15 de jan de 2009

então a landmark pegou gosto pela coisa?

publicado inúmeras vezes no brasil, o morro dos ventos uivantes já apareceu nas traduções de rachel de queiroz, celestino da silva, vera pedroso, oscar mendes, davi jardim jr., renata cordeiro com eliane alambert, levando até uma tremenda garfada da nova (in)cultural (em nome de silvana laplace, plagiando oscar mendes).


a nova garfada agora quem dá é a landmark, em cima da tradução de vera pedroso (publicada pela bruguera em 1971, reeditada pela art em 1985, para o círculo do livro).

no exemplar impresso, a façanha é assinada por outro nome. já na agência do isbn, como comentei na semana passada, a suposta tradução consta em nome de uma misteriosa "ana maria oliveira rosa".

afora o habitual procedimento de mudar uma parte das frases iniciais dos capítulos, é um plágio sem maiores rebuços, e até reproduzindo os mesmos saltos de palavras e orações.
The little party recovered its equanimity at sight of the fragrant feast. They were hungry after their ride, and easily consoled, since no real harm had befallen them. Mr. Earnshaw carved bountiful platefuls, and the mistress made them merry with lively talk. I waited behind her chair, and was pained to behold Catherine, with dry eyes and an indifferent air, commence cutting up the wing of a goose before her.
Os dois visitantes voltaram a sorrir à vista da esplêndida mesa. Estavam famintos, após a viagem, e, como nada de mau lhes acontecera, não tardaram a se reanimar. O Sr. Earnshaw serviu grandes pratadas e sua esposa iniciou uma conversa animada. Eu estava atrás da cadeira dela e fiquei triste de ver Catherine, olhos secos e ar indiferente, começar a cortar uma asa de ganso. (Vera Pedroso, Art, p. 76)
Os dois visitantes voltaram a sorrir à vista da esplêndida mesa. Estavam famintos após a viagem e, como nada de mau lhes acontecera, não tardaram a reanimar-se. O senhor Earnshaw serviu grandes pratadas e sua esposa iniciou uma conversa animada. Eu estava atrás da cadeira dela e fiquei triste em ver Catherine, olhos secos e ar indiferente, começar a cortar uma asa de ganso. (Landmark, p. 55)








Cathy was a powerful ally at home; and between them they at lenght persuaded my master to acquiesce in their having a ride or a walk together about once a week, under my guardianship, and on the moors nearest the Grange: for June found him still declining. Though he had set aside yearly a portion of his income for my young lady's fortune, he had a natural desire that she might retain - or at least return in a short time to - the house of her ancestors [...]
Por seu lado, Cathy não cessava de suplicar a mesma coisa; e ambos acabaram persuadindo o meu amo a deixá-los passear a pé ou a cavalo juntos, uma vez por semana, sob a minha guarda e na charneca vizinha à granja, pois junho veio encontrá-lo ainda mais fraco, e, embora tivesse posto de lado uma parte do seu rendimento anual para o futuro da filha, ele alimentava o desejo natural de que ela viesse a conservar a casa dos seus antepassados [...] (Vera Pedroso, Art, p. 284)
Por seu lado, Cathy não cessava de suplicar a mesma coisa em casa; e ambos acabaram persuadindo meu patrão a deixá-los passear a pé ou a cavalo juntos, uma vez por semana, sob a minha guarda e na charneca vizinha à granja, pois junho veio encontrá-lo ainda mais fraco, e, embora tivesse separado uma parte do seu rendimento anual para o futuro da filha, alimentava o desejo natural de que ela viesse a conservar a casa dos antepassados [...] (Landmark, p. 227)








I felt stunned by the awful event; and my memory unavoidably recurred to former times with a sort of oppressive sadness. But poor Hareton, the most wronged, was the only one who really suffered much. He sat by the corpse all night, weeping in bitter earnest. He pressed its hand, and kissed the sarcastic, savage face that every one else shrank from contemplating; and bemoaned him with that strong grief which springs naturally from a generous heart, though it be tough as tempered steel.
Quanto a mim, estava perplexa - e a minha memória pôs-se a recordar tempos passados, com uma espécie de opressiva tristeza. Mas foi o pobre Hareton, precisamente o mais injustiçado, o único a sofrer realmente muito. Velou o corpo durante toda a noite, chorando sem parar. Apertava-lhe a mão, beijava-lhe o rosto sarcástico e terrível, que todos os demais evitavam contemplar, e carpia-o como só sabem fazer os corações generosos, embora endurecidos como aço temperado. (Vera Pedroso, Art, p. 368)
Quanto a mim, estava perplexa - e minha memória pôs-se a recordar tempos passados, com uma espécie de opressiva tristeza. Mas foi o pobre Hareton, precisamente o mais injustiçado, o único a sofrer realmente muito. Velou o corpo durante a noite toda, chorando sem parar. Apertava-lhe a mão, beijava-lhe o rosto sarcástico e terrível, que todos os demais evitavam contemplar, e carpia-o como só o sabem fazer os corações generosos, embora endurecidos como aço temperado. (Landmark, p. 293)
só para mostrar como as traduções são únicas e irrepetíveis - uma frase muito simples deste último trecho, "I felt stunned by the awful event", fica:
- para vera pedroso: "Quanto a mim, estava perplexa";- para rachel de queiroz: "Eu me sentia aturdida ante a pavorosa ocorrência";- para celestino da silva: "Eu fiquei bastante impressionada com o tristíssimo acontecimento";- para oscar mendes: "Sentia-me aturdida pelo terrível acontecimento".
também fico "stunned by the awful event". não bastava o uso da persuasão de isabel sequeira, perpetrado pelo sr. fábio cyrino, que em sua singela vaidade alardeou na imprensa seu suposto trabalho de tradução, prossegue a pilhagem. ademais, se lembrarmos que a landmark é uma editora basicamente maçônica, e que "landmarks" são os princípios basilares que sustentam a doutrina da maçonaria, essa desmoralização editorial e cultural praticada pelos irmãos cyrino adquire uma faceta tristemente irônica.

