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19 de abr. de 2017

um triste rubaiyat


OS RUBAIYAT DE MANUEL BANDEIRA E DE TORRIERI GUIMARÃES

Denise Bottmann

Um componente da história da tradução – sobretudo literária – no Brasil que nunca cessa de nos surpreender é o plágio de tradução. Os casos pipocam pelo menos desde os alvores do século XX (o primeiro caso documentado de que tenho notícia recua a 1903) e, embora tenham se reduzido muito na última década, volta e meia descobrem-se casos até então desconhecidos ou surgem novas ocorrências.

Em termos muito gerais, o plágio de tradução no Brasil consiste em três ou quatro procedimentos bastante simples: para determinada obra que se pretenda publicar, normalmente caída em domínio público, recorre-se a alguma tradução já existente, seja portuguesa, seja brasileira. Em se tratando de tradução brasileira, prefere-se uma antiga, feita por tradutor já falecido, publicada por alguma editora muitas vezes extinta. Toma-se essa tradução, elimina-se o nome do verdadeiro tradutor e se a publica atribuindo sua autoria a outro nome, que pode ser real ou fictício. Pode-se ter a pura e simples reprodução intocada do texto ou sua modificação com pequenas alterações aqui e ali – geralmente nas primeiras páginas ou em início de parágrafos – a fim de tentar disfarçar a cópia. Um exemplo é a célebre tradução de Les Fleurs du mal, de Charles Baudelaire, feita por Jamil Almansur Haddad, publicada em 1958 pela extinta editora Difel, e republicada com algumas toscas adulterações em 2001 pela editora Martin Claret, com o nome real de Pietro Nassetti.[1]

Raros, raríssimos são os plágios de traduções lançadas poucos anos antes e ainda ativas em catálogo. No entanto, existem. E é um caso desses que pretendo abordar. 

Em 1966, a editora carioca Tecnoprint, atual Ediouro, publicou O Rubaiyat de Omar Khayyam com tradução de Manuel Bandeira. No final dos anos 1970, a editora paulista Hemus publicou o volume Rubaiyat, de Omar Khayyam, com tradução atribuída a Torrieri Guimarães.
Aqui cabe uma brevíssima explicação. Os ruba’i (quadras ou quartetos) do matemático, astrônomo e poeta persa Omar Khayyam, do século XI, passaram a ser conhecidos no Ocidente a partir do século XIX, principalmente com a tradução de Edward Fitzgerald para o inglês, em versos, em 1859, com 75 ruba’i (posteriormente aumentados para 100). Outra tradução que se tornou muito conhecida foi a de Franz Toussaint, em francês e em prosa, de 1924, com 170 ruba’i.  São essas duas traduções, a de Fitzgerald e a de Toussaint, que costumam servir de referência para as inúmeras traduções indiretas dos poemas de Khayyam em diversas línguas.

No Brasil, a primeira tradução do Rubaiyat é a de Octavio Tarquinio de Souza, feita a partir do texto de Toussaint, publicada em 1928 e que ainda se encontra em circulação, com inúmeras reedições.
Como a tradução de Toussaint está vazada em prosa, tomá-la como texto de interposição significa normalmente que a tradução indireta também será em prosa. E aí temos a primeira peculiaridade da tradução de Manuel Bandeira, o qual, assim como Tarquínio, partiu de Toussaint, porém convertendo sua prosa em quadras. Nisso poderíamos ver, talvez, uma tentativa de se reaproximar, ao menos em parte, da forma poética original. Mas deixemos a exegese para outra hora. O que importa notar é que Torrieri Guimarães – o qual afirma que “A tradução que fizemos está rigorosamente baseada [grifo meu] na tradução de Toussaint” – também converte sua prosa em quadras.

Ademais, a tradução de Bandeira apresenta outra peculiaridade. Adotando a forma poética da quadra para a prosa corrida de Toussaint, ele não se limita a uma quadra. Aqui cabe notar que o ruba’i na tradição persa é uma forma poética rigorosa, um breve poema composto por quatro versos apenas [daí seu nome, como já dissemos], com várias classificações internas quanto ao tipo de metrificação e com o predomínio da rima no primeiro, segundo e quarto versos, o terceiro sendo branco, tal como a usa Khayyam. Bandeira adota a quadra – salvo em três ruba’i montados em quintilha –, mas não se restringe a uma estrofe, e recorre a metros variados. Seus ruba’i, se ainda assim pudermos nos referir a poemas com número variável de estrofes, metrificação diversificada e versos brancos, apresentam de um a quatro quartetos, além das três quintilhas citadas (137, 142 e 143).

