22 de abr de 2009

a cidade antiga


fustel de coulanges, la cité antique [1864] (hachette, 1920)
1. fernando de aguiar (clássica editora, 1945; martins fontes, 1987)
2. jonas camargo leite e eduardo nunes fonseca (hemus, 1975; tecnoprint, 1986; ediouro, 1992)

[livro 2, cap. vi]
Voici une institution des anciens dont il ne faut pas nous faire une idée d’après ce que nous voyons autour de nous. Les anciens ont fondé le droit de propriété sur des principes qui ne sont plus ceux des générations présentes ; il en est résulté que les lois par lesquelles ils l’ont garanti sont sensiblement différentes des nôtres.

1. eis uma instituição dos antigos da qual não podemos formar idéia através do direito de propriedade no mundo moderno. os antigos basearam o direito de propriedade em princípios diferentes dos das gerações presentes; e daqui resulta serem as leis que o garantiram sensivelmente diversas das nossas.

2. eis uma instituição dos antigos da qual não podemos formar idéia através do direito de propriedade no mundo moderno. os antigos alicerçaram o direito de propriedade em princípios diferentes dos das gerações presentes; e daqui resulta serem as leis que o garantiram bem diversas das nossas.

On sait qu’il y a des races qui ne sont jamais arrivées à établir chez elles la propriété privée ; d’autres n’y sont parvenues qu’à la longue et péniblement. Ce n’est pas, en effet, un facile problème, à l’origine des sociétés, de savoir si l’individu peut s’approprier le sol et établir un si fort lien entre son être et une part de terre qu’il puisse dire : Cette terre est mienne, cette terre est comme une partie de moi. Les Tartares conçoivent le droit de propriété quand il s’agit des troupeaux, et ne le comprennent plus quand il s’agit du sol. Chez les anciens Germains, suivant quelques auteurs, la terre n’appartenait à personne ; chaque année la tribu assignait à chacun de ses membres un lot à cultiver, et on changeait de lot l’année suivante. Le Germain était propriétaire de la moisson ; il ne l’était pas de la terre. Il en est encore de même dans une partie de la race sémitique et chez quelques peuples slaves.

1. sabe-se terem existido raças que nunca chegaram a instituir a propriedade privada entre si, e outras só demorada e penosamente a estabeleceram. efetivamente não é problema fácil, no começo das sociedades, saber-se se o indivíduo pode apropriar-se do solo e estabelecer tão forte vínculo entre a sua própria pessoa e uma porção de terra, a ponto de poder dizer: "esta terra é minha, esta terra é parcela de mim mesmo." os tártaros admitiam o direito de propriedade, no que dizia respeito aos rebanhos, e já não o concebiam ao tratar-se do solo. entre os antigos germanos, segundo alguns autores, a terra não pertencia a ninguém; em cada ano, a tribo indicava a cada um dos seus membros o lote para cultivar, e mudava no ano seguinte. o germano era proprietário da colheita, mas não o dono da terra. ainda acontece o mesmo em parte da raça semítica e entre alguns povos eslavos.

2. sabe-se terem existido povos que nunca chegaram a instituir a propriedade privada entre si, e outras [sic] só demorada e penosamente a estabeleceram. com efeito, não é problema simples, no início das sociedades, saber-se se o indivíduo pode apropriar-se do solo e estabelecer tão forte união entre a sua própria pessoa e uma parte da terra, a ponto de poder dizer: esta terra é minha, esta terra é parte de mim mesmo. os tártaros admitiam o direito de propriedade, quando se tratava de rebanhos e já não o concebiam ao tratar-se do solo. entre os antigos germanos, segundo alguns autores, a terra não era propriedade de ninguém; cada ano, a tribo indicava a cada um dos seus membros um lote para cultivo, lote que era trocado no ano seguinte. o germano era proprietário da colheita, mas não o dono da terra. o mesmo acontece em uma parte da raça semítica e entre alguns povos eslavos.

