1 de set de 2009

germinaldo oblomov

em 2001, a editora germinal publica o clássico romance de ivan goncharov, oblomov, com os créditos de tradução atribuídos a juliana borges, filha do dono da editora, wilson hilário borges.

I.
o lançamento é divulgado pela revista veja, em 31 de outubro de 2001, na resenha "o não-ser e o nada", assinada pelo jornalista antônio gonçalves filho, que curiosamente anuncia: "É uma boa notícia tê-lo de volta às livrarias brasileiras, numa edição honesta, ainda que um pouco descuidada na revisão (tradução de Juliana Borges; Germinal; 551 páginas; 49 reais)".

mas atentos jardineiros se apercebem de matos estranhos, e tentam de várias maneiras identificar a espécie a que pertencem. e assim se inicia o desmascaramento da fraude germinada.

II.
em 20 de janeiro de 2002, o crítico literário josé maria cançado publica na folha de s.paulo uma resenha saudando a publicação, com o título "a legião da desistência".

nesta resenha, josé maria cançado comenta: "[a] tradução nesta edição é pateticamente ruim, com um acúmulo inacreditável de erros gramaticais, de vírgulas estúpidas, embora se deva dizer que vale assim mesmo a leitura, tal é indestrutível a grandeza do romance".

III.
em 2003, o jornalista arthur danton escreve um artigo chamado "Oblomov, obra-prima assassinada pela edição", publicado no site todapalavra:

"A publicação no Brasil de Oblomov, romance do russo Ivan Gontcharov — uma das obras-primas da literatura ocidental —, pela Germinal Editora (SP), pode ser considerada, por suas vicissitudes, um caso editorial para lá de curioso. [...] Em artigo sobre o livro publicado no ano passado, na Folha de S. Paulo, o jornalista José Maria Cançado reclama da tradução, para ele muito ruim.
"Bom, começa por aí o tal caso curioso. Pois o fato é que a tradução, ao contrário, parece ser de alta qualidade! Verte para o português, com clareza e elegância estilística, os muitos climas, moods e nuances da longa e envolvente narrativa (552 páginas). [...]
"Mas o problema da publicação do romance no Brasil está exatamente em ter sido mal editado. Ao perceber a quantidade absurda de erros gramaticais e de todo tipo, tive a paciência de contá-los. Há nada menos que 270 incorreções, o que deve ser algum recorde. Incluindo erros de digitação, inversão de letras, repetição de palavras, além da ausência de crases que esvaziam de sentido o texto. Nestes 270 não estão incluídos os muitos erros de pontuação: vírgulas, principalmente elas, uma torrente, desde as simplesmente desnecessárias até as incorretas, que corrompem o sentido da frase. Devido à péssima revisão (ou à não-revisão), encontram-se, aqui e ali, pérolas como ‘obserdantes’, ‘prenúncias’, ‘cantinelas’, ‘protestades’, ‘luzídia’, ‘ressumiavam’.
"O dado curioso é que o elegante texto da tradutora (Juliana Borges), quase assassinado pela digitação aloprada, contém vários arcaísmos, principalmente formas verbais antigas: ‘falseam’, ‘fôste’, ‘fôra’, ‘lêste’, ‘instrues’. Ou seja, parece que se está diante da recuperação de um texto produzido há anos. Fico curioso em conhecer a história da publicação deste livro no Brasil... " *

* esses trechos de arthur danton foram extraídos da matéria "crime sem castigo" no jornal opção; ver abaixo, item V.

IV.
em 21 de novembro de 2004, o jornalista euler de frança belém, do jornal opção de goiânia, comenta em "oblomovismo editorial", a respeito da edição da germinal: "Um professor, especialista em literatura, me diz que a tradução é muito parecida com a versão da Editora Cruzeiro, publicada há várias décadas. Como não tenho a edição da Cruzeiro, para comparar, não posso opinar. Aceito informações objetivas."

V.
em 28 de novembro de 2004, o mesmo jornalista publica um extenso artigo sobre oblomov na edição da germinal, com o título "Crime sem Castigo", já com elementos suficientes para usar com toda a segurança o subtítulo "Escritor russo é vítima de fraude editorial no Brasil".
transcrevo alguns trechos do artigo de euler de frança belém:

"Uma professora me alertou que a 'nova' edição era/é, na verdade, plágio da tradução do modernista Francisco Inácio Peixoto. Publiquei uma nota na coluna Imprensa e sugeri que algum leitor me apresentasse provas. Na semana passada, um professor da Universidade Federal de Goiás entregou-me uma cópia da tradução do escritor que fundou a revista Verde e pude compará-la com a versão da Germinal. Antes de examinar a fraude, mostrando que as duas traduções são idênticas do começo ao fim, cito parte de um artigo ('Oblomov, obra-prima assassinada pela edição') do jornalista Arthur Danton, publicado no site Todapalavra, que, competente e perspicaz, chega perto de descobrir o crime cometido pela Germinal e pela tradutora Juliana Borges, se este nome não for invenção da editora."

