31 de dez de 2008

encerrando o ano (mais chatterley)

























em 2 posts anteriores, e isso, é certo? e richter, comentei a edição de o amante de lady chatterley, atualmente na coleção de bolso da record, e solenemente plagiada pela martin claret sob as complacentes barbas de sua colega.

continuei um pouco as pesquisas, e a história dessa tradução recua ainda mais no tempo.

a tradução que aparece na civilização brasileira em nome de rodrigo richter, em 1959, na verdade foi publicada inicialmente em 1938, pela agência minerva. a página de rosto dessa edição de 1938 já traz os dizeres "versão integral inexpurgada", e na página da imprenta consta "versão autorizada". não consta o nome do tradutor.


a agência minerva publica uma segunda edição em 1941 e uma terceira em 1946, com o apêndice "em defesa de 'lady chatterley'".

em 1956 o título reaparece na civilização brasileira, onde segue sua carreira por algumas décadas. é apenas em 1959 que a civilização brasileira acrescenta em suas edições os créditos de tradução em nome de "rodrigo richter", o qual se mantém até hoje, no catálogo da record.

com esses achados, o caso parece se tornar ainda mais interessante. trata-se de uma tradução que vem desde 1938, tendo portanto completado 70 anos de existência.

quanto ao verdadeiro tradutor, que se manteve anônimo por vinte anos, não posso afirmar nada. "rodrigo richter" pode ser um pseudônimo, pode ser um nome emprestado, pode ser alguém de verdade. isso, decerto, a record há de saber melhor do que eu.

quanto à sua edição inicial em 1938, o curioso é que foi publicada pela agência minerva. em seu reduzidíssimo catálogo, constam na mesma época a publicação de um livro de l. bertrand, a maçonaria, seita judaica: suas origens, sagacidade e finalidades anticristãs (1938), em alardeada tradução do integralista e anti-semita gustavo barroso; o famosíssimo os protocolos dos sábios de sião (1936), traduzido, anotado, comentado e "apostilado" também por ele; e ainda o grande processo de berna sobre a autenticidade dos "protocolos" - provas documentais (1936), do mesmo gustavo barroso.

na mesma década de 1930, gustavo barroso publicou várias obras pela civilização brasileira, pela nacional e pela brasiliana (as colunas do templo; brasil, colônia de banqueiros; judaísmo, maçonaria e comunismo; a história secreta do brasil em 3 vols.; história militar do brasil). até os anos 1950 fazia parte do quadro de sócios da civilização brasileira, ainda subsidiária da companhia editora nacional.

isso parece sugerir vivamente que a conexão entre a agência minerva e a civilização brasileira, com a migração de o amante de lady chatterley, teria se dado por meio de gustavo barroso.

a curiosidade que fica é como, em primeiro lugar, a agência minerva teria decidido publicar em seu microcatálogo um título decididamente polêmico, ao lado de peças de propaganda anti-semita traduzidas ou "apostiladas" pelo mais ruidoso e profícuo ideólogo integralista do país. [aqui talvez fosse o caso de se levarem em conta as posições protofascistas de lawrence, que certamente seriam prato cheio para alimentar a propaganda integralista no brasil...]

humildemente julgo que a própria vetustez da tradução em si poderia fornecer bons subsídios para o estudo de práticas tradutórias do passado. além disso, um estudo desses entrelaçamentos editoriais ajudaria a compor em mais detalhes o cenário ideológico e cultural da primeira metade do século 20. talvez resultasse algo mais interessante do que esses trabalhos de pobres aluninhos enganados, que se dedicam pacientemente a estudar as "traduções" de jean melville, alex marins, pietro nassetti, enrico corvisieri, mirtes ugeda, fábio m. alberti e così via.

tanto mais fortes razões, a meu ver, para que a record proteja esse patrimônio, sob sua guarda e responsabilidade, contra apropriações da martin claret e outras quaisquer.

até 2009!

2 comentários:

  1. Anônimo1.1.09

    já de volta, denise? Mas nem mesmo o macdonald's abre hoje... ;) Bom, este seu colaborador já tá ti, já tá ti lêndiu já.
    eu raramente discordo de vc de vez em quando... como v sabe. Olha só: esses estudantes que v mencionou, e menciona sempre (criminosamente obrigados pelas editoras malvadas e capitalistas a tirar xerox de tudo o que vêem pela frente, cuitadus..., naquelas pobres lojas xerocopiadoras lumpem-proletariadas, que mal se mantêm na ativa com o quê? 5, 6 enorme$ máquina$ funcionando noite e dia a todo vapor $$$$), como dizia, esses estudantes não estão tão mal servidos assim de tradutores. Tomemos o caso, por exemplo, do Fábio Alberti (nome dotado de sonoridade ímpar, v há de convir). Esse Fábio seria o suposto tradutor do Cyrano na nova aversão da sacaneal. Segundo v mesma já afirmou, essa verchão traz o mesmo texto tão conhecido do Porto Carreiro. Ora, se o texto é do Porto não tem pq ficar cabreiro. E o texto é mesmo dele; então, ondé que os "aluninhos" saem perdendo? Acho que eles ficam sussa, ficam bem na fita: têm um texto ótimo pra estudar, coitados, entre uma e outra invasão e quebra-quebra de reitoria (denise, definitivamente v tá me devendo uma vítima que funcione... ;)). O mesmo serve para o texto da divina comédia: foi atribuído a outra pessoa, ao fábio etc. O texto é do hernani donato, que já está sendo ressarcido, ao que me parece.

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  2. prezado anônimo

    o que me intriga é o seguinte: se vc acha irrelevante, ridículo e descabido esse trabalho, se plágio não só não é problema, como também é ótimo porque permite um vasto acesso a algumas obras, e todas essas outras considerações que vc tem feito, então não entendo por que vc se dá à pachorra...
    afinal, mesmo humor involuntário deve enjoar e acaba sendo meio repetitivo, não é verdade?
    vc encafifou com o caso do tal alberti - tem tanta gente mais na turminha ou ex-turminha da nc... fora as baixarias da claret e outras mais.
    agora, se vc acha tudo isso meio irrelevante, então qual seria o ponto? nenhum, a não ser querer polemizar. e aí também... tenha dó!

    sim, pelo que hernâni disse, agora em janeiro deve sair algum acerto. sim, ele trabalhou dez anos na abril, nos anos 70.
    sim, é por isso que aquele que vc chama de "sangue bão" o pressionou bastante em termos afetivos e emocionais durante algum tempo.
    não, hernâni não é um solene desconhecido.
    não, hernâni não é fábio alberti.
    não, não é irrelevante que as pessoas tenham um mínimo de senso das coisas.

    e, até sair uma reforma do vocabulário da língua portuguesa, entendo alguém que foi atingido por um ato de vandalismo, imoralidade ou delinquência como "vítima", sim senhor.

    um bom 2009 para vc.

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