Torrieri Guimarães, salvo algumas exceções que não chegam a dez por cento dos 170 ruba’i em questão, mantém exatamente o mesmo número de estrofes usadas por Bandeira para cada poema.[2]
Vejamos um exemplo, o ruba’i 102:

Manuel Bandeira:

Quando eu deixar de existir,
Não existirão mais rosas,
Ciprestes, lábios vermelhos,
Canções, vinho perfumado...

Não haverá mais auroras,
Não haverá mais crepúsculos,
Não haverá mais amores,
Nem penas, nem alegrias.

O mundo será abolido,
Pois do nosso pensamento
É que a sua realidade
Depende exclusivamente.


Torrieri Guimarães:

Quando eu não mais existir
Não existirão mais rosas,
Ciprestes, bocas vermelhas,
Nem vinho tão perfumado...

Não existirão auroras,
Nem crepúsculos também,
Não existirão amores,
Nem alegrias, nem dores.

O mundo estará abolido,
Pois de nosso pensamento
É que sua realidade
Depende, dele somente.

Agora, vejamos Toussaint:

Quand je ne serai plus, il n'y aura plus de roses, de cyprès, de lèvres rouges et de vin parfumé. Il n'y aura plus d'aubes et de crépuscules, de joies et de peines. L'univers n'existera plus, puisque sa réalité dépend de notre pensée.
                  
Isso do ponto de vista do número de estrofes. Passemos ao teor. Se em “Quand je ne serai plus, il n'y aura plus de roses, de cyprès, de lèvres rouges et de vin parfumé” podemos ver que Bandeira, para manter o metro em heptassílabos, acrescentou “canções”, do que se absteve Torrieri, por outro lado “Não existirão auroras,/ Nem crepúsculos também,/ Não existirão amores,/ Nem alegrias, nem dores” está visivelmente mais próximo de “Não haverá mais auroras,/ Não haverá mais crepúsculos,/ Não haverá mais amores,/ Nem penas, nem alegrias” do que de “Il n'y aura plus d'aubes et de crépuscules, de joies et de peines”. O mesmo se pode dizer quanto à proximidade maior de “O mundo estará abolido,/ Pois de nosso pensamento/ É que sua realidade/ Depende, dele somente” com “O mundo será abolido,/ Pois do nosso pensamento/ É que a sua realidade/ Depende exclusivamente” do que com “L'univers n'existera plus, puisque sa réalité dépend de notre pensée”.

Outro exemplo ilustrando essa proximidade é o acréscimo do terceiro verso em Bandeira, retomado com ligeira alteração em Torrieri, no ruba’i 113:

Bandeira

Pedi numa taverna a um velho sábio
Que sobre os mortos algo me ensinasse.
“O que há de certo é que não voltarão”,
Disse. “É tudo o que sei. Bebe o teu vinho!”


Torrieri

Pedi numa taverna a um idoso sábio
Que algo sobre os defuntos me ensinasse.
“O certo é que não mais retornarão”,
Disse. “É tudo o que sei. Bebe teu vinho!”


Eis Toussaint:

Dans une taverne, je demandais à un vieux sage de me renseigner sur ceux qui sont partis. Il m'a répondu: “Ils ne reviendront pas. C'est tout ce que je sais. Bois du vin!”

Vejamos agora o ruba’i 61, como exemplo de omissão de termos ou frases em relação ao texto de Toussaint:

Bandeira

Só conhecemos da ventura o nome.
Nosso mais velho amigo é o vinho novo
Afaga o único bem que não engana:
A urna cheia do sangue dos vinhedos.


Torrieri

Sabemos da Ventura só o nome.
Nosso amigo mais velho é o vinho novo.
Acaricia o bem que não engana:
A urna cheia com sangue das vinhas.


Toussaint

Du bonheur, nous ne connaissons que le nom. Notre plus vieil ami est le vin nouveau. Du regard et de la main, caresse notre seul bien qui ne soit pas décevant: l'urne pleine du sang de la vigne.

Ou, ainda, o ruba’i 114:

Bandeira

Olha! Escuta! Na brisa uma rosa estremece.
Um rouxinol canta-lhe um hino apaixonado.
Uma nuvem parou. Bebe, e esquece que a brisa
Desfolha a rosa, leva o canto e a fresca nuvem.

