13 de abr de 2009

e a arte, onde fica?

eu já tinha comentado um caso que me parece paradigmático dos prejuízos que a editora martin claret causa à vida do intelecto.

fiquei devendo a demonstração do plágio: aqui vai ela. trata-se de aristóteles, arte poética, traduzido por antônio pinto de carvalho, publicado pela difel (1958, com várias reedições) e depois pela ediouro. além disso, a edição da claret pilhou o cuidadoso índice onomástico da edição dos pensadores, abril cultural, elaborado por eudoro de souza. aliás, o perfil biográfico na claret é cópia da introdução dessa mesma edição dos pensadores da abril, com consultoria de josé américo pessanha - tudo, naturalmente, atribuído a pietro nassetti.*

*aliás, às vezes eu me indago o que fazem os vários revisores mencionados nos créditos dos plágios da claret. revisam o quê, acompanhando com o quê?

1. antônio pinto de carvalho

CAPÍTULO I
Da poesia e da imitação segundo os meios, o objeto e o modo de imitação

1. Nosso propósito é abordar a produção poética em si mesma e em seus diversos gêneros, dizer qual a função de cada um deles, e como se deve construir a fábula visando a conquista do belo poético; qual o número e natureza de suas diversas partes, e também abordar os demais assuntos relativos a esta produção. Seguindo a ordem natural, começaremos pelos pontos mais importantes.
2. A epopéia e a poesia trágica, assim como a comédia, a poesia ditirâmbica, a maior parte da aulética e da citarística, consideradas em geral, todas se enquadram nas artes de imitação.
3. Contudo há entre estes gêneros três diferenças: seus meios não são os mesmos, nem os objetos que imitam, nem a maneira de os imitar.
4. Assim como alguns fazem imitações em modelo de cores e atitudes — uns com arte, outros levados pela rotina, outros com a voz –, assim também, nas artes acima indicadas, a imitação é produzida por meio do ritmo, da linguagem e da harmonia, empregados separadamente ou em conjunto.
5. Apenas a aulética e a citarística utilizam a harmonia e o ritmo, mas também o fazem algumas artes análogas em seu modo de expressão; por exemplo, o uso da flauta de Pã.
6. A imitação pela dança, sem o concurso da harmonia, tem base no ritmo; com efeito, é por atitudes rítmicas que o dançarino exprime os caracteres, as paixões, as ações.
7. A epopéia serve-se da palavra simples e nua dos versos, quer mesclando metros diferentes, quer atendo-se a um só tipo, como tem feito até ao presente.
8. Carecemos de uma denominação comum para classificar em conjunto os mimos de Sófron e de Xenarco,
9. as imitações em trímetros, em versos elegíacos ou noutras espécies vizinhas de metro.
10. Sem estabelecer relação entre gênero de composição e metro empregado, não é possível chamar os autores de elegíacos, ou de épicos; para lhes atribuir o nome de poetas, neste caso temos de considerar não o assunto tratado, mas indistintamente o metro de que se servem.
11. Não se chama de poeta alguém que expôs em verso um assunto de medicina ou de física! Entretanto nada de comum existe entre Homero e Empédocles, salvo a presença do verso. Mais acertado é chamar poeta ao primeiro e, ao segundo, fisiólogo.
12. De igual modo, se acontece que um autor, empregando todos os metros, produz uma obra de
imitação, como fez Querémon no Centauro, rapsódia em que entram todos os metros, convém que se lhe atribua o nome de poeta. É assim que se devem estabelecer as definições nestas matérias.
13. Há gêneros que utilizam todos os meios de expressão acima indicados, isto é, ritmo, canto, metro; assim procedem os autores de ditirambos, de nomos, de tragédias, de comédias; a diferença entre eles consiste no emprego destes meios em conjunto ou em separado.
14. Tais são as diferenças entre as artes que se propõem a imitação.

