16 de set de 2009

brasil, meu brasil brasileiro

trata-se da obra de thomas more, utopia, na edição da rideel (2005), com os aportes atribuídos a "heloísa da graça burati" que a editora trouxe à tradução de luís de andrade (atena, 1937; e inúmeras reedições, também em outras editoras). a conhecida tradução de luís de andrade se encontra disponível para download no portal de domínio público do mec.



1. luís de andrade
Rafael Hitlodeu (o primeiro destes nomes é o de sua família) conhece bastante bem o latim e domina o grego com perfeição. O estudo da filosofia ao qual se devotou exclusivamente, fe-lo cultivar a língua de Atenas de preferência à de Roma. E, por isso, sobre assuntos de alguma importância, só vos citará passagens de Sêneca e de Cícero. Portugal é o seu país. Jovem ainda, abandonou seu cabedal aos irmãos; e, devorado pela paixão de correr mundo, amarrou-se à pessoa e à fortuna de Américo Vespúcio. Não deixou por um só instante este grande navegador, durante as três das quatro últimas viagens, cuja narrativa se lê hoje em todo o mundo. Porém, não voltou para a Europa com ele. Américo, cedendo aos seus insistentes pedidos, lhe concedeu fazer parte dos VINTE E QUATRO ficaram nos confins da NOVA-CASTELA. Foi, então, conforme seu desejo, largado nessa margem; pois, o nosso homem não teme a morte em terra estrangeira; pouco se lhe dá a honra de apodrecer numa sepultura; e gosta de repetir este apotegma: O CADÁVER SEM SEPULTURA TEM O CÉU POR MORTALHA; HÁ POR TODA A PARTE CAMINHO PARA CHEGAR A DEUS. Este caráter aventureiro podia ter-lhe sido fatal, se a Providência divina não o tivesse protegido. Como quer que fosse, depois da partida de Vespúcio ele percorreu, com cinco castelhanos, uma multidão de países, desembarcou em Taprobana, como por milagre, e daí chegou em Calicut, onde encontrou navios portugueses que o reconduziram ao seu país, contra todas as expectativas.

2. "heloísa da graça burati"
Rafael Hitlodeu (o primeiro destes nomes é o de sua família) conhece bastante [] o latim e domina o grego com perfeição. O estudo da filosofia, ao qual se dedicou exclusivamente, fez com que ele cultivasse a língua de Atenas de preferência à de Roma. E, por isso, sobre assuntos de alguma importância, só vos citará passagens de Sêneca e de Cícero. Portugal é o seu país de origem. Jovem ainda, deixou suas propriedades aos cuidados dos irmãos e, devorado pela paixão de correr mundo, amarrou-se à pessoa e à fortuna de Américo Vespúcio. Não deixou por um só instante este grande navegador, durante [] três das quatro últimas viagens, cuja narrativa é conhecida hoje em todo o mundo. Porém, não voltou para a Europa com ele. Américo, cedendo aos seus insistentes pedidos, concedeu-lhe fazer parte dos 24 homens que ficaram nos confins da Nova-Castela. Foi, então, conforme seu desejo, largado nessa margem, pois o nosso homem não teme a morte em terra estrangeira; pouco lhe importa [] apodrecer numa sepultura; e gosta de repetir estes provérbios: 'O cadáver sem sepultura tem o céu por mortalha', e 'há por toda a parte caminho para chegar a Deus'. Este caráter aventureiro podia ter-lhe sido fatal, se a providência divina não o tivesse protegido. Seja como for, depois da partida de Vespúcio ele percorreu, com cinco castelhanos, uma multidão de países, desembarcou em Taprobana, como por milagre, e daí chegou em Calicute, onde encontrou navios portugueses que o reconduziram ao seu país, contra todas as expectativas.