Torrieri

Olha! Escuta! Uma rosa estremece na brisa.
Um rouxinol lhe canta um hino apaixonado.
Uma nuvem parou. Bebe, esquece que a brisa
A rosa despetala e leva o canto e a nuvem.

Toussaint

Regarde! Écoute! Une rose tremble dans la brise. Un rossignol lui chante un hymne passionné. Un nuage s'est arrêté. Buvons du vin! Oublions que cette brise effeuillera la rose, emportera le chant du rossignol et ce nuage qui nous donne une ombre si précieuse.

Note-se que “Du regard et de la main” está ausente em ambos os casos do ruba’i 61 e a oração inteira “qui nous donne une ombre si précieuse” desaparece do ruba’i 114.

Por tais exemplos, fica evidente que Torrieri se baseou em Bandeira, não em Toussaint, tanto na variada forma poética adotada na tradução quanto no conteúdo vocabular dos poemas, com idênticos acréscimos ou omissões em relação a Toussaint.

Poderíamos nos estender longamente sobre dezenas e mais dezenas de outros exemplos, mas creio que os apresentados bastam para mostrar que o procedimento adotado por Torrieri Guimarães em sua pretensa tradução consistiu basicamente em adotar as soluções de Manuel Bandeira, procedendo a modificações de superfície, seguindo um padrão simples e constante, com inversão de palavras e ocasional substituição de termos por sinônimos (“mortos” por “defuntos”, “desfolha” por “despetala”, “exclusivamente” por “somente”, “afaga” por “acaricia” e assim por diante). Sua fidelidade chega ao ponto de apresentar o ruba’i 165 com o 2º. e o 4º. versos recuados, tal como em Bandeira.[3]

Se cópias maquiadas não são fatos inéditos na história da tradução no Brasil, o caso do Rubaiyat vem caracterizado por uma invulgar singeleza: Bandeira lançara sua tradução em 1966, morrera em 1968, seu Rubayat continuava em viçosa circulação; mal passada uma década, os leitores foram brindados com uma versão toscamente copidescada dos ruba’i da lavra tradutória bandeiriana. Se algum consolo há, é o de que a tradução espúria nunca alcançou grande repercussão e não deixou muita memória. Fique, porém, registrada a ocorrência.


  
AGRADECIMENTOS

Devo a descoberta dessa fraude a Willamy Fernandes, a quem agradeço vivamente a gentileza em tê-la compartilhado comigo.                                                                                  



ANEXO

Segue-se a listagem dos únicos catorze ruba’i, dentre o total de 170, que apresentam discrepância na quantidade de estrofes usadas por Manuel Bandeira (MB) e por Torrieri Guimarães (TG). Na coluna da esquerda, encontra-se o número do poema; na coluna central, o número de quadras usado por Bandeira; na coluna da direita, o número de quadras usado por Torrieri.

Ruba’i             MB                  TG

10                    1                      2
28                    4                      3
32                    2                      1
53                    1                      2
59                    1                      2
66                    1                      2
73                    1                      2
76                    1                      2
90                    2                      1
93                    2                      1
115                  1                      2
146                  2                      1
147                  2                      1
148                  2                      1





[1] Veja-se o artigo Flores roubadas do jardim alheio, do poeta e tradutor Ivo Barroso, disponível em http://www.jornaldepoesia.jor.br/ibarroso3.html. 
[2] Vide o Anexo.
[3] Uma ressalva: alguns dos ruba’i com tradução em nome de Torrieri Guimarães afastam-se claramente da versão de Manuel Bandeira e mesmo da de Franz Toussaint, por exemplo o de número 93. Como são poucas ocorrências esparsas, não chegam a afetar o fato principal exposto neste artigo: sua dita tradução, ao contrário do que afirma ele, não vem “rigorosamente baseada” na de Toussaint, e sim na de Bandeira. 


Este artigo foi publicado em InComunidade, ano 4, n. 55, abril de 2017, aqui.

garfada do rubaiyat de manuel bandeira



a partir de uma preciosa indicação de willamy fernandes, em seus valiosos comentários aqui, escrevi um breve artigo,
"os rubaiyat de manuel bandeira e de torrieri guimarães", que foi publicado agora em abril pela revista cultural digital InComunidade, em seu número 55. o artigo está disponível aqui.