CAPÍTULO II
Diferentes espécies de poesia segundo os objetos imitados

Como a imitação se aplica aos atos das personagens e estas não podem ser senão boas ou ruins (pois os caracteres dispõem-se quase nestas duas categorias apenas, diferindo só pela prática do vício ou da virtude), daí resulta que as personagens são representadas melhores, piores ou iguais a todos nós.
2. Assim fazem os poetas: Polignoto pintava tipos melhores; Páuson, piores; e Dionísio, iguais a nós.
3. É evidente que cada uma das imitações de que falamos apresentará estas mesmas diferenças, e também alguns aspectos exclusivos delas, porém inseridos na classificação exposta.
4. Assim na dança, na aulética, na citarística, é possível encontrar estas diferenças;
5. e também nas obras em prosa, nos versos não cantados. Por exemplo, Homero pinta o homem melhor do que é; Cleofonte, tal qual é; Hegémon de Tasso, o primeiro autor de paródias, e Nicócares, em sua Delíade, o pintam pior.
6. O caráter da imitação também existe no ditirambo e nos nomos, havendo neles a mesma variedade possível, como em Os persas e Os ciclopes de Timóteo e Filóxeno.
7. É também essa diferença o que distingue a tragédia da comédia: uma se propõe imitar os homens, representando-os piores; a outra os torna melhores do que são na realidade.

CAPÍTULO III
Diferentes espécies de poesia segundo a maneira de imitar

Existe uma terceira diferença em relação à maneira de imitar cada um dos modelos.
2. Com efeito, é possível imitar os mesmos objetos nas mesmas situações e numa simples narrativa, seja pela introdução de um terceiro personagem, como faz Homero, seja insinuando-se a própria pessoa sem que intervenha outro personagem, ou ainda apresentando a imitação com a ajuda de personagens que vemos agirem e executarem as ações elas próprias.
3. A imitação é realizada segundo esses três aspectos, como dissemos no princípio, a saber: os meios, os objetos, a maneira.
4. Sófocles, por um lado, imita à maneira de Homero, pois ambos representam homens melhores; entretanto ele também imita à maneira de Aristófanes, visto ambos apresentarem a imitação usando personagens que agem perante os espectadores.. Daí que alguns chamem a essas obras dramas, porque fazem aparecer e agir as próprias personagens.
5. Disto procede igualmente que os dórios atribuem a si a invenção da tragédia e da comédia; e os megarenses também se arrogam a invenção da comédia, como fruto de seu regime democrático; e além desses, também os sicilianos se acham inventores da comédia, por serem compatriotas do poeta Epicarmo, que viveu muito antes de Crônidas e de Magnete. A criação da comédia é também reclamada pelos peloponésios, que invocam os nomes usados para denominá-la com palavras de seu dialeto, para argumentar ser esta a razão por que a comédia é invenção deles.
6. Pretendem que entre eles a aldeia se chama cvma, enquanto os atenienses a denominam dhmoz , donde resulta que os comediantes derivam o nome da comédia, não do verbo cwmazeiu (celebrar uma festa com danças e cantos), mas de outro fato: por serem desprezados na cidade, eles andam de aldeia em aldeia.
Quanto ao verbo agir, que entre eles se diz drau, os atenienses exprimem-no por pratteiu.
7. É bastante o dito, sobre as diferenças da imitação, quanto a seu número e natureza.

disponível no portal do domínio público do mec


2. pietro nassetti (who else?)


