14 de set de 2009

zola, germinal

cláudia poncioni é autora de um estudo comparado de traduções de germinal, que foi publicado em 1999 pela editora annablume. o título da obra é émile zola em português: um estudo das traduções de germinal no brasil e em portugal.


sua análise aborda o trabalho de cinco tradutores, sendo três portugueses, a saber, "beldemónio" (1885), bel-adam (1900) e j. martins (1930), e dois brasileiros, francisco bittencourt (1969) e eduardo nunes fonseca (1982).

a edição da crisos especifica que j. martins fez apenas a adaptação - termo muitas vezes usado para designar uma revisão e/ou atualização de tradução anterior. ao incluí-lo em seu estudo comparado, não admira que cláudia poncioni tenha encontrado grande similaridade entre a tradução de bel-adam e a adaptação de j. martins.

feita essa ressalva, a conclusão da autora é que, depois da secular tradução de beldemónio, francisco bittencourt foi o único a empreender uma nova tradução.* bel-adam se baseia em várias soluções de seu compatriota e j. martins apenas a adaptou. curiosamente foi essa adaptação de j. martins que foi copiada por eduardo nunes fonseca, pela editora hemus:
O exame deste fenômeno permite a constatação de que a tradução n. 5, de Eduardo Nunes da Fonseca, é praticamente uma cópia da tradução de J. Martins (n. 3), que se limitou a adaptar a tradução de Bel-Adam (n. 2), que por sua vez baseara-se na tradução de Beldemónio. O único tradutor a ter feito sua própria tradução foi Francisco Bittencourt (n. 4)" (op. cit., p. 127, negrito meu, db).
* há uma tradução de bandeira duarte, que saiu em 1935 pela flores & mano que, embora mencionada pela autora, não chega a ser objeto de análise em seu estudo.

apenas a título informativo: francisco bittencourt (1933-1997), nascido em itaqui, no rio grande do sul, foi poeta, tradutor, jornalista, editor e crítico de arte. teve vários livros de poemas publicados, foi colaborador da tribuna da imprensa no rio e do correio do povo de porto alegre. morou no egito nos anos 1960, como tradutor, jornalista e locutor, e nos anos 1970 e 1980 trabalhou como tradutor e jornalista na embaixada britânica no rio. foi um dos fundadores do jornal alternativo lampião de esquina (1978-1981) e da editora esquina, ao lado de aguinaldo silva, jean-claude bernardet, darcy penteado, joão silvério trevisan e outros. sua tradução de germinal saiu pela editorial bruguera, em 1969, e teve sucessivas reedições pela abril cultural e círculo do livro. francisco bittencourt traduziu também limões amargos, de durrell, e taras bulba, de gógol, por interposição.
eduardo nunes fonseca, por seu lado, já apareceu algumas vezes aqui no nãogostodeplágio, assinando outras edições espúrias, como a origem das espécies de darwin, pela hemus e pela ediouro, e a cidade antiga, de fustel de coulanges, também pela hemus e pela ediouro.
germinal, na pseudotradução de eduardo nunes fonseca, foi publicado pela hemus em 1982, com várias reedições. em 1986, passou a ser publicado também pela ediouro. em 1996, saiu na coleção "imortais da literatura universal", pela nova cultural e círculo do livro.

11 comentários:

  1. Denise,

    apaixonei-me por este Beldemónio! O nome fica soando em minha cabeça: Beldemónio, Beldemónio, Belo Demóóónio!

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  2. pois não é? e mais ou menos da mesma época já tinha o "pandemónio" :))

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  3. Denise
    Busquei algo sobre as traduções de Germinal no seu blog e este post me resolveu um problemão. Sou professora de História Contemporânea em um faculdade de história do interior (somos leitores de suas ótimas traduções de Hobsbawm e Thompson) e tenho conversado com meus alunos sobre a importância das traduções. A leitura de romances clássicos do XIX, como lhes propus este ano, rendeu uma pesquisa sobre as traduções confiáveis. Germinal vinha sendo um problema, até agora.

    Obrigada.

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  4. olá, nika, que bom, fico feliz em ter sido útil! e agradeço as palavras gentis.

    abraço
    denise

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  5. Ler e desconfiar, dois verbos que envolvem uma única atividade da minha mente-ervilha.

    Me ocorreu certa vez que para ler qualquer clássico -e eis minha definição de clássico: livros que você ama sem nunca ter lido -, deveria consultar o autor.

    Richard Whately, em algum momento entre o final dos anos 1700 e começo dos 1900 me iluminou: "Never forget, gentlemen, that this is not the Bible. This, gentlemen, is only a translation of the Bible". E então, fiquei curioso com Robert Yelverton Synge: "The original Greek is of great use in elucidating Browning's translation of the Agamemnon".

    Ora, na aurora do século XXI, com um livro como O Germinal, cujo original está de pé acusando as traduções-Billot das suas inserções, omissões e improvisos, vou diretamente a Zola (em 6 meses qualquer ser humano culto compreende o filho de François, se desejar).

    Coloco o traidor e o criador vis-à-vis em colunas paralelas num único texto e cada um expõe suas razões. Sou ajudado pela traição, mas meu interesse reside na criação.

    Abdalan da Gama
    abdalandagama at gmail dot com

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  6. Alguém sabe se houve uma nova tradução de Germinal deste então, enquanto não aprendo o francês...

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  7. olá, sergio, saiu recentemente uma adaptação pela cia. letras (em 2002, se não me engano), mas é tipo infanto-juvenil. acho que a tradução do francisco bittencourt está de bom tamanho, como dizem. e é facílima de encontrar em sebos.

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  8. A Editora Estação liberdade publicou de Zola

    GERMINAL
    Émile Zola

    Tradução do francês: Mauro Pinheiro
    560 p., 14 x 21 cm
    ISBN: 978-85-7448-207-1
    R$ 79,00

    O PARAÍSO DAS DAMAS
    Émile Zola

    Tradução: Joana Canêdo
    504p., 14 x 21 cm
    ISBN: 978-85-7448-147-0
    R$ 63,60

    THÉRÈSE RAQUIN
    Émile Zola

    Tradução de Joaquim Pereira Neto (2ª edição revista)
    240 p., 14 x 21 cm
    ISBN-10: 85-7448-044-4
    ISBN-13: 978-85-7448-044-2
    R$ 35,00

    Jose Alexandre da Silva JAS

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    Respostas
    1. ah, que legal, josé alexandre, agradeço por informar! alguma hora vou montar um levantamento do zola no brasil e esses dados serão muito úteis, obrigada!

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  9. O Germinal da Martin Claret está dizendo que a tradução é de Francisco Bittencourt, pelo menos esse da Martin tá seguro não é mesmo?

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