12 de jan de 2010

record, recapitulando

um ano e meio atrás, entrei em contato com o grupo editorial record, primeiro por telefone e depois por e-mail, sobre duas questões.

- a primeira delas era o caso de o amante de lady chatterley, na tradução de rodrigo richter, que passara a integrar o catálogo da bestbolso/record. a obra tinha sido integralmente plagiada, sem rebuços, pela editora martin claret, que atribuía a autoria da tradução a um fantasmático "jorge luís penha". veja aqui o cotejo.

essa tradução que traz o nome de rodrigo richter tem uma história muito interessante, que remonta aos anos 1930. sobre sua curiosa trajetória, ver richter e encerrando o ano (mais chatterley).

avisei a record do plágio, lembrei a ela que nós leitores podemos nos sentir um tanto confusos diante de duas traduções idênticas atribuídas a duas pessoas diferentes, e opinei que seria muito bom se ela pudesse sanar esse problema.

- a segunda questão se referia a orgulho e preconceito de jane austen, que consta no catálogo da bestseller/record com tradução atribuída a "enrico corvisieri". quem acompanhou a história das fraudes na editora nova cultural está familiarizado com o nome desse fantasma. quem não conhece, pode ver os nomes das obras espúrias em nome do referido corvisieri aqui (coleção "imortais da literatura universal" e coleção "obras-primas") e aqui (coleção "os pensadores").

como o grupo record havia adquirido a editora bestseller, até então pertencente (tal como a editora nova cultural) ao grupo c.l.c. do sr. richard civita, naturalmente os direitos patrimoniais sobre orgulho e preconceito nesta versão em português passaram a pertencer ao grupo record, que continuou a publicá-la.

a resposta que recebi na época foi:

"Prezada Senhora Denise,

Com relação aos seus emails de 10/09/2008 e 12/09/2008, sobre a autenticidade das traduções de diversas obras publicadas por nosso grupo editorial, cumpre-nos informar que:
(1) Os direitos autorais sobre as obras em domínio público, antes publicadas pela Editora Nova Cultural, foram adquiridos como parte do acervo daquela editora. Os contratos e informações disponíveis foram examinados por auditores independentes e, dentro das limitações da auditoria, as falhas observadas foram e serão adequadamente corrigidas;
(2) As obras de domínio público publicadas pelo nosso grupo editorial são revistas regularmente e, em muitos casos, as traduções são totalmente refeitas, de modo a corrigir e atualizar os textos;
(3) Nossa empresa não firmou qualquer acordo de co-edição com as editoras mencionadas em seus emails e desconhece a utilização de nossos textos por essas editoras;
(4) Nossa empresa aguardará qualquer iniciativa dos interessados diretos, os tradutores dessas obras, que são os titulares dos eventuais direitos, na forma da lei.
Cordialmente,
Sérgio França
Coordenador editorial
Editora Record"

tirando o detalhe de que tais traduções não são obras em domínio público, longe disso, fiquei um tanto perplexa com a posição do coordenador editorial da record exposta no item 4. expressei meu desconforto em e isso, é certo?

em dezembro passado, resolvi retomar o contato com a record. desta vez falei com um outro rapaz da best-seller. a seu pedido, coloquei a questão em e-mail e enviei a seus cuidados:

"conforme lhe expus por telefone na semana passada, a best-seller da record tem em catálogo uma edição de orgulho e preconceito na pretensa tradução de enrico corvisieri, que é bastante problemática em termos de confiabilidade.

"não só essa edição é uma contrafação atamancada da clássica tradução de lúcio cardoso, como 'enrico corvisieri' é um nome fictício utilizado por muitos anos em edições publicadas pela nova cultural, a bem dizer desde 1995 até data recente. foi muito empregado para acobertar fraudes de tradução, e a própria nova cultural já retirou de catálogo, faz uns dois anos, todas as edições com tradução atribuída ao tal 'enrico corvisieri'.

"eu já tinha avisado a record cerca de um ano e meio atrás, conversei com várias pessoas, e afinal um rapaz muito atencioso, cujo nome infelizmente não lembro, tentou averiguar melhor por que essa tradução espúria de orgulho e preconceito em nome de enrico corvisieri estava no catálogo de vcs. conforme ele me explicou, essa tradução veio no catálogo da bestseller quando da aquisição pela record. depois tentei novamente alertar a record por e-mail em relação a este caso e ao caso de o amante de lady chatterley (que é um pouco diferente; trata-se da apropriação da obra do catálogo da record em plágio publicado pela martin claret), mas em sua resposta o sr. sérgio frança considerou que seria um problema que competiria apenas aos tradutores lesados.

"humildemente permito-me discordar desta posição, pois considero que é um direito do leitor-consumidor ter acesso a informações corretas, e que cabe às editoras se assegurarem de oferecer produtos idôneos ao público.

"é por isso que volto a solicitar uma vez mais à record que reconsidere a presença dessa obra falsificada em seu catálogo.

"agradeço
denise bottmann


enquanto aguardamos manifestação da record, passo a apresentar os cotejos entre a tradução legítima de lúcio cardoso e essa tradução espúria de orgulho e preconceito.

imagem: oclick
obs.: atualização - como a identificação deste último contato na record é irrelevante para a questão mais geral, retirei o nome a pedido seu.

3 comentários:

  1. Haroldo Barbosa Filho12.1.10

    Plágio x ética

    Li seu post a respeito dos problemas envolvendo plágio e a posição estranha da Record. Mas, em especial, chamou minha atenção o nome de uma outra editora: Martin Claret. Há uns dois anos, entrei em contato com eles para saber do interesse na análise de um original. A resposta obtida por telefone foi: "Não analisamos originais... só publicamos obras de domínio público". Por quê? Óbvio: essa "editora" não se preocupa com literatura, mas com um produto que lhe custe pouco (ou nada) e resulte em maiores ganhos. Ou seja, ela tem uma odiosa visão mercantilista, da qual o autor não faz parte. Perdoe pela ligeira guinada no foco do seu post (as traduções); minha intenção foi a de demonstrar compreensão por sua indignação... e também dizer que os profissionais, de uma maneira geral, sofrem nas mãos de um setor pouco ético.

    via facebook

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  2. Anônimo12.1.10

    Olá Denise

    Bom, tu não deves me conhecer, mas acompanho o teu excelente trabalho no blog Não Gosto de Plágio. Divulguei a vergonhosa resposta da editora record no fórum Meia Palavra, onde discutimos literatura e assuntos correlatos, e o pessoal ficou empolgado com teu trabalho e pensamos em te convidar para passar por lá. O link do tópico em que discutimos os plágios de tradução é este:

    http://www.meiapalavra.com.br/showthread.php?tid=444

    e o link do fórum é esse: www.meiapalavra.com.br


    Michelle Müller

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  3. Obrigado sobre o comentário sobre a obra que Enrico traduziu. Quase comprei um livro dos pensadores com a tradução dele.
    Grato

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