Au contraire, les populations de la Grèce et de l’Italie, dès l’antiquité la plus haute, ont toujours connu et pratiqué la propriété privée. Il n’est resté aucun souvenir historique d’une époque où la terre ait été commune ; et l’on ne voit non plus rien qui ressemble à ce partage annuel des champs qui est signalé chez les Germains. Il y a même un fait bien remarquable. Tandis que les races qui n’accordent pas à l’individu la propriété du sol lui accordent au moins celle des fruits deson travail, c’est-à-dire de sa récolte, c’était le contraire chez les Grecs. Dans quelques villes, les citoyens étaient astreints à mettre en commun leurs moissons, ou du moins la plus grande partie ; et devaient les consommer en commun ; l’individu n’était donc pas absolument maître du blé qu’il avait récolté ; mais en même temps, par une contradiction bien remarquable, il avait la propriété absolue du sol. La terre était à lui plus que la moisson. Il semble que chez les Grecs la conception du droit de propriété ait suivi une marche tout à fait opposée à celle qui paraît naturelle. Elle ne s’est pas appliquée à la moisson d’abord, et au sol ensuite. C’est l’ordre inverse qu’on a suivi.

1. ao contrário, as populações da grécia e as da itália, desde a mais remota antiguidade, sempre conheceram e praticaram a propriedade privada. nenhuma recordação histórica nos chegou, e de época alguma, que nos revele a terra ter estado em comum; e nada tampouco se encontra que se assemelhe à partilha anual dos campos, tal como esta se praticou entre os germanos. há mesmo um fato verdadeiramente digno de destaque. enquanto as raças que não concedem ao indivíduo a propriedade do solo lhe facultam, ao menos, a dos frutos do seu trabalho, isto é, a colheita, com os gregos sucede o contrário. em algumas cidades os cidadãos são obrigados a ter em comum as colheitas, ou, pelo menos, a maior parte delas, devendo gastá-las em sociedade; portanto, o indivíduo não nos aparece como absoluto senhor do trigo por ele colhido, mas mercê de notável contradição, já que tem propriedade absoluta do solo. a terra era mais dele do que a colheita. parece que a concepção de direito de propriedade tinha seguido, entre os gregos, caminho inteiramente oposto àquele que se afigura como o mais natural. não se aplicou primeiro à colheita e depois ao solo. seguiu-se a ordem inversa.

2. ao contrário, as populações da grécia e da itália, desde a mais longínqua antiguidade, sempre reconheceram e praticaram a propriedade privada. nenhuma lembrança histórica nos chegou, e de época alguma, que nos revele a terra ter estado em comum; e nada tampouco se encontra que se assemelhe à partilha anual dos campos, tal como se praticou entre os germanos. há mesmo um fato verdadeiramente digno de nomeada. enquanto as raças que não concedem ao indivíduo a propriedade do solo facultam-lhe, pelo menos, tal direito sobre os frutos do seu trabalho, isto é, da colheita, entre os gregos acontecia o contrário. em algumas cidades os cidadãos são obrigados a reunir em comunidade as colheitas ou, pelo menos, a maior parte delas e devendo gastá-las em sociedade; portanto, o indivíduo não nos aparece como senhor absoluto do trigo por ele colhido, mas, mercê de notável contradição, já tem a propriedade absoluta do solo. a terra para ele valia mais do que a colheita. parece ter a concepção de direito de propriedade seguido, entre os gregos, caminho inteiramente oposto àquele que se afigura como o mais natural. não se aplicou primeiro à colheita e depois ao solo. seguiu-se a ordem inversa.

Or, entre ces dieux et le sol, les hommes des anciens âges voyaient un rapport mystérieux. Prenons d’abord le foyer : cet autel est le symbole de la vie sédentaire ; son nom seul l’indique 1. Il doit être posé sur le sol ; une fois posé, on ne doit plus le changer de place. Le dieu de la famille veut avoir une demeure fixe ; matériellement, il est difficile de transporter la pierre sur laquelle il brille ; religieusement, cela est plus difficile encore et n’est permis à l’homme que si la dure nécessité le presse, si un ennemi le chasse ou si la terre ne peut pas le nourrir. Quand on pose le foyer, c’est avec la pensée et l’espérance qu’il restera toujours à cette même place. Le dieu s’installe là, non pas pour un jour, non pas même pour une vie d’homme, mais pour tout le temps que cette famille durera et qu’il restera quelqu’un pour entretenir sa flamme par le sacrifice. Ainsi le foyer prend possession du sol; cette part de terre, il la fait sienne ; elle est sa propriété.

