tais artigos, porém, não constavam de nosso arquivo de notícias e matérias sobre plágios. para sanar essa lacuna, e com a gentil autorização de alfredo monte, reproduzo aqui seu artigo publicado no referido órgão de imprensa em 04 de dezembro de 2001.
CLÁSSICOS TÊM TRADUÇÕES DÚBIASAlfredo Monte
Ultimamente, em qualquer livraria ou papelaria, o leitor se depara com uns livrinhos de formato atraente, com pouco capricho na apresentação gráfica, mas que sobrevivem à leitura [...] e que têm a dupla vantagem de dar acesso a clássicos, antigos e modernos, e serem muito baratos. E é até pitoresco que o nome da coleção da Martin Claret, A obra-prima de cada autor, seja desmentido pela própria lista de títulos publicados (há vários de Shakespeare, de Machado de Assis, de Nietzsche etc).
Por conta disso, resolvi experimentar a coleção, relendo um dos meus livros prediletos, Frankenstein ou O Moderno Prometeu (1818), de Mary Shelley, o qual, sempre tão mal traduzido para o cinema, apesar de tantas tentativas, está na ordem do dia, com a possibilidade da clonagem de seres humanos. Mas outro tipo de clonagem, de deixar os desgrenhados cabelos de Juca de Oliveira/Albieri em pé, revelou-se nessa leitura: na sua ficha técnica, a Martin Claret apresenta Pietro Nassetti como tradutor. Será que é um pseudônimo de Éverton Ralph, o tradutor do livro para a Ediouro? Se não for, estamos num terreno digno da série Arquivos X: duas pessoas diferentes que traduzem semelhantemente, vocábulo por vocábulo.
O comecinho de alguns capítulos ainda sofreu ligeiras alterações, todavia é só um estratagema engana-trouxa. Por exemplo, o capítulo em que Victor Frankenstein narra as suas origens para Robert Walton, depois de umas vinte linhas encontramos em Pietro Nassetti: “Meu pai estimava Beaufort com devoção e sentia profundamente a partida do amigo em circunstâncias tão penosas, não lhe perdoando o falso orgulho que o levava a uma conduta tão pouco condizente com a afeição que os unia”. Veja-se em Éverton Ralph como o referido trecho fora traduzido: “Meu pai estimava Beaufort com devoção, e sentiu profundamente a partida do amigo em circunstâncias tão penosas, não lhe perdoando etc. etc.”. É um fenômeno para ser estudado, essa telepatia em que duas pessoas encontram durante duzentas páginas as mesmas palavras para traduzir outra língua!
Tal fenômeno não afetou outros tradutores de Frankenstein, como o da L&PM, Miécio Araújo Jorge Honkis (“Meu pai dedicava uma amizade muito sólida a Beaufort, e sentiu grandemente sua retirada nessa situação tão infeliz. Amargamente deplorou o falso orgulho que levou seu amigo a se conduzir de maneira tão pouco digna da afeição que então os unia”), e o da Ática, Geraldo Galvão Ferraz (“Meu pai gostava de Beaufort com a mais verdadeira das amizades e ficou profundamente magoado com esse afastamento em circunstâncias tão desafortunadas. Considerava deplorável o falso orgulho que levara seu amigo a uma conduta tão pouco digna da afeição que os unia”).
[continua]
imagem: seniorspeak
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