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15 de dez. de 2009

comunicado

transcrevo abaixo o comunicado do diretor jurídico da editora madras, publicado em comentário a solicitação:

MADRAS EDITORA LTDA, vem pleitear seu direito de ampla defesa, pois vem sendo acusada de fatos inverídicos. Ao longo de sua história empresarial, a Madras Editora nunca sofreu qualquer acusação de violação a direitos autorais, ou mesmo, em questões atinentes a tradução.

No caso, em tela, as três obras já citadas, foram editadas, em quanto a Sra. Caroline Furukawa era EDITORA ASSISTENTE. Neste caro, era Caroline Furukuwa a responsável pela aquisição de obras estrangeiras, bem como, por todo processo de tradução. Inclusive, ela mesmo assinou algumas obras, pois se auto intitulava a tradutora das obras, como ocorre nestes casos. MADRAS EDITORA LTDA, de fato, recebeu uma notificação das advogadas de Caroline, o que foi contra-notificado, prontamente.

A MADRAS EDITORA LTDA, editou as três obras Origem das Espécies, Seleções de Flavius Josephus e Cabana do Pai Tomás, porem, desconhece qualquer plágio. Caroline Furukawa pleitou a tradução, tanto é,m que lhe foi dado os devidos créditos no copyright das obras. A época, caroline Furukawa exigiu que seu nome saisse como tradutora, pois alegava ser sua as respectivas traduções. A MADRAS EDITORA não tem qualquer responsabilidade sob estas traduções. Tanto é, que Caroline Furukawa não reclamou anteriormente ao BLOG, só questiona a autoria da tradução depois da denúncia, até então, estas obras constavam em seu curriculum profissional.

Importante frisar que, esta sob a responsabilidade da Sra. Caroline Furukawa, toda as questões atinentes a tradução, como Editora Assistente.

A MADRAS EDITORA LTDA já está tomando uma série de providências, para averiguar a denúncia de plágio, seja no sentido reter a circulação das obras em questão, seja num sindincância administrativa para apurar responsabilidades.

Destarte, a MADRAS EDITORA LTDA já tomou as seguintes providências:

a)Excluiu-se a divulgação em nosso site oficial, as referidas obras;

b)Esta promovendo a solicitação e retirada das obras de todo mercado livreiro, ressaltando que as obras, se encontram em circulação por todo país, o que pode vir demandar certo lapso temporal. Tão logo, sejam recolhidos os exemplares das três obras, em sua totalidade, serão lacrados, até que seja esclarecido este impasse. Convidou, na respota da notificação, as procuradoras e advogadas de Caroline para participar deste procedimento, inclusive, no ato em que serão lacradas as caixas, com os livros.

c) O departamento editorial já determinou a realização de apuração de quantos exemplares existem em estoque e consignados.

Assim, fica evidente que, a Madras Editora vem cumprir sua responsabilidade empresarial e social, afim de apurar. Desde já, requer que não seja mais veiculados o nome desta empresa e de seu diretor, nos assuntos referentes a estes casos, pois estam sub judice.

DOUGLAS GARCIA NETO
DIRETOR JURÍDICO
MADRAS EDITORA LTDA

14 de dez. de 2009

solicitação

dra. ana maria dolce braga enviou uma solicitação em comentário a não gosto de plágio, que reproduzo abaixo:

"Na qualidade de advogada de Caroline Kazue Ramos Furukawa, vimos silicitar o seguinte:

Na indicação das obras: A origem das Especies e a Seleção Natural de Darwin; A cabana do Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe e Seleções de Flavius Josephus, de Flávio Josephus acusadas de plágio,que seja retirado o nome de Caroline Kazue Ramos Furukawa, como sendo a tradutora, para evitar prejuízos que a ela estão sendo causados, em face da divulgação do referido fato nesse blog."

em 10/12, no post informe, este blog divulgou um comunicado de dra. ana maria dolce braga, esclarecendo que a atribuição dos créditos de tradução de tais obras à sua cliente é indevida e que estaria tomando providências judiciais junto ao responsável pelo uso indevido de seu nome. o nãogostodeplágio se prontifica a colaborar da melhor maneira que estiver a seu alcance para o respeito na forma da lei aos direitos morais dos praticantes do ofício de tradução, aos direitos dos leitores e cidadãos às informações corretas sobre as obras de tradução, e aos interesses difusos da sociedade no acesso e preservação dos bens intelectuais, sem qualquer intenção de causar prejuízos imotivados a quem quer que seja. dentro deste espírito e em atendimento à solicitação da sra. caroline ramos furukawa por meio de sua representante legal, as menções a seu nome serão excluídas e substituídas por links direcionando para seus esclarecimentos públicos.

cabe ressalvar que em momento algum este blog acusa ou acusou a pessoa de caroline kazue ramos furukawa de qualquer conduta ilícita ou de plágio. aqui encontra-se publicada a apresentação de materiais apontando a existência de obras espúrias publicadas pela editora madras, as quais trazem a menção a seu nome como autora das traduções, conforme os dados editoriais constantes nos volumes impressos à disposição dos leitores, nos catálogos e acervos da fundação biblioteca nacional e, no caso de a origem das espécies e a seleção natural, na própria ficha catalográfica da cbl. estes são fatos objetivos que demandam urgente correção. o nãogostodeplágio torce vivamente para que a editora responsável retire de circulação os exemplares das obras falsificadas, divulgue uma errata pública para esclarecimento dos leitores e da sociedade em geral e proceda ao ressarcimento dos lesados por tais práticas.

10 de dez. de 2009

informe

reproduzo neste post o comentário feito à postagem não gosto de plágio:

"Ana Maria Dolce Braga de Oliveira, advogada:

A propósito das supostas acusações de plágio das traduções das obras: A Origem das Especies e a Seleção Natural de Darwin; A Cabana do Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe e Seleções de Flavius Josephus, de Flávio Josephus, apontadas por este blog, a signatária, representante dos interesses de Caroline Kazue Ramos Furakawa, esclarece que não realizou quaisquer trabalhos de tradução das referidas obras e que está tomando as providencias judiciais contra a Editora Madras pelo uso indevido de seu nome."

2 de dez. de 2009

flávio josefo, flavius josephus V


como disse anteriormente, o conteúdo das seleções da madras não é idêntico ao das seleções da edameris. numa mixórdia descabelada, a madras acrescenta vários excertos, entre eles trechos dos livros VII e VIII que a suposta tradutora ou o organizador anônimo da coletânea da madras tinha garantido que não incluiria na coletânea (ver aqui).
o engraçado é que esses excertos adicionais vêm numerados. e aí surge uma certa esperança de que, afinal, possamos ter uma tradução legítima pelo menos desses trechos, que não constam nas seleções copiadas da edameris. infelizmente, não é o caso. pois essa numeração, em verdade, pertence à edição integral da obra, livro VIII, cap. 2:

trad. pe. vicente pedroso, ecad:

322. 1 Reis 4. Devo falar agora dos que tinham o governo das províncias.
Uri governava a região de Efraim.
Aminadabe, genro de Salomão, governava toda a região marítima, na qual também Dor estava compreendida.
Benaia, filho de Achil, governava todo o Grande Campo e o país que se estende até o Jordão.
Gabar governava todo o país de Gileade e de Gaulam, até o monte Líbano, onde havia sessenta cidades grandes e fortes.
Abinadabe, que desposara outra filha do rei Salomão, chamada Bazima, governava toda a Galiléia até Sidom.
Banachal governava a região marítima que está em torno do Arce.
Safate governava os dois montes de Itabarim e do Carmelo e toda a Baixa Galiléia que se estende até o Jordão.
Suba governava todo o país da tribo de Benjamim.
Tabar governava todo o país que está além do Jordão. Salomão tinha além disso um lugar-tenente-general, que governava todos esses governadores.