1. encontraram os antigos misteriosa relação entre estes deuses e o solo. vejamos, primeiramente, o lar: este altar é o símbolo da vida sedentária; o seu próprio nome o indica. deve estar assente no solo; uma vez ali colocado nunca mais deve mudar de lugar. o deus da família quer ter morada fixa; materialmente, a pedra sobre a qual ele brilha, torna-se de difícil transporte; religiosamente, isso parece-lhe ainda mais difícil, só sendo permitido ao homem quando dura necessidade o obriga, o inimigo o expulsa ou a terra não pode alimentá-lo. ao assentar-se o lar, fazem-no com o pensamento e a esperança de que ficará sempre no mesmo lugar. o deus instala-se nele, não para um dia, nem mesmo só para a precária vida de um homem, mas para todos os tempos, enquanto esta família existir e dela restar alguém a conservar a sua chama em sacrifício. assim o lar toma posse do solo; apossa-se desta parte de terra que fica sendo, assim, sua propriedade.

2. divisaram os antigos misteriosa relação entre estes deuses e o solo. vejamos, primeiramente, o lar; este altar é o símbolo da vida sedentária; o seu próprio nome o indica. deve estar assente no solo; uma vez ali colocado nunca mais devem mudá-lo de lugar. o deus da família deseja ter morada fixa; materialmente, a pedra sobre a qual ele brilha, torna-se de difícil transporte; religiosamente, isso parece-lhe ainda mais difícil, só sendo permitido ao homem quando dura necessidade o aperta, o inimigo o expulsa, ou a terra não pode alimentá-lo. ao assentar-se o lar, fazem-no com o pensamento e a esperança de que permanecerá sempre no mesmo lugar. o deus ali se instala não para um dia, nem mesmo pelo espaço de uma vida humana, mas por todo o tempo que dure esta família e dela restar alguém que alimente a chama do sacrifício. assim o lar toma posse do solo; apossa-se dessa parte de terra que fica sendo, assim, sua propriedade.

Et la famille, qui par devoir et par religion reste toujours groupée autour de son autel, se fixe au sol comme l’autel lui-même. L’idée de domicile vient naturellement. La famille est attachée au foyer, le foyer l’est au sol ; une relation étroite s’établit donc entre le sol et la famille. Là doit être sa demeure permanente, qu’elle ne songera pas à quitter, à moins qu’une force supérieure ne l’y contraigne. Comme le foyer, elle occupera toujours cette place. Cette place lui appartient ; elle est sa propriété, propriété non d’un homme seulement, mais d’une famille dont les différents membres doivent venir l’un après l’autre naître et mourir là.

1. e a família, ficando, destarte, por dever e por religião, agrupada em redor do seu altar, fixa-se ao solo tanto como o próprio altar. a idéia de domicílio surge espontaneamente. a família está vinculada ao lar e este, por sua vez, encontra-se fortemente ligado ao solo; estreita conexão se estabeleceu, portanto, entre o solo e a família. aí deve ser a sua residência permanente, que nunca pensará deixar, a não ser quando alguma força superior a isso a constranja. como o lar, a família ocupará sempre este lugar. o lugar pertence-lhe: é sua propriedade, propriedade não de um só homem, mas de uma família, cujos diferentes membros devem vir, um após outros, nascer e morrer ali.

2. e a família, destarte, ficando, por dever e por religião, agrupada ao redor do seu altar, fixa-se ao solo tanto como o próprio altar. a idéia de domicílio surge naturalmente. a família está vinculada ao altar e este, por sua vez, encontra-se fortemente ligado ao solo; estreita relação se estabeleceu, portanto, entre o solo e a família. aí deve ser sua residência permanente, que jamais abandonará, a não ser quando alguma força superior a isso a constranja. como o lar, a família ocupará sempre esse lugar. o lugar pertence-lhe: é sua propriedade, propriedade não de um único homem, mas de uma família, cujos diferentes membros devem vir, um após outro, nascer e morrer ali.

Suivons les idées des anciens. Deux foyers représentent des divinités distinctes, qui ne s’unissent et qui ne se confondent jamais ; cela est si vrai que le mariage même entre deux familles n’établit pas d’alliance entre leurs dieux. Le foyer doit être isolé, c’est-à-dire séparé nettement de tout ce qui n’est pas lui [...] Cette enceinte tracée par la religion et protégée par elle est l’emblème le plus certain, la marque la plus irrécusable du droit de propriété.

1. sigamos o raciocínio dos antigos. dois lares representam divindades distintas que nunca se unem nem se confundem; isto é tão evidente que o próprio casamento realizado entre duas famílias não estabelece a união entre os seus deuses. o lar deve estar isolado, isto é, nitidamente separado de tudo quanto não lhe pertença [...] esta vedação, traçada pela religião e por ela protegida, afirma-se como o tributo mais verdadeiro, o sinal irrecusável do direito de propriedade.

