirazi, Saadi. O Jardim das Rosas. Trad. Aurélio Buarque de Hollanda, 1952
  32. ·         Livro dos salmos, ou Saltério. Trad. Pe. António Pereira de Figueiredo, 1955
  33. ·         Sermão da Montanha. Trad. Frei João José P. de Castro, 1956
  34. ·         Shakespeare, William. A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca. Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1955
  35. ·         Shakespeare, William. Macbeth. Trad. Manuel Bandeira, 1961
  36. ·         Stendhal. Do Amor (Trechos). Trad. Wilson Lousada, 1958 
  37. ·         Tagore, Rabindranath. A Lua Crescente. Trad. Abgar Renault, 1950 [Série de Poemas Orientais, 1942]
  38. ·         Tagore, Rabindranath. Colheita de Frutos. Trad. Abgar Renault, 1945
  39. ·         Tagore, Rabindranath. O Gitanjali. Trad. Guilherme de Almeida, 1943 [Cia. Editora Nacional, 1932; Série de Poemas Orientais, 1939]
  40. ·         Tagore, Rabindranath. O Jardineiro. Trad. Guilherme de Almeida, 1943 [Série de Poemas Orientais, 1939]
  41. ·         Tagore, Rabindranath. Pássaros Perdidos. Trad. Abgar Renault, 1947
  42. ·         Touissant, Franz. As Pombas dos Minaretes. Trad. Aurélio Buarque de Hollanda, 1945
  43. ·         Toussaint, Franz. A Flauta de Jade (Poesias Chinesas). Trad. Mauro de Freitas, 1949 [1942, Série de Poemas Orientais]
  44. ·         Toussaint, Franz. O Jardim das Carícias. Trad. Adalgisa Nery, 1950 [Série de Poemas Orientais, 1938]
  45. ·         Whitman, Walt. Cantos de Walt Whitman. Trad. Oswaldino Marques, 1946
  46. ·         Wilde, Oscar. Salomé. Trad. Dante Costa, 1952
  47. ·         Yutang, Lin. A Sabedoria de Confúcio. Trad. Geir Campos, 1958


































Sobre o Rubaiyát no Brasil, veja aqui
Sobre Emily Brontë no Brasil, veja aqui
Sobre Walt Whitman no Brasil, veja aqui
Sobre Baudelaire no Brasil, veja aqui
Sobre Nietzsche no Brasil, veja aqui
Sobre Shakespeare no Brasil, veja aqui
Sobre Rilke no Brasil, veja aqui
Sobre Lúcio Cardoso tradutor, veja aqui
Sobre Manuel Bandeira tradutor, veja aqui

Veja também Coleção Rubaiyát, II, aqui.

obs.: a ideia para esse post me surgiu a partir de um levantamento inicial disponível aqui.

26 de jul. de 2012

o oatcake do morro dos ventos uivantes

tem um trecho no morro dos ventos uivantes em que o narrador descreve o aposento principal da casa e a certa altura diz:
The latter [the roof] had never been under-drawn: its entire anatomy lay bare to an inquiring eye, except where a frame of wood laden with oatcakes and clusters of legs of beef, mutton, and ham, concealed it. 
ou seja, o telhado da casa nunca tinha recebido forro, e por isso sua estrutura ficava à mostra, exceto num lugar onde havia uma armação de madeira cheia de "cakes" de aveia, pernis de boi e carneiro e presuntos.


george walker, "woman making oatcakes" da série costumes of yorkshire, 1814, aqui

encontrei essa ilustração de uma casa rural típica do yorkshire. achei uma graça a mesa improvisada com uma cadeira deitada, umas tábuas e a toalha com os oatcakes por cima, decerto para esfriar, e a armação parecida com a que aparece no livro (embora aqui o teto tenha forro), com os tais oatcakes pendurados para secar. não sei como eu traduziria - "bolo de aveia" é que não seria, pois mais parece uma massa de pizza ou um pão árabe.

acabei descobrindo que existem dois tipos de oatcake: aquele que a gente chama mesmo de biscoito de aveia, que já sai do forno sequinho e crocante ou bem friável, por causa da manteiga; o outro, de massa macia, feito numa chapa ou pedra de assar, que parece um crepe ou uma panqueca meio grossinha - pode ser comido fresco (quente ou frio) ou posto para secar, como na gravura acima e na descrição em wuthering heights.