CAPÍTULO I
Da poesia e da imitação segundo os meios, o objeto e o modo de imitação

Propomo-nos tratar da produção poética em si mesma e de seus diversos gêneros, dizer qual a função de cada um deles, como se deve construir a fábula, no intuito de obter o belo poético; qual o número e natureza de suas diversas partes, e falar igualmente dos demais assuntos relativos a esta produção. Seguindo a ordem natural, começaremos pelos [] mais importantes. A epopéia e a poesia trágica, e também a comédia, a poesia ditirâmbica, a maior parte da aulética e da citarística, consideradas em geral, todas se enquadram nas artes de imitação. Contudo há entre estes gêneros três diferenças: seus meios não são os mesmos, nem os objetos que imitam, nem a maneira de os imitar. Do mesmo modo que alguns fazem imitações segundo um modelo com cores e atitudes — uns com arte, outros levados pela rotina, outros com a voz; assim também, nas artes acima indicadas, a imitação é produzida por meio do ritmo, da linguagem e da harmonia, empregados separadamente ou em conjunto. Utilizam a harmonia e o ritmo a aulética e a citarística, bem como as demais artes análogas em seu modo de expressão, por exemplo, a flauta de Pã. No ritmo, sem o concurso da harmonia, consiste a imitação pela dança; com efeito, é por atitudes rítmicas que o dançarino exprime os caracteres, as paixões, as ações. A epopéia serve-se unicamente da palavra simples e nua dos versos, quer mesclando diferentes metros, quer atendo-se a um só tipo, como o tem feito até ao presente. Carecemos de uma denominação comum para classificar em conjunto os mimos de Sófron e de Xenarco, as imitações em trímetros, em versos elegíacos ou noutras espécies de metro vizinhas. A não ser estabelecendo uma relação entre tal gênero de composição e o metro empregado, não se denominam os autores ou elegíacos ou épicos; dando-lhes este nome de poetas, não segundo o assunto tratado, mas indistintamente segundo o metro de que se servem. Não acontece que, por se ter exposto em verso um assunto de medicina ou de física, se é chamado correntemente de poeta! Entretanto nada de comum existe entre Homero e Empédocles, salvo a presença do verso. Mais acertado é chamar poeta ao primeiro e, ao segundo, fisiólogo, mais do que poeta. De igual modo, se acontece que um autor, empregando todos os metros, produz uma obra de imitação, como fez Querémon no Centauro, rapsódia em que entram todos os metros, convém que se lhe atribua o nome de poeta. É assim que nestas matérias se devem estabelecer as definições. Há gêneros que se utilizam de todos os meios de expressão acima indicados, isto é, do ritmo, do canto, do metro; assim procedem os autores de ditirambos, de nomos, de tragédia, de comédias; a diferença entre eles consiste no emprego destes meios em conjunto ou em separado. Tais são as diferenças entre as artes que se propõe a imitação.

CAPÍTULO II
Diferentes espécies de poesia segundo os objetos imitados

Como a imitação se aplica aos atos das personagens e estes não podem ser senão bons ou maus (pois os caracteres dispõem-se quase nestas duas categorias, diferindo apenas pela prática do vício ou da virtude), daí resulta que as personagens são representadas ou melhores ou piores ou iguais a todos nós. Assim fazem os poetas: Polignoto pintava tipos melhores; Páuson, piores; e Dionísio, tais quais são. 3. É evidente que cada uma das imitações de que falamos apresentará estas mesmas diferenças, e também [] aspectos diversos segundo esta variedade. Assim na dança, na aulética, na citarística, é possível encontrar estas diferenças e também nas obras em prosa, nos versos não cantados; por exemplo, Homero pinta o homem melhor do que é; Cleofonte, tal qual é; Hegémon de Taso, o primeiro autor de paródias, e Nicócares, em sua Delíade, o pintam pior. O mesmo caráter da imitação [] no ditirambo e nos nomos, e a mesma possibilidade de imitação, como em Os persas e Os ciclopes de Timóteo e de Filóxeno. A mesma diferença [] distingue a tragédia da comédia: uma propõe-se imitar os homens, representando-os piores, a outra [] melhores do que são na realidade.