323. Não se pode descrever a felicidade que os israelitas, particularmente os da tribo de judá, desfrutaram no reinado de Salomão, porque em tão profunda paz, não perturbada por guerras estrangeiras nem internas, todos pensavam somente em cultivar os seus campos e em aumentar as suas riquezas.
O rei tinha oficiais para receber os tributos que os sírios e os outros bárbaros de entre o Eufrates e o Egito eram obrigados a lhe pagar. Esses oficiais forneciam cada dia, para a sua mesa, entre outras coisas, trinta
medidas de farinha, sessenta de outra farinha, inferior, dez bois gordos, vinte bois de pasto, cem cordeiros gordos e grande quantidade de caça e de peixes.
Possuía um número tão grande de carros que eram necessários quarenta mil cochos para os cavalos que os puxavam, atrelados dois a dois. Mantinha, além disso, doze mil homens de cavalaria, sendo que metade montava guarda em Jerusalém, junto de sua esposa, e metade estava distribuída pelas cidades. O encarregado da despensa ordinária tinha também o cuidado de prover a alimentação dos cavalos, em qualquer lugar onde eles estivessem.

324. Deus encheu esse príncipe de sabedoria e de inteligência tão extraordinárias que nenhum outro em toda a Antigüidade pode a ele ser comparado. Ele sobrepujava até mesmo, em muito, os mais ilustres dos
egípcios, que são tidos como os mais notáveis, como também os mais célebres dentre os hebreus daquela época, cujos nomes creio dever citar aqui: Etã, Hemã, Calcol e Darda, todos os quatro filhos de Maol. Esse grande soberano compôs cinco mil livros de cânticos e de versos, três mil livros de parábolas, a começar do hissopo até o cedro, passando por todos os animais, pássaros, peixes e todos os que caminham sobre a terra.

trad. madras (scan, p. 82):*
* atualizado em 10/12/2009: ver informe. atualizado em 14/12/2009: ver solicitação. atualizado em 15/12/2009: ver comunicado.

apenas por uma questão de método, segue-se o trecho correspondente na obra em inglês que, segundo a imprenta da editora madras, teria supostamente servido de base para a pretensa tradução publicada pela editora madras:

3. Now the captains of his armies, and officers appointed over the whole country, were these: over the lot of Ephraim was Ures; over the toparchy of Bethlehem was Dioclerus; Abinadab, who married Solomon's daughter, had the region of Dora and the sea-coast under him; the Great Plain was under Benaiah, the son of Achilus; he also governed all the country as far as Jordan; Gabaris ruled over Gilead and Gaulanitis, and had under him the sixty great and fenced cities [of Og]; Achinadab managed the affairs of all Galilee as far as Sidon, and had himself also married a daughter of Solomon's, whose name was Basima; Banacates had the seacoast about Arce; as had Shaphat Mount Tabor, and Carmel, and [the Lower] Galilee, as far as the river Jordan; one man was appointed over all this country; Shimei was intrusted with the lot of Benjamin; and Gabares had the country beyond Jordan, over whom there was again one governor appointed. Now the people of the Hebrews, and particularly the tribe of Judah, received a wonderful increase when they betook themselves to husbandry, and the cultivation of their grounds; for as they enjoyed peace, and were not distracted with wars and troubles, and having, besides, an abundant fruition of the most desirable liberty, every one was busy in augmenting the product of their own lands, and making them worth more than they had formerly been.

4. The king had also other rulers, who were over the land of Syria and of the Philistines, which reached from the river Euphrates to Egypt, and these collected his tributes of the nations. Now these contributed to the king's table, and to his supper every day (3) thirty cori of fine flour, and sixty of meal; as also ten fat oxen, and twenty oxen out of the pastures, and a hundred fat lambs; all these were besides what were taken by hunting harts and buffaloes, and birds and fishes, which were brought to the king by foreigners day by day. Solomon had also so great a number of chariots, that the stalls of his horses for those chariots were forty thousand; and besides these he had twelve thousand horsemen, the one half of which waited upon the king in Jerusalem, and the rest were dispersed abroad, and dwelt in the royal villages; but the same officer who provided for the king's expenses supplied also the fodder for the horses, and still carried it to the place where the king abode at that time.

5. Now the sagacity and wisdom which God had bestowed on Solomon was so great, that he exceeded the ancients; insomuch that he was no way inferior to the Egyptians, who are said to have been beyond all men in understanding; nay, indeed, it is evident that their sagacity was very much inferior to that of the king's. He also excelled and distinguished himself in wisdom above those who were most eminent among the Hebrews at that time for shrewdness; those I mean were Ethan, and Heman, and Chalcol, and Darda, the sons of Mahol. He also composed books of odes and songs a thousand and five, of parables and similitudes three thousand; for he spake a parable upon every sort of tree, from the hyssop to the cedar; and in like manner also about beasts, about all sorts of living creatures, whether upon the earth, or in the seas, or in the air [...]


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


1 de dez. de 2009

flávio josefo, flavius josephus IV

consulte aqui a sequência dos posts sobre essa triste ocorrência.

prosseguindo o cotejo da seleta de josefo, veja-se a autobiografia:

I. autobiografia, vicente pedroso, edameris, 1974
II. autobiografia, madras, 2005*
III. the life of flavius josephus, william whiston [suposta fonte que teria sido usada para a pretensa tradução indireta publicada pela madras]

* atualizado em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução, ver informe.
atualizado em 14/12/2009: ver solicitação.

o padrão é o mesmo: a tradução de vicente pedroso sofreu adulterações para disfarçar a cópia, as quais consistem basicamente em trocas de palavras por sinônimos [assinaladas em negrito] e algumas inversões de frase [assinaladas em itálico].

I.
Meu pai não foi somente conhecido em toda a cidade de Jerusalém pela nobreza de sua origem; ele o foi ainda mais pela sua virtude e por seu amor à justiça, que tornaram seu nome célebre. Fui educado desde minha infância no estudo das letras, com um dos meus irmãos de pai e de mãe, que tinha como ele o nome de Matias; Deus deu-me bastante memória e inteligência e eu fiz tão grande progresso que, tendo então só catorze anos, os sacrificadores e os mais importantes de Jerusalém se dignaram perguntar minha opinião sobre o que se referia à interpretação das leis. Quando fiz treze anos desejei aprender as diversas opiniões dos fariseus, e dos saduceus e dos essênios, três seitas que existem entre nós, a fim de, conhecendo-as, eu pudesse adotar a que melhor me parecesse.

II.
Meu pai não foi somente conhecido em toda a cidade de Jerusalém pela nobreza de sua origem, e sim pela sua virtude e por seu amor à justiça, que tornaram seu nome célebre. Fui educado desde minha infância no estudo das letras, com um dos meus irmãos de pai e de mãe, que tinha também o nome de Matias; Deus deu-me muita memória e inteligência e [] fiz tão grande progresso que, aos 14 anos de idade, os sacrificadores e os mais importantes membros de Jerusalém se dignaram a indagar minha opinião acerca do que se referia à interpretação das leis. Quando fiz 13 anos, desejei aprender as diversas opiniões de fariseus, [] saduceus e [] essênios, [] seitas que existem entre nós, a fim de, entendendo-as, eu pudesse adotar aquela que mais me agradasse.

