6 de set de 2011

leitora alerta

.

foi vanessa d'amato quem forneceu os elementos que me parecem justificar um cotejo entre a tradução de sodré viana (pongetti, 1942) e a tradução em nome de "waldemar rodrigues de oliveira" (itatiaia, 2008).

transcrevo aqui, com sua autorização, alguns trechos muito lúcidos e perspicazes de um gentil e-mail que vanessa me enviou há poucos dias:

... encontrei num sebo uma tradução de Jane Eyre, numa edição da Ediouro, da coleção "Clássicos de Bolso". A tradução, segundo consta da capa e da folha de rosto, é de Sodré Viana (pelo que pesquisei, uma tradução dos anos 1940, originalmente para a Pongetti Irmãos Editora). 
Pois bem. Dia desses, eu estava na Livraria Cultura e fui procurar uma edição de Jane Eyre para presentear uma amiga. Encontrei a da Editora Itatiaia, de 2008, que eu nunca havia visto até então. Resolvi folhear para ver o que achava da tradução. Logo nas primeiras frases do primeiro capítulo, levei um susto: eram idênticas, ou praticamente idênticas, às da tradução que li, da edição da Ediouro. Logo pensei: "ah, com certeza esta é a tradução do Sodré Viana". Mas ao olhar a folha de rosto, vi que o nome que constava como tradutor era outro: Waldemar Rodrigues de Oliveira. Não sendo do ramo, não conheço este tradutor. Mas continuei folheando o livro, e a primeira impressão foi se confirmando. Na verdade, eu conheço várias passagens de tradução do Viana de cor, pois a reli inúmeras vezes (pelo menos dez). E reconheci muitas delas na edição da Itatiaia. Como, por exemplo, as frases iniciais do livro, que já mencionei. O seguinte trecho (o primeiro parágrafo do livro) é uma transcrição da edição de Ediouro, que tenho diante de mim agora. E posso jurar pela minha vida que está idêntico (com exceção de talvez uma palavra ou duas, não mais que isso) ao trecho correspondente que li na edição da Itatiaia. 
"Naquele dia não fora possível um passeio. É verdade que pela manhã, durante uma hora, tínhamos brincado sob o arvoredo nu. Mas, desde o almoço (quando a senhora Reed estava sem hóspedes almoçava muito cedo) o vento do inverno trouxera nuvens tão carregadas e uma chuva tão penetrante que o ar livre havia sido posto fora de cogitações." 
E o mesmo trecho no original: 
"There was no possibility of taking a walk that day.  We had been wandering, indeed, in the leafless shrubbery an hour in the morning; but since dinner (Mrs. Reed, when there was no company, dined early) the cold winter wind had brought with it clouds so sombre, and a rain so penetrating, that further out-door exercise was now out of the question."
Pelo menos na minha opinião, as soluções trazidas pela tradução acima não são tão óbvias, não é? Não justifica as traduções serem idênticas. 
Uma outra frase me chamou muito a atenção. Lembro-me que ao lê-la na edição da Ediouro, antes mesmo de ter tido qualquer contato com o romance no original, ela já me soou muito "esquisita". É uma frase dita pelo sr. Rochester no capítulo XV,  quando Jane joga água em sua cama para acordá-lo e salvá-lo das chamas. No original, lê-se: 
“Is there a flood?” he cried.
Na tradução de Sodré Viana, essa frase ficou assim: 
"- Isto é lagoa? - gritou." 
É o tipo da frase que, mesmo para os meus ouvidos de leiga completa (e mesmo sem que eu soubesse como era essa passagem no original), soou um pouco estranha, quando li o livro pela primeira vez. Antiquada, talvez. Enfim, no mínimo, uma maneira incomum de se traduzir a frase original. Procurei a mesma passagem na edição da Itatiaia, como uma forma de "tirar a prova", pois, apesar de não ter pretensões de ser entendida no assunto, confesso que não vejo como dois tradutores, por conta própria, pudessem chegar a essa mesmíssima solução diante dessa frase. E adivinhe só? Estava idêntica à tradução acima.  
Não percebi semelhança somente nessas duas passagens que menciono, é claro, mas também em inúmeras outras. [...] A única dúvida que tenho é se há possibilidade de a tradução do Sodré Viana já ser de domínio público. Seria isso possível? As regras de copyright de traduções são as mesmas do copyright de obras originais? Pensei também na hipótese de a a editora detentora dos direitos da tradução do Viana tê-los cedido à Itatiaia, mas, se assim for, não entendo por que fizeram constar Waldemar Rodrigues de Oliveira como tradutor na edição da Itatiaia. 
agora é esperar chegarem os exemplares que encomendei e avaliar a extensão da coisa. por ora, como leitora, tradutora e apreciadora de nossa memória cultural, deixo aqui meu agradecimento à vanessa pelo alerta.

imagem: plagiarius
.

3 comentários:

  1. Vanessa6.9.11

    de nada, denise! às ordens! :)

    aguardarei ansiosamente os resultados da sua pesquisa. gostaria de estar enganada, mas, como mencionei no meu email, de minha parte estou convencida de que algum caroço tem nesse angu. vejamos...

    um abraço,

    vanessa

    ResponderExcluir
  2. "There was no possibility of taking a walk that day. We had been wandering, indeed, in the leafless shrubbery an hour in the morning…"

    "Naquele dia não fora possível um passeio. É verdade que pela manhã, durante uma hora, tínhamos brincado sob o arvoredo nu…"

    Copiar tradução ruim é o fim da picada, hem?

    ResponderExcluir
  3. hahaha, exato, perma, fica ainda mais absurdo.

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.