1. luís de andrade
Assim que Rafael terminou sua narrativa, veio-me à mente quantidade de coisas que me pareceram absurdas nas leis e costumes utopianos, tais como seu sistema de fazer a guerra, o culto, a religião e várias outras instituições. O que sobretudo transtornava todas as minhas idéias era o alicerce sobre que foi erguida esta estranha república, quero dizer, a comunidade de vida e de bens, sem tráfico de dinheiro. Ora, esta comunidade destrói radicalmente toda nobreza e magnificência, todo esplendor e majestade - coisas que, aos olhos da opinião pública, fazem a honra e o verdadeiro ornamento de um Estado. Não apresentei, entretanto, a Rafael, nenhuma objeção, porque o sabia fatigado da longa narrativa. Por outro lado, não estava certo de que suportasse pacientemente a contradição. Lembrava-me te-lo visto censurar com vivacidade a certos contraditores, repreendendo-lhes temerem passar por imbecis, se nada encontravam a objetar às invenções dos outros.
Pus-me, então, a louvar as instituições utopianas e a narrativa feita. Depois tomei pela mão o narrador, a fim de levá-lo a cear, e prometi que, de outra feita, teríamos ocasião de meditar mais profundamente sobre essas matérias, e de juntos conversar mais demoradamente.
Praza a Deus que isto aconteça algum dia!
Porque, se de um lado não posso concordar com tudo o que disse este homem, aliás incontestavelmente muito sábio e muito hábil nos negócios humanos, de outro lado confesso sem dificuldade que há entre os utopianos uma quantidade de coisas que eu aspiro ver estabelecidas em nossas cidades.
Aspiro, mais do que espero.

2. "heloísa da graça burati"
Assim que Rafael terminou sua narrativa, veio-me à mente uma quantidade de coisas que me pareceram absurdas nas leis e costumes utopianos, tais como seu sistema de fazer a guerra, o culto, a religião e várias outras instituições. O que sobretudo transtornava todas as minhas idéias era o alicerce sobre o qual foi erguida esta estranha república, quero dizer, a comunidade de vida e de bens, sem tráfico de dinheiro. Ora, esta comunidade destrói radicalmente toda nobreza e magnificência, todo o esplendor e majestade - coisas que, aos olhos da opinião pública, fazem a honra e o verdadeiro ornamento de um Estado. Não apresentei, entretanto, a Rafael nenhuma objeção, porque o sabia fatigado da longa narrativa. Por outro lado, não estava certo de que suportasse pacientemente a contradição. Lembrava-me tê-lo visto censurar com vivacidade certos contraditores, repreendendo-lhes por temerem passar por imbecis se não encontravam críticas às invenções dos outros.
Pus-me, então, a louvar as instituições utopianas e a narrativa feita. Depois tomei pela mão o narrador, a fim de levá-lo para cear, e prometi que, de outra feita, teríamos ocasião de meditar mais profundamente sobre essas matérias, e de juntos conversar mais demoradamente.
Queira Deus que isso aconteça algum dia!
Porque, se de um lado não posso concordar com tudo o que disse este homem, aliás incontestavelmente muito sábio e muito hábil nos negócios humanos, de outro lado confesso sem dificuldade que há entre os utopianos uma quantidade de coisas que eu aspiro ver estabelecidas em nossas cidades.
Aspiro, mais do que espero.

a originalidade dessa edição da rideel são as notas de pé de página com que ela presenteia o leitor. por exemplo:
"alhures - noutro lugar, distante dali"; "paramentos - vestes litúrgicas"; "libré - uniforme utilizado pelos criados dos nobres"; "opróbrio - desonra, afronta, injúria".


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.




.

8 comentários:

  1. Seu cotejo é bastante útil, Denise.
    Nele, o mesmo grau de atenção que costumeiramente se presta em trabalhos de ecdótica.

    ResponderExcluir
  2. obg, neo-orkuteiro. tive que ir ao dicionário para ver o que é ecdótica: "a arte de descobrir e corrigir os erros de um texto transmitido, preparando-lhe a edição que se diz edição crítica" (aurélio). é isso aí, tradução merece o maior respeito, até ecdótico ;-)

    d.

    ResponderExcluir
  3. Ana Cláudia19.11.12

    Oi, Denise,
    Estou aqui com duas edições da Utopia publicadas pela Martin Claret. A primeira é de 2004. Na primeira página está escrito "Tradução: Pietro Nassetti". Na segunda, de 2008, lemos "Tradução e notas: Maria Isabel Gonçalves Tomás. Acontece que a primeira edição reproduz ipsis litteris o texto da tradução de Maria Isabel Gonçalves Tomás, cuja tradução da Utopia foi publicada pela portuguesa Publicações Europa-América... Ironia: as duas edições da Martin Claret trazem aquele selinho da ABDR, na mesma página em que a gente lê o nome do tradutor: "Respeite o direito autoral. Còpia não autorizada é crime."