espero vivamente que a editora não ceda à ilusão do lucro fácil, não siga na trilha da nova (in)cultural e da martin claret. do logro e da mentira não resulta boa coisa. srs. cyrino, assim como os senhores lançaram esses livros fraudados, venham a público e retirem essas barbaridades de circulação.

imagens: museum plagiarium em solingen

obs.: veja aqui as razões para a modificação deste post, feita em 20/01/2009.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

18 comentários:

  1. A cultura da fraude intelectual parece estabelecida.

    Vamos acreditar que,com calma e determinação, um dia isso vai passar!


    Um abraço.

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  2. E esse é o Brasil como a gente conhece... =~~

    "Nada se cria, tudo se copia... Mas coloca uma maquiagem pra ninguém perceber"

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  3. É uma coisa triste.
    Abraço e obrigado
    Luiz

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  4. Ia defender o pobre, o inocente do revisor. Mas depois desse "injutiçado", não dá...

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  5. oooops, aí a falha foi minha mesmo, na digitação!
    obg, já corrigi ;-)

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  6. Oséias15.1.09

    Oi, Denise

    Fico cada dia mais desanimado com a falta de caráter dessas pessoas.
    Olha que tenho aqui na Crisálida Livraria exemplares da edição de "Persuasão" da Landmark; já vendemos vários, pois a edição da Francisco Alves está esgotada. Parece-me que a Landmark é a única disponível.
    Será que os "Contos completos" de oscar Wilde também são plágios??? Deu vontade de conferir...

    Vou suspender as vendas e deixar de comprar deles até que se pronunciem sobre os plágios.

    abraço,
    Oséias

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  7. Quanto a mim, fiquei perplexa, impressionada e aturdida, diante desse terrível plágio descarado, tristíssimo e pavoroso, por sinal.

    Parabéns pelo trabalho!

    Abraços,

    Simone

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  8. :))) pois não é mesmo? sempre achei que existe uma espécie de sibila embutida nos textos ;-)

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  9. Denise,
    eu agora desconfio de todos os livros da landmark.
    Estou aguardando pronunciamento pra saber o que farei com as minhas informações no Jane Austen em português.

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  10. Mesmo assim, Denise (quem não tem seus vícios de digitação?) Você vê que alguém mexeu no texto no intuito sincero de melhorá-lo. Certamente a pobre criatura não percebeu que se tratava de um plágio.

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  11. Geraldo Holanda Cavalcanti17.1.09

    Denise querida,
    É trite, muito triste. É furto. Não há leis que protejam o autor (no caso, o tradutor) de uma apropriação indébita? Tenho a impressão de que somente uma "cause célebre" na justiça, um escândalo, poderia desencorajar esas empresas criminosas de continuarem impunes. Mas como fazê-lo?
    Abraço solidário
    Geraldo Cavalcanti

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  12. prezado amigo:
    sim, é muito triste.
    leis de proteção ao tradutor até existem. mas como em geral são falecidos ou são de portugal, os herdeiros nem se interessam muito.
    o maior problema é que não existe lei que proteja o leitor! se for pelo código do consumidor, a ação é contra a livraria que vende os livros... afora isso, é só através do ministério público em brasília, se achar pertinente a denúncia.
    as editoras lesadas que detêm os direitos legítimos das traduções também preferem não mexer muito no assunto, um pouco por esprit de corps. as exceções são poucas: a crisálida, a hedra e a L&PM.

    enquanto isso, vamos alertando as pessoas, até surgir uma ocasião mais propícia ou um escritório de advocacia que aceite bancar a causa.

    abraço
    denise

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  13. Geraldo H. Cavalcanti17.1.09

    Obrigado, Denise, pela atenta resposta. Como você diz, o importante é manter a tocha acesa, na esperança de que as pessoas interessadas comecem a perceber a responsabilidade que têm no assunto e se mobilizem.
    Um abraço
    Geraldo

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  14. Mayara Zimmermann25.3.09

    Por gentileza...

    Dentre essas traduções, plágio ou não, qual voce me aconselharia ? Estou querendo comprar a obra, mas antes quero estudar as opções de tradução para escolher a mais fiel ou a que cause um impacto maior.

    Estou entre Rachel de Queiroz e Oscar Mendes. Qual vc me sugeria?

    Obrigada.

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  15. prezada mayara: plágio eu jamais recomendaria. quanto às legítimas, fica ao gosto de cada um :)

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  16. Anônimo1.3.10

    rsrsrs
    achei engraçada a resposta acima. resumindo: recomendar não é contigo.
    também achei interessante o fato de você não usar maiúsculas, como eu estou fazendo agora.
    para mim, mais do que o plágio das traduções, o incrível foi descobrir esta "digital" de traduções! como é impossível haver duas iguais!
    agora entendo por que o Mindler lia todas as traduções dos seus livros preferidos.
    parabéns pelo blog. trabalho fantástico.

    ps.: Por que não usar maiúscula. É só pela personalidade que passsa?

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  17. prezado anônimo, feliz expressão a "digital" das traduções!
    minúsculas... excesso de cummings na infância, quiçá ;-)

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  18. interessante suas observações, puxa você deve ser muito detalhista para ficar lendo o mesmo livro publicado por diversas editoras, parabéns...

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