2. sigamos o raciocínio dos antigos. dois lares representam duas divindades distintas que nunca se unem nem se confundem; isto é tão evidente que o próprio casamento realizado entre duas famílias não estabelece aliança entre os seus deuses. o lar deve ser isolado, isto é, visivelmente separado de tudo quanto não lhe pertença [...] este limite, traçado pela religião e por ela protegido, afirma-se como o tributo mais verdadeiro, o sinal irrecusável do direito de propriedade.

Il est résulté de ces vieilles règles religieuses que la vie en communauté n’a jamais pu s’établir chez les anciens. Le phalanstère n’y a jamais été connu. Pythagore même n’a pas réussi à établir des institutions auxquelles la religion intime des hommes résistait.

1. dessas velhas disposições religiosas resultou nunca poder estabelecer-se entre os antigos a vida em comunidade. o falanstério nunca foi conhecido entre estas populações. o próprio pitágoras não ousou estabelecer instituições às quais a religião íntima dos homens resistia.

2. dessas antigas disposições religiosas resultou nunca poder estabelecer-se a vida em comunidade, entre os antigos. o falanstério nunca foi conhecido. o próprio pitágoras não ousou estabelecer instituições às quais a religião íntima dos homens resistia.

La tente convient à l’Arabe, le chariot au Tartare, mais à une famille qui a un foyer domestique il faut une demeure qui dure. A la cabane de terre ou de bois a bientôt succédé la maison de pierre. On n’a pas bâti seulement pour une vie d’homme, mais pour la famille dont les générations devaient se succéder dans la même demeure.

1. ao árabe convém a tenda, ao tártaro o carro, mas para estas famílias, tendo um lar doméstico, é necessária a morada fixa. à cabana de terra, ou de madeira, sucedeu, dentro em pouco, a casa de pedra. esta casa não se construiu somente para a vida dum homem, mas para uma família cujas gerações deviam suceder-se na mesma habitação.

2. ao árabe convém a tenda, ao tártaro o carro, mas para estas famílias, tendo um lar doméstico, é necessária a residência fixa. à cabana de terra ou de madeira, seguiu-se, dentro em pouco, a casa de pedra. esta casa não se construiu apenas para a vida de um homem, mas para uma família cujas gerações deviam suceder-se na mesma habitação.

[livro 4, cap. i]
Jusqu’ici nous n’avons pas parlé des classes inférieures et nous n’avions pas à en parler. Car il s’agissait de décrire l’organisme primitif de la cité, et les classes inférieures ne comptaient absolument pour rien dans cet organisme. La cité s’était constituée comme si ces classes n’eussent pas existé. Nous pouvions donc attendre pour les étudier que nous fussions arrivés à l’époque des révolutions.

1. até aqui não falamos das classes inferiores, e nem mesmo havia ocasião para nos referirmos a estas. e isto porque a finalidade era traçar a estrutura primitiva da cidade, e as classes inferiores não tiveram importância absolutamente nenhuma nesta organização. a cidade achava-se constituída como se estas classes não existissem. podíamos reservar, portanto, seu estudo para quando chegássemos ao período das revoluções.

2. até aqui não falamos ainda das classes inferiores, e nem mesmo havia ocasião para nos referirmos a ela [sic], porque nossa finalidade era descrever a estrutura primitiva da cidade, e as classes inferiores não tiveram nenhuma importância nessa organização. a cidade constituíra-se como se estas classes não existissem. poderia reservar-se, pois, o seu estudo para quando atingíssemos esse período de revoluções.

Puis cette famille a des serviteurs, qui ne la quittent pas, qui sont attachés héréditairement à elle, et sur lesquels le pater ou patron exerce la triple autorité de maître, de magistrat et de prêtre. On les appelle de noms qui varient suivant les lieux ; celui de clients et celui de thètes sont les plus connus.

1. depois, esta família tem servos que não a abandonam, servos hereditariamente ligados à família e sobre os quais o pater ou patrono usa da sua tríplice autoridade de senhor, de magistrado e de sacerdote. davam-lhes nomes diferentes, segundo os lugares, embora os mais comumente conhecidos sejam os de clientes e tetas.