15 de fev. de 2014

uma metamorfose escalafobética


uma das coisas mais alopradas que vi nesses pdfs de clássicos traduzidos disponíveis na rede foi metamorfose de kafka (devo a dica à jornalista raquel cozer).

você vai lá, todo bonitinho o volume; folheia e tá lá: tradução de torrieri guimarães, edição nova fronteira.

esta é a primeira surpresa, até porque andei fazendo um meticuloso levantamento sobre as traduções e edições das traduções de kafka feitas por torrieri guimarães e jamais soube que a nova fronteira tivesse publicado a metamorfose torrieriana. ok, tudo bem, pode ser falha minha.

prossigo folheando e vejo a página de créditos e a ficha catalográfica. ok, o esquema de diagramação, os dados, o tipo de ficha CIP feita pelo SNEL, tem aquele visual padronizado que parece ok. aí meu olho bate em "Copyright 2013 by Franz Kafka" - hãã? - e principalmente no ISBN: 974-89-5768-675-8 - duplo, triplo hãã?

974 não existe (quando houve a conversão do ISBN para treze dígitos, adotou-se o prefixo 978, não 974). 89 é a coreia! (brasil é 85). o cadastro editorial da nova fronteira no ISBN é 209, não 5768. ou seja, ISBN mais frio e escalafobético do que esse, impossível.

ok, sigo e vejo que a edição traz um prefácio de helena topa, estudiosa portuguesa, que saiu acompanhando a tradução lusitana d'a metamorfose feita por gabriela fragoso, lançada pelo editorial presença em 2010. estranho um pouco a opção da nova fronteira, perguntando-me por que ela iria querer licenciar o direito de uso desse prefácio.

sigo em frente e chego à tradução de torrieri guimarães (que conheço até meio de cor e salteado, feita a partir da tradução em espanhol, anônima, mas publicada como se fosse de jorge luis borges, pela losada argentina, como expus em alguns posts aqui).

"não, não!", exclamo eu. "de jeito nenhum esta é a tradução do torrieri!"

bom, vou atrás e descubro que é a tradução, também portuguesa, feita por j.a. teixeira aguilar, que saiu pela europa-américa em 1975.

fico perplexa. pra que tanto trabalho para uma fraude tão descabelada? a cui bono?

essa patifaria ridícula está em http://issuu.com/amandaareias/docs/metamorfose_issuu, aqui.







abaixo, a tradução de j.a. teixeira aguilar:






12 de abr. de 2012

boccaccio, decameron II



dando continuidade à comparação entre as traduções de raul de polillo e de torrieri guimarães para o decameron (veja aqui), detenho-me agora num exemplo pitoresco. estamos na primeira história da quarta jornada, a tragédia amorosa de ghismonda e guiscardo:
Guiscardo non per accidente tolsi, come molte fanno, ma con diliberato consiglio elessi innanzi ad ogn’altro, e con avveduto pensiero a me lo’ntrodussi, e con savia perseveranza di me e di lui lungamente goduta sono del mio disio. Di che egli pare, oltre allo amorosamente aver peccato, che tu, più la volgare oppinione che la verità seguitando, con più amaritudine mi riprenda, dicendo (quasi turbato esser non ti dovessi, se io nobile uomo avessi a questo eletto) che io con uom di bassa condizione mi son posta.
polillo verte:
Não foi por acaso, como fazem muitas mulheres, que fiquei com Guiscardo; ao contrário, escolhi-o, com espírito deliberado, antes e acima de qualquer outro homem; por via de manobra claramente premeditada, introduzi-o nos meus aposentos; e, com prudente perseverança, tanto da parte dele, como da minha, longamente gozei o prazer da satisfação do meu desejo. Afigura-se-me que você me esteja repreendendo, por eu haver amorosamente pecado; quer-me parecer, entretanto, que, acompanhando a opinião do vulgo, o senhor me repreenda com mais dureza por eu me haver entregue, como o senhor diz, a homem de baixa condição social; e isto, como se o senhor não se perturbaria, se eu houvesse escolhido, para o mesmo fim, um homem que fosse nobre.
além do descomunal encompridamento da prosa boccacciana na tradução de polillo, de sua prolixidade pretensamente explicativa e seu distanciamento do original, note-se a curiosa oscilação no tratamento que guismunda dá a seu pai tancredi, ora "você", ora "o senhor", todavia tratado no original sempre como tu.