III.
Now, my father Matthias was not only eminent on account of his nobility, but had a higher commendation on account of his righteousness, and was in great reputation in Jerusalem, the greatest city we have. I was myself brought up with my brother, whose name was Matthias, for he was my own brother, by both father and mother; and I made mighty proficiency in the improvements of my learning, and appeared to have both a great memory and understanding. Moreover, when I was a child, and about fourteen years of age, I was commended by all for the love I had to learning; on which account the high priests and principal men of the city came then frequently to me together, in order to know my opinion about the accurate understanding of points of the law. And when I was about sixteen years old, I had a mind to make trim of the several sects that were among us. These sects are three: - The first is that of the Pharisees, the second that Sadducees, and the third that of the Essens, as we have frequently told you; for I thought that by this means I might choose the best, if I were once acquainted with them all [...]

I.
Assim, estudei-as todas e experimentei-as com muitas dificuldades e muita austeridade. Mas essa experiência ainda não me satisfez; eu vim a saber que um certo Bane vivia tão austeramente no deserto que só se vestia da casca das árvores e só se alimentava com o que a mesma terra produz; para se conservar casto, banhava-se várias vezes por dia e de noite na água fria; resolvi imitá-lo. Depois de ter passado três anos com ele, voltei, aos dezenove anos, a Jerusalém. Iniciei-me então nos trabalhos da vida civil e abracei a seita dos fariseus, que se aproxima mais que qualquer outra da dos estoicos, entre os gregos.

II.
Assim, estudei-as [] e as experimentei com muitas dificuldades e [] austeridade. No entanto, essa experiência ainda não me satisfez. Soube que um certo Bane vivia tão austeramente no deserto que só se vestia da casca das árvores e só se alimentava com o que a [] terra produzia; para conservar-se casto, bastava banhar-se várias vezes por dia e à noite na água fria. Resolvi imitá-lo. Após ter passado três anos em sua companhia, voltei a Jerusalém aos dezenove anos. Iniciei-me, então, nos trabalhos da vida civil e entrei na seita dos fariseus, a qual se aproxima mais entre os gregos do que qualquer outra [] dos estoicos.*

* é uma tristeza! quando o pessoal faz esses copidesques disfarçatórios sem entender o texto, resulta nessas coisas ininteligíveis...

III.
[...] so I contented myself with hard fare, and underwent great difficulties, and went through them all. Nor did I content myself with these trials only; but when I was informed that one, whose name was Banus, lived in the desert, and used no other clothing than grew upon trees, and had no other food than what grew of its own accord, and bathed himself in cold water frequently, both by night and by day, in order to preserve his chastity, I imitated him in those things, and continued with him three years. So when I had accomplished my desires, I returned back to the city, being now nineteen years old, and began to conduct myself according to the rules of the sect of the Pharisees, which is of kin to the sect of the Stoics, as the Greeks call them.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



imagem: plagiarius

30 de nov. de 2009

flávio josefo, flavius josephus III


escolhi um trecho sobre a septuaginta, que achei muito bonito.

I. antiguidades judaicas, trad. pe. vicente pedroso, op. cit.
II. prefácio, trad. na madras, op. cit.*
III. works, trad. william whiston, op. cit.

* atualizado em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução, ver informe. atualizado em 14/12/2009: ver solicitação.

I.
Três dias depois, Demétrio os levou por uma estrada longa sete estádios, pela ponte que une a ilha à terra firme, a uma casa situada à beira-mar do lado norte, afastada de todo barulho, para que nada os pudesse perturbar em seu trabalho, que exigia muita atenção e cuidado, e rogou-lhes que, tendo naquele lugar tudo o que podiam desejar, começassem sem mais o grande empreendimento para o qual tinham vindo. Fizeram-no, com toda a dedicação e constância, trabalhando assiduamente para que a tradução fosse exatíssima. Trabalhavam ininterruptamente até nove horas da manhã, quando lhes levavam o alimento. Nisto eram eles muito bem tratados. Doroteu seguia exatamente as ordens recebidas, apresentando-lhes os alimentos que tinham sido preparados para a mesa real. Eles iam todas as manhãs ao palácio saudar o soberano e punham-se a trabalhar depois de ter lavado as mãos nas águas do mar; empregaram apenas setenta e dois dias para traduzir toda a lei.

II.
Três dias depois, Demétrio levou-os por uma estrada sete estádios de distância pela ponte que une a ilha à terra firme, a uma casa situada à beira-mar do lado do norte, afastada de todo barulho, com a finalidade de que nada os pudesse perturbar em seu trabalho, o qual exigia muita atenção e cuidado; rogou-lhes que, havendo naquele lugar tudo o que podiam desejar, começassem [] o grande empreendimento para o qual tinham vindo. Fizeram-no com toda a dedicação [], trabalhando assiduamente para que a tradução fosse fiel. Trabalhavam ininterruptamente até 9 horas da manhã, quando lhes levavam o alimento. Nisso, eles eram muito bem tratados. Doroteu seguia exatamente as ordens dadas, apresentando-lhes os alimentos [] preparados para a mesa real. Todas as manhãs eles iam ao palácio saudar o soberano e, depois de ter lavado as mãos nas águas do mar, punham-se a trabalhar; e assim empregaram apenas 72 dias para traduzir toda a lei.

III.
Accordingly, when three days were over, Demetrius took them, and went over the causeway seven furlongs long: it was a bank in the sea to an island. And when they had gone over the bridge, he proceeded to the northern parts, and showed them where they should meet, which was in a house that was built near the shore, and was a quiet place, and fit for their discoursing together about their work. When he had brought them thither, he entreated them (now they had all things about them which they wanted for the interpretation of their law) that they would suffer nothing to interrupt them in their work. Accordingly, they made an accurate interpretation, with great zeal and great pains, and this they continued to do till the ninth hour of the day; after which time they relaxed, and took care of their body, while their food was provided for them in great plenty: besides, Dorotheus, at the king's command, brought them a great deal of what was provided for the king himself. But in the morning they came to the court and saluted Ptolemy, and then went away to their former place, where, when they had washed their hands, and purified themselves, they betook themselves to the interpretation of the laws. Now when the law was transcribed, and the labor of interpretation was over, which came to its conclusion in seventy-two days [...]

I.
Terminada a obra, Demétrio reuniu todos os judeus e leu-lhes a tradução na presença dos setenta e dois intérpretes. Eles a aprovaram, louvaram muito a Demétrio, por ter imaginado uma coisa tão vantajosa para eles, e rogaram-lhe que também mandasse fazer aquela leitura aos chefes de sua nação. Eliseu, sacrificador, o mais idoso dos intérpretes, e os magistrados constituídos para governo do povo, pediram em seguida que, como aquela obra tinha sido terminada com tão raro êxito, nada mais se viesse a mudar. Essa proposta foi aprovada, mas com a condição de que, antes de o fazer, dando-lhe a força de lei, seria permitido a todos examinar se nada havia a se acrescentar ou a suprimir, a fim de que, tendo sido o assunto muito bem ponderado, nunca mais nele se tivesse que tocar.