2. depois, essa família tem servos que não a abandonam, servos hereditariamente vinculados à família e sobre os quais o pater ou patrono exerce sua tríplice autoridade de mestre, de magistrado e de sacerdote. davam-lhes nomes diferentes, segundo as regiões, embora os mais comumente conhecidos sejam os de clientes e tetas.

La ville [...] est le centre de l’association, la résidence du roi et des prêtres, le lieu où se rend la justice ; mais les hommes n’y vivent pas. Pendant plusieurs générations encore, les hommes continuent à vivre hors de la ville, en familles isolées qui se partagent la campagne.

1. a urbe [...] centro da associação, residência do rei e dos sacerdotes, e lugar onde se administra a justiça, mas os homens continuam a viver do lado de fora da urbe, em famílias isoladas, que dividem entre si os campos.

2. a cidade [...] o centro da associação, a residência do rei e dos sacerdotes, e lugar onde se administra a justiça, mas onde os homens continuam a viver fora da cidade, em famílias isoladas, que dividem entre si os campos.

Cette classe, qui devint plus nombreuse à Rome que dans aucune autre cité, y était appelée la plèbe. Il faut voir l’origine et le caractère de cette classe pour comprendre le rôle qu’elle a joué dans l’histoire de la cité et de la famille chez les anciens.
Les plébéiens n’étaient pas les clients ; les historiens de l’antiquité ne confondent pas ces deux classes entre elles.

1. esta classe, mais numerosa em roma que em qualquer outra cidade, tinha aí o nome de plebe. precisamos examinar a origem e o caráter desta classe para melhor entender o papel, entre os antigos, desempenhado pela plebe na história da cidade e da família.
os plebeus não eram clientes; os historiadores da antiguidade nunca confundiram estas duas classes uma com a outra.

2. essa classe, mais numerosa em roma que em nenhuma outra cidade, tinha aí o nome de plebe. precisamos examinar a origem e o caráter dessa classe para melhor compreendermos o papel desempenhado pela plebe na história da cidade e da família entre os antigos.
os plebeus não eram clientes; os historiadores da antiguidade nunca confundiram estas duas classes uma com a outra.


a título ilustrativo, seguem-se os trechos correspondentes na tradução de frederico ozanam (edameris)*

Eis uma instituição dos antigos sobre a qual não devemos formar idéia pelo que vemos a nosso redor. Os antigos basearam o direito de propriedade sobre princípios que não são mais os das gerações presentes, e daqui resultou que as leis pelas quais o garantiram são sensivelmente diversas das nossas.

Sabemos que há raças que jamais chegaram a instituir entre si a propriedade privada; outras só a admitiram depois de muito tempo e a muito custo. Com efeito, não é um problema fácil, na origem das sociedades, saber se o indivíduo pode apropriar-se do solo, e estabelecer uma união tão forte entre si e uma parte da terra a ponto de poder dizer: Esta terra é minha, esta terra é como que parte de mim mesmo. Os tártaros admitem direitos de propriedade quando se trata de rebanhos, e não o compreendem quando se trata do solo. Entre os antigos germanos, de acordo com alguns autores, a terra não pertencia a ninguém; todos os anos a tribo designava a cada um de seus membros um lote para cultivar, lote que era trocado no ano seguinte. O germano era proprietário da colheita, e não da terra. O mesmo acontece ainda em uma parte da raça semítica, e entre alguns povos eslavos.

Pelo contrário, as populações da Grécia e da Itália, desde a mais remota antiguidade, sempre reconheceram e praticaram a propriedade privada. Não ficou nenhuma lembrança histórica de época em que a terra fosse comum e também nada se vê que se assemelhe a essa divisão anual dos campos, praticada entre os germanos. Há até um fato bastante notável. Enquanto as raças que não concediam ao indivíduo a propriedade do solo, concedem-lhe pelo menos tal direito sobre os frutos do trabalho, isto é, das colheitas, entre os gregos acontecia o contrário. Em algumas cidades os cidadãos eram obrigados a reunir em comum as colheitas, ou, pelo menos, a maior parte delas, e deviam consumi-las em comum; o indivíduo, portanto, não era absoluto senhor do trigo que havia colhido; mas ao mesmo tempo, por notável contradição, tinha absolutos direitos de propriedade sobre o solo. A terra para ele valia mais que a colheita. Parece que entre os gregos a concepção do direito de propriedade tenha seguido caminho absolutamente oposto ao que parece natural. Não se aplicou primeiro à colheita e depois ao solo. Seguiu-se a ordem inversa.