no texto de torrieri, como se pode aferir abaixo, discerne-se claramente o decalque do texto de polillo, submetido a um singelo copidesque, trocando aqui e ali alguns termos - e a impostura ganha um cômico requinte adicional com a preservação do oscilante tratamento que recebe tancredi na tradução de polillo:
Não foi casualmente, como fazem inúmeras mulheres, que fiquei com Guiscardo; pelo contrário, eu escolhi-o, com deliberação, antes e acima de outro homem qualquer; por manobra inteiramente premeditada, introduzi-o em meus aposentos; e, com prudente perseverança, tanto da parte dele, quanto da minha, longamente desfrutei o prazer da satisfação do meu desejo. Parece-me que você me repreende, porque eu amorosamente pequei; parece-me, contudo, que, seguindo a opinião popular, o senhor me censura, mais duramente, o fato de eu ter-me entregado, segundo diz o senhor, a homem de ínfima posição social; e isto, como se o senhor não ficasse perturbado, se eu escolhera, para idêntico fim, um homem da nobreza.
se é uma vergonha que tal embuste tenha infestado o cenário entre 1970 e 2003 com alguns milhões de exemplares distribuídos pelo brasil afora, devido aos incautos licenciamentos da abril cultural, círculo do livro e nova cultural, trabalhando com tiragens altíssimas em suas sucessivas reedições, mais uma razão para comemorarmos vivamente a iniciativa de l&pm em recorrer à notória competência de ivone benedetti para uma nova tradução do decameron.

aliás, a jornalista raquel cozer, da folha de s.paulo, também comentou recentemente que a tradução de torrieri é "parecida até demais com a de polillo", aqui. 

imagem: ghismonda recebe o coração de guiscardo, aqui

boccaccio, decameron I

fiquei realmente entusiasmada quando ivone benedetti me comentou que estava traduzindo o decameron de boccaccio para a l&pm. meu contentamento se deve a duas razões principais:
  • a primeira delas é que ivone benedetti é uma das grandes tradutoras que temos em atividade no brasil, em particular na delicadíssima área de humanidades e clássicos da cultura ocidental. por exemplo, se agora dispomos da edição das vidas completas de vasari, a quem podemos agradecer a indizível oportunidade de ler esse monumento do quinhentos em português?
  • a segunda razão diz respeito à trajetória da obra mor de boccaccio no brasil. é sobre ela que vou me deter mais longamente neste post. para o original, pode-se consultar aqui.

recapitulemos.

I.
em 1956, sai a primeira tradução integral do decameron no brasil, em tradução de raul de polillo, na coleção "edições de arte", pela livraria martins, em 3 volumes em formato grande (25 x 45), com ilustrações de gino boccasile (cuja trajetória no fascismo italiano e cujo papel no desenvolvimento do desenho de propaganda e erotismo na itália mereceriam um post à parte) e introdução de edoardo bizzarri, diretor do instituto de cultura italiana no brasil (aliás tradutor de, entre outros, guimarães rosa):







diga-se de passagem que essa tradução de polillo trafegará mais tarde para a tecnoprint/ ediouro, saindo em 1967 numa lamentável edição de bolso em dois volumes, quase ilegível de tão compacto e miúdo foi o tipo utilizado para a impressão, e se mantém em seu catálogo até hoje. a tradução de polillo sai também em 2000 e 2002 pela itatiaia, de belo horizonte:



II.
em 1970, a editora hemus lança uma dita tradução pretensamente feita por torrieri guimarães, também integral, numa edição em brochura um tanto tosca:




por  aqueles mistérios editoriais que seguem por meandros que apenas as próprias editoras conhecem, essa tradução dita de torrieri guimarães tem uma fortuna inaudita. recebe inúmeras e inúmeras reedições, licenciada para a abril cultural desde o mesmo ano de seu lançamento pela hemus, em 1970, até 1989.


a seguir, essa pretensa tradução passa para o círculo do livro entre 1989 e 1993, e finalmente é licenciada para a editora nova cultural, onde continua a ser reeditada até 2003.
   


III.
em 2005, a editora crisálida de belo horizonte licencia e publica a admirável tradução portuguesa de urbano tavares rodrigues, intitulada decameron: ou príncipe galeotto, originalmente publicada em 1976 pela bertrand de portugal, e da qual se pode ter uma ideia lendo um trecho aqui.




quero me concentrar na tradução de raul de polillo, de 1956, e na alegada tradução de torrieri guimarães, de 1970.