    ResponderExcluir
  4. haha! a velha claret de sempre! obrigada pela informação, ana cláudia, darei num post para ficar registrado como aviso aos navegantes.

    ResponderExcluir
  5. Ana Cláudia R. Ribeiro19.11.12

    Mais uma.
    A Utopia publicada pela editora Escala, com tradução atribuída a Ciro Mioranza também é muito parecida com a tradução de Luís de Andrade (cidadão sobre o qual, aliás, não consigo encontrar nenhuma informação - e que deve estar se revirando em seu túmulo já há alguns anos). Transcrevo a suposta tradução de Mioranza para o primeiro trecho que vc transcreveu acima:

    Esse Rafael Hitlodeu (o primeiro é seu nome, enquanto o segundo é seu sobrenome) conhece bastante bem o latim e domina o grego com perfeição porque o estudou com particular empenho. Tendo-se devotado ao estudo da filosofia, acreditava que nada de importante existe no latim a respeito dessa matéria, anão ser algumas passsagens de Sêneca e de Cícero. Nascido em Portugal, deixou a herança a que tinha direito a seus irmãos e, devorado pela paixão de correr mundo, juntou-se a Américo Vespúcio durante as três das suas quatro últimas viagens, cuja narrativa se lê hoje em todo o mundo. Acompanhou-o sempre, mas não voltou para a Europa com ele. Américo, cedendo a seus insistentes pedidos, autorizou-o a fazer parte desses Vinte e Quatro que, no final da última expedição, foram deixados numa fortaleza. Aí ficou porque assim o desejava, como homem que se preocupa mais em correr mundo do que em saber em que local será enterrado e repete seguidamente com prazer: "na falta de urna funerária, qualquer cadáver tem o céu por mortalha" e "De qualquer ponto que se parta, para chegar aos deuses o caminho é o mesmo." Este caráter aventureiro podia ter-lhe custado caro se Deus não o tivesse protegido. Como quer que fosse, depois da partida de Vespúcio ele percorreu um grande número de países com cinco de seus companheiros da fortaleza. Como por milagre desembarcou em Taprobana e daí chegou a Calcutá, onde não teve dificuldades em encontrar navios portugueses que o reconduziriam, contra todas as expectativas, a seu país.

    ResponderExcluir
  6. a produção tradutória em nome de ciro mioranza é uma história! alguma hora vai ser preciso encarar aquele monte de livrinhos da escala em nome dele. uma vez até liguei para a editora, tentando falar com o sr. mioranza, e a moça disse que "ele acabou de sair daqui, levou um livro para fazer a revisão, quer dizer, desculpe, a tradução em casa". quanto a luís de andrade, que realmente parece não ter deixado maiores rastros, e como a utopia saiu inicialmente pela atena editora, do militante antifascista pietro petraccone, eu não descartaria totalmente a hipótese de se tratar de um pseudônimo de algum militante trotskista, como era o caso de "paulo m. oliveira" e de "blásio demétrio", respectivamente aristides lobo e fúlvio abramo, traduzindo clássicos na prisão para a editora. mas isso é apenas uma hipótese sem base nenhuma a não ser esses outros precedentes, e teria de ser investigada. se lhe interessar, consulte no arquivo à direita o marcador "athena".

    ResponderExcluir
  7. Ana Cláudia R. Ribeiro20.11.12

    Muito bom seu post sobre a Athena. Dá vontade de saber mais sobre a atividade editorial do Petraccone. Realmente, a história dessa editora merecia um estudo.

    Há um tempo atrás, encontrei no catálogo do IEB e de uma universidade norte-americana algo que parecia ser o nome completo do Luís de Andrade, grafado Luiz, se bem me lembro, mas nem assim o enigma da identidade desse tradutor de desfez. Fiquei pensando se existem arquivos da Athena, vc sabe?

    ResponderExcluir
  8. ah não, não devem existir mais, não. quem conhece melhor esses meandros são os historiadores e pesquisadores da esquerda brasileira, e para essa reconstituição editorial acho que é um trabalho de ir respigando uma informação aqui, outra acolá.

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.