II.
Terminada a obra, todos os judeus foram reunidos por Demétrio, que lhes leu a tradução na presença dos 72 intérpretes. Eles a aprovaram, louvaram muito a Demétrio por ter pensado em algo tão vantajoso para eles e rogaram-lhe que também mandasse fazer aquela leitura aos chefes de sua nação. Eliseu, sacrificador e o mais idoso dos intérpretes, e os magistrados constituídos para governo do povo, pediram [] que, uma vez que tal obra havia sido terminada com tão raro êxito, nada mais viesse a ser alterado. Essa proposta foi aprovada, entretanto, com a condição de que, antes de o fazer, dando-lhe [] força de lei, seria permitido a todos examinar se nada havia a ser acrescentado ou suprimido, com o fim de que, tendo sido o assunto muito bem ponderado, nunca mais se necessitasse tocar nele.

III.
[...] Demetrius gathered all the Jews together to the place where the laws were translated, and where the interpreters were, and read them over. The multitude did also approve of those elders that were the interpreters of the law. They withal commended Demetrius for his proposal, as the inventor of what was greatly for their happiness; and they desired that he would give leave to their rulers also to read the law. Moreover, they all, both the priest and the ancientest of the elders, and the principal men of their commonwealth, made it their request, that since the interpretation was happily finished, it might continue in the state it now was, and might not be altered. And when they all commended that determination of theirs, they enjoined, that if any one observed either any thing superfluous, or any thing omitted, that he would take a view of it again, and have it laid before them, and corrected; which was a wise action of theirs, that when the thing was judged to have been well done, it might continue for ever.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagem: septuaginta

27 de nov. de 2009

flávio josefo, flavius josephus II



inicio agora a série de cotejos dos quatro textos utilizados nas seleções de flávio josefo, trad. pe. vicente pedroso, edameris, 1974, e nas seleções de flavius josephus, com problemas na atribuição de tradução, madras, 2005.*

* atualizado em 10/12/2009: sobre a atribuição, ver informe. atualizado em 14/12/2009: ver solicitação.

segue abaixo o começo do prefácio de flávio josefo às suas antiguidades judaicas.

I.
Aqueles que determinam escrever história a isso nem sempre são levados pela mesma razão: muitas vezes as têm bem diversas. Uns o fazem pelo desejo de mostrar a própria eloquência e conquistar fama. Outros fazem-no para homenagear àqueles cujos feitos narram, e não há esforços que não façam para lhes ser agradáveis. Outros, ainda, o fazem porque, tendo tomado parte nos acontecimentos que descrevem, querem que todos disso saibam. E outros, por fim, o fazem porque não podem tolerar que coisas dignas de serem conhecidas fiquem sepultadas, no silêncio. Estas duas últimas razões levaram-me a escrever. Pois, de um lado, como tomei parte na guerra contra os romanos e fui testemunha dos feitos que lá se realizaram, conheço vários episódios dela, senti-me obrigado e quase forçado a escrever-lhe a história, para dar a conhecer a má-fé daqueles que, tendo-a escrito antes de mim, obscureceram a verdade. (vicente pedroso)

II.
Aqueles que se propõem a escrever história, a isso nem sempre são levados pelo mesmo motivo: muitas vezes as têm bem diversas. Alguns o fazem pelo desejo de mostrar a própria eloquência e conquistar fama. Outros, [] para homenagear aqueles cujos feitos narram, e não há esforços que não façam a fim de serem agradáveis. Outros, ainda, fazem-no porque, tendo tomado parte nos acontecimentos que descrevem, querem que todos saibam disso. E há os que, por fim, fazem-no por não poderem tolerar que coisas dignas de serem conhecidas fiquem sepultadas no silêncio. Essas duas últimas razões levaram-me a escrever. Pois, de um lado, como tomei parte na guerra contra os romanos e fui testemunha dos feitos que lá se realizaram, conheço vários episódios dela, e senti-me obrigado e quase forçado a escrever [] a história para se fazer conhecer a má-fé daqueles que, tendo-a escrito antes de mim, obscureceram a verdade. (madras)

como disse anteriormente, a imprenta da edição da madras especifica: "Publicado originalmente em inglês sob o título The Works of Flavius Josephus". não existe nenhuma seleta em inglês chamada the works of flavius josephus. o único corpo de textos que tem esse nome, até onde sei, corresponde à obra de flávio josefo traduzida por william whiston em 1737 e que se mantém até hoje como a tradução consagrada em língua inglesa. encontra-se disponível aqui.

em todo caso, por uma questão de método, se a editora madras afirma que a suposta tradução foi feita a partir de the works of flavius josephus (na tradução, deduzo eu, de william whiston), creio que cabe reproduzir aqui o trecho correspondente.

THOSE who undertake to write histories, do not, I perceive, take that trouble on one and the same account, but for many reasons, and those such as are very different one from another. For some of them apply themselves to this part of learning to show their skill in composition, and that they may therein acquire a reputation for speaking finely: others of them there are, who write histories in order to gratify those that happen to be concerned in them, and on that account have spared no pains, but rather gone beyond their own abilities in the performance: but others there are, who, of necessity and by force, are driven to write history, because they are concerned in the facts, and so cannot excuse themselves from committing them to writing, for the advantage of posterity; nay, there are not a few who are induced to draw their historical facts out of darkness into light, and to produce them for the benefit of the public, on account of the great importance of the facts themselves with which they have been concerned. Now of these several reasons for writing history, I must profess the two last were my own reasons also; for since I was myself interested in that war which we Jews had with the Romans, and knew myself its particular actions, and what conclusion it had, I was
forced to give the history of it, because I saw that others perverted the truth of those actions in their writings.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



imagem: flávio josefo; whiston

26 de nov. de 2009

flávio josefo, flavius josephus I

em flávio josefo, seleções e em flávio josefo, história dos hebreus apresentei dados preliminares para o cotejo entre a edição da edameris (1974), na tradução erudita de vicente pedroso, e a edição da madras (2005), com uma pretensa nova tradução.*
* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação.

julgo de uma imoralidade única que se pratiquem tais coisas.* octogenário, pe. vicente pedroso escrevia em sua "advertência" à obra:

"Nada mais me resta a acrescentar; como estes dois volumes compreendem toda a antiga história sagrada, desejo que não sejam lidos apenas por divertimento e por curiosidade, mas que se procure aproveitar, pelas considerações úteis de que fornecem tanta matéria. Foi esse o motivo que me levou a empreender esta tradução; do contrário, ela ter-me-ia, aos oitenta anos, feito empregar em vão muito tempo e dar-me muito trabalho numa idade na qual só devemos pensar em nos preparar para a morte. # O tradutor"

a edição da madras, além de pouco idônea, é indizivelmente ruim e confusa, e tenho até dificuldade em expor os insensatos emaranhados do livro. mas tentarei.

em antiguidades judaicas, josefo escreveu um curto prefácio, de cerca de duas páginas. na seleta da edameris, ele foi reproduzido e, em seguida, os editores explicaram num bloco em itálico:

"por motivos óbvios, deixamos de considerar os dez primeiros livros das 'antiguidades judaicas', que se sobrepõem ao relato bíblico da antiga história judaica. o período que se inicia com as conquistas de alexandre, o grande, e termina com o reinado de nero, aparece na segunda metade das 'antiguidades', de onde extraímos o texto destas seleções".