já gabriel perissé, anos atrás (em 2006, para ser mais exata), havia comentado as singulares semelhanças entre elas no artigo "boccaccio e uma centena de histórias", um de seus luminosos textos sobre traduções na revista língua portuguesa. retomo uma parte do exemplo que ele deu naquela ocasião - é o início do parágrafo final do proêmio, e comento alguns aspectos:
Adunque, acciò che in parte per me s’ammendi il peccato della fortuna, la quale dove meno era di forza, sì come noi nelle dilicate donne veggiamo, quivi più avara fu di sostegno, in soccorso e rifugio di quelle che amano, per ciò che all'altre è assai l’ago e ’1 fuso e l’arcolaio, intendo di raccontare cento novelle, o favole o parabole o istorie che dire le vogliamo, raccontate in diece giorni da una onesta brigata di sette donne e di tre giovani nel pistelenzioso tempo della passata mortalità fatta, e alcune canzonette dalle predette donne cantate al lor diletto. 
em sua tradução, polillo opera mudanças sintáticas expressivas. assim é que a longa e complexa frase de seis linhas e meia se converte em cinco frases mais curtas em ordem direta, sofre algumas eliminações e apresenta poucas e simples intercalações (e não garanto que tenha captado o conteúdo original de maneira totalmente adequada):
Portanto, a fim de que para mim se corrija o pecado da Sorte, pretendo contar cem novelas, ou fábulas, ou parábolas, ou histórias, ou o que quer que sejam. A Sorte foi menos favorável, como vemos, para as delicadas mulheres, e mais avara se lhes mostrou de amparo. Em socorro e refúgio daquelas que amam, é que escrevo (porquanto, para as outras, bastam a agulha, o fuso e a roca). O que escrevo são coisas contadas, em dez dias, por um grupo honrado de sete mulheres e de três moços, na época pestilenta da passada mortandade levada a cabo. Acrescentam-se algumas cantigas das mulheres antes referidas, cantadas a seu gosto. 
goste-se ou não, aprecie-se a simplificação ou não, a intervenção de polillo é clara e inconfundível.

assim, quando se vê o trecho correspondente na tradução dita de torrieri guimarães, evidencia-se sua absoluta identidade sintática com o texto de polillo e suas intervenções na construção das frases, além de reproduzir as mesmas supressões e algumas falhas no nível semântico:
Assim sendo, para que se corrija, para mim, o pecado da Sorte, pretendo narrar cem novelas, ou fábulas, ou parábolas, ou estórias, sejam lá o que forem. A Sorte mostrou-se menos propícia, como vemos, para as frágeis mulheres, e mais avara lhes foi de amparo. Em socorro e refúgio das que amam, é que escrevo (pois, para as demais, são suficientes a agulha, o fuso e a roca). O que escrevo são as coisas contadas, durante dez dias, por um honrado grupo de sete mulheres e três moços, na época em que a peste causava mortandade. Ajuntam-se algumas cantigas das mulheres já mencionadas, cantadas à sua vontade. 
no nível lexical, vários vocábulos na tradução dita de torrieri são sinônimos aproximados dos vocábulos empregados por polillo (contar/narrar; favorável/propícia; delicadas/frágeis; referidas/mencionadas etc.), mas as alterações em relação à frase original e o corte das orações são absolutamente idênticos - está para nascer quem possa me convencer de que dois tradutores diferentes consigam picotar um original exatamente da mesma maneira e redigir dois textos estruturalmente tão similares entre si quão distantes do original.

da mesma forma, a experientíssima tradutora ivone benedetti havia constatado soluções unânimes de ambos,    igualmente "a léguas do original" e igualmente privadas de sentido.

por essa razão, eu teria muitas ressalvas a fazer antes de considerar a dita tradução de torrieri guimarães como uma tradução de direito próprio. parece pertencer mais ao campo de um simples copidesque efetuado sobre o texto de raul de polillo, dispensando o recurso ao original.

apresentarei adiante outros exemplos de comparação entre o texto de raul de polillo e o texto de torrieri guimarães, para ilustrar melhor o problema. antes disso, porém, quero apenas concluir o trecho acima apresentado:
Nelle quali novelle piacevoli e aspri casi d’amore e altri fortunati avvenimenti si vederanno così né moderni tempi avvenuti come negli antichi [...] (no original, a frase prossegue em várias orações)
raul de polillo converteu esse trecho em três frases simples e pôs um fim abrupto ao parágrafo:
Nas mencionadas novelas, aparecerão casos de amor. Uns serão agradáveis; outros escabrosos. Registrar-se-ão outros acontecimentos felizes, ocorridos tanto nos tempos modernos, como nos antigos.
torrieri guimarães seguiu fielmente o mesmo recorte:
Nas ditas novelas surgirão casos de amor. Uns agradáveis, outros escabrosos. Serão registrados outros eventos felizes, passados tanto nos tempos atuais, como nos antigos.
acompanhe a parte II aqui.