prossegue euler da frança belém:

"Na dúvida, Arthur Danton não afirma, mas sugere: 'Parece que se está diante da recuperação de um texto produzido há anos'. Ele está certo, embora não tenha ido mais longe na sua crítica certeira. Comparando as 'duas' traduções descobre-se que, na verdade, a Germinal tão-somente copiou a versão da Cruzeiro e mudou o nome do tradutor. Curiosamente, o jornalista mineiro José Maria Cançado, biógrafo do modernista Carlos Drummond de Andrade, não percebeu a fraude. [...] Arthur Danton percebe, ao contrário de José Maria Cançado, a fluência e a elegância da tradução, apesar de a tradução ser indireta. Francisco Inácio Peixoto, escritor, era ligado aos modernistas mineiros e encomendou projetos para Oscar Niemeyer já no início da década de 40, antes de Juscelino Kubitschek. Não era, pois, néscio."

a matéria de euler apresenta as capas da cruzeiro e da germinal, e estampa os cotejos do início e do fim da obra em ambas as edições:


e conclui: "A Germinal abala sua reputação e seu belo nome".

VI.
em 11 de dezembro do mesmo ano (2004), o jornalista luiz fernando vianna publica na folha de s.paulo uma extensa matéria sobre o plágio da germinal, com o título "editora plagia edição antiga de clássico" (link para assinantes fsp ou uol; ou ver aqui).

transcrevo alguns trechos da matéria de luiz fernando vianna:

"Só há uma edição disponível no Brasil de Oblomov, um dos maiores clássicos da literatura russa. Pois essa edição é repleta de erros e a tradução do romance de Ivan Alexandrovitch Gontcharov (1812-1891) é um plágio absoluto. Publicado em 2001 pela pequena Germinal (não confundir com a Edições Germinal), o livro é uma cópia da tradução feita pelo poeta mineiro Francisco Inácio Peixoto (1909-1986) e publicada em 1966 pela Edições O Cruzeiro. [...]

"A Folha teve acesso aos livros de 1966 e 2001. O plágio vai da primeira à última página. Não houve qualquer preocupação em disfarçar a cópia [...]

"Dos sete filhos do poeta [Francisco Inácio Peixoto], cinco estão vivos. A família buscará reparação na Justiça.
"A 'tradução' da Germinal é assinada por Juliana Borges. A edição, por Gabriela Borges. Elas são filhas do advogado, sociólogo e jornalista Wilson Hilário Borges, morto em 20 de março de 2002, aos 62 anos.

"Segundo a jornalista Vera Lúcia Rodrigues, 49, que diz ter vivido 22 anos com Borges sem se casar no papel, Juliana e Gabriela não têm relação com Oblomov nem com qualquer outro livro da Germinal."

VII.

em 29 de março de 2006, também na revista veja, o jornalista jerônimo teixeira, num artigo chamado "os ladrões criativos", cita de passagem que "Há dois anos, descobriu-se que a tradução de Oblomov, do russo Ivan Gontcharov, publicada pela editora paulista Germinal, não era de Juliana Borges (filha do dono da editora), como informava o crédito. Era uma cópia da tradução de Francisco Inácio Peixoto publicada em 1966".

[os negritos nas citações são meus - db]

4 comentários:

  1. mas é muito descaramento, apesar do lado um pouco cômico devido ao amadorismo, é realmente revoltante.. imoral. é uma falta de vergonha na cara, não é??

    ResponderExcluir
  2. não bastasse a injúria, é de um amadorismo meio tosco mesmo. quem merece?!

    ResponderExcluir
  3. Agenor S. Santos12.9.09

    Denise,

    Essa história é espantosa.
    Para mim tem a particularidade de informar que o plagiado era Francisco Inácio Peixoto, poeta que conheci bem (ao lado de outros companheiros da revista VERDE). Conheci como poeta, intelectual importante (não como tradutor: agradeço também a preciosa informação), e como um dos primeiros divulgadores da arte moderna: estive no colégio por ele construído em Cataguases, MG (muito avançado, claro: contemporâneo das obras de Juscelino/Niemeyer na Pampulha), sobre projeto de Niemeyer, e o imponente mural, lá exibido, que ele encomendou a Portinari.
    E agradeço por ter lembrado e reproduzido matérias da FSPaulo e da Veja.

    Boa sorte sempre no seu magnífico trabalho de garimpagem -- que, além da competência, lhe dá tantos subsídios para demonstrar a seriedade do seu trabalho. A sua transcrição no caso presente, aliás, mostrando traduções tão distantes no tempo, é uma prova admirável dessa seriedade e da existência desse plágio.

    Abraço

    Agenor

    P. S. -- Fui à estantevirtual atrás da tradução do Chico Inácio, mas todos os sebos só oferecem a tradução da Germinal.

    ResponderExcluir
  4. Alguém conseguiu achar a tradução do Francisco Inácio? Ao menos um exemplar para consulta?

    ResponderExcluir

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.