31 de jan de 2009

jack london na claret


mais um cotejo que estava no fundo do baú: jack london, white fang.

caninos brancos teve várias traduções no brasil, desde a primeira feita por monteiro lobato até a mais recente de rosaura eichenberg.

a insaciável claret recorreu ao infatigável nassetti, garfando a tradução portuguesa de olinda gomes fernandes, pela editora civilização, porto, 1969. a tradução de olinda traz o nome de colmilhos brancos, mas a inclemente claret preferiu a forma consagrada no brasil, caninos brancos mesmo.

este plágio traz as substituições habituais na claret - alterações cosméticas da primeira frase; troca de termos menos usuais, como "arrostar" por "enfrentar", "cabedal" por "couro macio", "terra ártica" por "terra do pólo norte" e assim por diante.

Capítulo I.
- civilização:
[...] Um vento recente arrancara às árvores o seu manto de geada, e elas pareciam inclinar-se umas para as outras, negras e agoirentas, na luz agonizante. Reinava sobre a paisagem um silêncio imenso. Aquela região era desolada, sem vida, sem movimento, tão só e gelada que a palavra tristeza não chegava para a descrever. Havia nela uma sugestão de riso, mas de um riso mais terrível que qualquer tristeza - um riso sem alegria, como o sorriso da esfinge, um riso frio como o gelo e com algo do horror da infalibilidade. Era a sabedoria despótica e incomunicável do riso eterno perante a futilidade e os esforços da vida. Era a terra árctica, agreste e gelada. (olinda gomes fernandes)

- claret:
[...] Um vento recente arrancara às árvores o seu manto de geada, e elas pareciam inclinar-se umas para as outras, negras e agourentas, na luz agonizante. Reinava sobre a paisagem um silêncio imenso. Aquela região era desolada, sem vida, sem movimento, tão só e gelada que a palavra tristeza não era suficiente para a descrever. Havia nela uma sugestão de riso, mas de um riso mais terrível que qualquer tristeza - um riso sem alegria, como o sorriso da esfinge, um riso frio como o gelo e com algo do horror da infalibilidade. Era a sabedoria despótica e incomunicável do riso eterno perante a futilidade e as agruras da vida. Era a terra do pólo Norte, agreste e gelada. (pietro nassetti)

Capítulo III
- civilização:
[...] Henry sentou-se no trenó e ficou a observar. Não podia fazer mais nada, já perdera de vista o companheiro; mas, de vez em quando, aparecendo e desaparecendo por entre os grupos isolados de árvores, lobrigava o Desorelhado. Calculou que o cão estava perdido. Dir-se-ia que o próprio animal tinha consciência do perigo em que se encontrava, mas corria traçando um extenso círcuo exterior, enquanto a alcateia de lobos se movimentava num círculo interior e mais acanhado. Tornava-se fútil admitir a possibilidade de o cão ultrapassar o círculo formado pelos seus perseguidores e conseguir alcançar o trenó. (olinda gomes fernandes)

- claret:
[...] Henry sentou-se no trenó e ficou a observar. Não podia fazer mais nada, já perdera de vista o companheiro; mas, de vez em quando, aparecendo e desaparecendo por entre os grupos isolados de árvores, lobrigava o Desorelhado. Calculou que o cão estava perdido. Dir-se-ia que o próprio animal tinha consciência do perigo em que se encontrava, mas corria traçando um extenso círcuo exterior, enquanto a alcatéia de lobos se movimentava num círculo interior e mais acanhado. Tornava-se fútil admitir a possibilidade de o cão ultrapassar o círculo formado pelos seus perseguidores e conseguir alcançar o trenó. (pietro nassetti)

Último capítulo
- civilização:
[...] A este não se podia censurar o seu juízo errado. Passara toda a vida a tratar seres humanos, produtos de uma civilização que os enfraquecera, que levavam vida fácil e descendiam de muitas gerações criadas de igual modo. Comparados com Colmilhos Brancos, não passavam de entes frágeis e débeis, incapazes de se agarrarem à vida com força suficiente. Ele vinha directamente da selva; no meio onde se criara, os fracos não subsistem; e não havia quaisquer contemplações. (olinda gomes fernandes)

- claret:
[...] A este não se podia censurar o seu juízo errado. Passara toda a vida a tratar seres humanos, produtos de uma civilização que os enfraquecera, que levavam vida fácil e descendiam de muitas gerações criadas de igual modo. Comparados com Caninos Brancos, não passavam de entes frágeis e débeis, incapazes de se agarrarem à vida com força suficiente. Ele vinha diretamente da selva; no meio onde se criara, os fracos não subsistem; e não havia quaisquer contemplações. (pietro nassetti)

em tempo: outra coisa absolutamente obrigatória nos livros é a ficha catalográfica. esqueci de comentar que a claret não é dada a tais vezos, sequer a colocar o nome original da obra na página de créditos.

em compensação, ela nunca se esquece de especificar "copyright desta tradução: editora martin claret, ano tal", nem de estampar cinicamente, na primeira página, o soturno selo da abdr: "cópia não autorizada é crime: respeite o direito autoral".

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagens: capa ed. civilização, 1969; selo da abdr

4 comentários:

  1. Duvido muito que o senhor Martin Claret exponha sua própria buzanfa a uma cadeira, quinze minutos que sejam, pra pegar um arquivo e fazer substituições malandrinhas. Deve haver um ente que faz isso pra ele.

    Portanto, já tenho uma ocupação para o Sindicato dos Trabalhadores em Empresas etc. etc. etc. (o sindicato dos revisores): fazer uma campanha entre associados e não associados para que não se prestem a trabalhos desse jaez.

    Há muitos anos quase caí nesse conto: uma editora me fez ver que havia uma "intransigência da Brasiliense para liberar um texto, que a negociação estava em curso e que eu poderia ir adiantando" um "copidesque".

    Ainda bem que fui chatinha e recusei.

    Revisores deviam parar com essa postura de fazer o que mandam, sem raciocinar e sem buscar informações. Principalmente quando não conhece bem a editora para a qual presta um serviço.

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  2. yessss, grande leticia!

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  3. Ricardo Ferreira1.2.09

    Ah, Denise, acho que vc "exagera". O pobrezinho usou "agourenta" ao invés de "agoirenta". Totalmente diferente o texto, até acho que a portuguesa agiu de ma-fé: fez um plágio antecipado!

    Agora sério; preciso ver se tenho a primeira edição que tenho do Lobato e comparar com esses trecho que vc citou.

    Abraços e, mais uma vez, parabéns pelo trabalho (e que trabalho) de desmascarar essa pilantragem toda.

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  4. que legal, ricardo, faça isso sim, por favor! ontem me bateu uma coisa, até pensei em pôr no post: tinha ficado no baú porque não conheço a trad. do lobato, vai que é ela que está por trás dessas duas...
    vi o currículo da moça (ou sra.), tem muita coisa, parece séria; reli umas vinte vezes o texto dela, tem umas ressonâncias que me deixaram meio esperta, mas tem também coisas meio desajeitadas que duvido que o lobato fizesse, mas sempre é bom rastrear.
    acabei publicando porque, em todo caso, a jusante está o plágio incontestável.

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