ótimo, mais claro impossível. assim, a organização da seleta prossegue a partir do livro XI (o final dele) até o livro XVIII, encerrando com o chamado "testemunho de cristo" e a apresentação de joão batista. são 76 páginas, com prefácio e trechos de vários capítulos dos livros XI ao XVIII, e pronto.

na edição da madras, toda essa seleta se chama simplesmente "prefácio", com 63 páginas. ou melhor, o que a madras chama de "prefácio" é, na verdade, uma cópia completa das antiguidades judaicas da seleta da edameris. mas a surpresa é que, após o excerto sobre joão batista que encerra a seleta da edameris e o "prefácio" da madras, esta resolve acrescentar outros trechos, e é nessas horas que sinto a força da expressão "pior a emenda do que o soneto".

pois, como disse acima, a edameris desconsiderou os dez primeiros livros e seguiu do final do livro XI das antiguidades - precisando melhor, partiu do oitavo e último capítulo do livro XI -, até o livro XVIII. embora a suposta tradutora ou o anônimo organizador da seleta da madras também alerte que "deixei de considerar os dez primeiros livros das 'antiguidades judaicas'" etc., mesmo assim ela/ele decide incluir após o livro XVIII (isto é, após o final de seu "prefácio") capítulos integrais e parciais dos livros VII, VIII e XI.

nessa sarabanda maluca, em que davi ordena a salomão que construa o templo após a derrota de herodes, surge outra novidade madrasiana. os excertos, até então, vinham vindo, estranhos, sem nome, sem identificação, como se fossem ainda o bendito prefácio de josefo, mas vinham vindo. de repente, nesse carrossel desgovernado agora surgem capítulos inteiros com parágrafos numerados, começando pelo 304 e indo ininterruptamente até o 351, dando um salto inexplicado para o 419 e então seguindo até o 445. são 60 páginas de capítulos integrais, sem excerto, sem seleção, sem pausa, alguns salteados e com o pulo do quarto para o sétimo capítulo do livro oitavo. por fim, com neemias, terminam as inominadas antiguidades judaicas das seleções de flavius josephus da editora madras.

* obs.: posso adiantar que essa edição da madras não passa de um evidente plágio da tradução do pe. vicente pedroso. como essa montagem feita pela madras se pretende muito ishperta, preferi antes dar o quadro geral ao longo destes três últimos posts, e em seguida apresentar os comparativos contra o pano de fundo mais completo. 

imagens: flavio josefo, carrossel

25 de nov. de 2009

flávio josefo, história dos hebreus

no post anterior comentei a existência de duas coletâneas de textos de flávio josefo de seleta praticamente idêntica. a primeira é a da edameris, 1974, e a segunda da madras, 2004. esta última traz alguns excertos a mais em relação à primeira. mas, antes de comentá-las, cabem algumas informações.

flávio josefo  legou os seguintes textos à posteridade: resposta a ápio (ou contra ápio), guerras judaicas, antiguidades judaicas, autobiografia (ou a vida de flávio josefo escrita por ele mesmo) e ainda o martírio dos macabeus.

pe. vicente pedroso traduziu a obra completa de flávio josefo. para fins de publicação, o tradutor acrescentou ao final da obra o relato de fílon. esse corpo de textos recebeu o título geral de história dos hebreus e foi publicado pela edameris em 1956, numa edição ilustrada de dois tomos em nove volumes. foi esta edição de 1956 que serviu de base para a seleta que a edameris organizou e publicou em 1974.












a edameris encerrou suas atividades no final dos anos 70, começo dos anos 80.

sua alentada história dos hebreus voltou a ser publicada em 1990, pela casa publicadora das assembleias de deus (CPAD), numa edição condensada em três volumes, e em 2000 num volume só.

a partir de 2001, a CPAD volta a publicar a obra completa de flávio josefo em sua íntegra, com o monumental trabalho de tradução devidamente creditado a vicente pedroso. há algumas alterações, substituindo, por exemplo, "sacrificador" e "grão-sacrificador" por "sacerdote" e "sumo sacerdote", e outras modificações de pequena monta, naturais num trabalho de revisão. a imprenta destaca que as citações bíblicas foram revistas de acordo com a versão almeida de 1995. as guerras judaicas e as antiguidades judaicas trazem seus parágrafos numerados, e os demais textos (autobiografia, resposta a ápio, martírio dos macabeus e relato de fílon) seguem apenas as divisões em livros e capítulos. 

esta edição integral da CPAD está disponível para download em vários sites evangélicos e laicos, por exemplo aqui.




imagens: estantevirtual e google

24 de nov. de 2009

flávio josefo, seleções


em 1974, a extinta editora das américas, também conhecida como edameris, publicou um volume chamado seleções de flávio josefo.

é uma seleta composta a partir da celebrada tradução brasileira feita pelo pe. vicente pedroso, publicada pela mesma edameris em 1956. como comentei num post anterior, flávio josefo escreveu sua obra em aramaico e no grego koiné da época helenística. a tradução de pe. vicente pedroso, de alto grau de erudição, segue as edições gregas e latinas.

devido à imensidão da história dos hebreus, nome genérico que a edameris deu à publicação das obras de josefo em português, essas criteriosas seleções de 1974 são extremamente úteis. elas trazem a íntegra da autobiografia de josefo e de sua resposta a ápio, e excertos das antiguidades judaicas e das guerras judaicas.

em seleções de flavius josephus, não sei por que a editora madras ou o responsável pela organização ou tradução da obra* optou pela mesmíssima seleta, acrescida de alguns excertos a mais das antiguidades judaicas. parece-me o tipo de iniciativa editorial infeliz, que apenas duplica o que já temos, mesmo que apenas em sebos e bibliotecas, e limita o horizonte dos leitores. afinal o conjunto da obra de josefo (que na edição brasileira da edameris resultou em quase três mil e quinhentas páginas), daria azo a outras seletas também significativas.

* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução desta obra, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação.

este é o primeiro - e sério - reparo que eu faria a esta edição da madras. o segundo é a barbaridade informada nos dados da imprenta do livro: "Publicado originalmente em inglês sob o título The Works of Flavius Josephus".

o terceiro reparo, menor, é a violência diacrítica praticada algumas vezes em "Flávius". ou bem se deixa Flavius, ou bem se usa Flávio.

quarto reparo: não há qualquer menção sobre o trabalho de seleção dos textos. quem é o organizador dessa coletânea da madras?

quinto reparo: a nota do editor, com grande destaque na folha seguinte à do frontispício da obra, parece de uma pobreza calamitosa.