11 de jun. de 2012

o morro do vento uivante

nilton resende informa que o título o morro do vento uivante vem do poema de tasso da silveira, de 1928, e gentilmente transcreve o poema, que reproduzo abaixo:
Balada de Emily Brontë
No morro do Vento Uivante
o vento passa uivando, uivando... 
No Morro do Vento uivante
há um casarão sombrio
cheio de salas vazias
e corredores vazios...
A noite toda uma porta
geme agoniadamente.
Pelas vidraças partidas
silvam longos assovios,
no ar de abandono e de medo
passam bruscos arrepios...
No Morro do Vento Uivante
o vento passa ...
Emily Brontë
não pares a história... Conta!
conta, conta, conta, conta!
Dá-me outra vez aquele medo
que encheu minha infância morta
de sonhos e de arrepios...
No Morro do Vento uivante...
Depois que os anos passaram
como ficaram meus dias
vazios... vazios...
aliás, vejo no site da traça, aqui, que essa edição da josé olympio traz o prefácio da primeira edição mais o poema de tasso - o que, aliás, me parece mais uma prova da integridade tradutória de rachel de queiroz (à diferença de oscar mendes, por exemplo, que tinha adotado em 1938 um título quase idêntico, apenas usando o plural, mas sem dar a fonte):



emily brontë no brasil

File:The Climb to Top Withens. - geograph.org.uk - 393405.jpg
top withens, tido como fonte de inspiração para a localização da casa dos earnshaw

emily brontë (1818-1848) é notoriamente autora de um romance só: wuthering heights, lançado em 1847. mas já tinha publicado em 1846 um lote de poemas numa coletânea junto com as irmãs. como tantas outras obras, demorou quase um século até chegarem ao brasil.

comecemos pelos poemas, que, salvo engano, tiveram no brasil apenas uma tradução filha única de mãe viúva,* como se dizia antigamente. eles aparecem entre nós em 1944, em tradução de lúcio cardoso, enfeixados como o vento da noite, na coleção rubaiyat da josé olympio:



* atualização em 11/06: everton marcos grison gentilmente informa na caixa de comentários que a edição da landy traz seis poemas de brontë, na seguinte sequência: "Eu não tenho a alma covarde", "Solidariedade", "A Esperança", "Torna-se a noite obscurecida", "Últimas Palavras", "O Velho Estoico".

em compensação, wuthering heights tem uma profusão de traduções e adaptações. vou me restringir às traduções. já o título apresenta uma dificuldade bastante peculiar - pois, como o próprio narrador explica no começo, wuthering é um regionalismo bastante expressivo (aliás, fico meio espantada que algumas traduções falem em "significativo provincianismo" ou "significativo adjetivo provinciano" para significant provincial adjective, mas que seja), específico de yorkshire. de qualquer forma, o título no brasil acabou se consagrando como o morro do(s) vento(s) uivante(s), e está bem como está.

I.
a jornada começa pela globo em 1938, na tradução de oscar mendes, com semi-infindáveis reedições na abril cultural a partir de 1971 (e na martin claret a partir de 2004):



II.
depois aparece a tradução de rachel de queiroz, em 1948, pela josé olympio. chamava-se o morro do vento uivante. manteve o singular pelo menos até a quarta edição, em 1967. também teve reedições incontáveis pela nova cultural (1995 e 1996), record, clássicos abril e bestbolso.



III.
também em 1948, aparece uma tradução em nome de josé maria machado, na coleção excelsior da edigraf,  em dois volumes. trata-se, porém, de uma tradução portuguesa. indefectivelmente, sua "tradução especial" sai também pelo clube do livro, no mesmo ano:




IV.
em 1958, sai a tradução de octavio mendes cajado, o morro dos ventos uivantes. a obra é lançada em dois volumes, pela saraiva:

Clique para ampliar a capa

V.
tenho notícia de uma edição pela expressão e cultura em 1967 (com o vento no singular), mas não consegui  encontrar nenhuma referência mais concreta sobre ela.

VI.
também em 1967, sai a tradução de celestino da silva, pela vecchi:



VII.
em 1971, temos a tradução de vera pedroso, morro dos ventos uivantes (sem o artigo), pela bruguera, licenciada para o círculo do livro e para a art em 1985:

O Morro dos Ventos Uivantes

VIII.
em c.1983, sai a tradução de david jardim jr. pela ediouro, reeditada na coleção folha em 1998:

O Morro Dos Ventos Uivantes - Emily Brontë - Ed. Ediouro

IX.
em 2002 e 2003, a infeliz coleção "obras-primas" da nova cultural publica uma patética fraude em nome de silvana laplace. veja aqui.



X.
em 2003, sai a tradução a quatro mãos de renata cordeiro e elaine alambert, pela landy:*



* atualização em 11/06: ver abaixo, na caixa de comentários, a descrição do aparato desta edição, gentilmente fornecida por everton marcos grison.

XI.
em 2007, há um caso meio escabroso na landmark, que aparentemente limitou-se a utilizar uma versão copidescada da tradução de vera pedroso, atribuindo sua autoria, porém, à revisora de texto. ver aqui.

Clique para ampliar a capa

XII.
em 2009, sai a tradução de ana maria chaves pela lua de papel:


XIII.
em 2011, a landmark lança uma nova tradução, agora de doris goettems:



XIV.
ainda em 2011, sai a tradução de guilherme braga pela l&pm:



vale a pena dar uma olhada na dissertação de solange pinheiro carvalho sobre as dificuldades impostas à tradução, pelo uso do dialeto de yorkshire na boca dos personagens locais, em forte contraste com o inglês padrão do narrador: "a tradução do socioleto literário: um estudo de wuthering heights", disponível aqui. até onde sei, apenas guilherme braga tentou fazer frente ao desafio.

veja aqui a origem do título em português.