CAPÍTULO III
Diferentes espécies de poesia segundo a maneira de imitar

Existe uma terceira diferença, segundo a maneira de imitar cada um dos modelos. Com efeito é possível imitar os mesmos objetos nas mesmas situações, numa simples narrativa ou pela introdução de um terceiro [], como faz Homero, ou insinuando-se a própria pessoa sem que intervenha outra personagem, ou ainda apresentando a imitação com a ajuda de personagens que vemos agirem e executarem as ações elas próprias. A imitação produz-se segundo esses três modos, como dissemos ao princípio, a saber: os meios, os objetos, a maneira. Sófocles, de um lado, imita à maneira de Homero, pois ambos representam homens melhores; de outro lado, ele também imita à maneira de Aristófanes, visto ambos apresentarem a imitação por personagens em ação diante de nós. Daí vem que alguns chamam a essas obras dramas, porque fazem aparecer e agir as próprias personagens. Daí procede igualmente que os dórios atribuem a si a invenção da tragédia e da comédia; os megarenses se arrogam a invenção da comédia, como fruto de seu regime democrático, e também os sicilianos, enquanto compatriotas do poeta Epicarmo, que viveu muito antes de Crônidas e de Magnete. A [] comédia é também reclamada pelos peloponésios, que invocam a semelhança dos nomes []. Pretendem que entre eles a aldeia se chama κομα, ao passo que os atenienses a denominam δεμοσ , donde resulta que os comediantes derivam o nome da comédia, não do verbo κομαχειν (celebrar uma festa com danças e cantos), mas de que, por serem desprezados na cidade, andam de aldeia em aldeia. Quanto ao verbo agir, que entre eles se diz δραν, os atenienses exprimem-no por πραττειν. Baste o dito, acerca das diferenças da imitação, quanto a seu número e natureza.

quanto ao índice onomástico ao final da edição clareto-nassettiana, é cópia pura e simples de eudoro de souza. o índice de eudoro é elaboradíssimo e fica até engraçado no livreco claretiano.

o bizarro é que as notas de rodapé de antônio pinto de carvalho, embora muito mais simples que as de eudoro, também são onomásticas, reproduzidas com leve copidescada na claret. só que a grafia de alguns nomes na tradução de carvalho (pelo francês) é diferente da grafia de eudoro, direto do grego. claret/nassetti não se avexaram: tem para todos os gostos, e o freguês pode escolher se quer, por exemplo, cleofonte ou cleófon, dionísio de colofônia ou dionísio de colofão, magnete ou magnes, quer encontre correspondência no texto da obra ou não.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagens: raquel sallaberry; www.daehlico.no; www.plagiarius.com

3 comentários:

  1. uma amiga, mestranda em análise do discurso e começando agora a traduzir, contou-me ontem que foi despedida de uma livraria no rio de janeiro por ter "coagido" os clientes a comprarem traduções que não fossem da claret. segundo ela, que recusava-se a vender qualquer edição da claret, chegou a ouvir de clientes que não pagariam preços "abusivos", já que tinham as opções baratas da dita cuja, se no fim das contas "dava tudo no mesmo". ela, revoltada, xingou o dono de burro, que além de não entender do produto que vendia, perdia lucro por vender os mais baratos.

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  2. Olá Denise,

    Notei que o site do domínio público tem como uma de suas instituiçòes parceiras a CultVox ("os melhores e-livros da internet"). Eles têm uma seçào de downloads gratuitos, que inclui vários clássicos, porém não há qualquer menção sobre a tradução ou o tradutor. Quando indaguei o suporte deles sobre isso eles me responderam que "os e-livros grátis são doados de forma voluntária e não costumamos indagar sobre a tradução." A Arte Poética, é um desses.

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  3. é, o descaso pela obra em português é uma coisa única! acho incrível como não entendem a diferença entre uma tradução pelo francês por um latinista e uma tradução do grego feita por um helenista. acho que, no fundo, os principais responsáveis por esse descaso são os professores. eles é que podiam cobrar sempre - mas imagino também que já foram formados nesse descaso, e por aí vai.

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