"Nota do Editor: [...] Os textos de Seleções de Flavius Josephus não seguem uma sequência cronológica e tentamos reproduzi-los de maneira fiel, atentando-nos [sic - na verdade, o atentado é contra o leitor], principalmente, ao contexto histórico dos fatos relevantes da época."

o que significa isso, ó céus? e por que não se explica qual foi, afinal, a ordem adotada, e as razões que a justificam? o restante da frase não resiste à mais superficial leitura.

impressiona também que a nota do editor se limite a apresentar josefo como alguém que "acompanhou a ascensão do império romano e participou ativamente das guerras judaicas ocorridas em meados do século I"! será irrelevante lembrar que flávio josefo foi o comandante supremo do exército da galiléia, nomeado no ano 66? e que este é o maior, o mais importante registro histórico de primeira mão sobre os tempos de calígula, nero e vespasiano, e a principal e mais extensa fonte primária de que dispomos até hoje sobre os primórdios do cristianismo, ademais considerada de grande isenção?

o reparo final, por ora, diz respeito ao índice e à distribuição dos excertos e textos ao longo do volume da madras. o leitor que está tendo seu primeiro contato com josefo não tem a menor ideia se está lendo as antiguidades judaicas, ou as guerras judaicas ou o quê. só foi informado que os textos estão fora de ordem cronológica... mesmo os dois livros, como se diz, que compõem a resposta a ápio são tratados como se fossem obras independentes, ou meros capítulos na sequência da destruição de jerusalém. um primarismo imperdoável.

ah, em tempo! na capa consta "seleções de flavius josephus - histórias dos hebreus". muito que bem que a edameris tenha criado o título geral de história dos hebreus para enfeixar as obras de josefo. e essas histórias dos hebreus da madras, vêm a quê?
imagens: capas em google images; emoticon yikes; hello kitty ponders in counterfeit

21 de out. de 2009

hi, charlie

uma vez, lá pelos meus trinta anos, fui aprender grego. foi muito legal, o professor instilava muita confiança na gente, e acho que em menos de dois meses botou na lousa alguns parágrafos do flávio josefo para a gente traduzir. vá lá que era um koiné muito do básico, mas grego sempre era.

se hoje não consigo ler a história dos hebreus no original, é porque depois de um semestre os horários não batiam mais e deixei o curso, e não porque grego seja muito difícil.

também tenho imenso gosto por livros infantis. um dos livros que li nos últimos anos e que achei encantador foi uma pequena coletânea de contos de grimm, na deliciosa tradução da minha amiga heloísa jahn. são dons que jamais terei, entre infindos outros: um, dominar o grego; outro, conseguir um texto de fluência infantil que não seja um sofrível tatibitati.

então, em princípio eu estaria com a mente e o coração abertos para respeitar e louvar, e quiçá até ambicionar, uma biografia tradutória que inclui:

hello kitty, pequeno livro das grandes ideias
hello kitty, ama a escola
hello kitty, uma surpresa para mamãe
hello kitty, um dia com papai
hello kitty, em todo lugar
fábulas de la fontaine
a origem das espécies
história dos hebreus - seleções de flavius josephus

por outro lado, vejo que a titular das traduções citadas* é a mesma pessoa a quem é atribuída uma flagrante cópia da tradução de a cabana do pai tomás feita por octavio mendes cajado, e aí já fico meio assim. como disse, o koiné do flávio josefo não é nenhum bicho de sete cabeças, e não duvido que quem traduz um dia com papai também possa fazer uma bela tradução da história dos hebreus. e, inversamente, nada impede que quem traduz a história dos hebreus possa ter flexibilidade de espírito para traduzir hello kitty.

mas, em vista do precedente da cabana do pai tomás, olho a listinha acima e começo a me sentir meio desconfortável. como ainda por cima tenho o maior respeito pelo darwin, e agora são 200 anos de seu nascimento e 150 anos da publicação da origem das espécies, e ainda estou meio triste por causa do plágio da tradução dele no catálogo da ediouro, só por curiosidade - mas também com uma certa esperança, para ver se me reconforto de novo neste mundo - encomendei um volume da origem das espécies, publicado pela editora madras. darei notícias.

* atualização em 10/12/2009: sobre a atribuição da tradução, ver informe. atualização em 14/12/2009: ver solicitação.


16 de mar. de 2009

o essencial do jardim dos livros


algum tempo atrás, apresentei aqui o caso de o essencial do alcorão, de thomas cleary, publicado no ano passado pela jardim dos livros (selo do grupo geração). essa edição é uma valente garfada da tradução de leila v.b. gouvêa, publicada pela editora bestseller, e dá como tradutor um tal de "pedro h. berwick". os cotejos saíram em 6 posts, a partir daqui.

na ocasião, o sr. luiz fernando emediato, responsável pelo setor editorial do grupo, comprometeu-se a retirar a obra espúria de catálogo e de circulação. infelizmente, porém, ele deve andar muito ocupado, pois não teve tempo de tomar suas providências. passados quase dois meses, o essencial do alcorão continua belo e formoso no site geraçãobooks, impávido e destemido nas prateleiras da saraiva, cultura, siciliano, submarino, loyola etc.

mas imagino que o sr. luiz saberá honrar a palavra empenhada, e por isso apresento mais um cotejo de outra infeliz obra sob sua responsabilidade editorial. quem sabe, tendo um tempinho, ele já não aproveita e tira essa fraude também?
a outra solene garfada do jardim dos livros, selo do grupo geração, foi em cima de o essencial de jesus, de john dominic crossan, também em 2008. o glutão é o mesmo misterioso "pedro h. berwick", e a vítima foi uma vez mais a editora bestseller, que havia publicado a obra em 1994 na tradução de ymaly salem chammas.
1. ymaly salem chammas (bestseller)
PRÓLOGO
Espalhados pelos campos, podem-se observar certos animais selvagens, machos e fêmeas, escuros, lívidos e queimados pelo Sol, atados à terra que escavam e revolvem com invencível teimosia. Entretanto, eles produzem algo parecido com uma voz articulada e, quando se levantam, revelam uma face humana. Na verdade, eles são seres humanos... Graças a eles, os outros seres humanos não precisam semear, trabalhar e colher para viver. É por isso que a eles não deve faltar o pão que semearam.

Jean la Bruyère, moralista francês do final do século dezessete (citado por Eric J. Hobsbawm, Journal of Peasant Studies, vol. 1 [1973])
A Roma Imperial
É repleta de arcos do triunfo. Quem os ergueu?
Sobre quem
Os Césares triunfaram?

César derrotou os gauleses.
Não havia nem mesmo um cozinheiro em seu exército?

Cada página uma vitória.
A custa de quem o baile da vitória?
Em cada década um grande homem.
Quem pagou a conta?

Tantas particularidades.
Tantas perguntas.

Bertolt Brecht, A Worker Reads History
Se nenhum cristão houvesse escrito nada sobre Jesus durante os primeiros cem anos após a sua morte, ainda teríamos dois relatos sucintos daqueles que não estavam entre os seus seguidores. Um relato data da última década do século primeiro e vem do historiador judeu Flávio Josefo em Jewish Antiquities, 18.63:

Naquela época lá vivia Jesus, um homem sábio... Pois ele era um homem que operava feitos surpreendentes e era um mestre para as pessoas que aceitam a verdade com alegria. Ele ganhou o apoio de muitos judeus e de muitos gregos...
Quando Pilatos, depois de ouvi-lo ser acusado pelos homens mais honrados dentre nós, o condenou à crucificação, aqueles que o haviam seguido para amá-lo não desistiram do afeto por ele... E a tribo dos cristãos, assim chamada em homenagem ao seu nome, até hoje não desapareceu.