Ora, entre esses deuses e o solo, os homens das épocas mais antigas divisavam uma relação misteriosa. Tomemos, em primeiro lugar, o lar; esse altar é o símbolo da vida sedentária, como o nome bem o indica. Deve ser colocado sobre a terra, e, uma vez construído, não o devem mudar mais de lugar. O deus da família deseja possuir morada fixa; materialmente, é difícil transportar a terra sobre a qual ele brilha; religiosamente, isso é mais difícil ainda, e não é permitido ao homem senão quando é premido pela dura necessidade, expulso por um inimigo, ou se a terra não o puder sustentar por ser estéril. Quando se constrói o lar, é com o pensamento e a esperança de que continue sempre no mesmo lugar. O deus ali se instala, não por um dia, nem pelo espaço de uma vida humana, mas por todo o tempo em que dure essa família, e enquanto restar alguém que alimente a chama do sacrifício. Assim o lar toma posse da terra; essa parte da terra torna-se sua, é sua propriedade.

E a família, que por dever e por religião fica sempre agrupada ao redor desse altar, fixa-se ao solo como o próprio altar. A idéia de domicílio surge naturalmente. A família está ligada ao altar, o altar ao solo; estabelece-se estreita relação entre a terra e a família. Aí deve ter sua morada permanente, que jamais abandonará, a não ser quando obrigada por força superior. Como o lar, a família ocupará sempre esse lugar. Esse lugar lhe pertence, é sua propriedade; e não de um homem somente, mas de toda uma família, cujos diferentes membros devem, um após outro, nascer e morrer ali.

Sigamos o raciocínio dos antigos. Dois lares representam duas divindades distintas, que nunca se unem ou se confundem; isso é tão verdade, que o casamento entre duas famílias não estabelece aliança entre seus deuses. O lar deve ser isolado, isto é, separado claramente de tudo o que não lhe pertence [...] Essa linha divisória traçada pela religião, e por ela protegida é o emblema mais certo, a marca mais irrecusável do direito de propriedade.


O resultado dessas velhas regras religiosas é que entre os antigos jamais se estabeleceu uma vida de comunidade. O falanstério nunca foi conhecido. O próprio Pitágoras não conseguiu estabelecer instituições às quais a religião íntima dos homens resistia.

A tenda convém ao árabe, o carro ao tártaro, mas uma família que tem um altar doméstico precisa de uma casa que dure. À cabana de terra ou de madeira seguiu-se logo a casa de pedra. E esta não foi construída somente para a vida de um homem, mas para a família, cujas gerações deviam suceder-se na mesma morada.

Até aqui ainda não falamos das classes inferiores, nem tínhamos o que falar, porque se tratava de descrever o organismo primitivo da cidade, e as classes inferiores não tinham importância nenhuma em sua estrutura, A cidade constituíra-se como se essas classes não existissem. Podíamos, portanto, esperar para estudá-las quando chegássemos à época das revoluções.

Depois, essa família tem criados, que não a deixam, e que a ela estão ligados por hereditariedade, e sobre as quais o pater, ou patrono, exerce a tríplice autoridade de mestre, de magistrado e de sacerdote. Seus nomes variam de acordo com os lugares; os mais conhecidos são os de clientes e tetas.

A cidade [...] é o centro da associação, a residência do rei e dos sacerdotes, o lugar onde se administra justiça, e não a morada dos homens. Durante muitas gerações ainda os homens continuam a viver fora da cidade, em famílias isoladas, que dividem entre si os campos.

Essa classe, que se torna mais numerosa em Roma que em nenhuma outra cidade, chamava-se ali de plebe. É preciso que vejamos a origem e o caráter dessa classe, para compreendermos o papel que desempenhou na história da cidade e da família entre os antigos.
Os plebeus não eram clientes; os historiadores da antiguidade não confundem essas duas classes entre si

* existem outras traduções de a cidade antiga: edson bini (edipro, 1998), nélia pinheiro padilha (juruá, 2002), joão cretella jr. e agnes cretella (revista dos tribunais, 2003), aurélio barroso rebello e laura alves (pela própria ediouro, 2004), heloísa da graça burati (rideel, 2005), cf. http://www.bn.br/.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



imagens: http://stubenrock.blogspot.com/; héstia e deméter

3 comentários:

  1. Anônimo20.6.11

    Valeu, a partir das comparações decidi qual versão comprar.

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  2. Baita site esse! Uma pérola no mundo virtual, que é homogeneizado

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