Essa descrição é cuidadosamente neutra ou, no máximo, ligeiramente crítica. O texto original foi conservado, mas existe uma versão modificada pelos editores cristãos, porém eu o cito sem as alterações propostas.
O relato seguinte data das primeiras décadas do século dois e foi escrito pelo historiador pagão Cornélio Tácito. Tendo dito que um rumor culpava Nero pelo desastroso incêndio que destruiu Roma no ano 64 d.C., ele prossegue em Anais, 15.44:

Portanto, para encerrar os rumores, Nero apontou como culpada, e puniu com os mais extremos requintes de crueldade, uma classe de homens, abominada por seus vícios, que o povo conhecia como cristãos. Cristo, o “fundador” do nome, havia recebido o castigo da morte no reinado de Tibério, sentenciado pelo procurador Pôncio Pilatos, e a superstição perniciosa havia sido interrompida na época, somente para recrudescer mais uma vez, não apenas na Judéia, lugar de origem da doença, mas na própria capital, onde todas as coisas horríveis ou vergonhosas do mundo se reúnem e encontram expressão.
Apesar das diferenças entre a imparcialidade calculada de Josefo e a parcialidade cheia de desprezo de Tácito, eles concordam em três fatos bastante elementares. Primeiro, havia algum tipo de movimento associado a Jesus. Segundo, ele foi executado por uma autoridade oficial presumivelmente para encerrar o movimento. Terceiro, em vez de morrer, o movimento continuou a se espalhar.
Permanecem, portanto, esses três fatos: movimento, execução, continuação. Mas o maior deles é a continuação.

2. pedro h. berwick (selo jardim dos livros)

PRÓLOGO
Espalhados pelos campos, podem-se observar certos animais selvagens, machos e fêmeas, escuros, lívidos e queimados pelo Sol, atados à terra que escavam e revolvem com invencível teimosia. Entretanto, eles produzem algo parecido com uma voz articulada e, quando se levantam, revelam uma face humana. Na verdade, eles são seres humanos... Graças a eles, os outros seres humanos não precisam semear, trabalhar e colher para viver. É por isso que a eles não deve faltar o pão que semearam.

Jean la Bruyère, moralista francês do final do século dezessete (citado por Eric J. Hobsbawm, Journal of Peasant Studies, vol. 1 [1973])

A Roma Imperial
É repleta de arcos do triunfo. Quem os ergueu?
Sobre quem
Os Césares triunfaram?

César derrotou os gauleses.
Não havia nem mesmo um cozinheiro em seu exército?

Cada página uma vitória.
À custa de quem o baile da vitória?
Em cada década um grande homem.
Quem pagou a conta?

Tantas particularidades.
Tantas perguntas.

Bertolt Brecht, A Worker Reads History

Se nenhum cristão houvesse escrito nada sobre Jesus durante os primeiros cem anos após a sua morte, ainda teríamos dois relatos sucintos daqueles que não estavam entre os seus seguidores. Um relato data da última década do século primeiro e vem do historiador judeu Flávio Josefo em Jewish Antiquities, 18.63:

Naquela época lá vivia Jesus, um homem sábio... Pois ele era um homem que operava feitos surpreendentes e era um mestre para as pessoas que aceitam a verdade com alegria. Ele ganhou o apoio de muitos judeus e de muitos gregos... Quando Pilatos, depois de ouvi-lo ser acusado pelos homens mais honrados dentre nós, o condenou à crucificação, aqueles que o haviam seguido para amá-lo não desistiram do afeto por ele... E a tribo dos cristãos, assim chamada em homenagem ao seu nome, até hoje não desapareceu.

Essa descrição é cuidadosamente neutra ou, no máximo, ligeiramente crítica. O texto original foi conservado, mas existe uma versão modificada pelos editores cristãos, porém eu o cito sem as alterações propostas. O relato seguinte data das primeiras décadas do século dois e foi escrito pelo historiador pagão Cornélio Tácito. Tendo dito que um rumor culpava Nero pelo desastroso incêndio que destruiu Roma no ano 64 d.C., ele prossegue em Anais, 15.44:

Portanto, para encerrar os rumores, Nero apontou como culpada, e puniu com os mais extremos requintes de crueldade, uma classe de homens, abominada por seus vícios, que o povo conhecia como cristãos. Cristo, o “fundador” do nome, havia recebido o castigo da morte no reinado de Tibério, sentenciado pelo procurador Pôncio Pilatos, e a superstição perniciosa havia sido interrompida na época, somente para recrudescer mais uma vez, não apenas na Judéia, lugar de origem da doença, mas na própria capital, onde todas as coisas horríveis ou vergonhosas do mundo se reúnem e encontram expressão.

Apesar das diferenças entre a imparcialidade calculada de Josefo e a parcialidade cheia de desprezo de Tácito, eles concordam em três fatos bastante elementares. Primeiro, havia algum tipo de movimento associado a Jesus. Segundo, ele foi executado por uma autoridade oficial presumivelmente para encerrar o movimento. Terceiro, em vez de morrer, o movimento continuou a se espalhar.
Permanecem, portanto, esses três fatos: movimento, execução, continuação. Mas o maior deles é a continuação.


1. ymaly salem chammas (bestseller)
CONTEXTOS
Nós queremos que todos trabalhem, como nós. Não deveria mais haver ricos e pobres. Todos deveriam ter o pão para se alimentar e alimentar os filhos. Deveríamos ser todos iguais. Eu tenho cinco filhos e apenas um quarto pequeno, onde temos de comer e dormir e fazer tudo, enquanto tantos Senhores (signori) têm dez ou doze quartos, palácios inteiros... Será suficiente compartilhar tudo e dividir com justiça o que se produz.
Camponesa anônima de Piana dei Greci, província de Palermo, Sicília, falando a um jornalista do norte da Itália durante uma rebelião de camponeses em 1893 (citada por Eric J. Hobsbawm, Primitive Rebels: Studies in Archaic Forms of Social Movement in the 19th and 20th Centuries [New York: Norton, 1965])
Um duplo entrave sempre permeou o núcleo da história mediterrânea: a pobreza e a incerteza do amanhã.

Fernand Braudel

No mundo precário do Mediterrâneo, o reino dos Céus tinha de estar relacionado a alimentos e bebida.

Peter Brown
O Que É Essencial Sobre Jesus?
Dois problemas principais surgem quando se aplica o termo essencial a Jesus. O primeiro é se estamos falando do Jesus canônico ou do Jesus histórico. O Jesus canônico é a figura que permeia os quatro evangelhos oficiais do Novo Testamento das igrejas cristãs. Uma possível interpretação do termo essencial seria aquele Jesus oficial, conforme retratado exclusivamente nos textos aprovados. Mas escolhi, no lugar disso, interpretar essencial como significando histórico, designando não o Jesus descrito pelos cristãos, que acreditam nos evangelhos escritos entre quarenta e sessenta anos após a sua morte, mas, sim, aquele Jesus que poderia ter sido visto na Galiléia durante a sua vida real. Imagine, por exemplo, estas respostas de observadores diferentes, que viram e ouviram exatamente as mesmas palavras e feitos daquele Jesus
histórico:

Ele é perigoso, vamos combatê-lo.
Ele é criminoso, vamos executá-lo.
Ele é divino, vamos segui-lo.


Um relato histórico deve ser capaz de explicar todas essas respostas diferentes, ou então não será fiel ao que aconteceu.
Neste livro, portanto, o Jesus essencial significa não o Jesus canônico, mas o Jesus histórico. Não irei simplesmente examinar os quatro evangelhos do Novo Testamento, pinçar os ditos mais conhecidos de Jesus e reinterpretá-Ios. Em vez disso, apresento aqueles ditos que, segundo a minha melhor avaliação histórica, são originais de Jesus. Já tive oportunidade de defender essa avaliação em dois livros anteriores*, assim este livro conclui uma trilogia sobre o Jesus histórico.

* The Historical Jesus: The Life of a Mediterranean Jewish Peasant. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1991. Edição Encapada, 1993. Jesus: A Revolutionary Biograp­hy. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1994.
O segundo problema é tão difícil e importante quanto o primeiro. Seria o essencial de Jesus uma questão de palavra sem feito, de idéia sem ação, de visão sem programa? Imagine, por exemplo, um livro sobre o Gandhi essencial, ou sobre o Martin Luther King Jr. essencial: seria suficiente conhecer uma seleção bem-feita e representativa das suas palavras e ignorar suas práticas? Não se estaria, assim, negando o que lhes é mais essencial, notadamente a conjunção de suas visões eprogramas, da vida e da morte? O mesmo se dá com o Jesus essencial. Ele tinha um sonho religioso e um programa social, e foi essa conjunção que provocou sua morte. O Império Romano pode ter abusado do seu poder com freqüência, mas raramente o exercia sem necessidade. Ele
não crucificava professores ou filósofos; exilava-os permanentemente ou os removia de Roma periodicamente. Na verdade, se Jesus tivesse sido apenas uma questão de palavras ou idéias, os romanos provavelmente o teriam ignorado e, talvez, não estaríamos falando dele hoje. O
movimento do seu Reino, entretanto, com suas curas e exorcismos, era ação e prática, não pensamento e teoria. Mas como se pode mostrar um programa num livro? É possível, naturalmente, notar as palavras por meio das quais Jesus se refere ao seu programa, ou coloca em prática seus procedimentos. Contudo, ainda estaríamos emaranhados em palavras e textos. Para ver um programa em ação é preciso ter acesso a imagens, de preferência, é claro, com transmissões ao vivo via satélite! Minha solução, na ausência de vídeos arcaicos da antiga Galiléia, depende das imagens intercaladas com os ditos que se encontram no corpo deste livro. Essas imagens não são, definitivamente, meros ornamentos. São os mais antigos retratos do programa de Jesus e, conseqüentemente, constituem um complemento necessário às traduções das palavras de Jesus. Neste livro, em resumo, o Jesus essencial é o Jesus histórico, com sua visão e seu programa.

2. pedro h. berwick (selo jardim dos livros)



CONTEXTOS
Nós queremos que todos trabalhem, como nós. Não deveria mais haver ricos e pobres. Todos everiam ter o pão para se alimentar e alimentar os filhos. Deveríamos ser todos iguais. Eu tenho cinco filhos e apenas um quarto pequeno, onde temos de comer e dormir e fazer tudo, enquanto tantos Senhores (signori) têm dez ou doze quartos, palácios inteiros... Será suficiente compartilhar tudo e dividir com justiça o que se produz.

Camponesa anônima de Piana dei Greci, província de Palermo, Sicília, falando a um jornalista do norte da Itália durante uma rebelião de camponeses em 1893 (citada por Eric J. Hobsbawm, Primitive Rebels: Studies in Archaic Forms of Social Movement in the 19th and 20th Centuries New York: Norton, 1965)

Um duplo entrave sempre permeou o núcleo da história mediterrânea: a pobreza e a incerteza do amanhã.
Fernand Braudel

No mundo precário do Mediterrâneo, o reino dos Céus tinha de estar relacionado a alimentos e bebida.
Peter Brown

O Que É Essencial Sobre Jesus?

Dois problemas principais surgem quando se aplica o termo essencial a Jesus. O primeiro é se estamos falando do Jesus canônico ou do Jesus histórico. O Jesus canônico é a figura que permeia os quatro evangelhos oficiais do Novo Testamento das igrejas cristãs. Uma possível interpretação do termo essencial seria aquele Jesus oficial, conforme retratado exclusivamente nos textos aprovados. Mas escolhi, no lugar disso, interpretar essencial como significando histórico, designando não o Jesus descrito pelos cristãos, que acreditam nos evangelhos escritos entre quarenta e sessenta anos após a sua morte, mas, sim, aquele Jesus que poderia ter sido visto na Galiléia durante a sua vida real. Imagine, por exemplo, estas respostas de observadores diferentes, que viram e ouviram exatamente as mesmas palavras e feitos daquele Jesus histórico:

Ele é perigoso, vamos combatê-lo.
Ele é criminoso, vamos executá-lo.
Ele é divino, vamos segui-lo.

Um relato histórico deve ser capaz de explicar todas essas respostas diferentes, ou então não será fiel ao que aconteceu. Neste livro, portanto, o Jesus essencial significa não o Jesus canônico, mas o Jesus histórico. Não irei simplesmente examinar os quatro evangelhos do Novo Testamento, pinçar os ditos mais conhecidos de Jesus e reinterpretá-Ios. Em vez disso, apresento aqueles ditos que, segundo a minha melhor avaliação histórica, são originais de Jesus. Já tive oportunidade de defender essa avaliação em dois livros anteriores*, assim este livro conclui uma trilogia sobre o Jesus histórico.

* The Historical Jesus: The Life of a Mediterranean Jewish Peasant. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1991. Edição Encapada, 1993. Jesus: A Revolutionary Biograp­hy. San Francisco: HarperSanFrancisco, 1994.

O segundo problema é tão difícil e importante quanto o primeiro. Seria o essencial de Jesus uma questão de palavra sem feito, de idéia sem ação, de visão sem programa? Imagine, por exemplo, um livro sobre o Gandhi essencial, ou sobre o Martin Luther King Jr. essencial: seria suficiente conhecer uma seleção bem-feita e representativa das suas palavras e ignorar suas práticas? Não se estaria, assim, negando o que lhes é mais essencial, notadamente a conjunção de suas visões e programas, da vida e da morte? O mesmo se dá com o Jesus essencial. Ele tinha um sonho religioso e um programa social, e foi essa conjunção que provocou sua morte. O Império Romano pode ter abusado do seu poder com freqüência, mas raramente o exercia sem necessidade. Ele não crucificava professores ou filósofos; exilava-os permanentemente ou os removia de Roma periodicamente. Na verdade, se Jesus tivesse sido apenas uma questão de palavras ou idéias, os romanos provavelmente o teriam ignorado e, talvez, não estaríamos falando dele hoje. Omovimento do seu Reino, entretanto, com suas curas e exorcismos, era ação e prática, não pensamento e teoria. Mas como se pode mostrar um programa num livro? É possível, naturalmente, notar as palavras por meio das quais Jesus se refere ao seu programa, ou coloca em prática seus procedimentos. Contudo, ainda estaríamos emaranhados em palavras e textos. Para ver um programa em ação é preciso ter acesso a imagens, de preferência, é claro, com transmissões ao vivo via satélite! Minha solução, na ausência de vídeos arcaicos da antiga Galiléia, depende das imagens intercaladas com os ditos que se encontram no corpo deste livro. Essas imagens não são, definitivamente, meros ornamentos. São os mais antigos retratos do programa de Jesus e, conseqüentemente, constituem um complemento necessário às traduções das palavras de Jesus. Neste livro, em resumo, o Jesus essencial é o Jesus histórico, com sua visão e seu programa.
além disso, essa edição é chapa fria: seu suposto isbn 978-85-60018-12-3 não consta cadastrado na agência brasileira do isbn/fbn. a fraude se encontra à venda na fnac, cultura, siciliano, leitura, submarino etc.
imagens: images_businessweek.com; digitaldropos.com.br

ah, sr. luiz, por favor não se esqueça de retirar também a arte da guerra do tal nikko bushido!


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.